Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de novembro de 2020

Azulejaria civil (21) - Leiria

 * Victor Nogueira





No regresso do Castelo passamos pela Igreja românica de S. Pedro e desembocamos no imponente templo barroco da Sé, que visitamos, cuja fachada sobressai vista lá de cima do castelo e cuja volumetria se impõe ao casario circundante. Também este templo sofreu os efeitos do terramoto de 1755, que os livros de história de antigamente pareciam circunscrever a Lisboa, dando razão ao dito:  Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Daqui seguimos ao centro histórico onde as ruas são estreitas e os prédios altos. Mas os nomes não são ilustrativos, referindo-se antes a personagens como  Afonso Henriques, Mestre de Aviz, João das Regras, Damião de Góis ou Gago Coutinho. Mas ainda se encontram as travessas das Amoreiras, da  Paz ou da Beneficência e a rua das  Olarias. O deambular leva-nos até à Praça Francisco Rodrigues Lobo, poeta, com edifícios de arcadas, ladeada de cafés e onde outrora se realizava diariamente o mercado, ao ar livre. Mas disso dá conta apenas um painel de azulejos junto a um muro perto do rio Lis. (NOTAS DE VIAGEM, 1997.11.01)



Leiria  - azulejos - Largo da Sé, 7  - Pharmácia Guarda e Paiva 

CASA DE ACÁCIO DE PAIVA – “Pharmácia Paiva “, No n.º 7 situava-se a casa onde nasceu, em 14 de abril de 1863, Acácio de Paiva. Nos números 8 e 9, a antiga “Pharmacia de Leonardo da Guarda e Paiva” que pertenceu ao tio-avô do Poeta. Este edifício de três pisos conserva na fachada os azulejos azuis e brancos de padrões neoclássicos, com as figuras de sábios gregos, provavelmente Hipócrates e Galeno, provenientes da Fábrica Cerâmica Viúva Lamego. Eça de Queiroz inspirou-se na “Pharmacia Paiva” para a “Botica do Carlos”, no romance O Crime do Padre Amaro. (in https://www.cm-leiria.pt/pages/375)



 fotos em 1998.06.03 (rolo 346)

sábado, 17 de outubro de 2020

Entre o Cais do Sodré e a Estrela

 * Victor Nogueira

Rumo a Paço de Arcos, em Lisboa  resolvi percorrer ao volante do Fiesta II antigos e frequentes percursos da minha juventude, então a pé ou de eléctrico, entre Lisboa, Évora e o Porto,  desde o Cais do Sodré, subindo a Rua do Alecrim, virando na Praça Luís de Camões, onde estava a Farmácia Sanitas de que a minha tia avó Esperança, farmacêutica, foi a directora técnica durante décadas, passar pela Rua do Loreto e pela Calçada do Combro, subir e descer a estreitérrima Rua dos Poiais de S. Bento, subir a Calcada da Estrela e, na Praça da Estrela, descer a Avenida Infante Santo, até desembocar na Avenida Brasília, rumo ao poente.

Viajando sozinho, as fotos foram escassas, apenas aquelas que a paragem ao vermelho dos semáforos permitiu. No final textos meus que se referem a esta parte de Lisboa, in illo tempore.  

As fotos ...



Rua do Alecrim e Praça Luís de Camões



Rua dos Poiais de S. Bento



Calçada da Estrela

Muito calcorreei a pé subindo e descendo, esta íngreme calçada, nos meus tempos de "Económicas", morando sucessivamente na Rua de Santo António à  Estrela ena de S. João Nepomuceno.  Nesses tempos morei também nas Picoas, (na Avenida Duque de Loulé e na Rua Andrade Corvo)

O "amarelo da  carris" é o 28, ligando o Martim Moniz a Campo de Ourique, À direita o Palácio de S. Bento, onde funcionaram as Cortes na Monarquia,  o Parlamento na I República, a Assembleia Nacional no Estado Corporativo e, presentemente, a Assembleia da República. À esquerda, o Jardim das Francesinhas. 
 
Mais para cima e à esquerda a Rua Miguel Lupi, que permitia o acesso pelas traseiras ao velho Convento do Quelhas, onde então estava instalado o ISCEF, vulgarmente conhecido por "Económicas".

Ao cimo de tudo fica Campo de Ourique, após a travessia do Largo da Estrela.


Sobre a nudez forte da Verdade  o manto diáfano de Fantasia – Estátua da Verdade nos braços de Eça de Queiroz, da autoria do escultor Teixeira Lopes (1903)  - Foto Victor Nogueira (1973)

... e os textos

fotos nos anos '70 e em 2012.07. 27 


1968

A janela do meu quarto na Rua de S. João Nepomuceno] tem uma espécie de varandim, para pôr vasos. Um deles tem uma sardinheira, com uma linda flor encarnada; numa janela defronte, duas gaiolas com pássaros cujo melodioso chilrear chega aos meus ouvidos (NSF - 1968.06.01) ([1])

 

Há umas semanas fui ao Teatro da Trindade ver a ópera "Os Palhaços" e à saída encontrei o Artur Horta. Como de costume, quando nos encontramos à noite, encetámos um dos nossos célebres diálogos, nos quais abordamos os mais variados assuntos, desde os mais transcendentes aos mais corriqueiros, que se prolongam pela noite fora, até de madrugada. A nossa deambulação levou‑nos, dessa vez, até à veneranda Rua do Quelhas, onde discutíamos a metempsicose e o panteísmo. Eram quatro da matina; andávamos uns passos, parávamos, retomávamos a marcha e assim sucessivamente. Éramos os senhores da rua, onde não passava viva alma! Às tantas reparámos num guarda nocturno que, atravessando a rua e dirigindo‑se‑nos, perguntou onde morávamos: "Eu em Campo de Ourique, o meu colega aqui na Lapa". Fez um comentário acerca do adiantado da hora, que havia muitos malandros, etc., etc. "Malandros?! Que quer dizer com isso ?" "Ah! os senhores sabem, há muitos ladrões de automóveis!" E, mirando‑nos de alto a baixo: "Bem, vê‑se que os senhores são bons rapazes, estão bem vestidos! Desculpem. Boa noite." E foi‑se. E durante algum tempo o pobre do guarda nocturno foi tema da nossa conversa, ele e a sua teoria de que o hábito faz o monge.

E lembrar‑me eu que há dias fui ao "Coliseu" ver o "London Royal Balet" de quedes (sapatos de lona) em mangas de camisa e com barba de dois dias, por ter sido convidado à última da hora. (NSF - 1968.06.24)

 

No Jardim da Estrela corre uma aragem fresca, por vezes desagradável. Está um sol de chuva. Estou sentado numa das mesas da esplanada do jardim, defronte ao lago de águas esverdinhadas onde se reflectem as verdes ramagens das árvores. Dois cisnes pretos, de bico vermelho, vogam nas águas, dos por uma ninhada de cisnezitos de penas cinzentas e eriçadas.

Alguém atirou para a água restos de comida. Peixes vermelhos e pretos, estes mais pequenos, acorrem de todos os lados e disputam-nos.

Ouve-se o trânsito na Praça da Estrela, as crianças além no parque infantil e, para lá das árvores, o vozear das pessoas aqui na esplanada, pedaços soltos de conversas, o cair da água no lago.

Nas áleas passam as pessoas, em grupos ou não. Defronte de mim, na outra margem, vários bancos, alguns ocupados. Naquele, à esquerda, um casal idoso. Ele, contempla quem passa e pensa talvez na vida que já lá vai. Ela, de vestido azul e botas brancas, com casaco de malha preto, faz tricot. Outro velhote que ocupava o extremo do banco levantou‑se e foi‑se. Estavam, mas já não estão, no banco seguinte, dois homens, um dormindo, outro espreguiçando‑se. Uma pomba pousou agora no gradeamento, ao meu alcance, mas já levantou voo. (NSF - 1968.09.01)

 

Custou, mas na camioneta, rumo a Lisboa, senti‑me renascer, como se tivesse saído dum opressivo ambiente tumular. Esta Lisboa do miúdo que choraminga. E do velhote, límpidos olhos azuis, humildemente vestido mas não enxovalhado, que é brutalmente arrastado para o passeio por um pai rude, exaltado, mal barbeado, que lhe torceria o nariz, o esmigalharia, lhe daria duas bofetadas,... se ele não estivesse bêbedo. Enquanto aquele retorquia: "Estavam a maltratar os pombinhos", sem muita firmeza, de olhos perdidos sabe Deus onde. Ou do miúdo que me aponta uma pistola: "Mãos ao ar", num Chiado repleto de gente azafamada. Que é admoestado por uma mãe derretida. Que se perdeu no rio das gentes que sobem ou descem. Das duas "meninas bem" que, especadas no passeio qual escolhos, lançam olhares furibundos ao pirralho esfarrapado e sujo que lhes aponta uma espingarda de lata. Do café Nicola, donde sou desalojado sem cerimónia, pois um "garoto" e um "croissant" não permitem a ocupação indefinida de uma mesa para escrever, especialmente à hora de almoço. Dos vendedores ambulantes, que jogam ao corre‑corre com os polícias, de tabuleiros cheios de quinquilharia, jogando ao passo‑passa com os automóveis.(NSM - 1968.12.27)

 

1971

(…)

obrigado pelas miúdas que encontrei hoje

                pela graça marota da Isabel., seu sorriso-riso sonoro

               que alegra a gente

                pelo ar sereno da Noémia

                pelo sorriso da garota do Chiado, aquela que tinha uma

               covinha no queixo,

(…) Excerto do meu poema “Obrigado”, escrito em Évora em 1971.04,14

 

1972

Terminei a minha digressão turística com uma visita às Igrejas de Santa Maria e de S. Julião. Depois dum lanche frugal, apanhei a camioneta para Cacilhas, depois o ferry-boat para o Cais do Sodré e o comboio para Paço de Arcos. Só me faltou andar de avião. Em Setúbal reconheci o  Zeca Afonso. Refreei o impulso de perguntar‑lhe "Você é que é o Zeca Terminei a minha digressão turística com uma visita às Igrejas de Santa Maria e de S. Julião. (MCG - 1972.12.29)

 

1973

Olho para o Tejo à minha frente, cintilante como prata. Um ferry-boat acostado espera por ninguém, enquanto barcos sulcam o rio e gaivotas esvoaçam sobre ele. O autocarro vai‑se enchendo, ouço os passos das pessoas que sobem para o 2º piso, o lugar ao lado do meu é ocupado por uma senhora idosa, de preto. O cobrador diz que já não há mais lugares e dentro em pouco o Tejo ficará para trás.(MCG - 1973.01.02)

 

Às 14:30 apanharei [em Évora] boleia do Pintassilgo (e da miúda) rumo a Setúbal, onde apanharei a camioneta para Cacilhas, aqui o ferry-boat para o Cais do Sodré e lá o comboio para Paço de Arcos. Em lá chegando à estação, olhos para as malfadadas escadas [escadaria], atravesso a linha, subo‑as e ala pela Rua Conde de Alcáçovas abaixo, por entre as árvores que a ladeiam até ao fundo, onde viro à esquerda dando de caras com o nº 1 da Rua de Macau. (1973.08.03)

 

Defronte a mim o Tejo refulge como um espelho. ([2]) Passa uma fragata e há barcos ancorados. O ferry-boat prepara-se para acostar. Passam pessoas ali em baixo na rua e as gaivotas evolucionam sobre o rio. Estou no 2º piso dum autocarro, aguardando que ele parta. Começou a andar. Até já. Almocei com a Emília [Dias]. O almoço no "Isaura", ali na Av. Paris, estava bom e falámos dos nossos velhos companheiros de lides associativas. quantos já se integraram no sistema? Outros continuam a lutar, alguns mesmo à custa da própria liberdade. (MCG - 1973.10.02)

 

Escrevo no antigo laboratório da  Farmácia [Sanitas, no Largo Luís de Camões], no tempo em que as mezinhas eram manipuladas aqui nas traseiras. São cerca de 17:00 e os empregados tomam chazinho com bolos. (...) Ah! o chazinho é porque a minha tia Esperança faz... 71 anos. (MCG - 1973.10.31) 

 1974

P'ráqui estou num café no Cais do Sodré. Os autocarros e os eléctricos passam lá fora na rua. O ambiente está ruidoso e o tempo ameaça chuva. A sandes e o galão estavam uma merda. (São 18:30 de sábado) (...) Parece que vai chover. Esperemos que consiga chegar a casa antes do aguaceiro, pois não trouxe guarda chuva. (...) E por aqui me fico hoje. Tenho de ir apanhar o comboio [para Paço de Arcos]. Não avisei que ia jantar e vai haver sermão, pois não contam comigo. (MCG - 1974.10.19)


Uma chuva miudinha caia à saída e no percurso que fiz a pé  [da Praça da Figueira] até ao Cais do Sodré fui vendo "os homens da noite" ou seja, os coladores de cartazes. Bem... o primeiro "homem da noite" era uma velhota que colava cartazes manuscritos nas traseiras da Igreja de S. Domingos. Na Praça da Figueira, um grupo colava cartazes do PS enquanto que na Rua do Carmo os MRPP anunciavam o comício - que pretendem homenagem nacional - em memória de Ribeiro dos Santos, estudante [de Economia] assassinado pela PIDE há dois ou três anos.(...) MCG - (1974.10.21/22)

 

São quase 19 horas e hoje o meu poiso para escrever é a Praça Luís de Camões, o qual, imponente no alto de pedestal, rodeado de pombas, "olha" para o movimento dos carros e pessoas. A base da estátua está enfeitada com faixas bicolores da bandeira portuguesa. (MCG - 1974.10.23)

 

A toda a largura da 1ª página a "Capital" anuncia que as "Eleições não serão alteradas". (...) Estou aqui num cafezito no [Largo de] Camões e pergunto‑me porque está ali a estátua do autor d´"Os Lusíadas" envolta com as cores da bandeira portuguesa. ([3]) Pergunta para a qual não encontro resposta. Vim há pouco da Livraria Bertrand onde comprei alguns livros para o 7º ano. (MCG - 1974.11.21)

 

1975

Já era tarde para jantar em Paço d'Arcos e dei uma volta, acabando por vir parar a um restaurantezeco aqui no Cais do Sodré, mesmo na rua dos bares e das prostitutas. Na cadeira ao meu lado ronrona um enorme gato. (MCG - 1975.03.25)

 

Amanhã regresso a Évora com o João Lucas. Vim ontem com o Viegas e a Violete; chegámos já tarde a Lisboa, onde jantei na tasca habitual lá para o Cais do Sodré, onde passeia o "bas‑fond" cá da cidade: prostitutas, chulos, clientes e chuis.  (1975.06.29)

 


[1] - Esta rua situava-se em Santa Isabel, a meio da íngreme encosta que ligava o Largo do Rato a Campo de Ourique. Também aqui, em quarto alugados, se alojavam muitos estudantes. (1998.Maio)

[2] - Será devido a este fulgor que o estuário é conhecido por ... Mar da Palha?

[3] - Já anteriormente referira fenómeno idêntico.


VER Entre Paço de Arcos e a Estrela

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Em Lisboa, os Quintela-Farrobo e o Palácio das Laranjeiras

 *`Victor Nogueira




O Teatro Thalia em 1998.01 (Fotos Victor Nogueira - rolo 235)


Sete Rios e Laranjeiras 

Em Sete Rios fica o Palácio das Laranjeiras, dos Condes de Farrobo, com as ruínas do Teatro da Tália, destruído por incêndio; parte dos jardins estão ocupados pelo Jardim Zoológico. Pela Estrada das Laranjeiras até Carnide não existem praticamente vestígios de ruralidade; o campo foi substituído por uma muralha de edifícios incaracterísticos de vários pisos. (Notas de Viagem, 1997) Em 1998 o Teatro Thalia, entretanto recuperado, era uma ruína.

Os Quintela-Farrobo

Ao Palácio das Laranjeiras está ligado o 1º Conde de Farrobo e 2º Barão de Quintela, Joaquim Pedro Quintela (1801 -1869), um aristocrata português, sucessor da grandiosa fortuna de seu pai, o capitalista ligado ao monopólio do tabaco, Joaquim Pedro Quintela, filantropo, mecenas das artes e promotor de manifestações artísticas. Este tinha um Palácio em Lisboa, na Rua do Alecrim, edificado em 1782, defronte ao Largo que actualmente tem o seu nome e se encontra a estátua de Eça de Queirós, inaugurada em 1903, esculpida por Teixeira Lopes

Sobre a nudez forte da Verdade  o manto diáfano de Fantasia – Estátua da Verdade nos braços de Eça de Queiroz, da autoria do escultor Teixeira Lopes (1903)  - Foto Victor Nogueira (1973)

Apesar da relevância que o 1º conde de Farrobo teve na vida política, social e cultural de Portugal, na atualidade tem sido lembrado pela faceta dos excessos e festins desmesurados: o "farrobodó".


O "farrobodó"

No documentário biográfico do conde de Farrobo, que inclui participação do seu tetraneto José Diogo Quintela, é referido o seguinte: "O farrobodó propriamente dito, tem inicio em meados da década de 30 do século XIX. Farrobodó e não forrobodó como se diz atualmente, vem de Farrobo e do fausto das suas festas, saraus e demais peripécias que foram muito comentadas em Lisboa, na época que se seguiu a Joaquim Pedro ter sido feito Conde do Farrobo".

"Os principais cantores de ópera europeus da época atuaram no seu Teatro Thalia, anexo ao palácio, onde invariavelmente terminavam todas as festas, nas quais a família real marcava presença, em especial o rei D. Fernando e a sua filha Maria Ana. Foi com estas festas opulentas que, reza a lenda, lembrada por Marina Tavares Dias, Quintela estoirou uma fortuna que demorara dez gerações a criar. Foi por causa delas que surgiu também a expressão popular "farrobodó". (Wikipedia)

(1) - Farrobodó - Uma Biografia do Conde do Farrobo, in https://www.rtp.pt/programa/tv/p27213



O Teatro Thalia ou das Laranjeiras

O Teatro Tália ou Teatro Thalia, mais conhecido por Teatro das Laranjeiras, foi um pequeno teatro, inicialmente pertença de Joaquim Pedro Quintela, 1.º conde de Farrobo, situado na Estrada das Laranjeiras, Laranjeiras (Lisboa), nas imediações do actual Jardim Zoológico de Lisboa. Apesar da sua pequena dimensão (560 espectadores), foi um dos principais teatros lisboetas do século XIX, onde actuaram as grandes figuras do panorama musical dessa época. Hoje, é um dos locais de concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Construído em 1825, foi reedificado e renovado no ano de 1842, segundo um projecto do arquitecto Fortunato Lodi. Em 1862 o teatro foi praticamente destruído por um incêndio ocorrido a 9 de Setembro, só tendo sido poupada à destruição a fachada. Já no Século XXI, os ateliês de Gonçalo Byrne Arquitectos e Barbas Lopes Arquitectos, efectuaram o projecto de recuperação do edifício.

Na fachada do teatro pode ver-se a inscrição "Hic Mores Hominum Castigantur" (Aqui serão castigados os costumes dos homens) (Wikpedia)

~~~~~~~~~~~~~~

Nos tempos do PS Guterres vim muitas vezes a este Palácio das Laranjeiras. Com efeito, desde 1996 e até finais de 1998 prestei apoio á Frente Comum de Sindicatos da Função Pública nas negociações resultantes do "Acordo Salarial para 1996 e compromissos de médio e longo prazo", celebrado entre o Governo e as Organizações Sindicais da Administração Pública. Em consequência participei nas negociações, enquanto dirigente nacional do STAL, como representante da FC ou dando assessoria técnica a esta, designadamente no âmbito das mesas geral e parcelares nº 3 (revisão do regime de carreiras e cargos dirigentes), nº 4 (recenseamento geral da função pública), nº 5 (recrutamento e selecção), nº 6 (classificação de serviço), nº 7 (horário e duração de trabalho), nº 13 (condições de trabalho).

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

em busca de Camilo Castelo Branco

* Victor Nogueira

Está soalheira a tarde e rumo até Vila Nova de Famalicão e S. Miguel de Ceide para revisitar a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, com paragem na ida para ver a Igreja de Santiago das Antas e no regresso o Mosteiro de Landim e o Centro Histórico de Santo Tirso, mas disto se falará noutra publicação. Em Famalicão não paro. Abandonando a auto-estrada, os caminhos tornam-se estreitos e sinuosos nesta zona ligeiramente montanhosa, com povoações de vivendas que rompem sem harmonia, dissonantes e agressivamente do verde campesino lado a lado com vetustas casas graníticas, algumas delas mansões "burguesas", imponentes, de "notáveis" de outrora, em ruína ou para lá caminhando.

Entrevê-se a Casa da estrada, um amarelo vivo. No Largo e defronte dela a Igreja Paroquial de S. Miguel (com cemitério) anexo e entre ambas um cruzeiro e um busto de Camilo Castelo Branco ( (1825-1890). 



Uma álea com parreiras conduz ao terreiro onde se encontra o edifício da Quinta que foi de Pinheiro Alves, o 1º marido de Ana Plácido. Mas o que vemos é uma reconstituição tão fiel quanto possível daquela que um incêndio destruiu em 1915, com móveis da época e uma parte da biblioteca pessoal do escritor que foi possível recuperar. 


Quando chego dou com a porta fechada e o letreiro "Visita a decorrer". Presumo que sejam muitos os visitantes, tantos são os automóveis estacionados no Largo fronteiro. Hesito se esperarei pois o calor aperta. Mas vou ficando até que no r/c surge um casal e alguém que me pergunta se venho visitar a Casa, esclarecendo-me que os automóveis no exterior são para o vizinho Centro de Estudos Camilianos que depois,  já no Mindelo, venho a saber ser da autoria do arquitecto Siza Vieira.







(ao fundo a torre sineira da Igreja de S. Miguel)





A simpática Guia da Casa Museu propõe.me que façamos a visita em sentido inverso, pela antiga Adega, onde há uma exposição de desenhos narrando o "Amor de Perdição" entre Camilo e a então jovem esposa do "brasileiro" Pinheiro Alves para além de vitrines expondo a flauta e a a guitarra dos filhos de Camilo e Ana, um par de botins desta, o minúsculo revólver com que se suicidou para além doutros objectos, incluindo de escritório. Através da sala onde se vendem "recordações" subimos ao 2º  piso ou andar nobre passando sucessivamente pelo escritório de Ana Plácido, ela também escritora mas sob pseudónimos masculinos, pelo átrio, pela sala de visitas e pela sala de refeições e por uma enorme cozinha tipicamente minhota. Os móveis são escuros e pelas paredes retratos vários de Camilo, dos filhos Jorge e Nuno, do enteado Manuel, filho de Pinheiro Alves, de Garrett, de Victor Hugo e de Alexandre Herculano. Em destaque duas fotos do casal: Camilo, um ar franzino, e Ana, matrona de ar másculo. Como seria a jovem Ana por quem Camilo se apaixonou e viveu em escandaloso concubinato até ao falecimento de Pinheiro Alves ?


Camilo Castelo Branco


Ana Plácido


escritório de Ana Plácido


bengaleiro no átrio


louceiro na sala de jantar


sala de estar


cozinha


sala de estar, vendo-se em 1º plano uma mesa de jogo e ao fundo um piano

Por uma estreita escada se ascende ao 2º andar, acréscimo de Pinheiro Alves, que de fora fica entre  mansarda e piso "normal". Neste se encontram pequenos quartos de Jorge e Nuno, bem como os de Camilo e Ana Plácido, dando o de Camilo para um amplo escritório onde se encontra o que foi possível recolher, muitos dos livros anotados pela mão do escritor. Curiosamente o vestiário entre os quartos de Camilo e de Ana tem três espelhos: o toucador sobre a cómoda, um mais pequeno possivelmente para cuidar da barba e cabelo e outro maior, para cuidar do vestuário, todos eles rodando sob um eixo.  Ao fundo do corredor o quarto  de banho: uma banheira com depósito para água quente e uma bacia em armação de ferro e balde inferior para recolha das águas.  Não há retrete. A casa com as paredes interiores brancas, tem uma ar despojado e algo ascético.


escritório de Camilo


vestiário entre os quartos de dormir de Ana e Camilo



quarto de banho 

Foi trágica a vida de Camilo, um operário das letras forçado a escrever por encomenda novelas lancinantes para ganhar o sustento diário, dois filhos, um louco e outro "estroina" e por fim a cegueira e o receio da loucura que temia hereditária, que o levaram ao suicídio, na sala das visitas. Refere a guia a polémica e cáustica opinião de Camilo sobre Eça. Mas Eça, digo eu, apesar de ser filho de mãe incógnita, fruto de então inaceitáveis relações pré-matrimoniais entre burgusess, sem a vida tumultuosa de Camilo, era um diletante que com distanciamente analizava, escrevendo por gosto e não por necessidade de assegurar quotidianamente o "pão-nosso" de cada dia.

Está pois terminada a visita no átrio de entrada, despeço-me da sorridente, afável e loquaz guia de meia-idade e desço a escadaria rumo ao Fiesta e ao Mosteiro de Landim.


Uma resenha sobre a vida de Camilo com iconografiia da Casa ao longo dos tempos encontra-se em  Monumentos Desaparecidos (http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2014/01/camilo-ferreira-botelho-castelo-branco.html)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

a rota dos escritores em vila do conde

* Victor Nogueira


Um dos aspectos positivos de Vila do Conde é que normalmente há sempre lugar no centro da cidade para estacionar o Fiesta gratuitamente, ficando no Centro Histórico quase tudo à mão de semear.  

Hoje foi a rota dos escritores só não tendo encontrado a casa de  Guerra Junqueiro, pois esquecera-me do roteiro em casa; estive perto mas fica o encontro para a próxima caminhada, pelo património religioso. Foi uma estafa pois sandálias não são calçado apropriado para calcada irregular de graníticos paralelepipidos, com crescentes reclamações da malfadada vértebra lombar. Percorri a minha já velha conhecida Rua de S. Bento mas não vislumbrei a lápide com o poema que a esta artéria dedicou Rui Belo, intitulado «Esta Rua é Alegre». A Rua deve ter sido importante noutras eras, atendendo aos palacetes e casas apalaçadas que a ladeiam.

Também para outro dia teve de ficar a revisita à Casa-Museu José Régio, pois a última entrada permitida é com 45 m antecipados sobre a hora de encerramento.

Largo da Roda dos Enjeitados





Largo Antero de Quental 
(antiga Praça Velha)




foto em http://asilhasencantadas.blogspot.pt/2009/06/casa-de-antero-em-vila-do-conde.html
  
O primitivo imóvel, muito descaracterizado, foi demolido e construído respeitando tanto quanto possível a traça contemporânea do poeta


"Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz." - Anthero de Quental







Avenida José Régio









Rua de S. Bento







Estação da Via Sacra








Capela de S. Bento - ao fundo e à esquerda o Convento do Carmo









Esta Rua é alegre

Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida

Ruy Belo

VEM DE 

escritores em Vila do Conde e cercanias (http://kantophotomatico.blogspot.pt/2016/09/escritores-em-vila-do-conde-e-cercanias.html)