Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

em busca de Camilo Castelo Branco

* Victor Nogueira

Está soalheira a tarde e rumo até Vila Nova de Famalicão e S. Miguel de Ceide para revisitar a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, com paragem na ida para ver a Igreja de Santiago das Antas e no regresso o Mosteiro de Landim e o Centro Histórico de Santo Tirso, mas disto se falará noutra publicação. Em Famalicão não paro. Abandonando a auto-estrada, os caminhos tornam-se estreitos e sinuosos nesta zona ligeiramente montanhosa, com povoações de vivendas que rompem sem harmonia, dissonantes e agressivamente do verde campesino lado a lado com vetustas casas graníticas, algumas delas mansões "burguesas", imponentes, de "notáveis" de outrora, em ruína ou para lá caminhando.

Entrevê-se a Casa da estrada, um amarelo vivo. No Largo e defronte dela a Igreja Paroquial de S. Miguel (com cemitério) anexo e entre ambas um cruzeiro e um busto de Camilo Castelo Branco ( (1825-1890). 



Uma álea com parreiras conduz ao terreiro onde se encontra o edifício da Quinta que foi de Pinheiro Alves, o 1º marido de Ana Plácido. Mas o que vemos é uma reconstituição tão fiel quanto possível daquela que um incêndio destruiu em 1915, com móveis da época e uma parte da biblioteca pessoal do escritor que foi possível recuperar. 


Quando chego dou com a porta fechada e o letreiro "Visita a decorrer". Presumo que sejam muitos os visitantes, tantos são os automóveis estacionados no Largo fronteiro. Hesito se esperarei pois o calor aperta. Mas vou ficando até que no r/c surge um casal e alguém que me pergunta se venho visitar a Casa, esclarecendo-me que os automóveis no exterior são para o vizinho Centro de Estudos Camilianos que depois,  já no Mindelo, venho a saber ser da autoria do arquitecto Siza Vieira.







(ao fundo a torre sineira da Igreja de S. Miguel)





A simpática Guia da Casa Museu propõe.me que façamos a visita em sentido inverso, pela antiga Adega, onde há uma exposição de desenhos narrando o "Amor de Perdição" entre Camilo e a então jovem esposa do "brasileiro" Pinheiro Alves para além de vitrines expondo a flauta e a a guitarra dos filhos de Camilo e Ana, um par de botins desta, o minúsculo revólver com que se suicidou para além doutros objectos, incluindo de escritório. Através da sala onde se vendem "recordações" subimos ao 2º  piso ou andar nobre passando sucessivamente pelo escritório de Ana Plácido, ela também escritora mas sob pseudónimos masculinos, pelo átrio, pela sala de visitas e pela sala de refeições e por uma enorme cozinha tipicamente minhota. Os móveis são escuros e pelas paredes retratos vários de Camilo, dos filhos Jorge e Nuno, do enteado Manuel, filho de Pinheiro Alves, de Garrett, de Victor Hugo e de Alexandre Herculano. Em destaque duas fotos do casal: Camilo, um ar franzino, e Ana, matrona de ar másculo. Como seria a jovem Ana por quem Camilo se apaixonou e viveu em escandaloso concubinato até ao falecimento de Pinheiro Alves ?


Camilo Castelo Branco


Ana Plácido


escritório de Ana Plácido


bengaleiro no átrio


louceiro na sala de jantar


sala de estar


cozinha


sala de estar, vendo-se em 1º plano uma mesa de jogo e ao fundo um piano

Por uma estreita escada se ascende ao 2º andar, acréscimo de Pinheiro Alves, que de fora fica entre  mansarda e piso "normal". Neste se encontram pequenos quartos de Jorge e Nuno, bem como os de Camilo e Ana Plácido, dando o de Camilo para um amplo escritório onde se encontra o que foi possível recolher, muitos dos livros anotados pela mão do escritor. Curiosamente o vestiário entre os quartos de Camilo e de Ana tem três espelhos: o toucador sobre a cómoda, um mais pequeno possivelmente para cuidar da barba e cabelo e outro maior, para cuidar do vestuário, todos eles rodando sob um eixo.  Ao fundo do corredor o quarto  de banho: uma banheira com depósito para água quente e uma bacia em armação de ferro e balde inferior para recolha das águas.  Não há retrete. A casa com as paredes interiores brancas, tem uma ar despojado e algo ascético.


escritório de Camilo


vestiário entre os quartos de dormir de Ana e Camilo



quarto de banho 

Foi trágica a vida de Camilo, um operário das letras forçado a escrever por encomenda novelas lancinantes para ganhar o sustento diário, dois filhos, um louco e outro "estroina" e por fim a cegueira e o receio da loucura que temia hereditária, que o levaram ao suicídio, na sala das visitas. Refere a guia a polémica e cáustica opinião de Camilo sobre Eça. Mas Eça, digo eu, apesar de ser filho de mãe incógnita, fruto de então inaceitáveis relações pré-matrimoniais entre burgusess, sem a vida tumultuosa de Camilo, era um diletante que com distanciamente analizava, escrevendo por gosto e não por necessidade de assegurar quotidianamente o "pão-nosso" de cada dia.

Está pois terminada a visita no átrio de entrada, despeço-me da sorridente, afável e loquaz guia de meia-idade e desço a escadaria rumo ao Fiesta e ao Mosteiro de Landim.


Uma resenha sobre a vida de Camilo com iconografiia da Casa ao longo dos tempos encontra-se em  Monumentos Desaparecidos (http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2014/01/camilo-ferreira-botelho-castelo-branco.html)

1 comentário:

oAstronauta disse...

Deveras interessante. Grato pela partilha, meu bom senhor.