Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

Mostrar mensagens com a etiqueta Recomendações do Kant_O. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Recomendações do Kant_O. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de junho de 2017

As quadras populares da Anunciada, em Setúbal

* Victor Nogueira

Pelas paredes das ruas do Bairro da Anunciada  dezenas de quadras populares falando do que presumo sejam ou tenham sido seus habitantes vão sumindo por acção dos agentes atmosféricos erosivos. A origem desta iniciativa é-me desconhecida mas aqui fica uma pequena recolha do que aleatoriamente tenho registado ao longo dos tempos. Não tendo sido um trabalho sistemático, nem sempre consegui localizar onde se encontra cada uma delas


Rua da Brasileira






Rua José Adelino dos Santos


 Rua José Adelino dos Santos


 Rua José Adelino dos Santos

Em  tempo - No blog Nesta hora  Em 2012 escreve João Ribeiro que  "em Setúbal, o Bairro de Tróino tem poesia na parede", acrescentando que "no Bairro de Tróino, um dos mais característicos bairros de Setúbal, há paredes que se têm oferecido à poesia, aí sendo semeadas quadras assinadas por Alice Ramos, versando as marcas, as figuras, o típico do local. Surgem numeradas, por aqui e por ali, surpreendendo o passante e evocando histórias da cidade. Aqui ficam algumas... " Clicar em http://nestahora.blogspot.pt/2012/06/em-setubal-o-bairro-de-troino-tem.html para visuallizar algumas outras dessas quadras.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

em busca de Camilo Castelo Branco

* Victor Nogueira

Está soalheira a tarde e rumo até Vila Nova de Famalicão e S. Miguel de Ceide para revisitar a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, com paragem na ida para ver a Igreja de Santiago das Antas e no regresso o Mosteiro de Landim e o Centro Histórico de Santo Tirso, mas disto se falará noutra publicação. Em Famalicão não paro. Abandonando a auto-estrada, os caminhos tornam-se estreitos e sinuosos nesta zona ligeiramente montanhosa, com povoações de vivendas que rompem sem harmonia, dissonantes e agressivamente do verde campesino lado a lado com vetustas casas graníticas, algumas delas mansões "burguesas", imponentes, de "notáveis" de outrora, em ruína ou para lá caminhando.

Entrevê-se a Casa da estrada, um amarelo vivo. No Largo e defronte dela a Igreja Paroquial de S. Miguel (com cemitério) anexo e entre ambas um cruzeiro e um busto de Camilo Castelo Branco ( (1825-1890). 



Uma álea com parreiras conduz ao terreiro onde se encontra o edifício da Quinta que foi de Pinheiro Alves, o 1º marido de Ana Plácido. Mas o que vemos é uma reconstituição tão fiel quanto possível daquela que um incêndio destruiu em 1915, com móveis da época e uma parte da biblioteca pessoal do escritor que foi possível recuperar. 


Quando chego dou com a porta fechada e o letreiro "Visita a decorrer". Presumo que sejam muitos os visitantes, tantos são os automóveis estacionados no Largo fronteiro. Hesito se esperarei pois o calor aperta. Mas vou ficando até que no r/c surge um casal e alguém que me pergunta se venho visitar a Casa, esclarecendo-me que os automóveis no exterior são para o vizinho Centro de Estudos Camilianos que depois,  já no Mindelo, venho a saber ser da autoria do arquitecto Siza Vieira.







(ao fundo a torre sineira da Igreja de S. Miguel)





A simpática Guia da Casa Museu propõe.me que façamos a visita em sentido inverso, pela antiga Adega, onde há uma exposição de desenhos narrando o "Amor de Perdição" entre Camilo e a então jovem esposa do "brasileiro" Pinheiro Alves para além de vitrines expondo a flauta e a a guitarra dos filhos de Camilo e Ana, um par de botins desta, o minúsculo revólver com que se suicidou para além doutros objectos, incluindo de escritório. Através da sala onde se vendem "recordações" subimos ao 2º  piso ou andar nobre passando sucessivamente pelo escritório de Ana Plácido, ela também escritora mas sob pseudónimos masculinos, pelo átrio, pela sala de visitas e pela sala de refeições e por uma enorme cozinha tipicamente minhota. Os móveis são escuros e pelas paredes retratos vários de Camilo, dos filhos Jorge e Nuno, do enteado Manuel, filho de Pinheiro Alves, de Garrett, de Victor Hugo e de Alexandre Herculano. Em destaque duas fotos do casal: Camilo, um ar franzino, e Ana, matrona de ar másculo. Como seria a jovem Ana por quem Camilo se apaixonou e viveu em escandaloso concubinato até ao falecimento de Pinheiro Alves ?


Camilo Castelo Branco


Ana Plácido


escritório de Ana Plácido


bengaleiro no átrio


louceiro na sala de jantar


sala de estar


cozinha


sala de estar, vendo-se em 1º plano uma mesa de jogo e ao fundo um piano

Por uma estreita escada se ascende ao 2º andar, acréscimo de Pinheiro Alves, que de fora fica entre  mansarda e piso "normal". Neste se encontram pequenos quartos de Jorge e Nuno, bem como os de Camilo e Ana Plácido, dando o de Camilo para um amplo escritório onde se encontra o que foi possível recolher, muitos dos livros anotados pela mão do escritor. Curiosamente o vestiário entre os quartos de Camilo e de Ana tem três espelhos: o toucador sobre a cómoda, um mais pequeno possivelmente para cuidar da barba e cabelo e outro maior, para cuidar do vestuário, todos eles rodando sob um eixo.  Ao fundo do corredor o quarto  de banho: uma banheira com depósito para água quente e uma bacia em armação de ferro e balde inferior para recolha das águas.  Não há retrete. A casa com as paredes interiores brancas, tem uma ar despojado e algo ascético.


escritório de Camilo


vestiário entre os quartos de dormir de Ana e Camilo



quarto de banho 

Foi trágica a vida de Camilo, um operário das letras forçado a escrever por encomenda novelas lancinantes para ganhar o sustento diário, dois filhos, um louco e outro "estroina" e por fim a cegueira e o receio da loucura que temia hereditária, que o levaram ao suicídio, na sala das visitas. Refere a guia a polémica e cáustica opinião de Camilo sobre Eça. Mas Eça, digo eu, apesar de ser filho de mãe incógnita, fruto de então inaceitáveis relações pré-matrimoniais entre burgusess, sem a vida tumultuosa de Camilo, era um diletante que com distanciamente analizava, escrevendo por gosto e não por necessidade de assegurar quotidianamente o "pão-nosso" de cada dia.

Está pois terminada a visita no átrio de entrada, despeço-me da sorridente, afável e loquaz guia de meia-idade e desço a escadaria rumo ao Fiesta e ao Mosteiro de Landim.


Uma resenha sobre a vida de Camilo com iconografiia da Casa ao longo dos tempos encontra-se em  Monumentos Desaparecidos (http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2014/01/camilo-ferreira-botelho-castelo-branco.html)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

na foz do rio Ave

* Victor Nogueira (texto e fotos)

Na foz do Rio Ave situam-se em Azurara a Reserva Ornitológica do Mindelo e os estaleiros navais, enquanto na margem direita, de Vila do Conde, encontramos a Capela de N. Sra da Guia ou Forte de S. João Baptista, a praia  da Guia e um memorial aos  Bravos do Mindelo. Do cimo das muralhas o nosso olhar vagueia do Convento de Santa Clara em Vila do Conde ao Mosteiro Franciscano de  S. Donato, em Azurara.

Desde a Idade Média que a protecção da foz e da barra do rio Ave face aos ataques dos piratas era uma preocupação para os governantes de Vila do Conde, que nos meados do século XIII, face à importância da povoação como porto de pesca e estaleiro naval, decidiram constrir uma torre junto à Ermida de Nossa Senhora da Guia, Contudo e com os tempos a defesa da barra exigia edifícios mais adequados.

Aproveitando os rochedos, o Forte de Nossa Senhora da Assunção, também conhecido como Forte de São João Baptista data do século XVI e apresenta planta pentagonal com baluartes também pentagonais nos vértices, em estilo Vauban adaptado às novas técnicas pirobalísticas. O forte quase se poderia chamar mais apropriadamente de Santa Engrácia, pois apenas foi concluído em ... 1793. Desactivado em 1834, passou a ter como funções o registo de entrada e saída de embarcações da barra do Ave.Praticamente abandonado no século XX, foi recuperado na década de 90 do século XX e transformado em unidade hoteleira.

Nas cercanias encontra-se o Padrão da Memória da tentativa de desembarque das tropas liberais em 1832 intento que o governador da Praça não permitiu e veio a verificar-se calmamente e com êxito numa praia mais a sul, durante horas, sem qualquer interferência das forças fiéis ao Senhor D. Miguel. Foi obra pois eram 60 naus transportando um exército de 7 500 militares que ficaram conhecidos como o Bravos do Mindelo.

A Capela da Senhora da Guia, protectora dos mareantes, é uma ermida que remontará ao ano de 953, sendo então designada como ermida de S. Julião. Para além da utilização de índole religiosa, o templo funcionou, inicialmente, como ponto de apoio para defesa da barra. (1) 

Aqui se situa a praia com o mesmo nome, rochosa e de areia grossa, com vegetação dunar e poiso de gaivotas. Nas traseiras da Capela uma escadaria conduz a uma plataforma que serviria de posto de vigia e de farol para a entrada na barra. Esta praia, abrigada das nortadas, é essencialmente frequentada pelos vilacondenses e situa-se na Zona Balnear da Frente Urbana Sul.

Foi neste ano de 2014 a primeira vez que visitei os referidos forte e capela, estando o tempo nublado no 1º dia e mais límpido no subseqente.

 (1) sobre a capela ver  Vila do Conde Quasi Diário (6º e último acto) in 
http://viladoconde4.blogs.sapo.pt/112168.html
















Capela da Senhora da Guia


foz do Rio Ave



a praia e a capela e praia vistas da plataforma e posto de vigia de que se fala no texto