Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

terça-feira, 21 de abril de 2020

Murais, painéis e grafitos em Setúbal - 79

* Victor Nogueira




9 500 km al Sur, por Carlos Barreto (2019.06) - Avenida Luísa Todi

Café do Desassossego -Travessa da Anunciada




 Miradouro de S. Sebastião, no Largo Defensores da República, por Américo Ribeiro








Fotos em 2020.04

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Américo Ribeiro, fotógrafo setubalense

* Fotos Victor Nogueira

Em não poucas povoações de Portugal os arquivos fotográficos de estúdios e fotógrafos locais passaram a património municipal, preservando-se deste modo a memória de tempos idos segundo o "olhar" de ... É o caso de Américo Ribeiro (1906 / 1992), cuja casa fotográfica, a Foto  Cetóbriga (1936 / 1984) há muito encerrou, já nas mãos doutro proprietário. 

Para além do espólio exposto na Casa de Bocage e da edição de livros com fotografias suas, resta ali no Largo da Conceição esta placa na parede da casa que já não é de fotografia.

Segundo a Wikipedia; «Em 1927 publica a primeira fotografia no jornal O Setubalense e em 1929 torna-se correspondente fotográfico em Setúbal do jornal Diário de Notícias.

Colaborou como fotógrafo em jornais e revistas como A Bola, Correio da Manhã, Diário de Lisboa, Flama, A Indústria, Mundo Desportivo, Norte Desportivo, Notícias Ilustrado, O Século, Record, Stadium e A Ribalta.»

A seguir um vídeo com fotos a partir do espólio de Américo Ribeiro  


djoao2multimedia
Publicado a 23/03/2009


Excerto do filme sobre a obra de Américo Ribeiro, fotógrafo da memória de Setúbal no sec. XX, realizado por Hugo Alves do 12ºF do curso tecnológico de multimédia da escola D. João II, com o apoio de Bruno Ferro do Arquivo fotográfico Américo Ribeiro/Casa de Bocage.




Antiga Foto Cetóbriga


chiaroscuro com toque de anil


Largo da Conceição, visto da Avenida 5 de Outubro. Nas traseiras desta Capela de N. Sra da Conceição, sob uma das portas da muralha medieval (Porta de Évora ou da Erva), situava-se a Foto Cetóbriga. O mamarracho que se vê ao fundo à direita é um antepassado do "Coutinho" de Viana do Castelo, sem qualquer qualidade estética ou relação com a envolvência.



Carteira fotográfica

fotos em 2016.06.07 e 24

Foto de Américo Ribeiro, autor não identificado,  e biografia mais desenvolvida in Setúbal Digital http://setubaldigital.blogspot.com/2014/01/americo-ribeiro-biografia.html

domingo, 25 de agosto de 2019

38 MINUTOS COM NUNO CALVET





PASSEIO PÚBLICO38 MINUTOS COM
NUNO CALVET
“CADA FOTOGRAFIA É, EM CERTA MEDIDA, UMA AUTOANÁLISE”
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PASSOU MAIS DE METADE DA VIDA A FOTOGRAFAR PAISAGENS E PESSOAS, ANÓNIMAS OU NO ESTRELATO. PARA AMÁLIA RODRIGUES FEZ A CAPA DE UM DISCO QUE A MEMÓRIA COLETIVA REGISTOU COM BASE NUMA FOTOGRAFIA: “BUSTO”


ENTREVISTA JOÃO DIOGO CORREIA FOTOGRAFIA TIAGO MIRANDA

Fotografou muito, mas fala pouco sobre essas fotografias. Porquê?
Como dizia o ‘nosso amigo’ Cartier-Bresson, se é necessário falar sobre uma fotografia é porque ela não comunica o que pretende. A não ser que seja uma conversa estritamente estética, sobre produção, montagem gráfica. Sobre o que acontece nela, a imagem propriamente dita, as palavras são supérfluas, são espúrias. Olha-se para a fotografia e é ela que tem de nos dizer o que é real e íntimo.
Não lhe chama arte. Soa-lhe pretensioso?
A fotografia é um tipo de expressão gráfica que tem uma génese mecânica, técnica, e a partir daí toda a conversa que se gera sobre o resultado dessa expressão tende a ser ou muito técnica ou cheia de lugares-comuns e de preconceitos de ordem estética. A partir de certa altura, começa a haver uma separação entre fotografia e outros processos artísticos de origem gráfica (a pintura, o desenho), porque a fotografia começa a ser acessível a todo o ‘bicho careta’. Toda a gente quer fotografar e toda a gente tem uma máquina. Julgam as pessoas que é só carregar no botão e sai uma coisa bonita. Então entramos no campo do bonito, que não tem nada que ver com o lado artístico, criativo, que a fotografia pode encerrar. E que a maior parte das vezes até nem encerra: limita-se a reproduzir aspetos ditos bonitos, interessantes, mas que não têm ligação com a intimidade do fotógrafo, com a sua maneira de ser e de estar. São aparências e às aparências, normalmente, não lhes resta mais nada. Entramos no tempo em que a fotografia começa a ser considerada uma arte, mas uma arte menor. Porque é muito fácil fotografar um pôr do sol, as ondinhas do mar a rebentar. É muito fácil fazer essas coisas e começou a misturar-se essa facilidade em reproduzir imagens ditas bonitas do quotidiano com o lado artístico. Esse lado tem que ver com outros mundos, muito pessoais.
Com o olhar do fotógrafo?
Exatamente. Com a personalidade do fotógrafo, no fundo. Quando uma pessoa faz uma fotografia, não é só ela que está a fotografar um determinado assunto. Está a fotografar-se também a si própria. Cada fotografia é, em certa medida, uma autoanálise. Que depois transpira na imagem que retém, que grava.
E aí já é uma arte?
Pode ser, a partir do momento em que exprime um conjunto de dados de ordem estética conhecidos, mas que não são gratuitos, não são coisas supérfluas. São atributos que estão ligados à personalidade e à capacidade expressiva do seu fotógrafo.
E há coisas a dizer sobre ele? Neste caso, sobre si?
Sobre mim, o que lhe posso dizer? Que tive alturas muito bonitas, outras menos. É uma coisa muito subjetiva.
“JULGAM AS PESSOAS QUE É SÓ CARREGAR NO BOTÃO E SAI UMA COISA BONITA”
Como vive com esta ‘altura’?
Tenho um olhar livre para fotografar aquilo que me interessa. Neste momento, fotografo relativamente pouco, porque comecei a perceber que já tinha fotografado aquilo que ia fotografar outra vez. Estava a repetir-me, a copiar-me a mim próprio. A idade também já não me permite viajar como antes.
O Alto Alentejo, onde vive agora, é fotogénico?
Sim, mas a partir de um certo momento, não apetece andar à procura. Já se encontrou, já está registado. O fotógrafo, às vezes, encontra as coisas, não as procura. Eu há 10 anos fiz um livro sobre o Alentejo, e aí percorri-o várias vezes, mas foi diferente, eu não estava à procura de nada. Estava atento ao que me aparecia à frente.
E o que encontrou?
O Alentejo é um mundo. Tem zonas e aspetos extremamente característicos. Há coisas lindíssimas, insubstituíveis do ponto de vista visual. O que agora trabalho é a composição de fotografias que já fiz. Dá-me muito gozo pegar nessas imagens e construir novos mundos, novas situações, completamente fora de cada uma delas. Isso dá-me muito gozo, entretém-me. E já fiz três exposições dessa forma.
Escolhe-as a partir de um algum critério específico?
Não, não. São imagens que eu imagino. Imaginações sobre imagens. Vejo imagens e imagino outros mundos.
Fotografou o Portugal profundo, mas também artistas consagrados. Foi sempre o mesmo?
Fotografar pessoas é um mundo completamente diferente. No fundo, a pessoa fotografada é-o do ponto de vista da sua personalidade, daquilo que faz. E para isso é preciso conhecer o mínimo daquela pessoa.
Era o que mais lhe interessava?
Interessava-me porque eu privava com aquelas pessoas.
Com a Amália, por exemplo?
Com a Amália foi diferente. Eu fui para a Valentim de Carvalho [VC] depois da tropa. Era um melómano, gostava, e gosto, muito de música, tinha muitos discos. Nessa altura, a Amália não tinha relações profissionais com a casa VC, havia um certo distanciamento do velho Valentim [fundador da editora, em 1914]. Não era que ele não gostasse da Amália, mas não simpatizava, porque ela trabalhava para a concorrência. A certa altura, o Rui [sobrinho de Valentim] conheceu a Amália, apaixonou-se por ela em termos quase maternais. Até dizíamos, a brincar, que só faltava a Amália puxá-lo por uma coleira. E foi aí, através de um homem que já morreu e que foi o principal responsável por eu ser fotógrafo, o Gérard Castello-Lopes. De 15 em 15 dias, havia sessões de fotografia em casa dele. Ele perguntou-me se eu tinha fotografias, eu mostrei-lhe e ele disse-me: “Eh, pá, tu tens é de ser fotógrafo.” E comecei a fazer fotografias para a VC. Não fiz muitas, fiz algumas, como a capa do Alfredo Marceneiro, em que ele está com um lenço e uma beata ao canto da boca. Mas não fotografei logo a Amália. Acontece que, finalmente, ela começa a gravar para a VC [1962], numa altura em que estava sempre muito pouco disponível, era muito difícil. Havia um busto de um escultor [Joaquim Valente] e o Rui perguntou-me se eu podia fotografá-lo. Eu fui e, por acaso, saiu bem. É uma vulgar imagem feita com praticamente nenhuns meios. Levei o busto para minha casa, pu-lo em cima de uma mesa, com um pequeno projetor e utilizando uma parede branca para refletir o busto. Mais por acaso do que por intenção, saiu bem. Ainda tenho esses negativos.
Foi dos seus trabalhos mais marcantes? Ou mais conhecidos?
Eu acho que não. O disco teve muito sucesso, talvez por isso a fotografia tenha ficado tão conhecida. Ainda fiz outras para discos. Há um disco do Vinicius de Moraes que também tem uma fotografia minha. Foi feita no próprio edifício da Philips. Havia uma sala de reuniões, onde ele foi dizer poesia. A sala até nem era muito grande, mas tinha boa iluminação, e fiz lá uma fotografia dele a dizer poesia. Depois nos espetáculos fiz várias. Do Chico Buarque também.
Depois deixou de as fazer?
Quando fui para a Philips, já muito embrenhado na fotografia profissional, comecei a fazer trabalhos para publicidade. Tinha de viver, tinha família, três filhos, a minha mulher não trabalhava, tinha de ganhar o pão para a boca da miudagem. Nessa altura ganhava-se bom dinheiro. Mas nunca deu para enriquecer, porque o que se ganhava gastava-se logo em equipamento. Depois uma grande parte da fotografia que se vê na publicidade, nas revistas, passa a ser comprada a estúdios, a grandes bancos de imagem, que antes não existiam. E passa a pagar-se uma ninharia.
Que relação tem agora com esse mundo?
Desinteressei-me completamente. Comecei a fazer fotografia por gosto. Mas a partir de uma certa altura isso acabou.
De onde tira agora prazer?
Tiro sobretudo das exposições. Mas agora não tenho planos nenhuns. Só quero gozar com as imagens que tenho e com a família. Não tenho idade para andar aí de ‘ceca para meca’ com o material às costas. Chegar onde cheguei, assim como estou, já é uma aquisição bastante boa. A maior parte das pessoas da minha idade já cá não está.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Como encaramos a morte em cada parte do mundo


1 / 17 Gronelândia ©Klaus Bo


6 / 17 Nas margens do rio Ganges, Índia ©Klaus Bo


10 / 17 Madagáscar ©Klaus Bo


12 / 17 Guatemala ©Klaus Bo


13 / 17 Ritual fúnebre no Nepal ©Klaus Bo

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ATENÇÃO: esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

"Vamos todos morrer. Este facto é comum a todas as pessoas de todas as culturas, religiões e países do mundo", evidencia o fotógrafo dinamarquês Klaus Bo, em entrevista ao P3. "A forma como nos relacionamos com a morte e como nos despedimos daqueles que amamos, no entanto, varia bastante.” Essas variações estão no centro o projecto Dead and Alive, que o fotógrafo desenvolve há vários anos e que tem como objectivo retratar os rituais fúnebres das cinco principais religiões do mundo — o Islão, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Budismo e o Cristianismo — e de dez outros associados a outros credos. Tudo começou depois de ter fotografado um funeral numa mesquita, em Copenhaga, em 2002, e de ter visto, pela primeira vez, uma pessoa morta. "No Norte da Europa, a morte é um enorme tabu. Não queremos lidar com ela, não sabemos como falar sobre ela e os nossos rituais consistem em meia hora numa igreja, seguida de duas horas a comer bolo e a bebericar café. Nada mais. Por norma, nem sequer chegamos a ver o corpo da pessoa que morreu." Um ritual fúnebre dinamarquês difere em absoluto de um ritual indonésio; é essa diversidade que alimenta a curiosidade do fotógrafo e o mantém na sua cruzada. Ma'nene é o nome do ritual mais interessante que fotografou até hoje. Em Toraja, na Indonésia, durante o mês de Agosto, "aqueles que já morreram são retirados das suas campas por membros da família, são limpos e vestidos com roupas novas", descreve. "Depois disso, tiram-se fotografias de família com os falecidos", continua. "Assistir a isso foi uma experiência interessante e incrível." No Nepal, viu também um grupo de pessoas a colocar um morto rígido na posição de lótus, algo que jamais esquecerá. O dinamarquês tem sido bem-vindo em todos os locais por onde tem passado, mas admite que nem sempre é fácil ter acesso às cerimónias, por se tratarem de momentos tão íntimos e dolorosos.

Klaus Bo conclui que existe um elemento comum em todos os rituais que registou: a crença na vida eterna ou na reencarnação. "Em alguns locais acredita-se que a vida continua exactamente da mesma forma que aqui na Terra, mas que tudo acontece noutro lugar." A Dinamarca, no entanto, representa uma excepção à regra. "No meu país, existe a crença de que tudo acaba quando morres. Quase ninguém acredita que exista algo para além da morte e, ao mesmo tempo, recusamo-nos a aceitar a nossa própria mortalidade." Até hoje — e desde há vários anos —, Klaus Bo já fotografou rituais fúnebres em Madagáscar, Gana, Nepal, Índia, Dinamarca, Indonésia, Haiti, Gronelândia, Guatemala e Filipinas. Ultimamente tem andado a estudar a Roménia, mas confessa ter uma lista em que constam 55 rituais que considera suficientemente interessantes para fotografar à volta do mundo. "Quando comecei, não tinha ideia de que este projecto se tornaria no grande trabalho da minha vida." 

Klaus Bo dedica 30 a 40 horas ao projecto por semana, ao mesmo tempo que reúne fundos para novas expedições, trabalhando como freelancer. "Espero que no futuro [esta série fotográfica] dê origem a mais do que um fotolivro e a uma exposição itinerante", refere. O projecto  foi publicado na revista National Geographic, em 2016, em 2016, e continua em desenvolvimento. O seu progresso pode ser acompanhado através da conta de Instagram @deadandaliveproject.. Ao longo da carreira, Klaus Bo já trabalhou sobre vários temas, entre eles a vida de refugiados iraquianos na Síria, a perseguição aos cristãos coptas no Egipto ou a devastação causada pelo terramoto no Haiti, em 2010.


domingo, 19 de novembro de 2017

Quando as fotografias dançam para prolongar um vestígio



DANÇA

Quando as fotografias dançam para prolongar um vestígio

Vestígios, coreografado por Joana Providência, é o movimento nas fotografias do fotógrafo francês que retratou a vida comunitária de Trás-os-Montes. Estreia-se no Porto, esta quinta-feira, 16 de Novembro















https://www.publico.pt/2017/11/16/fotogaleria/vestigio-379070?page=/&pos=20&b=multimedia__2

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O fascínio de Paulo por edifícios abandonados deu um livro






Antropólogo apaixonado por fotografia tem milhares de imagens de lugares abandonados, entre Portugal e outros países. Agora, o seu "Proj3ct Urbex" está num livro
Texto de Mariana Correia Pinto • 16/11/2017 - 19:09A



São ruínas de casas, algumas de antigos solares, muitas isoladas na paisagem. São fábricas desvalidas, hospitais fechados, edifícios com história por desvendar. Paulo Santos começou a aventura por este universo há coisa de três anos. Por conhecer a sua paixão pela fotografia, um amigo adicionou-o ao grupo de Facebook Lugares Abandonados e desafiou-o a viajar em busca desses espaços.

Desde 2002 que Paulo Santos se tinha entregue à fotografia — ou às viagens que o conduziram à fotografia. Antropólogo de formação, e em vias de concluir um doutoramento em Antropologia e Imagem, fazia das passagens por outras geografias (já esteve em 50 países) uma oportunidade para apurar o registo fotográfico. Começou, até, a eleger os seus destinos com esse requisito: “Tinham de ser fotograficamente interessantes”. A relação com a máquina foi-se apurando por esforço solitário: comprava revistas e livros, aprendia a técnica, treinava. Aos poucos foi-se sentindo em casa.

Quando o amigo o convidou para integrar aquele grupo em busca de lugares perdidos, Paulo não hesitou. E o passatempo foi-se tornando um vício. Com mais quatro ou cinco amantes da imagem, faz-se à estrada pelo menos duas vezes por mês. “Fui-me interessando por aquilo, às vezes ia sozinho”, contou ao P3 numa entrevista por telefone.

A viver em Lisboa, Paulo e o restante grupo não se limitaram à capital e cidades próximas. Faziam pesquisa prévia, partiam para o terreno com coordenadas GPS, e percorriam quilómetros até ao Norte do país: “Do Porto para cima, sobretudo, há muitas casas abandonadas. Imagino que de emigrantes que saíram e as deixaram para trás.” E vezes houve também em que Paulo Santos se arriscou além fronteiras: a Marrocos (várias vezes, sempre que pode), à Bélgica, ao Luxemburgo, à Ucrânia (Chernobyl).

Fá-lo pela fotografia, mais do que por qualquer análise apetecível a um antropólogo. “São espaços interessantes”, diz, e quase sempre um “desafio” do ponto de vista técnico. “Muitas vezes as casas estão entaipadas ou têm pouca luz”, explica, e para Paulo Santos, 42 anos, o flash é coisa a evitar: usa apenas luz natural, faz longas exposições com tripé, no limite usa uma lanterna para iluminar ligeiramente o lugar. A segurança é também tema em cima da mesa: abandonados, alguns espaços têm os alicerces comprometidos; noutros encontram gente dentro.

Paulo, desenhador de Autocad num gabinete de engenharia, não tem os números exactos, mas aponta para uns 350 espaços em Portugal e mais uma centena no estrangeiro quando lhe perguntámos por quantos já passou de máquina na mão.

No Verão do ano passado, a editora Alma Lusa convidou-o para reunir algumas destas imagens num livro. E o antropólogo aceitou: selecionou 81 fotografias, distribuídas em 104 páginas, e optou por um registo quase se texto. Neste Proj3ct Urbex (à venda online por 30 euros) preferiu ocultar a localização exacta dos lugares (“apesar de abandonados, muitos têm dono e podiam ser assaltados depois”) e dar primazia à imagem.

Por detrás de cada fotografia, haverá certamente uma história, ainda que esteja por escrever. Como a de um casa com um sótão onde Paulo se deparou com um lugar cheio de pó, uma luz suave, um triciclo perdido [imagem em destaque]. Conseguem imaginar uma narrativa?

*Parque de diversões de Pripyat, Chernobyl Paulo Santos




Uma casa que ardeu nos últimos incendios em Treixedo, Viseu Paulo Santos

Sala de projecção de um cinema abandonado no Sul de Portugal Paulo Santos


Pormenor de uma casa de banho numa casa da zona Norte Paulo Santos



http://p3.publico.pt/cultura/livros/24989/o-fascinio-de-paulo-por-edificios-abandonados-deu-um-livro?page=/&pos=9&b=stories_featured_c