Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Azulejaria civil em Setúbal 07 - vivenda N. Sra do Carmo

* Victor Nogueira

Esta vivenda relativamente modesta em superfície de implantação. situa-se numa área então nobre no processo de expansão da cidade para Norte e para lá da muralha medieval iniciado pela burguesia no início do século XX, com a edificação do Bairro Salgado, de malha ortogonal. Nas fachadas o seu proprietário, armador de pesca e presumivelmente industrial conserveiro, pretendeu registar para a posteridade não só a sua religiosidade mas também o seu retrato de corpo inteiro, e de familiares, mulheres representadas apenas pelo busto, provávekmente a esposa e a filha, para além das suas embarcações, base do seu poder económico. Nada disto sucede nas "profanas" vivendas da Rua Garcia Peres 36 e da Avenida dos Combatentes)  Note-se que nesta do Carmo, ao contrário das anteriores, para aproveitameto do espaço cénico, a  entrada para dentro de casa é lateral mas é na esquina que se registam as marcas que o primitivo proprietário pretendia transmitir na altura e para a posteridade. Qualquer destas três vivendas possuía garagem, presumivelmente para arrecadação do automóvel, um bem na altura apenas ao alcance das bolsas mais abasttadas, Uma vez mais, sic transit, gloria mundi.


fotos anteriores a 2015
















fotos em 2017.08.14

fachada da Avenida Dr Manuel de Arriaga








fachada da Rua Alferes Pinto Vidigal








Google Earth - vivenda na esquina da Avenida Dr Manuel de Arriaga com a Rua Alferes Pinto Vidigal



Maquete (executada por José Gregório) da vivenda dum industrial conserveiro, em acelerada degradação, situada na esquina da Rua Dr. Manuel de Arriaga com a Rua Alferes Pinto Vidigal, paredes meias com o Bairro Salgado, onde residiam os industriais abonados e se conservam ainda algumas casas de estilo "Arte-Nova" e de "Casa Portuguesa", de Raúl Lino. Na vivenda da maquete os painéis de azulejos representariam, penso, o industrial e a esposa, para além dum barco.



terça-feira, 25 de outubro de 2016

sic transit gloria mundi - a vivenda N. Senhora do Carmo, em Setúbal


* Victor Nogueira
(texto e fotos)

Este é um dos edifícios em ruína e condenados ao camartelo, tal como a vivenda na Av. dos Combatentes, ambos do estilo "Casa Portuguesa" do arquitecto Raúl Lino, autor dos projectos dos Paços do Concelho e do degradado e vandalizado Palácio da Comenda. Ao camartelo não escapou a Vila Maria (na Cachofarra) e estarão também condenados o Palácio Feu Guião e o Palácio dos Cabedos, tendo sido poupado o mirante situado no entroncamento da avenida Antero de Quental com a estrada dos Ciprestes. integrado no Parque Urbano da Várzea. Este mirante é possivelmente  um dos primeiros exemplares em betão armado, feito em Portugal. Mas voltemos à Vivenda de N Sra do Carmo, de que a seguir se reproduzem fotos de maquete existente no Museu  do Trabalho Michel Giacometti, executada por José Gregório.







Vivenda N. Sra do Carmo - Maquete executada por José Gregório

A Vivenda N. Sra do Carmo possuía um solário ou varanda envidraçada e garagem, mas não era, pela sua dimensão, uma das mais faustosas. Contudo o seu proprietário marcou/ostentou nela e publicamente a sua posição, com painéis de azulejos reproduzindo a sua figura (em corpo inteiro), a a da esposa (busto) e barcos, para além da reprodução de imagem de N. Sra do Carmo. Tal como escrevi a propósito de outro edifício: Sic transit gloria mundi e o Palácio dos Arciprestes 
















fotos tiradas em 2016.06.17

ADENDA
 - outros exemplares  da "Casa Portuguesa", em Setúbal  (1)


Bairro Salgado - Rua Garcia Perez, 36



Vivenda na esquina da Avenida dos Combatentes com a Rua Dr. Aníbal Álvares da Silva


(1) Fotos retiradas de  TIPOS DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO: UM EXEMPLO PORTUGUÊS, por Luísa Silva,  in http://www.ipernity.com/blog/271077/453693

sábado, 25 de junho de 2016

no museu do trabalho michel giacometti em setúbal

* Victor Nogueira
(texto e fotos)

O Museu do Trabalho Michel Giacometti, instalado na antiga Fábrica Conserveira Perienes, foi constituído a partir do espólio etnográfico (objectos agrícolas e do quotidiano) recolhido no Serviço Cívico Estudantil  em 1975, tendo presentemente três exposiçõees permanentes: "A Indústria Conserveira (Da lota à lata)", "Mundo Rural – Coleção Etnográfica Michel Giacometti e a Génese do Museu" e "Mercearia Liberdade – Um património a salvaguardar", para além de exposições temporárias e de ser palco de eventos culturais. O Museu do Trabalho Michel Giacometti é um museu municipal, sediado em Setúbal criado em 1987 e inaugurado em 1995. 

Michel Giacometti (1929 - 1990) foi um etnomusicólogo corso radicado em Portugal.  Fundou os Arquivos Sonoros Portugueses em 19.60. Percorreu o país nas décadas seguintes, até 1982, tendo gravado cantores e músicas tradicionais que o povo cantava no seu quotidiano. Com Fernando Lopes Graça lançou a "Antologia da Música Regional Portuguesa",  De 1970 a 1973 apresentou na RTP  o programa "Povo que Canta". Também com a colaboração de Lopes Graça publicou em 1981 o "Cancioneiro Popular Português"





Mercearia da Liberdade



(Esta mercearia situava-se em Lisboa, na Avenida da Liberdade)

















Secção Etnográfica













Da lota à lata (indústria conserveira)










Maquete (executada por José Gregório) da vivenda dum industrial conserveiro, em acelerada degradação, situada na esquina da Rua Dr. Manuel de Arriaga com a Rua Alferes Pinto Vidigal, paredes meias com o Bairro Salgado, onde residiam os industriais abonados e se conservam ainda algumas casas de estilo "Arte-Nova" e de "Casa Portuguesa", de Raúl Lino. Na vivenda da maquete os painéis de azulejos representariam, penso, o industrial e a esposa, para além dum barco.


Maquete (executada por José Gregório) duma habitação operária. A esmagadora maioria do operariado não vivia nem nos Bairros da Fundação Salazar ou Maria Baptista (do industrial António Baptista Pereira) ou na Vila Maria, mas sim em condições insalubres em bairros degradados como o Mal-Talhado, Casal das Figueiras, Cova do Canastro, Dias ou Monaquina. Exceptuava-se a "aristocracia" operária dos soldadores, que moravam no Bairro Santos Nicolau.





Maquete da Fábrica Perienes, executada por José Gregório















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Fotos Victor Nogueira - cerca de 1986 - Setúbal - Museu do Trabalho Michel Giacometti (na antiga Fábrica Conserveira Perienes) 



[rectificação - as fotos refere-se a duas dum conjunto de exposições organizadas pela Câmara Municipal de Setúbal com peças que viriam a integrar o futuro Museu do Trabalho, inaugurado apenas anos depois]



O Museu contém parte do espólio recolhido pelo etnógrafo que lhe dá o nome, para além de reproduzir uma fábrica de conservas de peixe, de que a cidade foi um importante centro fabril até ao 25 de Abril, com as operárias trabalhando apenas quando o peixe era descarregado no porto, com salários de miséria e sem regalias. Baseadas essencialmente no trabalho manual e não mecanizado, opressivo e repressivo, a maioria faliu a seguir ao 25 de Abril. Na foto representação do homem que ia pelas ruas dos bairros de lata avisando que as operárias deveriam apresentar-se no local de trabalho, fosse dia ou fosse madrugada.



O espólio do Museu recolhe também alfaias agrícolas e instrumentos de ofícios tradicionais e uma loja tradicional, proveniente de Lisboa. A sua reserva tem o espólio duma chapelaria tradicional da cidade, entretanto encerrada. 



Na 1ª foto vê-se um troço da rua Camilo Castelo Branco que ia desembocar no Bairro das Fontainhas e a uma das docas. Nesta rua existiam várias fábricas, todas demolidas excepto uma, em abandono. 

Algumas poucas fábricas foram reconvertidas, sobretudo para armazéns, na zona oriental da cidade.