Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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sábado, 12 de dezembro de 2009

José Figueiroa - Cronista das últimas quatro décadas de Cuba

tpor MARINA MARQUES
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Diário de Notícias, 2009.12.12
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Cronista das últimas quatro décadas de Cuba
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A fotografar desde 1964, José A. Figueiroa interpretou e captou alguns dos momentos mais marcantes da história de Cuba das últimas quatro décadas. Assistente e amigo pessoal de Alberto Korda, aos 63 anos prepara-se para publicar uma autobiografia
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Em cada crise de emigração, conta o povo cubano que no farol do Morro, em Havana, surge um cartaz que, ironicamente, avisa "El último que apague!", numa alusão clara aos muitos cubanos que dali partem rumo aos Estados Unidos.
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Mas se há quem decida partir, também há quem acredite ser possível participar na mudança, sem que para isso seja preciso abandonar Havana. José A. Figueiroa pertence a este segundo grupo e no texto de abertura do livro autobiográfico, que em breve será publicado, deixa bem clara a sua posição: se chegar o dia em que o último cubano deixe Cuba, "lá estarei para fazer a fotografia".
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E é isso que tem feito ao longo dos seus 45 anos de carreira: gravar a preto e branco alguns dos momentos mais marcantes da história de Cuba. Apresentando uma visão quase tão clara como a luz natural da "sua" ilha - e que, como fotógrafo, não se cansa de elogiar - deixando transparecer a sua análise crítica à situação política cubana. Por isso mesmo, o seu trabalho reflecte as últimas quatro décadas da vida social e política da ilha liderada por Fidel Castro até 2006.
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A sua história de vida encontra-se intimamente ligada com a de Alberto Korda, fotógrafo cubano que ficou famoso pela icónica imagem de Che Guevara - Guerrilheiro Heróico - que após a sua morte, em 1967, se tornou um dos mais utilizados símbolos dos movimentos revolucionários de esquerda em todo o mundo.
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Começou a trabalhar nos Studios Korda, em 1964, "como simples assistente, mas com a ilusão de me tornar fotógrafo", contou ao DN, na sua deslocação a Lisboa para a inauguração da exposição Korda: Conhecido Desconhecido, patente ao público no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional.
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"Os Studios Korda representavam o que de melhor se fazia em Cuba em termos de fotografia de publicidade e de moda", explicou. "Aliás, esta exposição, que estreou em 2008 em Havana e também já esteve em Madrid, tem o mérito de colocar Alberto Korda no lugar que merece em termos internacionais", afirma. E justifica: "Não só foi pioneiro em termos de fotografia de moda e publicidade como, numa altura em que ainda nem existiam agências de comunicação do Estado, construiu uma imagem universal e artística de Fidel Castro muito próxima do que hoje seria expectável". As fotografias que abrem a exposição, mostrando Fidel Castro nas suas visitas pela ilha ou em momentos de lazer atestam a sua afirmação. "Para além de darem a conhecer essa imagem que Korda construiu do líder cubano, e que não era conhecida, estas fotografias mostram ainda a contemporaneidade do seu trabalho", destaca Figueiroa.
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E nos Studios Korda não só se tornou fotógrafo como estabeleceu com Korda uma relação de pai e filho que durou até 2001, data da morte do mundialmente famoso artista. Foi no seu pequeno estúdio, em Havana, onde mora, que durante oito meses ampliou os negativos de Korda e imprimiu as cerca de 200 fotografias que se encontram na exposição. "O ampliador que utilizei" - e mostra uma fotografia da pequena divisão de sua casa destinada à fotografia, onde está pendurada uma bandeira de Cuba - "era o ampliador dos Studios Korda, que comprei depois de os estúdios terem sido confiscados", revela.
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Numa altura em que a fotografia digital domina, Figueiroa confessa que continua a fotografar mas com rolos - embora também já tenha uma pequena máquina fotográfica digital, comprada a um amigo que a trouxe dos Estados Unidos. "Em Havana é muito caro imprimir as fotografias digitais porque quase não existem impressoras que o façam. E mesmo as que existem não têm grande qualidade", conta. Por isso se mantém fiel aos rolos e aos químicos, uma dimensão mais real e táctil da fotografia.
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Apesar da sua estreita ligação com Alberto Korda, que durante cerca de dez anos foi o fotógrafo oficial de Fidel Castro e se manteve sempre fiel aos ideais da Revolução Cubana - mesmo após os seus estúdios terem sido confiscados, em 1968 - Figueiroa via a Revolução Cubana de uma forma bem diferente. De uma geração mais jovem do que Korda, demasiado jovem para participar activamente na Revolução e demasiado adulto para simplesmente aceitar os ideias impostos, viu as mudanças de uma forma crítica.
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Até porque, em 1963, e depois de o negócio da família ter sido confiscado, um a um todos os membros da família e muitos dos seus amigos de infância foram abandonando a ilha. Ficou na ilha apenas com um dos irmãos e, como conta, "tive a sorte de começar a trabalhar nos estúdios Korda em 1964, onde fui acolhido como uma pessoa 'normal'. Foi a minha grande escola, não só a nível profissional como a nível pessoal. Aí tive oportunidade de conhecer as mais diversas personalidade da vida social, política e artística de Cuba e apercebi-me do muito que tinha para aprender". Não admira, por isso, que uma das suas primeiras séries fotográficas se chame Exilio e que os protagonistas sejam precisamente os familiares e amigos que viu saírem de Cuba. Tema a que voltou no início dos anos 90.
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Acompanhou Korda em muitas das viagens que o artista fez nos últimos anos de vida, expondo a sua obra. E foi precisamente numa dessas ocasiões, em Chicago, em 2000, que captou a imagem de Korda que encerra a exposição. "Acho que resume a essência de Korda. Parece um monge, ali sentado, numa atitude contemplativa, com o maço de cigarros sempre por perto e um copo de rum", descreve.
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Quanto ao paradeiro dos arquivos de Korda, que desde 1968 estão desaparecidos juntamente com cerca de 80% do seu trabalho, afirma ter fé na sua recuperação. "Se alguém os tivesse fora de Cuba, por esta altura já os teria revelado. Valem muito dinheiro. E como em Cuba não há o hábito de se destruírem arquivos, acredito que um dia, quando menos esperarmos, vão aparecer", justifica.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Alberto Korda - Conhecido Desconhecido

Alberto Korda

Um olhar comandado pelo coração

por MARINA MARQUES - Diário de Notícias 2009.12.02
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Um olhar comandado pelo coração
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200 fotografias mostram que o trabalho de um dos maiores cronistas da Revolução Cubana vai muito para além da obra até agora conhecida.
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"Isto é importante", avisa Diana Díaz, chamando a atenção para um momento do documentário que complementa a exposição de fotografia do seu pai, Alberto Korda. "O que o meu papá vai dizer a seguir mostra a forma como ele estava na vida e encarava a fotografia", explica com urgência para partilhar o momento. "Só consegues ver com o coração. O que é essencial é invisível à vista", afirma Korda, numa entrevista gravada quatro meses antes da sua morte, em Maio de 2001. A máxima pertence ao escritor francês Antoine de Saint Exupery e é retirada de O Pequeno Príncipe "e normalmente era seguida ou antecedida de um outro conselho para os fotógrafos: 'Esquece as máquinas, esquece as lentes, esquece isso tudo. Com qualquer máquina barata consegues captar a melhor fotografia", adianta Diana.
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A exposição abre hoje e às 15.00 Diana Díaz e Cristina Vives, comissária da mostra, guiam uma visita pelas 200 fotografias de Korda em exibição na Cordoaria Nacional, em Lisboa até 31 de Janeiro.
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Uma tela com a imagem de Che é o cartão de visita da exposição Korda - Conhecido Desconhecido e Cristina Vives avisa que o título não é apenas uma brincadeira de palavras. "Aqui temos fotografias inéditas que mostram como Korda construía a imagem do líder cubano, o seu amor à beleza feminina e resulta de uma pesquisa minuciosa de entre mais de 50 mil fotogramas", explica.
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Fotografias de moda - a sua grande paixão e à qual, ironicamente, teve de renunciar por causa da Revolução, que apoiava e sempre defendeu -, do povo, dos líderes políticos em momentos privados e fotografias subaquáticas, às quais se dedicou depois de 1968 - "o seu refúgio", explica Vives - compõem a exposição.
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Cristina Vives realça que os negativos investigados correspondem apenas a "um arquivo, daqueles cinzentos de metal, com quatro gavetas, onde estava o seu trabalho de dez anos como fotógrafo oficial de Fidel". "Mais de 90% do seu trabalho desapareceu quando o estúdio foi confiscado, em 1968", adianta.
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"Korda ficou magoado com a forma como o estúdio foi confiscado, através de uma intervenção policial. Isso deixou-o triste. E viu como um mal necessário da implantação em Cuba dos ideias socialistas o facto de terem confiscado o seu trabalho", revela José A. Figueiroa, amigo de Korda desde 1964.
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O lado desconhecido do fotógrafo de “Che”
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Inserido em 02-12-2009 20:06 - Rádio Renascensa



A exposição de fotografias "Korda Conhecido Desconhecido" está patente ao público até 31 de Janeiro de 2010, na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

Alberto Korda foi o autor da foto de Ernesto “Che” Guevera, captada em 1960, o segundo retrato mais reproduzido do mundo, só ultrapassado pela “Gioconda” de Leonardo Da Vinci.
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Esse é o Korda “conhecido”, o autor de um “instante de sorte”, como ele disse um dia. Na Cordoaria Nacional, em Lisboa,  para além do fotógrafo que documentou a Revolução Cubana, há um “Korda desconhecido” para descobrir, que inclui fotografias de moda, mulheres e paisagens.
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“Korda – Conhecido Desconhecido”, organizada pela Casa da América Latina e Câmara de Lisboa mostra 200 fotografias captadas entre 1956 e 1968, a maioria das quais inéditas.
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A exposição visa libertar Alberto Diaz Gutierrez (1928-2001), conhecido como Alberto Korda devido ao nome do estúdio que montou em Havana nos anos 1950, “do peso de uma fotografia”.
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Cristina Vives, comissária da exposição, explica, em comunicado, que estas imagens “percorrem a História, sendo aqui excluídas, intencionalmente, aquelas que, de tão conhecidas, se tornaram num lugar-comum ao falar da sua obra”. A mostra recorda que Korda foi um fotógrafo com obra diversificada, alguém que expôs nas principais galerias americanas e europeias.
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Diana Diaz, filha e herdeira do artista, avançou à Lusa que fotografias de Korda desconhecidas do grande público poderão ser motivo de novas exposições. Objectivo: resgatar do peso político a obra do fotógrafo cubano.
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Apesar de os negativos dos estúdios Korda terem sido confiscados em Março de 1968 depois de Fidel Castro ter anunciado a “Ofensiva Revolucionária”, a que se sucedeu o arresto de todos os negócios privados, Diana Diaz diz que continua a encontrar imagens do pai que são desconhecidas do grande público.
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Hoje, em estreia mundial, é exibido o documentário “Simplesmente Korda”, com argumento e realização do cubano Roberto Chile, a partir de uma entrevista gravada em Janeiro de 2001. O documentário será projectado diariamente às 16h00.
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