Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Azulejaria (33) - Monumentos de Coimbra, por Elisa Fardilha

 * Victor Nogueira / Elisa Fardilha

Em Coimbra o olhar de Elisa Fardilha fixou os catorze painéis de azulejos realistas, em tons de azul cobalto, enquadrados por uma moldura branca, que na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes representam exemplares do património edificado conimbricense. Os painés situados defronte do Mercado D. Pedro V foram colocados em 1984 / 1986, num muro da Escola Jaime Cortesão, e são criação de Amilcar Matias, cabendo a sua execução á Fábrica da Viúva de Lamego.

Natural de Casais do Campo, Amílcar Matias estudou na Escola Avelar Brotero e exerceu ao longo de toda a sua vida a actividade de artista gráfico com extensa obra feita, que complementou com actividades criativas diversas no domínio da cerâmica, da ilustração e do cartaz. Também se dedicava com gosto à pintura que expôs por diversas ocasiões, nomeadamente na galeria do Primeiro de Janeiro, em Coimbra.» (Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, por Rogério Silva in https://costabrites.com/2010/03/19/os-paineis-de-azulejos-da-rua-olimpio-nicolau-rui-fernandes/)


Aqueduto de S. Sebastião (SÉC.XVI)

Arco de Almedina (Muralha Medieval)


Convento de Santo António dos Olivais (SÉC.XVIII)

 Igreja de Santa Cruz (SÉC.XII) Panteão Real


Igreja românica de de São Tiago (SÉC. XII)

 Claustro do Mosteiro de Celas ( SÉC.XIII)


Mosteiro de Santa Clara- A- Velha (SÉC. XIV)

Museu Machado de Castro (antigo Paço Episcopal)


Palácio de Sobre-Ribas ou Paço de Sub-Ripas (SÉC.XVI)

Fonte da Nogueira. na antiga cerca do Mosteiro de Santa Cruz /SÉC..XVII). Localiza-se no Parque de Santa Cruz ou Jardim da Sereia, que na verdade é um tritão.


Sé Nova (SÉC.XVI)

Sé Velha (SEC XIII)


Torre do Anto, antiga  Torre do Prior do Ameal, na nuralha medieval

Torre sineira ou da Cabra, na Universidade de Coimbra, antigo Paço Real

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Vista parcial dos painéis de azulejos na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes (Foto Paulo Abrantes - 2004)

VER «PAINÉIS DE MONUMENTOS DA CIDADE DE COIMBRA» in https://www.culturacentro.gov.pt/pt/museus/museu-virtual-de-arte-publica/coimbra/coimbra/paineis-de-monumentos-da-cidade-de-coimbra/

terça-feira, 13 de abril de 2021

Coimbra, em 1975

 * Victor Nogueira

Estas são fotos de passagens por Coimbra em 1975, retratando o claustro de Igreja de Santa Cruz, uma das estações ferroviárias e a casa do casal Boaventura de Freitas, com quem havíamos passado as Férias Grandes de 1962, na Caala (Huambo). As fotos no claustro da Igreja de Santa Cruz são de autoria de jj castro ferreira

«O primitivo edifício do mosteiro e igreja de Santa Cruz foi erguido entre 1132 e 1223, com projecto de mestre Roberto, conceituado artista do estilo românico, autor também das Sés (Velha) de Coimbra e de Lisboa. A sua escola foi uma das melhores instituições de ensino do Portugal medieval, notabilizando-se por sua vasta biblioteca (hoje na Biblioteca Pública Municipal do Porto) e seu activo "scriptorium".

A partir de 1507, o rei Manuel I de Portugal ordenou uma extensa reforma, reconstruindo e redecorando o mosteiro e a sua igreja. Nessa época foram transladados os restos mortais de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I dos seus primitivos sarcófagos para novos túmulos decorados em estilo manuelino.

Embora quase nada mais reste da fase românica do conjunto, a fachada da igreja era semelhante à da Sé Velha de Coimbra. Com a campanha de D. Manuel I, entre 1507 e 1513 a fachada ganhou duas torres laterais com pináculos e uma platibanda decorativa. Mais tarde, entre 1522 e 1526, foi erguido o portal cenográfico manuelino, hoje infelizmente muito erodido, obra de Diogo de Castilho e do francês Nicolau de Chanterenne.

A sala do capítulo, manuelina, construída por Diogo Boitaca entre 1507 e 1513, possui uma capela maneirista de São Teotónio, datada de cerca de 1588 e de autoria de Tomé Velho. Nessa capela se encontram os restos do fundador do mosteiro, canonizado já no século XII. Junto ao capítulo está o chamado "Claustro do Silêncio", obra de Marcos Pires construída entre 1517 e 1522, tendo abundante decoração manuelina. A fonte no centro é do século XVII.

Nas traseiras do mosteiro encontra-se o chamado Claustro da Manga, que fez parte do complexo mas hoje encontra-se isolado. Desse claustro só se preservou a fonte renascentista no centro, que consiste de um pequeno templo central com um lanternim, assente sobre oito colunas conectado a quatro pequenas capelas de tipo guarita com espelhos d'água ao redor. Todo o conjunto, construído na década de 1530 pelo francês João de Ruão, é de grande valor simbólico e artístico, sendo considerada a primeira arquitectónica inteiramente renascentista feita em Portugal.» (Wikipedia)



















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Coimbra 1976 08 - Estátua em bronze erguida em homenagem aos "Heróis do Ultramar", da autoria de Cabral Antunes, foi inaugurada a 10 de Junho de 1971, pela Câmara Municipal de Coimbra, e representa um soldado a empunhar uma arma e a transportar uma criança aos ombros. 




Estação Ferroviária


(foto MNS)



(foto MNS)


Coimbra - Sé Velha

Coimbra - Sé Velha

 * Victor Nogueira

«A Sé Velha de Coimbra é a única das catedrais portuguesas românicas da época da Reconquista a ter sobrevivido relativamente intacta até os nossos dias. O edifício actual data da segunda metade do século XII, com projecto do francês Mestre Roberto, que dirigia a construção da Sé de Lisboa na mesma época e visitava Coimbra periodicamente, seguindo a segunda fase do estilo românico coimbrão. 

O exterior é robusto, simétrico, com escassas aberturas e coroamento de ameias, com um portal decorado sob clara influência islâmica. Ainda no exterior, há que referir a “Porta Especiosa”, do mestre João de Ruão, com uma elegante decoração renascentista. Atribui-se o projecto da Sé românica a mestre Roberto, de possível origem francesa, Obras importantes ocorreram no século XVI, quando se decoraram as naves com azulejos, se construiu a Porta Especiosa no lado Norte e se modificou o absidíolo Sul, mas o essencial do edifício românico foi mantido. 

A aparência de fortaleza é comum às catedrais da época e explica-se pelo clima bélico da Reconquista. O interior é de três naves e cinco tramos, com o transepto pouco desenvolvido, sendo a cabeceira formada por uma abside e dois absidíolos. A cobertura é feita por abóbada de canhão na nave central e transepto, e por abóbada de aresta nas naves laterais. A nave principal tem um elegante trifório (galeria com arcadas) no segundo piso. No interior, destaque especial para o retábulo da capela-mor, em gótico flamejante, executado pelos escultores flamengos Olivier de Gand e Jean d'Ypres. 

De mencionar ainda o claustro, iniciado em 1218, a primeira experiência gótica em Portugal. No transepto encontra-se também uma pia baptismal gótico-renascentista (cerca de 1520-40), obra do português Diogo Pires o-Moço, originária da Igreja de São João de Almedina. A pia baptismal manuelina da Sé Velha encontra-se hoje na Sé Nova de Coimbra (antiga Igreja dos Jesuítas).O claustro, construído durante o reinado de Afonso II situa-se na transição para o gótico, encontrando-se no lado sul do templo. 

No século XVIII, após a expulsão dos Jesuítas, a sede episcopal foi transferida para a igreja do Colégio de Jesus na Alta da cidade, actualmente denominada Sé Nova de Coimbra. (Wikipedia)



Fachada principal

Lanternim visto da loggia quinhentista do antigo Paço Episcopal (actual Museu Machado de Castro)


Retábulo da capela-mor, obra de entalhadores flamengos (Olivier de Gand e Jean d'Ypres)

 Capela e retábulo do Santíssimo


Altar

Galeria superior com arcadas 


Pia baptismal do século XVI, de Diogo Pires, o Moço

Fotos em 2000

VER

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Coimbra e o Portugal dos Pequeninos

 * Victor Nogueira

Coimbra é para mim, vindo de Lisboa, uma comprida ponte passando ao lado do Convento de Santa Clara, semienterrado no lodo, e, lá no cimo, a torre sineira da Universidade, no local onde outras terras têm o castelo. Coimbra é também o rio Mondego reduzido muitas vezes a um miserável fio de água, e bancos de areia. Contornava-se a baixa, paravase -numa arborizada avenida à beira-rio para almoçar num dos restaurantes e raramente houve tempo para subir à Universidade, com um magnífico miradouro, para deambular pelo Choupal ou pela Lapa, celebrizados pelos fados coimbrões, ou para visitar o Portugal dos Pequeninos, reprodução em miniatura de casas tradicionais portuguesas, de monumentos ou os pavilhões com artesanato e artefactos das colónias e baseados na arquitectura destes territórios, ao tempo províncias ultramarinas, em manifestação típica imbuída dos valores do Estado Novo. (Notas de Viagem, 1997)





Fotos em 1988 Páscoa

domingo, 18 de outubro de 2020

Esperança Luís e a Farmácia Sanitas, em Lisboa, a long time ago

 * Victor Nogueira

Foto de família - até se reformar a minha tia-avó Esperança, farmacêutica, foi directora técnica da Farmácia Sanitas, em Lisboa, ao Camões. Na foto com a menina Conceição, a caixa. Lembro-me doutros empregados, como o António, ajudante de farmácia, e o senhor Liberato, mais idoso. Não me recordo se havia mais alguém para atender ao balcão, mas creio que sim, que havia mais uma outra pessoa para além da minha tia e do António. E não esqueço a empregada de balcão numa tabacaria daquele, largo, referida num escrito meu no exílio, em évoraburgomedieval. (1) O Senhor Liberato era coleccionista, não me recordo se de moedas, se de selos postais, tínhamos longas conversas e por vezes oferecia-me espécimes para as minhas incipientes colecções; muitas vezes estava ausente da farmácia, talvez por andar a distribuir as encomendas e a fazer outras diligências no exterior.. Naquele tempo os medicamentos não indicavam o prazo de validade, pelo que por vezes os juntava e depois a minha tia, na farmácia, separava-me o trigo do joio.


«Escrevo no antigo laboratório da Farmácia [Sanitas], no tempo em que as mezinhas eram manipuladas aqui nas traseiras. São cerca de 17:00 e os empregados tomam chazinho com bolos. (...) Ah! o chazinho é porque a minha tia Esperança faz... 71 anos.» (MCG - 1973.10.31)

A Farmácia tinha uma cave, onde havia um quartito para o empregado dormir nas noites em que estivesse aberta, de serviço. Creio que seria nessa cave que estaria o armazém de medicamentos, e era nela que a minha tia almoçava (pois morava em Paço d Arcos) e se lanchava. Acoplado à uma parede ainda estava, já sem préstimo, um telefone antiquíssimo, dos primitivos. A Farmácia pertencia ao Labotatório Sanitas, em Lisboa, um laboratório farmacêutico, sito na Rua D. João V.

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(1) (...) És a voz quente e cordial da Emília,

que de repente arrefece e desaparece.

És a Maureen, borboleta esvoaçante e carinhosa...

És a miudinha sorridente da papelaria do Chiado,

essa mesma, que tinha uma covinha no queixo. (...) (Évora, 1969.03.16)



em Carcavelos (foto jjcf )


em Carcavelos (foto MNS)



Coimbra (claustro da Sé Velha) -1974  (foto jj castro ferreira)

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

em Coimbra, entre Lisboa e Évora - 1974

 * Victor Nogueira



Porta Férrea


Foto Victor Nogueira - Em Coimbra - Seminário da Pro-UNEP - Carlos Fortuna e António Lobo da Silva (Tocas)


Foto Carlos Fortuna - Em Coimbra - Seminário da Pro-UNEP - António Lobo da Silva (Tocas) e Victor Nogueira

Em Lisboa

6ª feira passada fui ver uma exposição sobre o 57º aniversário da Revolução Russa. Para além dumas fotografias do Lenine e dos primeiros tempos da Revolução, as restantes representam múltiplos aspectos actuais da sociedade soviética. Intencionalmente ou não, por parte dos expositores, a ideia que ficou em mim foi "Afinal na Rússia é como aqui: as pessoas riem, brincam com os filhos, estão nas aulas ou nas fábricas, há carros nas ruas,... enfim." Mas a exposição é apenas fotográfica e, salvo um livrito de propaganda, não há mais elementos e estatísticas sobre a vida dos povos soviéticos e a sua evolução, bem como dos princípios que presidem à política económica e cultural soviética. (MCG - 1974.11.12)
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Pois ontem fomos almoçar à cantina da Associação de Estudantes de Economia e a páginas tantas uma voz forte silenciou o vozear das conversas e um MRPP começou a denúncia da "traição dos sociais fascistas" (PCP mais a pró UNEP) e da provocação que foi o arranque das placas que assinalavam o Largo Ribeiro dos Santos. (1) Ao fim de algum tempo a malta ligou à terra e continuou a conversar, mas o "MR" prosseguiu o seu arengar às massas e... pôs à votação uma moção de protesto e um comunicado (perante o desinteresse notório e ostensivo da maioria dos presentes na cantina). Entretanto MR's vendiam pelas mesas o "Luta Popular" e UNITÁRIOS (PCP) o "Avante". Quem vota contra? Quem se abstém? Quem vota a favor? (Sentado a um canto da cantina observo, mas não vejo qualquer braço levantar-se. De resto, a partir de certa altura, mal consigo perceber o que o MR lê ou comenta). Assim, muito surpreendido, ouço o tipo proclamar a aprovação com 4 abstenções e nenhum voto contra! Ah! Ah! Ah! Esta táctica é que eu não conhecia. Enfim... (Foi mais ou menos assim que se aprovou a Constituição de 1933) (MCG - 1974.10.11)

Em Coimbra

O fim de semana foi bastante ocupado em Coimbra, com o Encontro Nacional de Direcções Associativas, que totalizou cerca de 15 horas de reuniões. Agora é que me estou apercebendo que os congressistas não devem ter muito tempo para turismos, pouco ficando a conhecer do mundo que percorrem, do qual pouco mais devem ficar conhecendo que as salas de conferências e os quartos de hotel. Enfim... Mas, a meio de domingo, para espairecer, tirei uma escapadela da sala de reuniões para dar uma volta pela cidade universitária, constituída pelo antigo edifício, com a sua porta férrea e a torre sineira que outrora chamava os "meninos" para as aulas. 

Para além deste edifício antigo, em cujo pátio se encontra uma estátua de D. João II (ou será o III?) e donde se avista o vale verdejante onde corre o Mondego. Existem também novos edifícios, maciços, lineares e sem graça, ao bom estilo arquitectónico fascista [como no Campo Grande, em Lisboa] Neste aspecto Lisboa é mais airosa e a sua cidade universitária (incompleta) situa-se no meio de campos relvados e arborizados. Da cantina para a Cidade Universitária, percurso que fizemos algumas vezes durante o fim de semana, o acesso faz-se por uma enorme escadaria, tão custosa de subir que ao chegar quase ao cimo pouco havia para me faltar o ar ou as pernas se recusarem a subir. Creio que foi por esta escadaria que a GNR fez subir os seus cavalos, em perseguição dos estudantes, durante a greve académica de 1969. Não o teriam conseguido porque os estudantes deitaram lá de cima água com sabão, que fez a cavalaria bater com os ossos no chão. Tudo isto na sequência da inauguração dos novos edifícios da Universidade, durante a qual o Presidente da Associação Académica pediu a palavra em nome dos estudantes, que lhe não foi concedida pelo "Pai" Tomás e que abriu a época a uma feroz repressão contra os estudantes (...)

São cerca de 18 horas e há 1 [uma] que terminou a sessão inaugural do Seminário Sobre a Democratização do Ensino. [1974] Estou aqui num café (O Mandarim), meu velho conhecido, com a malta de Évora. Está frio e ameaçando chuva. Ficámos num lar de estudantes, ao cimo duma ladeira imensa. Perante a enormidade do tempo à minha frente - só logo às 22 horas há uma sessão de cinema sobre a campanha de alfabetização. Sinto-me aborrecido. Tenho que arranjar com que ocupar o tempo. Amanhã quero ver se vou à matinée ver um filme "A Estratégia da Aranha" [de Bertolucci]. (MCG - 1974.11.13)
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Aqui na esplanada do café Moçambique está frio e húmido e os meus sapatos parecem autênticos chafarizes. Lá dentro o ruído e o fumo não são convidativos. De resto este café, como um outro aqui ao lado, têm um cheiro esquisito, que não sei bem definir, talvez resultante do aglomerar de corpos. São 20:50 e daqui a pouco tenho de ir ao outro lado da praça apanhar o autocarro. (MCG - 1974.11.15)
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Por cá chove e as ruas chegam a ser autênticos rios, que os carros chapinham encharcando os transeuntes descuidados. Aqui para os lados onde paro mais - Universidade, Cantina e Teatro Gil Vicente - predomina a malta nova e não se vêm táxis. Pouco tenho visto da cidade, que me parece desgraciosa; sem harmonia estética, ao contrário do que sucede em Lisboa ou mesmo  Évora. Parece-me uma cidade incaracterística na traça dos seus edifícios e no delineado das suas ruas. Amanhã é o último dia do "Seminário Sobre a Democratização do Ensino", que hoje teve a presença do Ministro do Trabalho. Amanhã haverá um convívio. Sinto-me cansado: saio de manhã e só volto à noite. (MCG - 1974.11.16)


(...) Cá vou de regresso a Lisboa, num comboio cheio mas onde consegui arranjar um lugar sentado. Os meus companheiros de cabine dormem e um deles ressona beatificamente. Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra!!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler! (MCG - 1974.11.17)

Évora




No Instituto o Director [António da Silva, s.j.] anda nervoso e carrancudo. Comunica à Comissão Administrativa da Associação dos Estudantes que não autoriza a Reunião Geral de Alunos convocada para essa tarde, pretende que a [referida] Comissão nomeie outra Comissão, que deverá submeter à sanção da Direcção do Instituto. A Comissão discorda, o Director desdiz-se mas exige que lhe sejam comunicados os nomes, reservando-se o direito de vetá-los. A reunião realiza se, comparecendo 30 estudantes.

É aceite por maioria absoluta uma moção minha: "Escolher uma Comissão que terá como finalidade detectar junto dos estudantes dos problemas que os afectam enquanto estudantes., o modo de resolvê-los bem como à sua atitude face à Associação dos Estudantes. (...) (MCG - 1974.04.26)
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Fui hoje ao ISESE: aquela malta anda pelos cantos, perguntando uns aos outros (e alguns a mim): "Então, que vamos fazer?" (MCG - 1974.09.02)

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Passo pelas ruas de Évora, debaixo dos arcos [arcadas]. As pessoas cruzam se comigo e do café vêm o vozear e algumas gargalhadas, que extravasam para as ruas, agora cheias de papéis rasgados e com as paredes pintalgadas de cartazes. Évora, a cidade limpinha onde não se viam outrora cartazes, salvo os da ANP [2) em tempos de farsa eleitoral


No ISESE o piquete (3) saúda-me calorosamente à minha entrada e, após algumas piadolas - por causa da pró-UNEP (4) - retomam o jogo das cartas. As casas de banho cheiram a ácido úrico. Puseram sofás num corredor do r/c e aí dormem os do piquete. Que os jesuítas consideram ilegal e abusivo. Pela paredes e bancos, o "Revolução", do PRP-BR, o "Luta Popular", do MRPP e comunicados e cartazes do MES e da Associação Portugal China. O ISESE é um reduto anti PC. Para muitos, creio que parece bem e está na moda! (4) (MCG - 1974.11.25/26)
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Assinatura da acta de desocupação, subscrita pelos representantes da Associação dos Estudantes, da Fundação Eugénio de Almeida e da Direcção do ISESE

O ISESE foi desocupado às 14:30, por decisão do Plenário de Estudantes. [Os jesuítas] vistoriaram o edifício, que foi achado em bom estado de conservação, apesar de não sei quantas lâmpadas fundidas, dum interruptor partido dum quebra luz partido - 15 contos (resultado duma bola mais alta) e duma poltrona combalida. (...) Nas instalações da Associação dos Estudantes foi assinada a acta de desocupação, depois de mais discussão sobre os termos [da mesma] (1974.12.26)
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Chove, nesta tarde de inverno. Rápido, o matraquear da máquina deixa atrás de si um rasto de letras. O céu está cinzento, a soleira da porta alagada. Ouvem-se as bátegas da chuva no lajedo da calçada, enquanto o Olímpio e outro camarada assobiam, por entre o tac-tac ensurdecedor que atroa a sala da Associação dos Estudantes. (...) Entretanto o ambiente aquece aqui na sala com o "revolucionarismo" do Carrageta, que quer destruir - verbalmente - o poder burguês! Rajadas de palavras cruzam o ar, por causa do colectivismo e da anarquia! (...) Bem, vou tomar ar para outra freguesia: ler o jornal, lanchar e espairecer. 

O Carrageta continua ao ataque, contra a escola burguesa, contra os professores, pela escola anarquista, com intervenções verdadeiramente revolucionárias, que não devam nada à burguesia e à sociedade de consumo. "Destruamos a civilização, contra os autoritários que não querem destruir as instituições mas reformá-las. A prática quotidiana dirá o que surgirá dos escombros das instituições burguesas destruídas pelos anti-autoritários." Terminada a "Revolução Carragetiana", há um intervalo para um bagacinho. Mas o bar está fechado e o Carrageta sobe ao balcão e num brilhante improviso convoca os presentes para se juntarem à classe operária pela destruição do capitalismo com a Manuela a fornecer as balas para a G 3, porque "a Revolução não está no verbalismo pequeno-burguês mas na ponta duma espingarda". O ambiente aquece à medida que se aproxima a hora da revolução, perdão,... da avaliação. (MCG - 1975.02.08).


ISESE - Proclamação aprovada em RGA (Reunião Geral de Alunos)  de 3 de Maio de 1974

 


Os estudantes do Instituto Superior Económico e Social de Évora   reunidos em 3 de Maio de 1974, saúdam todos quantos, sobretudo na clandestinidade e  com risco da sua segurança e bem-estar, têm lutado contra todas as formas de repressão e violação dos Direitos Humanos em sociedade, nomeadamente a partir da instauração da ditadura fascista em Portugal.

 

Incluem nesta saudação o Movimento das Forças Armadas

 

Na sequência lógica das Declarações Universais dos Direitos Humanos e da Doutrina Social da Igreja;

 

Considerando os poderes discricionários da Direcção do ISESE, exclusivamente formada por membros da Companhia Portuguesa de Jesus e dela directa e exclusivamente dependentes,

 

REIVINDICAM

 

- o direito de participação na gestão do ISESE.

 

DECLARAM que o direito de participação na gestão do ISESE implica:

 

- o reconhecimento imediato dum Conselho de Estudantes (cuja constituição será objecto duma próxima RGA)

-  a liberdade de expressão do pensamento e na procura da verdade, o que implica a abolição do ensino dogmático e magistral;

- o reconhecimento imediato do direito de participação na constituição dos júris de exame;

- a liberdade de comparência às aulas, o que implica a abolição imediata do regime de faltas;

- a liberdade de reunião nas instalações do ISESE.

 

RECONHECEM aos empregados o direito de participação e decisão na resolução dos próprios assuntos.

 

SAÚDAM todos os professores do ISESE que de  forma inequívoca e expressa adiram ao conteúdo da presente Proclamação.

 

PROCLAMAM que prosseguirão na sua luta contra todos quantos, de qualquer modo, se oponham às declarações e reivindicações da presente Proclamação

 

Évora, 3 de Maio de 1974


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NOTAS

(1) - Houve na altura uma grande controvérsia pois a Câmara de Lisboa de então não concordava com o baptismo do Largo, ali para Santos e perto de Económicas, como se dará notícia mais adiante. (1998.Maio)
(2) - Acção Nacional Popular, partido único legal, que sucedeu à UN - União Nacional, após a substituição de Oliveira Salazar por Marcelo Caetano na Presidência do Conselho de Ministros anterior ao 25 de Abril.
(3) - O ISESE (Instituto Superior Económico e Social de Évora) fora ocupado pelos estudantes, na sequência de desacordos com a direcção da Companhia Portuguesa de Jesus, vulgo Jesuítas, detentora do alvará.
(3)  - pró União Nacional dos Estudantes Portugueses, organismo criado após o 25 de Abril, conotada com o Partido Comunista Português.
(4) - MES - Movimento de Esquerda Socialista, MRPP - Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, PC - Partido Comunista Português, PRP-BR - Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias.
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Direcções da Associação dos Estudantes do ISESE

1969/70
José Inácio Leão Varela (Pesidente)
Victor Manuel Barroso Nogueira da Silva (Vice-Presidente)
José António Primo Carrapiço (Tesoureiro)
Maria Elsa Pinto Bastos Pereira Capinha (Secretário)
António Viegas Ferreira de Carvalho (Vogal)
 
1970/71
António Viegas Ferreira de Carvalho (Presidente)
Maria Isabel Bello de Serpa Pimentel (Vice-Presidente)
Francisco Manuel Lopes Figueira (Tesoureiro)
Victor Manuel Barroso Nogueira da Silva (Secretário)
António Custódio Biscaia (Vogal) 
 
Em 1971/72 nenhuma lista se apresentou a eleições para os Corpos Gerentes da AE, pelo que a partir deste ano lectivo e até 26 de Abril de 1974 e por falta de candidaturas a Associação de Estudantes foi gerida por Comissões Administrativas nomeadas pela Direcção do ISESE.

Em 1973/74 a malta dos três primeiros anos resolveu retomar a associação através de eleições e pressionavam-me para que encabeçasse a lista.
 
Realizávamos então reuniões clandestinas numa sala das traseiras do Café Parque, junto à Praça de Touros, para preparar o processo eleitoral e programa da lista. Dos "conspiradores" lembro-me que também faziam parte o Tó Veladas, o Carrageta, o Manuel Gonçalves, o João Garcia e creio que a Maria Antónia, entre outros. Entretanto aconteceu o 25 de Abril e em Plenário Geral de Estudantes realizado a 26 de Abril de 1974 estes elegeram uma I Comissão Coordenadora das Actividades da AEISESE, constituída por representantes de cada um dos anos, malogrando a tentativa da Direcção do ISESE impor uma nova Comissão Administrativa. 

Esta I Comissão Coordenadora era constituída por:
 
Victor Manuel Barroso Nogueira da Silva (5º ano) - Coordenação e Contactos com o Movimento Associativo Estudantil e outras entidades, incluindo os partidos e forças políticas
João Luís Garcia (3º ano)
Luís José Pereira Carmelo (2º ano)
Manuel Cunha Rego (4º ano), posteriormente substituído por Diamantino Pardal Ribeiro
José Maria Simões Ribeiro (1º ano) - Tesouraria
Faria Monteiro (1º ano) - Tesouraria
 
Esta Comissão Coordenadora esteve em funções até 23 Maio de 1974, data em que a RGA (Reunião Geral de Alunos) ratificou o pedido de demissão de Vitor Nogueira, João Garcia e Luís Carmelo, sendo eleita nova Comissão Coordenadora
 
Comissão de Redacção que assessorava a I Com Coord.

Carlos Fortuna (3º ano) - coordenação
Manuel Gonçalves (2º ano)
José Soares (3º ano)
Penha (2º ano)
Quintas (1 ano)
Carlos Cadavez (1º ano)
Eugénio (2º ano)
 
 
II Comissão Coordenadora (Provisória)
Ana Paula Cruz
Diamantino Pardal Ribeiro
Fernando Cruz
Jorge Figueira
Luís Penha (2º ano)
Manuel Gonçalves (2º ano)
Osvaldo Régua
Victor Manuel Barroso Nogueira da Silva (5º ano) - Cordenação e Contactos com o Movimento Associativo Estudantil e outras entidades, incluindo os partidos e forças políticas

 
III Comissão Coordenadora
Capitão Alves
Miguel Bacelar
António Valadas (?)
Joaquim Grave Ramalho (?)
 
Victor Manuel Barroso Nogueira da Silva (5º ano) não aceitou fazer parte da III CC mas continuou delegado da AEISESE às RIA's (Reuniões Inter-Associações de Estudantes), pró-UNEP (União Nacional dos Estudantes Portugueses) e co-responsável pelos contactos com outras entidades e ligação aos Partidos Políticos.
 
A Associação dos Estudantes do ISESE cessou a sua existência em Dezembro de 1974, por força da suspensão das actividades do ISESE então decidida pelos detentores do alvará de funcionamento deste, a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, com integração dos estudantes na então criada Escola Superior de Estudos Económicos e Sociais  Bento Jesus Caraça.