Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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domingo, 11 de setembro de 2016

Vila do Conde entre o drama na Casa de José Régio e a redescoberta da Casa de Guerra Junqueiro

* Victor Nogueira


O objectivo era em Vila do Conde visitar a Casa-Museu José Régio e procurar aquela onde viveu Guerra Junqueiro. No intermezzo, voltar á Rua de S. Bento. Mas neste post quanto às casas comecemos pelo fim, deixando para outra ocasião a photp-reportagem da demorada re-visita ao Centro Histórico Quinhentista


Casa onde (não) residiu Guerra Junqueiro


Embora nenhuma placa a identifique, afinal reconheci de imediato a casa por ter junto dela passado muitas vezes em anos anteriores. Mas está profundamente alterada na sua traça arquitectónica, agora mais bela embora conservando traços anteriores reconhecíveis. Mas já no sec. XIX era uma mansão muito menos modesta do que as casas onde viveram Antero e Camilo. situando-se na Rua Dr. António José de Sousa Pereira. Esta era entre os séculos XIX e XX a zona das mansões burguesas de veraneio a caminho da praia, como as que ainda existem no vizinho Jardim Júlio Graça, ao tempo em zona excêntrica ao centro de Vila do Conde. Perto da casa onde viveu Junqueiro existe ainda uma mansão muito mais rica que a sua vizinha na altura, qualquer delas sem o modesto ar que caracteriza aquelas em que viveram Antero e Camilo.

RECTIFICAÇÃO . Enbora algo semelhante, a casa referida neste post não é aquela onde viveu Guerra Junqueiro (que fica mais adiante, junto à Escola Conde  Ferreira). mas sim o Chalet construído por José da Silva Meira em 1891. 











em baixo, exemplo de mansão "burguesa" nas cercanias, também remodelada e na esquina com a Rua António de Andrade








"Esta rua é alegre"



Na Rua de S. Bento, ao lado do º 87 e do Restaurante Relíquia descubro a lápide sumida e pouco destacada que reproduz  o poema que a esta artéria dedicou o poeta Rui Belo.

O "drama" na Casa-Museu José Régio


Centro de Informação  e Documentação (esquerda) e Casa-Museu (direita)
jn http://www.cm-viladoconde.pt/pages/503

Previamente informado e confiante na informação do site da Câmara Horário de funcionamento: terça a domingo - 10h00/13h00 e 14h00/18h00 (últimos acessos às 12h15 e 17h15) estaciono o Fiesta no vizinho terreiro do mercado semanal e chego ao local pretendido, subo as escadas e deparo-me com uma porta fechada e o aviso de que está a decorrer uma visita guiada e que devo dirigir-me ao vizinho Centro de Informação e Documentação. Olho para o meu relógio e são 17 h 05 m. Desço as escadas, entro no CER (Centro de Estudos José Régio) e a jovem recepcionista diz-me que já não posso entrar, que está a decorrer a última visita. Olho de novo para o relógio e digo que são 17:10 e que a última visita começa às 17:15, de acordo com a informação do site da Câmara. A menina responde-me que o aviso na entrada do CER diz que as pessoas têm de chegar até às 17:00, iniciando-se uma conversa de surdos. Eu a dizer que me baseara na informação do site da Câmara e ela a responder-me com o aviso na entrada. Digo-lhe que quem vem de longe confia na informação do site que nada disso refere e ela argumenta com crescente nervosismo com a mesma lenga-lenga, que se eu não acreditava nela chamaria o colega. Respondo que não estou a duvidar dela, mas que a nossa é uma conversa de surdos, acrescentado em tréplica a uma insinuação  sobre mim que nem ela nem eu éramos estúpidos, que eu entendia perfeitamente o que ela me repetia vezes sem conta, mas que estávamos a falar de coisas completamente diferentes. Para abreviar digo-lhe que pretendo comprar dois livros em exposição e 3 lápis. Enquanto a menina recepcionista de branco-vestida vai buscá-los a um armário chega o colega e ela repete-lhe que eu não acredito nela recomeçando a lenga-lenga. Esclareço já algo impaciente que continuávamos a falar de coisas diferentes, que vim de longe confiado na informação do site da Câmara e que não tenho de saber o que se informa no local e que sendo assim a informação na internet deveria ser corrigida. Cada vez mais nervosa a mocinha começa a fazer as contas e que não posso levar um dos livros pois só existia aquele do mostruário para os visitantes verem e que voltasse noutro dia (1). Argumento com ela e com o colega que se existia apenas aquele, então que mo vendessem e quando viessem  outros expusesse um deles em substituição. Argumento contra duas paredes, reparando entretanto que a rapariga está lavada em lágrimas, talvez para despertar a "compaixão" do colega que lhe diz que já chegou a hora dela e que se vá embora que ele acaba de atender-me. Momentos  antes dissera-me que apesar de já ter terminado a última visita e de aos fins-de-semana haver apenas um guia e não três, iria mostrar-me a casa apenas a mim. Como anteriormente me dissera que cada visita durava meia hora e pensando para comigo que iria prolongar o horário de trabalho e já seriam 18:00, digo-lhe que não faz sentido e voltarei noutro dia, agradecendo-lhe o que em pensmento eu estava a interpretar  como um gesto de atenção. Despedimo-nos, saio e volvidos alguns passos olho para o relógio que marca ... 17:30. Fico pior que estragado com o pretenso favor dele, com a minha "compreensão" pelos direitos dos trabalhadores e com o que considero falta de profissionalismo demonstrada pelo guia que deu por terminada a tarefa profissional com meia-hora de antecedência mas decido não voltar atrás e prossigo para a Rua de S. Bento.



(1) Livro adquirido - vários autores, A acção repressiva do Estado Novo na vida e na obra de José Régio, CER, Vila do Conde, Out 2014

Sobre a "verdadeira" Casa onde viveu Guerra Junqueiro ver 

Vila do Conde e a casa de Guerra Junqueiro in http://kantophotomatico.blogspot.pt/2016/09/vila-do-conde-e-casa-de-guerra-junqueiro.html

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

em busca de Camilo Castelo Branco

* Victor Nogueira

Está soalheira a tarde e rumo até Vila Nova de Famalicão e S. Miguel de Ceide para revisitar a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, com paragem na ida para ver a Igreja de Santiago das Antas e no regresso o Mosteiro de Landim e o Centro Histórico de Santo Tirso, mas disto se falará noutra publicação. Em Famalicão não paro. Abandonando a auto-estrada, os caminhos tornam-se estreitos e sinuosos nesta zona ligeiramente montanhosa, com povoações de vivendas que rompem sem harmonia, dissonantes e agressivamente do verde campesino lado a lado com vetustas casas graníticas, algumas delas mansões "burguesas", imponentes, de "notáveis" de outrora, em ruína ou para lá caminhando.

Entrevê-se a Casa da estrada, um amarelo vivo. No Largo e defronte dela a Igreja Paroquial de S. Miguel (com cemitério) anexo e entre ambas um cruzeiro e um busto de Camilo Castelo Branco ( (1825-1890). 



Uma álea com parreiras conduz ao terreiro onde se encontra o edifício da Quinta que foi de Pinheiro Alves, o 1º marido de Ana Plácido. Mas o que vemos é uma reconstituição tão fiel quanto possível daquela que um incêndio destruiu em 1915, com móveis da época e uma parte da biblioteca pessoal do escritor que foi possível recuperar. 


Quando chego dou com a porta fechada e o letreiro "Visita a decorrer". Presumo que sejam muitos os visitantes, tantos são os automóveis estacionados no Largo fronteiro. Hesito se esperarei pois o calor aperta. Mas vou ficando até que no r/c surge um casal e alguém que me pergunta se venho visitar a Casa, esclarecendo-me que os automóveis no exterior são para o vizinho Centro de Estudos Camilianos que depois,  já no Mindelo, venho a saber ser da autoria do arquitecto Siza Vieira.







(ao fundo a torre sineira da Igreja de S. Miguel)





A simpática Guia da Casa Museu propõe.me que façamos a visita em sentido inverso, pela antiga Adega, onde há uma exposição de desenhos narrando o "Amor de Perdição" entre Camilo e a então jovem esposa do "brasileiro" Pinheiro Alves para além de vitrines expondo a flauta e a a guitarra dos filhos de Camilo e Ana, um par de botins desta, o minúsculo revólver com que se suicidou para além doutros objectos, incluindo de escritório. Através da sala onde se vendem "recordações" subimos ao 2º  piso ou andar nobre passando sucessivamente pelo escritório de Ana Plácido, ela também escritora mas sob pseudónimos masculinos, pelo átrio, pela sala de visitas e pela sala de refeições e por uma enorme cozinha tipicamente minhota. Os móveis são escuros e pelas paredes retratos vários de Camilo, dos filhos Jorge e Nuno, do enteado Manuel, filho de Pinheiro Alves, de Garrett, de Victor Hugo e de Alexandre Herculano. Em destaque duas fotos do casal: Camilo, um ar franzino, e Ana, matrona de ar másculo. Como seria a jovem Ana por quem Camilo se apaixonou e viveu em escandaloso concubinato até ao falecimento de Pinheiro Alves ?


Camilo Castelo Branco


Ana Plácido


escritório de Ana Plácido


bengaleiro no átrio


louceiro na sala de jantar


sala de estar


cozinha


sala de estar, vendo-se em 1º plano uma mesa de jogo e ao fundo um piano

Por uma estreita escada se ascende ao 2º andar, acréscimo de Pinheiro Alves, que de fora fica entre  mansarda e piso "normal". Neste se encontram pequenos quartos de Jorge e Nuno, bem como os de Camilo e Ana Plácido, dando o de Camilo para um amplo escritório onde se encontra o que foi possível recolher, muitos dos livros anotados pela mão do escritor. Curiosamente o vestiário entre os quartos de Camilo e de Ana tem três espelhos: o toucador sobre a cómoda, um mais pequeno possivelmente para cuidar da barba e cabelo e outro maior, para cuidar do vestuário, todos eles rodando sob um eixo.  Ao fundo do corredor o quarto  de banho: uma banheira com depósito para água quente e uma bacia em armação de ferro e balde inferior para recolha das águas.  Não há retrete. A casa com as paredes interiores brancas, tem uma ar despojado e algo ascético.


escritório de Camilo


vestiário entre os quartos de dormir de Ana e Camilo



quarto de banho 

Foi trágica a vida de Camilo, um operário das letras forçado a escrever por encomenda novelas lancinantes para ganhar o sustento diário, dois filhos, um louco e outro "estroina" e por fim a cegueira e o receio da loucura que temia hereditária, que o levaram ao suicídio, na sala das visitas. Refere a guia a polémica e cáustica opinião de Camilo sobre Eça. Mas Eça, digo eu, apesar de ser filho de mãe incógnita, fruto de então inaceitáveis relações pré-matrimoniais entre burgusess, sem a vida tumultuosa de Camilo, era um diletante que com distanciamente analizava, escrevendo por gosto e não por necessidade de assegurar quotidianamente o "pão-nosso" de cada dia.

Está pois terminada a visita no átrio de entrada, despeço-me da sorridente, afável e loquaz guia de meia-idade e desço a escadaria rumo ao Fiesta e ao Mosteiro de Landim.


Uma resenha sobre a vida de Camilo com iconografiia da Casa ao longo dos tempos encontra-se em  Monumentos Desaparecidos (http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2014/01/camilo-ferreira-botelho-castelo-branco.html)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

a rota dos escritores em vila do conde

* Victor Nogueira


Um dos aspectos positivos de Vila do Conde é que normalmente há sempre lugar no centro da cidade para estacionar o Fiesta gratuitamente, ficando no Centro Histórico quase tudo à mão de semear.  

Hoje foi a rota dos escritores só não tendo encontrado a casa de  Guerra Junqueiro, pois esquecera-me do roteiro em casa; estive perto mas fica o encontro para a próxima caminhada, pelo património religioso. Foi uma estafa pois sandálias não são calçado apropriado para calcada irregular de graníticos paralelepipidos, com crescentes reclamações da malfadada vértebra lombar. Percorri a minha já velha conhecida Rua de S. Bento mas não vislumbrei a lápide com o poema que a esta artéria dedicou Rui Belo, intitulado «Esta Rua é Alegre». A Rua deve ter sido importante noutras eras, atendendo aos palacetes e casas apalaçadas que a ladeiam.

Também para outro dia teve de ficar a revisita à Casa-Museu José Régio, pois a última entrada permitida é com 45 m antecipados sobre a hora de encerramento.

Largo da Roda dos Enjeitados





Largo Antero de Quental 
(antiga Praça Velha)




foto em http://asilhasencantadas.blogspot.pt/2009/06/casa-de-antero-em-vila-do-conde.html
  
O primitivo imóvel, muito descaracterizado, foi demolido e construído respeitando tanto quanto possível a traça contemporânea do poeta


"Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz." - Anthero de Quental







Avenida José Régio









Rua de S. Bento







Estação da Via Sacra








Capela de S. Bento - ao fundo e à esquerda o Convento do Carmo









Esta Rua é alegre

Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida

Ruy Belo

VEM DE 

escritores em Vila do Conde e cercanias (http://kantophotomatico.blogspot.pt/2016/09/escritores-em-vila-do-conde-e-cercanias.html)