Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

à Beira Tejo, em terra de Avieiros

* Victor Nogueira

Num breve intervalo das suas guerras contra moinhos de vento regressou pois Ulisses a Ítaca e Penélope foi mostrar-lhe os mouchões fluviais, as calmas, serenas e repousantes águas esverdeadas em milhentas pequenas ondulações,.as árvores esquálidas no horizonte e, deste lado, as embarcações miniaturais dos pescadores e as suas casas de apetrechos, como as dos pescadores em Vila Chã (Vila do Conde) ou dos salineiros em Rio Maior. Já não vivem os pescadores da beira-Tejo em cabanas miseráveis e um enorme espaço verde, algo ressequido, bordeja o rio das Tágides. Alhandra e Alverca estão no horizonte, mas essa é uma rota ou percurso no futuro

Estão pois Penélope, os cabelos esvoaçando com a brisa, e Ulisses à beira-rio, num tempo escasso que breve se esvai na ampulheta. Na beira-rio de avieiros e mouchões,  que redes entretecem e entretelam a bela Penélope e Ulisses? Penélope em roda-viva e Ulisses no cais, como está João Baptista Cansado da Guerra.

Contrariando as previsões meteorológicas, o dia não esteve chuvoso, mas sim de elevada hlnidde relativa, abafado, com o suor goticular a flor da pele, sem evaporação.

















fotos em 2017.10.16

"... Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam. Alguns voltam ainda, roídos das saudades do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam na Borda de Água... (Avieiros, romance de Alves Redol)
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Sobre os avieiros ver

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Nascer do sol em setúbal

* Victor Nogueira

Deu-me pois a espertina, o desassossego, no alto da madrugada, e por mais voltas que desse na cama, por mais séries policiais que tentasse ver no FoxCrime, por mais jogos de estratégia que tentasse resolver, por mais que tentasse ler o Courrier sobre o Centenário da Revolução de Outubro, o sono não voltou ao meu encontro. 

Para lá da janela e das varandas, era o negrume da noite e até à linha do horizonte um luzeiro de pirilampos em terra, a  noite desvanecendo-se com o passar das horas, dos minutos, dos segundos, até que uma tímida fimbria vermelha semi-encoberta pelas nuvens me anunciou o nascer do sol. Não encontrando a Canon - terá ficado no Fiesta ? - socorri-me do Nokia, e o que resultou foi uma registo paupérrimo, que nem os meus parcos conhecimentos de tratamento de imagem conseguiram disfarçar.





fotos em 2017.09.27

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

em paço de arcos, esperando pela musa adormecida, que não tece

* Victor Nogueira

Está pois  a musa atrasada, o que é inabitual, mas a responsabilidade é dos transbordos ferroviários. Hoje o ponto de encontro não é o do costume, junto ao Pingo Doce, mas sim à sombra do antigo Quartel do Bombeiros Voluntários de Paço d'Arcos. Como não era previsível o atraso, não vim munido dum livro para ler para ocupar o tempo - presentemente O Gerente da Noite, de John Le Carrée, que serviu de inspiração a uma série televisiva homónima, mas não muito fiel. Pelo que me vou entretendo observando e fotografando com o meu olhar clínico, que o Nabais diz ser de fotógrafo, até que a musa adormecida aparece, com  o seu sorriso por detrás dos óculos escuros, finas rugas ao canto dos olhos, passo apressado, cabelos quase da cor do trigo em flor esvoaçando com  o sopro da leve aragem que varre a Avenida do Senhor Jesus dos Navegantes.









fotos em 2017.09.21









fotos  em 2017.08.27