Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

.

«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

sábado, 29 de novembro de 2014

a crise ou as montras dominantes na baixa comercial de setúbal (centro histórico)



foto victor nogueira - a crise ou as montras dominantes na baixa comercial de setúbal (centro histórico)

poesia de bertold brecht

1. - Quem é teu inimigo?

O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-lo-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome.

2. - O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.




 Para disfarçar/esconder a miséria e a fealdade, algumas poucas montras de lojas fechadas exibem fotos gigantescas como esta nas montras, - Foto Victor Nogueira - setúbal - centro histórico (a foto representa o Portinho na Serra da Arrábida) - À esquerda o forte de santa maria, que foi estalagem explorada pelos pais do poeta Sebastião da Gama e que presentemente alberga o Museu Oceanográfico.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

luanda e praia do bispo, cerca de 1959



foto de família -luanda e praia do bispo, cerca de 1959

Esta foto foi tirada da varanda do quarto dos meus pais e nela se vê o braço de mar que separava a avenida da Ilha do Cabo, defronte, braço de mar presentemente assoreado e com a água substituída por um bairro de lata.. Já no tempo da foto e na maré baixa podia fazer-se a travessia quase completa a pé. O carro na foto foi o 1º que a minha mãe comprou, em 2ª mão, depois da concretização da sua decisão de empregar-se, apesar da oposição do meu pai, educado à moda antiga. Com efeito, ao chegar a Luanda em 1945 ofereceram-lhe vários empregos como engenheira química mas o meu pai opôs-se a que os aceitasse. O carro era um Ford Consul, cinzento e verde. Mais para lá do mar-oceano, na outra margem do atlântico sul, fica o Brasil.

SE QUISERES, VÊ A CONTINUAÇÃO EM -- Uma outra Luanda - o antes e o agoramente ou o impossível retorno

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

oeiras - parque dos poetas - Gil Vicente:





foto victor nogueira - oeiras - parque dos poetas - Gil Vicente: os autos, as barcas e os barqueiros - escultura de josé aurélio. Ver mais em http://parquedospoetas.cm-oeiras.pt/?page_id=1282

CONTRA A MORTE E O AMOR NÃO HÁ QUEM TENHA VALIA (excerto)

Era ainda o mês de abril,
de maio antes um dia, 
quando lírios e rosas
mostram mais sua alegria;
pela noite mais serena
que fazer o céu podia,
quando Flérida, a formosa
infanta, já se partia,
ela na horta do pai
para as árvores dizia:
“Ficai, adeus, minhas flores,
em que glória ver soía.
Vou-me a terras estrangeiras,
a que ventura me guia.
Se meu pai me for buscar,
que grande bem me queria,
digam-lhe que amor me leva,
e que eu sem culpa o seguia;
que tanto por mim porfiava
que venceu sua porfia.
Triste, não sei aonde vou,
e a mim ninguém o dizia!”

VER TEXTO COMPLETO DO VILANCETE EM
http://www.citador.pt/poemas/contra-a-morte-e-o-amor-nao-ha-quem-tenha-valia-gil-vicente

sábado, 22 de novembro de 2014

oeiras - parque dos poetas - Garcia de Resende


foto victor nogueira - oeiras - parque dos poetas - Garcia de Resende

NÃO RECEEIS FAZER BEM (excerto)

As damas nunca parecem
os galantes poucos são
cousas de prazer esquecem 
os negócios vêm e vão
nunca minguam, sempre crescem.
Não há já nenhum folgar
nem manhas exercitar
é tanto o requerimento
que ninguém não traz o tento
senão em querer medrar.

Mil pessoas achareis
menos das que cá leixastes
doutras vos espantareis
porque vê-las não cuidastes
da maneira que vereis.
Uns acabam outros vem
e uns tem outros não tem
e os mais polo geral
folgam muito d'ouvir mal
e pouco de dizer bem.

TEXTO COMPLETO EM
http://www.citador.pt/poemas/nao-receeis-fazer-bem-garcia-de-resende
SOBRE GARCIA DE RESENDE E A ESCULTURA DE António Vidigal VER
http://parquedospoetas.cm-oeiras.pt/?page_id=1284


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

porto - nº 44 da travessa da carvalhosa 1949/1950


foto de família - porto - nº 44 da travessa da carvalhosa 1949/1950 - 

Para além do escriba, os meus avós António, Alzira e Zé Luís e os meus tios José e José João, para além da minha mãe. Por exclusão, a fotógrafa deve ter sido a minha tia Lili. 

Quando nasci os meus avós e seus filhos estavam em Angola, pois o meu avô Luís era quimico-analista na Fazenda Tentativa, de açúcar, no Caxito, nos arredores de Luanda. Tal como o meu pai o meu avô ficou "enfeitiçado" por Angola mas a vida não lhe permitiu que para lá regressasse. Na altura da foto o meu tio José João tinha retornado ao Porto para tirar o curso de arquitectura, tendo regressado a Luanda em 1956, pouco depois de concluí-lo. Nesta altura ainda chegou a dar aulas na Escola Industrial e Comercial de Setúbal, no ano em que ela passou do Largo da Palmeira para o Parque do Bomfim, a mudança feita por professores e alunos. Nesta mesma escola o meu pai e eu demos aulas, ele depois da independência de Angola, eu depois de terminar o curso de sociologia, contrariado pois nunca gostei de ser professor, proissão transitória que larguei mal pude. Mas o meu pai e o meu tio gostavam de dar aulas - em angola o meu pai nunca havia sido professor mas era um bom explicador de mim, qd tinha tempo para isso..

Depois do meu nascimento a minha avó Francisca insistia com a minha mãe para que mandasse o "menino" para o Porto, para juunto dela, mas faleceu antes de nos conhecermos. Existe apenas em resultado das memórias da minha mãe e do que dela a restante família me contou.

A casa tinha dois pisos e um grande quintal nas tazeiras onde havia criação - muito gostava eu de ver os coelhos nas gaiolas com o narizito a tremer e os olhos enormes ou aos saltinhois ziguezagueantes assim como os pintainhos amarelos partindo a casca do ovo e logo começando a andarilhar.. Para além da criação de animais havia uma enorme nogueira (produzia grandes nozes) e uma latada, cujas uvas a minha avó vendia para fora. A economia doméstica era complementada com o cultivo de batatas, alhos, couves e cebolas plantadas no referido quintal.

Toda a vida o meu pai não comia carne de coelho apesar dos castigos da Alzira pois em miúdo afeiçoava-se a eles e não podia vê-los no prato. Nesta altura a minha avó Francisca - que não conheci - e por quem o meu avô está de luto, que manteria toda a vida - já havia falecido.. Nesta foto falta o triciclo, que surge noutras. Tirando o meu avô Barroso, nunca ninguém na família pôs luto pela morte de familiares - o luto sempre foi e tem sido considerado pessoal, íntimo, não carecendo de exteriorização.

ELEGIA PELA MINHA FAMÍLIA DISPERSA

Meu avô António Barroso
sobrinho de Bispo
de S. Salvador do Congo e do Porto,
a quem puxaram as barbas nos alvores da República
filho de lavradores abastados de Barcelos
casado jovem
guarda livros num banco
passando noites somando
intermináveis colunas de cifras
e o dinheiro que faltava para tantos filhos.
Meu avô, quando jovem, tinha nas fotografias
um ar austero e severo
sempre de preto
viúvo.
Meu avô, já idoso
um ar jovem e sereno
um sorriso moço e tímido
uma fala mansa
um gesto amigo.
Minha avó, Francisca da Conceição, de Chaves
não conheci
casou mais velha
falava francês e tocava piano
alegre e generosa, dizem-me.
Minha avó trocou o convento pelo casamento
mas antes deixou os bens aos padres
das Oficinas de S. José,
Encontraram-se no Porto e muitos filhos tiveram
que não conheci senão minha mãe
e meu tio Zé Barroso
grandiloquente e folgazão
curioso e letrado.
Minhas tias Marias Almira e José
Meu tio Joaquim
estes só conheço das recordações da minha mãe
Meu avô Zé Ferreira
nascido em Mora
filho de comerciante ribatejano
Meu avô quimico-analista
alegre jovem despreocupado
que em menino me levava ao café
e de quem recebia o Pim Pam Pum e o Cavaleiro Andante.
Meu avô que eu adorava e amo.
Minha avó Alzira gorda e doméstica
no seu colo me refugiava quando
à janela o homem do saco aparecia
na Travessa da Carvalhosa.
Minha avó morreu era eu menino em Luanda
e meu pai chorou ao volante da carrinha.

Tiveram três filhos: Manuel Lili e Zé João.
Meu avô casou novamente
com a Alexandrina
e nasceram a Isabel e a Teresa
irmãs que não tive.
Meu bisavô centenário
que me teve no colo e conheço da fotografia
na cadeira do quintal sentado.
Meu tio Jorge, em S. Tomé
(não) conheci
em Évora companheiro de estróina do Zé Ferreira.
Minha tia Esperança. farmacêutica no Chiado
das primeiras mulheres na Universidade
minha amiga que não mais verei
partida em Janeiro de 84.
Minha tia Lili, modista em Paço de Arcos
minha confidente da juventude
minha amiga.
Meu tio Zé João, a calma em pessoa
hoje arquitecto em Chaves
tão longe
amigo da infância e da adolescência.
Meus tios não casaram
Apenas meus pais em Cedofeita se encontraram
e para Angola partiram.
Meu avô António viveu sempre na Rua dos Bragas
Meu avô que mandou fazer uma casa no Mindelo
perto da praia e de Vila do Conde
com um quarto para o neto quando o fosse visitar
a casa fechada e abandonada
porque morreu em tempo de Páscoa.
Meu avô Luís viveu com os filhos em muitas terras
até em Angola onde nasci.
Meu avô Barroso católico ferrenho
apóstolo ingénuo
mas que depois de Abril aceitava os comunistas.
Meu avô Luís agnóstico
livre pensador e tolerante
que não aceita os bolcheviques.
Meu avô Luís que não vejo senão tão espaçadamente.
Meus primos de Barcelos
o Manuel o Joaquim a Laurinda
a Deolinda a Celeste a Cândida
e tantos outros
tímidos uns
alegres rosados e folgazões outros
Meus primos espalhados pelo mundo
pelo Brasil Alemanha Venezuela e terras de França.

Minha família grande e dispersa 
conhecida e desconhecida
que a vida e a morte têm separado

Perdidos cada vez mais
na bruma dos tempos e da memória!

setúbal 1985.11.13
 —

terça-feira, 18 de novembro de 2014

nos arredores de Luanda



foto de família - luanda cerca de 1952 - esta carrinha Morris, creio que de cor creme, foi o 1º carro da família, contemporâneo do "jeep" cuja carroçaria o meu pai construiu no quintal, referido em post anterior- 


Na foto a paisagem árida e seca dos arredores de Luanda, onde proliferam imbondeiros, figueiras da índia, entre outras plantas xerófilas como os cactos candelabros ou similares aos do sisal, para além do capim, erva, verde apenas na estação "fria".

Na carrinha, por detrás da cabine, a característica grade onde a miúdagem se agarrava para viajar em pé na carroçaria, o vento acariciando o rosto. 

Devido ao clima e ao contrário do que vim encontrar em Portugal, as carrinhas eram de caixa aberta e não se chamavam camionetas. 

Atendendo à vestimenta, devera ser o "cacimbo", uma das únicas duas estações climáticas tropicais, esta caracterizada pelo "frio", seca, não pluviosa, do orvalho (cacimbo) e do nevoeiro. que à noite nos fazia sobre a camisa enfiar um casaco ou uma camisola. 

A outra estação, a das chuvas, não tinha nome, coincidindo com o ano lectivo em Portugal, a partir de 1952, qd passei da 1ª para a 2ª classe: 9 meses de calor infernal, elevada humidade relativa, torrenciais aguaceiros e terríficas trovoadas estrondosas e relampejantes, seguidas de sol e céu límpido. 

A chuva e as trovoadas eram quase sempre nocturnas e a forçada coincidência dos anos lectivos nas colónias a sul do Equador, e na "Metrópole", sacrificando milhares de estudantes, destinou-se a "proteger" sem "hiatos" lectivos a minoria muito minoritária capaz e com possibilidade de prosseguir estudos universitários em Portugal.

Em 1952 as viagens de barco entre Portugal e Angola duravam 12 dias e a partir de 1960 e tais reduziram-se para 8 dias. Quanto às viagens por avião eram de 12 horas (aviões a hélice, quadrimotores) no início da guerra colonial, reduzidas para 8 horas com os aviões a jacto. Contudo em 1963 ainda eram os quadrimotores a hélice e levámos 19 horas devido à proibição de voos portugueses sobre o espaço aéreo dos países africanos recém-independentes, devido à guerra colonial
.
Note-se que a rede escolar se ia afunilando desde a escola primária – abrangia essencialmente a minoria "branca" e não havia universidades nas colónias antes do início da guerra colonial em Angola, no início de 1961, potência colonizadora, como não poucos de nós, nascidos em Angola, paulatinamente, a passámos a considerar a partir de 1961,como se reflecte no meu poema "Raízes"

............."Maianga Maianga
.............Bairro antigo e popular
.............Da velha Luanda
.............Com palmeiras ao luar ..."

.............''A Praia do Bispo
.............Cheiinha de graça
.............De manha á noite
.............Sorri a quem passa ..."

............(das Marchas Populares em Luanda)

Longo era o bairro ao longo da marginal
Longo era o bairro do morro de S. Miguel ao morro da Samba
Grande era o bairro e grandes as casas
No meio o bairro operário e a igreja de S.Joaquim,
estreitas as ruas, pequenas as casas.

Nas traseiras, o morro,
no alto o Palácio,
Na frente a larga avenida,
o paredão, as palmeiras e os coqueiros
a praia que já não era do Bispo
mas das pedras, dos limos e dos detritos.

Mais além a ilha que era península
com a sanzala dos pescadores
casas de colmo no areal
da extensa e boa praia
o mar sem fim.

Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei

Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.

De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
....................a mentira
que alimenta
..................a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.

Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da esperança.

No Porto
Em Lisboa
Em Évora estudei
Em Évora casei
Em Évora vivi e nasceram o Rui e a Susana.

Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho

Perdidos os amigos,
perdida a infância
Estrangeiro ......sem raízes ......sou em Portugal.

Victor Nogueira

1989
 


  • Octávio Guedes Coelho Em 1959, comprei na SOREL (representante da Morris) o L-17000. um Morris igual, mas em automóvel, verde escuro, que tinha sido Taxi e tornara-se muito conhecido pela matricula 17000. Carro que tinha sido muito estimado, estava quase novo. Foi o meu primeiro carro a sério, depois de um "malvado" DODGE que só me deu despesa e acabou transformado em "pacaceira" para a caça. Abraço.

domingo, 16 de novembro de 2014

Luanda - as amigas e a miudagem

foto de família -Luanda - as amigas e a miudagem - 

na 1ª fila ao centro a minha mãe e à esquerda o escriba.e à direita não sei se será o caçula embora me pareça que nã.seja e talvez tenha ficado em casa por ser bébé. Na foto em pé a D. Noémia, a Beatriz (?), a Bia e a Laura, se os dois miúdos à direita forem a Elsa e O Waldemar. Mas se o miúdo da direita for um dos filhods da Beatriz, então será talvez o Ruca (Rui), que salvo erro morreu na guerra colonial, e assim não identifico a mocinha. Os miúdos à esquerda serão os outros filhos do Beatriz, um dos quais o Zeca (José). Com a morte da minha mãe foi-se a possibilidade de identificar muitas das fotos do seu espólio fotográfico.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

em luanda - bairro de s. paulo



Em S. Paulo da Assunção de LUANDA (este era o nome completo, tal como havia a Cidade do Santo Nome de Deus de MACAU, Não Há Outra Mais Leal) - foto MNS - 


Quando nasci os meus pais moravam na Rua Frederico Welwitsch, no Bairro do Maculusso. e daqui mudámos para outra vivenda, no Bairro de S. Paulo, lá onde a cidade do asfalto terminava na altura para imediatamente começar a empurrar a cidade vermelha (a cor do barro), a dos musseques, ainda mais para a periferia. Pouco tempo residimos aqui, de que tenho poucas memórias, até mudarmos para a Praia do Bispo, quando tinha 11/12 anos, para uma casa de função, essa sim que me marcou e ficava à beira mar, com o mar infindo defronte e para lá dele o Brasil, na outra margem.

O meu pai era um engenhocas. Aliás na caricatura do livro de curso ele aparece sentado a uma mesa com montes de construções de armar, desde aviões a casas. No quintal da Praia do Bispo construiu sucessivamente os 3 "gasolinas" (barcos com motor fora de borda) que tivemos; o 1º roubado, o 2º queimado inadveridamente no areal da praia e o 3º ficou lá depois da independencia. Este "jeep" também foi parcialmente contruído por ele, a partir do chassis que comprara: a carroçaria foi toda feita por ele e sob sua orientação.

Na foto, para além do escriba os seus irmão e mãe. Aqui ainda era miúdo, pois usava calções e suspensórios. O uso de calças e cinto significava a passagem a jovem e adulto. Esta regra não foi rígida para o meu irmão, cinco anos mais novo, que naturalmente "herdava" a minha roupa.


nesta foto, ainda na rua Frederico Welwitsch, vê-se o referido "jeep"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luanda - no parque florestal da ilha do Cabp



foto de Família - Luanda - Parque florestal da llha do Cabo 



Este parque florestal de acesso reservado tinha uma agradável praia, embora com alguns fundões, num dos quais ia morrendo afogado. Não sabendo nadar, em miúdo fui ao fundo várias vezes e qd pensava que já lá ficaria senti uma mão a agarrar-me o pulso, puxando-me para terra enquanto me dizia "Tiveste sorte, pois pensava que estavas a brincar." Com efeito, uma das brincadeiras de alguns miúdos era esbracejarem, fingindo que estavam a afogar-se. E assim fiquei algum tempo estendido no areal da praia, respirando em grandes haustos.

Na foto os meus pais e duas amigas da família. À esquerda a D. Alice Quaresma e à direita a D. Noémia Castelo. A D. Alice era viúva dum capitão do exército. Conseguiu ser aprovada no exame de condução automóvel, após imensas tentativas malogradas, e eu comentava que lha haviam concedido por antiguidade. No dia seguinte convidou a minha mãe para dar uma volta, mas deve ter pregado grandes sustos pois a minha mãe disse-nos que nunca mais sairia com ela ao volante. Já em Portugal, depois do 25 de Abril, a D. Alice comentava-me que não percebia como eu conseguia ler tantos jornais por dia, pois ela lia uma página e ficava cansada, que ler tanto me fazia mal à minha saúde.

A D. Noémia Castelo era das mais idosas no grupo de que a minha mãe fazia parte, conjuntamente com a minha madrinha Cristina Santos. A D. Noémia era uma pessoa muito alegre, casada com um engenheiro, salvo erro de máquinas, que se formara na Grã-Bretanha – o Jorge Castelo – uma figura notável pois era uma raridade em Luanda, sempre de calções e meias brancas até ao joelho, muito “british.” numa cidade onde os ingleses não exerciam influência cultural, mas sim a França, o Brasil e os EUA. Nessa altura havia um cine-teatro onde também havia sessões de ópera e de variedades, o Restauração, com restaurante-bar-dancing. Pois uma vez o porteiro tentou impedir a entrada do Engº Castelo, por este ir de de calções, traje considerado inapropriado. Enfim ...

Na roda de amigas havia rotativa e semanalmente um lanche na casa de cada uma, juntando também a criançada. O Engº Castelo era especialista em enormes bolos de gelatina, tremulizantes e multicoloridos. Viviam numa casa, na avenida Brito Godins onde se situava o Liceu Salvador Correia, com um grande quintal com criação e dois esqueletos completos e em tamanho natural no escritório, que eu ia ver às escondidas. 

Na semana do lanche em nossa casa era uma festa, a minha mãe com um arsenal de garrafinhas cada uma com seu corante ou gosto (essência) e nós a raparmos as formas dos bolos e dos biscoitos ou a comermos à sucapa o fiambre, com um sabor delicioso que já não lhe encontro.

Neste grupo algumas eram apenas domésticas, como a Bia, a Beatriz ou D. Noémia, outras exerciam uma profissão, como a Laura, a Maria Arnalda ou a minha mãe.

A convivência em Luanda era muito mais aberta e descomplicada, com grandes grupos em convívio aos fins-de-semana para a praia ou para as esplanadas na Ilha ou no Baleizão [casa onde se vendiamm hgelo e sorvetes, estes vendidos também pelas ruas em carrinhos ambulantes - "baleizão" fico a designação genérica dos ... sorvetes], bebendo cerveja [Cuca, Nocal], Coca-Cola [proibida em Portugal] ou refrigerantes [Canada Dry, Fanta .... ] acompanhados de camarões que eram fornecidos gratuitamente, (equivalentes dos tremoços que outrora acompanhavam as bebidas em Portugal) ou aos sábados à noite para o cinema ou às "boîtes" (que eram os salões de dança, de "dancing" e não de engate como sucede em Portugal).

E para terminar, uma descrição minha dum dia no Parque Florestal da Ilha do Cabo

1. - Parque Florestal da Ilha do Cabo (Luanda)

1963/64

Ouve-se o marulhar das águas. Além, um tractor. No mar [na baía] um barco evoluciona e as gaivotas mergulham pescando. Um barco de guerra entra na baía. É o F331. Uma criança chora. Provavelmente alguém desabafou a sua fúria sobre ela. Mas o ruído predominante é o do marulhar das ondas. A temperatura ideal seria a de agora. Ali os trabalhadores pousam as pás à sombra de um pinheiro. Lá longe, do outro lado, a chaminé da SECIL [fábrica cimenteira] deixou de lançar para a atmosfera o elegante penacho de fumo branco. Mas, será que está trovejando? Eis que uma breve aragem faz com que as folhas das palmeiras entrem nesta sinfonia da natureza. Não, aquilo deve ser um avião e não a trovoada. Mas parece estar sempre no mesmo sítio. Através dos pinheiros, naquela curva, divisa-se ainda o navio de guerra. Nesta sinfonia há instrumentos que não consigo identificar. Que paz, nada de yé-yés; só, completamente entregue à contemplação desta maravilha, sempre diferente, que é a natureza.

Os pescadores acabam de puxar o dongo [canoa, piroga] para a praia. O Zé come pão-de-ló. Hoje resolveu ocupar o meu lugar de comilão mor. Duas gaivotas, elegantes na sua alvura, passeiam à beira-mar. Aquele barco ancorado dança vagarosamente ao sabor das ondas. Gostaria de poder descrever isto tudo, não em prosa, não em verso, mas musicalmente.

Notas finais: lado negativo: moscas, praia suja, água fria. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

porto, na rua de cedofeita em 1937


foto de família - porto 1937 - ao centro, debaixo do chapéu, o pai do escriba (parece-me que a cena se situa na rua de Cedofeita)

domingo, 9 de novembro de 2014

oeiras - espreitando o Parque dos Poetas, em construção

* Victor Nogueira

Duas "circum-ñavegações"  em volta da 2ª fase (ainda em construção) do Parque dos Poetas, numa tarfe cinzenta, fria e de aguaceiros e noutra soalheira, de céu azul coalhado de núvens brancas.







































SOBRE O PARQUE DOS POETAS

sobre a 1ª fase do Parque dos Poetas ver 

entre oeiras e lisboa, na primavera

https://www.facebook.com/vicnog.na.rede/media_set?set=a.10200406860679474.1073741826.1394553665&type=3

também pode ver

Oeiras - O Parque dos Poetas, pelo meu tio Castro Ferreira

http://osabordolhar.blogspot.pt/2007/09/jj-castro-ferreira-2.html