Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 18 de julho de 2016

De novo na Estação arqueológica da Comenda

* Victor Nogueira


Desta vez é maré vazia e a Ribeira da Ajuda é um leito de pedras e areal castanho com pequenas lagunas ligadas por um estreito curso de água. Sigo pela margem esquerda para nova sessão fotográfica às ruínas romanas, seguido posteriormente até à embocadura com o Rio Sado, também cantado como "rio azul", com se fosse o único, como dizem Mário Regalado (música) e Mário Ragalado (poema) na canção popularizada por Xico da Cana e seu Conjunto: "Onde é que existe um rio azul igual ao meu /  Em certos dias tem a mesma cor do céu.", um pouco como se o Sado fosse o "rio da minha aldeia", de que fala Alberto Caeiro:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia (...)" (http://arquivopessoa.net/textos/3555)

Com efeito nas minhas deambulações tenho encontrado outros "rio azul", como o Tejo mas não só. Na foz da Ribeira da Ajuda "guarda-sóis" resguardam da canícula os raros veraneantes desta 2ª feira, alguns dos quais se banham nas cálidas águas agitadas por um leve ondear da brisa refrescante.



















Duma visita anterior se fala em a ribeira da ajuda e o complexo romano da Comenda 

(http://kantophotomatico.blogspot.pt/2016/05/a-ribeira-da-ajuda-e-o-complexo-romano.html)



terça-feira, 10 de maio de 2016

a ribeira da ajuda e o complexo romano da Comenda

* Victor Nogueira

A tarde está soalheira, o céu azul com núvens brancas mas a brisa é fria e desagradável. O objectivo é o sítio arqueológico da Comenda, nas margens da ribeira da Ajuda, com o palacete como marca de água em realce. É maré cheia, o leito da ribeira é um lençol de água barrenta que a força da  maré enchente ou preia-mar faz refluir para montante. em ondas de espuma branca e rendilhada, de som fragoso. É impossível chegar às ruínas pelo areal e sigo por um trilho mais acima e paralelo à margem, pelo meio da vegetação luxuriante, ao longo do qual há as marcas de paseantes pouco cuidadosos: pedras onde acenderam fogueiras para cozinhar, garrafas de água ou cerveja, entre outros detritos. Numa das árvores uma corda terá servido de baloiço improvisado a crianças. 

Nada mais encontro senão o que na margem vi e prossigo até à foz, com as águas galgando em espuma por cima do murete que protege o que resta das ruínas, praticamente desaparecidas com a acção erosiva das marés e a depredação humana.  Este estabelecimento romano, revelara  a existência de estruturas de um balneário e de tanques de salga de peixe (cetárias) datando dos sécs. I e V d. C. 

Prossigo pois pelo trilho até à foz e ao  sopé do promontório no cimo do qual se encontra o palacete de Raul Lino, sobranceiro ao areal e às águas do rio Sado, com a península de Troia no horizonte Naquele lugar solitário um casal jovem fotografa. Regresso por outro trilho, cruzo-me com jovens que vão até à praia, atravesso a ponte sobre a ribeira e um  grupo de jovens armados de canas de pesca dirige-se para o Sado. 

O Parque de Merendas está deserto, algo degradado, a casa do Guarda é quase uma barraca de bairro de lata e apenas um café abarracado está aberto e sem freguesia nesta tarde primaveril.

Regresso a Setúbal em busca do Casal da Ajuda, vislumbro um cruzeiro para lá dos pilares dum portão, mas uma rede impede o acesso e já não estou em idade de acrobacias, especialmente cirandando  sózinho. Tentarei aceder às ru´nas da Igreja pela praia, quando a maré estiver baixa.

Á estação romana referem-se entre outros os arqueólogos Victor dos Santos Gonçalves (cerca de 1963) e Carlos Tavares da Silva  Deste último transcrevo o que escreveu em 2002:

"Aqui, entre o parque de merendas e a foz da ribeira da Ajuda, no talude sobranceiro a este curso de água, afloram numerosos vestígios da época romana, de que se destacam estruturas pertencentes a um balneário e a oficinas de produção de salgas de peixe. Esta ocupação humana constituía um dos núcleos do extenso complexo urbano-industrial que funcionou entre os séculos I e V d.C. na região do Baixo Sado. O que foi talvez o mais importante centro de produção de conservas de peixe do mundo romano ocidental possuía, além das fábricas de preparados piscícolas de Tróia e Setúbal – os dois aglomerados principais –, outros núcleos fabris de menores dimensões, como os da Comenda, Rasca e Creiro.

Ora, a estação arqueológica da Comenda tem vindo a ser destruída pela erosão fluvio-marinha. Todos os anos, principalmente durante o Inverno, as águas da ribeira da Ajuda e do estuário do Sado provocam o recuo do talude onde afloram as construções romanas que, deste modo, vão sendo desmanteladas. Contudo, um simples quebra-mar, com algumas dezenas de metros, seria suficiente para inverter este processo.

Hoje, ao contrário do que escrevi, algumas semanas atrás, sobre o sítio da Comenda, ouso sugerir que este arqueossítio, potenciado por um enquadramento paisagístico de excepção, seja objecto de um programa de escavações, estudo e recuperação, enquanto vertente de um plano de desenvolvimento turístico-cultural, como se espera de uma gestão territorial esclarecida e moderna." (in http://fotografiadejoaopalmela.blogs.sapo.pt/a-comenda-406895)

Os vídeos que fiz são demasiado "pesados" para poderem ser aqui publicados.




A Península e Complexo Turístico de Tróia no horizonte


Setúbal ao fundo, vendo-se as duas chaminés da Central Termo-Eléctrica



Setúbal ao fundo, vendo-se a estação elevatória da Belavista












Parque das Merendas






ruínas do sítio romano










Península de Tróia no horizonte












vestígio de fogueiras






porta do palacete da Comenda


Casal da Ajuda (?)