Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Murais 11 - Para entender grafite, pichação e linguagem das ruas

 

O grafiteiro que foi pra dentro da galeria é menos grafiteiro? O pichador é artista?

Projeto Lupa

Entrevistas e perfis


No segundo grau, Pedro Russi desenhava nos bancos da escola e nas paredes. Caminhava pelas ruas de Montevidéu - ele é uruguaio - anotando em um caderno as frases interessantes que via. Na universidade, adotou a lata de spray em percursos noturnos para grafitar. Nesta época, estudou Medicina, que abandonou para se dedicar ao teatro de rua - uma outra forma de interagir com o espaço urbano - e depois formou-se em Pedagogia. Já no Brasil, cursou mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação.O caderno que usava para coletar o pensamento das ruas acabou virando material de estudo na pós-graduação.

“Claro que não sabia que isso iria se configurar em um diário de campo, porque não era esse o interesse, mas foi o resgate dessa forma de realocar a cidade e entender que ela não é apenas o ‘algo’ rua, a estrada , a ponte. A cidade é a vivência que a gente tem neste espaço.”

Da pesquisa saíram os livros Paredes que falam: as pichações como comunicações alternativas e Grafitis - trazos de imaginación y espacios de encuentros (publicado apenas em espanhol).

“Eu não escolhi o tema por ser legal. Os diferentes tipos de intervenção urbana - seja a pichação ou grafite, a feira, o teatro de rua, o fato de como eu observo as praças, a forma como as pessoas se apropriam dos lugares, como vão reconfigurando, como vão fazendo releituras - é algo que eu vivencio.”

Hoje, Pedro Russi é coordenador do curso de Comunicação na UnB. E acredita que a atitude subversiva de “pichador” se mantém ao provocar os estudantes a não se acomodarem a um sistema. “Às vezes um estudante brinca e fala: ‘Professor, você não mostra o caminho das pedras’. Eu digo: ‘Eu nunca vou mostrar o caminho das pedras, e ainda vou te jogar pedras no teu caminho’. Eu acho que essa é a função também da universidade”, destaca. Ao Projeto Lupa, ele fala sobre grafite, pichação e a linguagem das ruas.

***

Lupa: Qual a diferença conceitual entre grafite e pichação?

Pedro: O Brasil é um dos lugares onde tem mais força a distinção entre pichação e grafite. Vou primeiro fazer uma distinção mais “de dicionário”. O grafite seria aquilo mais relacionado à arte, mais relacionado ao desenho, que tem uma história mais relacionada ao que seria o Hip Hop, uma vertente que a gente chama de uma vertente mais americana, dos Estados Unidos. Eu discordo disso, mas estou simplesmente fazendo um esclarecimento de definição. 

A pichação seria aquele risco, aquela coisa que vai tentar brincar com a altura [quem picha mais alto]. Traz certos tipos de letras, formatos, cores, tipo de traço e velocidade na escrita. E a pichação, aqui do Brasil, teria essa característica mais do que é negativo, mais da poluição, eu brinco, mais de “atos de doença”. O pessoal coloca a pichação como uma doença que tem que ser exterminada e tem que ser extirpada. Essa distinção aqui no Brasil é uma distinção que faz um reflexo de classe.

O picho é mais marginal, o picho é mais de uma classe social determinada e o grafite está numa outra classe social, numa elite. Tanto que quando a gente dialoga com o pessoal que está no grafite, na pichação, tende a haver uma distinção: ‘Eu sou grafiteiro, não sou pichador’.Não importa que haja diversas outras situações ocorrendo na cidade. Podem ter mil, quatro mil pessoas morando na rua, mas parece que só a pichação é o que suja a cidade.

Então, tem essa questão de extirpar essas marcas. A gente observa quando uma pessoa apaga uma pichação e deixa tipo um curativo, né? Uma coisa que é, como que extirpar um câncer. Tem uma questão de higienização aí: a pichação é suja, a pichação tem que ser higienizada. Então essas duas definições, o grafite como mais relacionado à arte, à uma expressão artística, e a pichação a um ato de doença, um ato sujo, a um ato de alguém que está fora de um sistema, cria no Brasil essa definição.



Lisboa, 2013. Foto: Emília Silberstein


NY, 2014. Foto: Emília Silberstei

L: E em outros países, como é?

P: Em outros lugares essa diferenciação não acontece tanto. Não existe essa necessidade de dizer “eu sou um grafiteiro que escreve” e “eu sou um grafiteiro que desenha”. Basta dizer  “eu sou grafiteiro”. Ponto. Não tem tanto essa de diferenciar grafite e pichação. Então isso também é interessante. Coloca esse sujeito num âmbito de uma relação social, num outro patamar.

L: E como é que essas duas vertentes conversam na rua?

P: A pichação e o grafite, segundo essa lógica em que se pretende “separar” as duas vertentes, dialogam e, quando se fala dialogar, é no sentido de que eles estão em interação no espaço urbano. Porque não são simplesmente coisas, são ações. É o mesmo que num ônibus. Num ônibus você está com outro sujeito, mas quando o outro sujeito começa a falar mais alto, ou grita com você, você tem reações, ou você observa que até tem alguém que está roubando outro, ou que está xingando o outro.

É interessante porque às vezes o pessoal não observa que essa pintura na parede, seja ela qual for, estabelece um diálogo. E como todo diálogo e como toda interação, ela tem seus conflitos. E tem vários conflitos. Então, tem momento em que, por exemplo, um desenho de um grafite é provocado por uma pichação; e às vezes uma pichação é provocada por um grafite. E às vezes também tanto uma pichação quanto um grafite são provocados por um cartaz colocado em cima que oferece um serviço de churrasco. Às vezes o pessoal quer normalizar e normatizar e criar situações que não acontecem na própria interação humana. Porque o grafite e a pichação são interações humanas.

L: É só mais um aspecto da sociedade, no fim das contas?

P: Sim. A pichação e o grafite estão em interação. Às vezes o pessoal quer colocar um grafite e diz: “Não, não pode ser tocado”. É como dizer: “Eu posso falar e ninguém pode opinar sobre o que eu estou falando”. Então o que acontece? O pessoal quer colocar normas e éticas em um aspecto em que a gente não colocaria num outro contexto. Aí aparece uma questão de território, aí aparece uma questão de grupo, aí aparecem várias questões. E às vezes a gente quer colocar normas éticas que são inventadas por um processo de domesticação. Tudo tem que ter seu lugar, tudo tem que estar em algum lugar.

L: E quando esse lugar é a rua, as regras mudam um pouco? A rua é, de fato, de todo mundo?

P: Rua é vivência. Eu não entendo a rua como um objeto material. A rua não é o asfalto, a rua é vivência. A pichação ou o grafite, vamos chamar de pichação, coloca uma tensão, coloca uma questão do limite das coisas. Então, quando eu desenho numa parede, eu desenho num lugar, esse lugar, mesmo que seja uma parede supostamente privada porque é minha casa, ela está em convivência com um cenário que é uma vivência externa. Então, o espaço público ele é interação, ele é tensão.

L: E nesse sentido da rua como espaço de comunicação, a rua “fala” a partir do momento em que alguém escreveu, desenhou?

P: A pergunta é uma pergunta muito antiga, que é atribuída ao filósofo George Berkeley : “Se uma árvore caísse numa ilha e não tivesse ninguém nessa ilha, essa árvore faria ruído?”.

É o mesmo que quando você coloca uma TV no meio de uma sala ligada e essa sala não tem ninguém.  Isso é um meio de comunicação? Então, quando penso a cidade, quando penso a rua, quando penso o urbano, eu não penso no sentido das coisas físicas. Se a rua não tem ninguém é o mesmo que uma televisão no meio de uma sala sem ninguém, não é um meio de comunicação.

E aí fica essa questão de uma árvore que cai e não tem ninguém. Eu posso pensar que faz ruído, mas eu estou fazendo pela parte da minha experiência, para poder inferir que aquilo vai fazer barulho é porque eu tenho uma experiência, é porque eu tenho vivência, porque tenho interação com outro. O grafite e a pichação são uma reinterpretação do urbano, onde os espaços, onde as paredes, os suportes, são observados sob uma outra forma de entender o urbano.


NY 2016. Foto: Emília Silberstein


Montevidéu, 2011.Foto: Emília Silberstein

L: E nesse sentido dessa interpretação do urbano, o que é trazido normalmente como discussão? Quem está por trás dessa “discussão”?

P: Toda a nossa história é uma situação de tensão. Quando falo de tensão, falo de interação, estou me colocando em tensão, em interação com outro. A pichação se coloca nesse lugar. E vai tensionar porque se apresenta em lugares que não são pensados para isso. Nesse “dever ser”, de dever ser cidade, de dever ser relação, a pichação ou o grafite diz: “Não, eu não estou num ‘dever ser’”. E é aqui nisto que se ancora uma questão interessante que é o que essa marca provoca na nossa interação de convivência humana. Porque mesmo que seja um desenho bonito, ou um desenho menos bonito, ele não vai provocar por ele ser de uma classe alta ou classe baixa ou marginal.

Então, saber o autor não vai me ajudar a entender a reinterpretação urbana que esse grafite ou essa pichação está fazendo. É uma questão interessante porque muitas vezes o pessoal procura saber quem é o autor, porque dependendo do autor vai dizer se a coisa é linda ou não. E aí se cria um obstáculo epistemológico, se cria um obstáculo de interpretação em que eu vou dizer se uma coisa é interessante ou não dependendo da gênese de quem fez.

Às vezes uma marca feita na espontaneidade de quem está com uma lata de spray na mão, ou com quem está com uma tinta, ou quem está com uma pedra, e faz uma marca, pode ser uma reinterpretação, eu acho uma reinterpretação muito mais interessante e muito mais provocadora do que um grafite pintado pelos Gêmeos, por exemplo.

No nosso desespero de encontrar o ponto zero, de encontrar quem foi o primeiro e quem foi o autor, a gente deixa de entender a pichação ou o grafite no seu estado de interpretação. Porque a gente procura, seja para parabenizar ou seja para castigar, sempre o culpado. A gente procura o autor. Assim como a gente quer encontrar, vai dizer que esse autor é interessante porque foi escrito por um grande conhecido, essa obra por um grande conhecido, e esta não porque ninguém conhece.

Então, acho que isso é interessante. E é um dos pontos que é difícil também tratar, que é o tema do anonimato. Quando eu discuto muitas vezes o anonimato num grafite, o anonimato numa pichação, não é para se esconder, senão também para chamar a atenção de que o que está lá não tem dono. Eu não fico muito preocupado com o autor, me interessa muito mais o que ele está provocando nesse espaço de interações e nesse espaço de convivência.

L: A partir do momento em que você leva o grafite, a arte de rua, para uma tela, para uma galeria, para dentro da casa de uma pessoa, o que ela é?

P: É arte. Pode se chamar de arte. Na verdade, eu estou sendo bastante injusto se eu falo que isso é arte. Isso é domesticação. Ou seja, algo está se incluindo numa definição. Numa definição que vai responder a determinados cânones, a determinada ordem. Quando o pessoal diz que o grafite é uma arte, está domesticando o grafite porque é um grafite que vai responder a determinados parâmetros que vão estabelecer: “É arte por isso ou aquilo”. É um “dever ser”. Então um grafite colocado dentro de uma casa, um grafite feito numa parede em que “aqui pode pichar”, “aqui pode grafitar”, é domesticado. É um ato domesticado.

L: Então existe uma subversão inerente à questão...

P: Sim.

L:O grafiteiro que foi pra dentro da galeria é menos grafiteiro?

P: Ele deixa de ser grafiteiro se eu tomo a essência da questão do grafite.


Brasília, 2017. Foto: Emília Silberstein

L: Isso deve ser meio polêmico dentro do meio...

P: Sim, é polêmico... mas não tem como, o grafiteiro deixa de ser grafiteiro. Se eu estou fazendo grafite para ganhar dinheiro, então eu não estou fazendo grafite, eu estou fazendo outra coisa, estou fazendo pintura de rua. Ponto. Em espanhol tem um ditado que diz: “No puedo chiflar y comer gofio a la misma vez” [o equivalente a “não dá pra assobiar e chupar cana”, em português]. Não estou falando que ser domesticado seja melhor ou pior, é apenas outra coisa. O domesticado que estou falando é no sentido de trabalhar com certas lógicas de um “dever ser”. Quando as prefeituras dizem: “Ah, agora pode grafitar a cidade”, não é grafitar a cidade, é: “Pode pintar as paredes da cidade, em determinados locais”. Ponto. Eu acho que se é permitido já mudou de conceito. Porque a essência se foi. Tanto que quando eu levo esse conceito do permitido à rigor eu posso entender que nisso tem um erro histórico de que o pessoal diz que as primeiras pichações começaram nas cavernas, e as cavernas não são pichações ou grafites.

L: Porque não era proibido?

P: Porque não era proibido. Porque era parte de um ritual.

L: Então quando a lei que regulamenta o grafite surgiu, acabou o grafite?

P: Acabou.

L: Ou seja, onde é permitido, como nas cavernas...

P: Acabou. Nas cavernas não tinha nenhuma subversão. Porque era a forma como se deixava escritas as táticas e as estratégias para determinadas situações ou uma espécie de roteiro do que depois seria caçado lá fora da “caverna”. Mas o que o pessoal diz é que tanto o grafite e a pichação eles não são grafite e pichação pela marca na parede, senão pelo que implica. O signo não está na mancha senão no que ela está provocando, onde está criando a tensão. Por isso que uma foto colocada num lugar pode ser uma pichação. É uma pichação ou não é? A tinta é só mais um meio para isso.

Já faz tempo que não picho. Em paredes. Não falta vontade, é por falta de tempo mesmo. Mas eu acho que também o compromisso está, em minha parte, em colocar esse tipo de discussões também. Eu continuo pichando na minha forma como me relaciono com a universidade, de alguma forma, por minha postura ser um pouco marginal, no sentido de tentar caminhar pelas margens.

Me ajusto pouco no sistema de várias coisas. Mesmo sendo coordenador de um curso. Alguém pode dizer: “Mas ele é coordenador, como está fora do sistema?” Eu aceitei ser coordenador com certos ajustes de que vou me preocupar que a coordenação seja uma coordenação pedagógica e não administrativa. Isso foi um pacto. Ou seja, mais preocupado pela vivência do que por responder à cânones administrativos.

***

Pedro Russi é coordenador do curso de Comunicação Social da Universidade de Brasília, acredita na função provocadora da Academia. Fez doutorado e mestrado  em Ciências da Comunicação pela UNISINOS-RS e formou-se em Ciências da Educação-Pedagogia pela Universidade Católica do Uruguai). Mora no Brasil desde 1999. Em Brasília, desde 2006.

***

Nota da edição: Uma vez por mês você acompanha, no PdH, uma republicação do Projeto Lupa. 

Ele reúne depoimentos e fotos de profissionais ligados à arte de contar histórias. Apresentam escritores, roteiristas, jornalistas, contadores de histórias, dramaturgos, redatores publicitários, críticos literários, letristas musicais, entre tantos outros. São muitos personagens, com algo em comum: a paixão pelas palavras.

https://www.papodehomem.com.br/para-entender-grafite-pichacao-e-linguagem-das-ruas


 

domingo, 25 de agosto de 2019

38 MINUTOS COM NUNO CALVET





PASSEIO PÚBLICO38 MINUTOS COM
NUNO CALVET
“CADA FOTOGRAFIA É, EM CERTA MEDIDA, UMA AUTOANÁLISE”
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PASSOU MAIS DE METADE DA VIDA A FOTOGRAFAR PAISAGENS E PESSOAS, ANÓNIMAS OU NO ESTRELATO. PARA AMÁLIA RODRIGUES FEZ A CAPA DE UM DISCO QUE A MEMÓRIA COLETIVA REGISTOU COM BASE NUMA FOTOGRAFIA: “BUSTO”


ENTREVISTA JOÃO DIOGO CORREIA FOTOGRAFIA TIAGO MIRANDA

Fotografou muito, mas fala pouco sobre essas fotografias. Porquê?
Como dizia o ‘nosso amigo’ Cartier-Bresson, se é necessário falar sobre uma fotografia é porque ela não comunica o que pretende. A não ser que seja uma conversa estritamente estética, sobre produção, montagem gráfica. Sobre o que acontece nela, a imagem propriamente dita, as palavras são supérfluas, são espúrias. Olha-se para a fotografia e é ela que tem de nos dizer o que é real e íntimo.
Não lhe chama arte. Soa-lhe pretensioso?
A fotografia é um tipo de expressão gráfica que tem uma génese mecânica, técnica, e a partir daí toda a conversa que se gera sobre o resultado dessa expressão tende a ser ou muito técnica ou cheia de lugares-comuns e de preconceitos de ordem estética. A partir de certa altura, começa a haver uma separação entre fotografia e outros processos artísticos de origem gráfica (a pintura, o desenho), porque a fotografia começa a ser acessível a todo o ‘bicho careta’. Toda a gente quer fotografar e toda a gente tem uma máquina. Julgam as pessoas que é só carregar no botão e sai uma coisa bonita. Então entramos no campo do bonito, que não tem nada que ver com o lado artístico, criativo, que a fotografia pode encerrar. E que a maior parte das vezes até nem encerra: limita-se a reproduzir aspetos ditos bonitos, interessantes, mas que não têm ligação com a intimidade do fotógrafo, com a sua maneira de ser e de estar. São aparências e às aparências, normalmente, não lhes resta mais nada. Entramos no tempo em que a fotografia começa a ser considerada uma arte, mas uma arte menor. Porque é muito fácil fotografar um pôr do sol, as ondinhas do mar a rebentar. É muito fácil fazer essas coisas e começou a misturar-se essa facilidade em reproduzir imagens ditas bonitas do quotidiano com o lado artístico. Esse lado tem que ver com outros mundos, muito pessoais.
Com o olhar do fotógrafo?
Exatamente. Com a personalidade do fotógrafo, no fundo. Quando uma pessoa faz uma fotografia, não é só ela que está a fotografar um determinado assunto. Está a fotografar-se também a si própria. Cada fotografia é, em certa medida, uma autoanálise. Que depois transpira na imagem que retém, que grava.
E aí já é uma arte?
Pode ser, a partir do momento em que exprime um conjunto de dados de ordem estética conhecidos, mas que não são gratuitos, não são coisas supérfluas. São atributos que estão ligados à personalidade e à capacidade expressiva do seu fotógrafo.
E há coisas a dizer sobre ele? Neste caso, sobre si?
Sobre mim, o que lhe posso dizer? Que tive alturas muito bonitas, outras menos. É uma coisa muito subjetiva.
“JULGAM AS PESSOAS QUE É SÓ CARREGAR NO BOTÃO E SAI UMA COISA BONITA”
Como vive com esta ‘altura’?
Tenho um olhar livre para fotografar aquilo que me interessa. Neste momento, fotografo relativamente pouco, porque comecei a perceber que já tinha fotografado aquilo que ia fotografar outra vez. Estava a repetir-me, a copiar-me a mim próprio. A idade também já não me permite viajar como antes.
O Alto Alentejo, onde vive agora, é fotogénico?
Sim, mas a partir de um certo momento, não apetece andar à procura. Já se encontrou, já está registado. O fotógrafo, às vezes, encontra as coisas, não as procura. Eu há 10 anos fiz um livro sobre o Alentejo, e aí percorri-o várias vezes, mas foi diferente, eu não estava à procura de nada. Estava atento ao que me aparecia à frente.
E o que encontrou?
O Alentejo é um mundo. Tem zonas e aspetos extremamente característicos. Há coisas lindíssimas, insubstituíveis do ponto de vista visual. O que agora trabalho é a composição de fotografias que já fiz. Dá-me muito gozo pegar nessas imagens e construir novos mundos, novas situações, completamente fora de cada uma delas. Isso dá-me muito gozo, entretém-me. E já fiz três exposições dessa forma.
Escolhe-as a partir de um algum critério específico?
Não, não. São imagens que eu imagino. Imaginações sobre imagens. Vejo imagens e imagino outros mundos.
Fotografou o Portugal profundo, mas também artistas consagrados. Foi sempre o mesmo?
Fotografar pessoas é um mundo completamente diferente. No fundo, a pessoa fotografada é-o do ponto de vista da sua personalidade, daquilo que faz. E para isso é preciso conhecer o mínimo daquela pessoa.
Era o que mais lhe interessava?
Interessava-me porque eu privava com aquelas pessoas.
Com a Amália, por exemplo?
Com a Amália foi diferente. Eu fui para a Valentim de Carvalho [VC] depois da tropa. Era um melómano, gostava, e gosto, muito de música, tinha muitos discos. Nessa altura, a Amália não tinha relações profissionais com a casa VC, havia um certo distanciamento do velho Valentim [fundador da editora, em 1914]. Não era que ele não gostasse da Amália, mas não simpatizava, porque ela trabalhava para a concorrência. A certa altura, o Rui [sobrinho de Valentim] conheceu a Amália, apaixonou-se por ela em termos quase maternais. Até dizíamos, a brincar, que só faltava a Amália puxá-lo por uma coleira. E foi aí, através de um homem que já morreu e que foi o principal responsável por eu ser fotógrafo, o Gérard Castello-Lopes. De 15 em 15 dias, havia sessões de fotografia em casa dele. Ele perguntou-me se eu tinha fotografias, eu mostrei-lhe e ele disse-me: “Eh, pá, tu tens é de ser fotógrafo.” E comecei a fazer fotografias para a VC. Não fiz muitas, fiz algumas, como a capa do Alfredo Marceneiro, em que ele está com um lenço e uma beata ao canto da boca. Mas não fotografei logo a Amália. Acontece que, finalmente, ela começa a gravar para a VC [1962], numa altura em que estava sempre muito pouco disponível, era muito difícil. Havia um busto de um escultor [Joaquim Valente] e o Rui perguntou-me se eu podia fotografá-lo. Eu fui e, por acaso, saiu bem. É uma vulgar imagem feita com praticamente nenhuns meios. Levei o busto para minha casa, pu-lo em cima de uma mesa, com um pequeno projetor e utilizando uma parede branca para refletir o busto. Mais por acaso do que por intenção, saiu bem. Ainda tenho esses negativos.
Foi dos seus trabalhos mais marcantes? Ou mais conhecidos?
Eu acho que não. O disco teve muito sucesso, talvez por isso a fotografia tenha ficado tão conhecida. Ainda fiz outras para discos. Há um disco do Vinicius de Moraes que também tem uma fotografia minha. Foi feita no próprio edifício da Philips. Havia uma sala de reuniões, onde ele foi dizer poesia. A sala até nem era muito grande, mas tinha boa iluminação, e fiz lá uma fotografia dele a dizer poesia. Depois nos espetáculos fiz várias. Do Chico Buarque também.
Depois deixou de as fazer?
Quando fui para a Philips, já muito embrenhado na fotografia profissional, comecei a fazer trabalhos para publicidade. Tinha de viver, tinha família, três filhos, a minha mulher não trabalhava, tinha de ganhar o pão para a boca da miudagem. Nessa altura ganhava-se bom dinheiro. Mas nunca deu para enriquecer, porque o que se ganhava gastava-se logo em equipamento. Depois uma grande parte da fotografia que se vê na publicidade, nas revistas, passa a ser comprada a estúdios, a grandes bancos de imagem, que antes não existiam. E passa a pagar-se uma ninharia.
Que relação tem agora com esse mundo?
Desinteressei-me completamente. Comecei a fazer fotografia por gosto. Mas a partir de uma certa altura isso acabou.
De onde tira agora prazer?
Tiro sobretudo das exposições. Mas agora não tenho planos nenhuns. Só quero gozar com as imagens que tenho e com a família. Não tenho idade para andar aí de ‘ceca para meca’ com o material às costas. Chegar onde cheguei, assim como estou, já é uma aquisição bastante boa. A maior parte das pessoas da minha idade já cá não está.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Miradouros 05 - entre Xico da Cana e D. Pedro Denis

* Victor Nogueira

Não são propriamente miradouros, antes logradouros, onde para lá da vista nada convida o viajante a permanecer; nem bancos, nem árvores frondosas, nem canteiros de flores. A Rua Xico da Cana, que remonta a  2009, onde nenhum prédio poderá ser construído para lhe dar vida e movimento, tem um ar degradado, de abandono, as protecções de ferro arrancadas e enferrujadas, a erva daninha irrompendo por entre as pedras da calçada do passeio. Uma solitária boca de incêndio destaca-se, para cá do Baluarte de Santo Amaro e em 1º plano o que a nossa vista alcança são ruínas, terrenos baldios, a casota dum cão que se não avista nem ladra e uma casa com parreira a destoar no inóspito. Mais sedutora e variada é a vista a partir da Rua Dom Pedro Denis.

Interessante verificar que as torres sineiras da maioria das igrejas e conventos, mesmo que situadas na várzea, são visíveis em quase toda a cidade, dominando as populações, especialmente em tempos em que pouca altura tinham os edifícios.

Quem foi D. Pedro Denis, desconheço. O Xico da Cana - Francisco José Batista - começou a trabalhar no mar aos 12 anos, chegando a ser mestre de traineira. Posteriormente fundou o Conjunto Típico Xico da Cana e, nas suas actuações, além de cantar, tocava uma cana rachada, instrumento feito artesanalmente pelo próprio músico, que “vivia muito o que fazia, acima de tudo através do grande convívio que proporcionava com a música, os petiscos e as histórias que contava”.(http://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=60692)



Pequena actuação no café Barreguinhas (Morgada - Setubal) no inicio dos anos 90


Entrevista por Manuel Saraiva, no inicio dos anos 90, no café Barreguinhas (Morgada - Setubal ). 















Baluarte de Santo Amaro



Igreja não identificada



À direita a torre sineira da Igreja de N Sra da Anunciada


Ao fundo à esquerda os estaleiros navais da antiga Setenave, onde dei aulas, e para a direita as instalações portuárias







Troia no horizonte


a caldeira de Troia


Troia no horizonte, para lá dos telhados




Avenida S. Francisco Xavier








fotos em 2017.08.07






Ao fundo e à esquerda a Igreja de N. Sra da Saúde



à direita a Igreja de N. Sra da Saúde


Igreja de N. Sa da Anunciada



Forte de S. Filipe

fotos em 2017.05.27


OUTROS MIRADOUROS EM SETÚBAL

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Samuel Aranda: Lo importante no soy yo sino la foto"


Entrevista

Samuel Aranda: "Muchas veces pecamos de egocentrismo. Lo importante no soy yo sino la foto"

Charlamos con el fotoperiodista español que ha sido galardonado con el prestigioso 'World Press Photo'. Su foto ha sido elegida entre más de 100.000 realizadas por un total de 5.247 fotógrafos

JAVIER JIMÉNEZ BAS   10-02-2012
Samuel es de esos fotoperiodistas que aman su profesión. Acaba de ser galardonado con uno de los premios más prestigiosos de fotoperiodismo, si no el que más, el World Press Photo, pero él le resta importancia. Prefiere que se hable de Yemen y de todo lo que su foto cuenta. Samuel lo ha conseguido.

El español Samuel Aranda gana el World Press Photo
La instantánea ha sido elegida entre más de 100.000 imágenes realizadas por un total de 5.247 fotógrafos provenientes de 124 países de todo en mundo- (WORLD PRESS PHOTO)

Hace unas horas que se sabe ganador pero Samuel Aranda está tranquilo. Contactamos con él en Túnez. Allí se fue en enero a cubrir las revueltas, y por el momento ha decidido quedarse . Esta es la conversación que hemos tenido con él
¿Cuál es la historia que encierra esa foto?
Fue un encargo para The New York Times. Un encargo de tres meses en este país, en Yemen. Era muy difícil entrar en el país pero finalmente lo conseguimos. Ese día los francotiradores del gobierno estaban disparando a los manifestantes y esta mujer traía a su familiar herido. Estábamos a la entrada de una mezquita que se estaba utilizando como hospital. En ese momento la mujer estaba esperando que vinieran los médicos a atender a su familiar. Era una situación muy caótica y la mujer se sentó unos 20 o 30 segundos a esperar a que atendieran a su familiar.
¿Cómo te comunicaron que eras el ganador de este año?
Me llamaron ayer por la tarde, sobre las 7 de la tarde, para informarme que me lo habían dado y que este viernes se haría oficial. La verdad es que sentí mucha alegría. Está muy bien que te reconozcan el trabajo, y más una fundación tan importante como es World Press Photo.
Lo que sí que tenía muy claro es que creo que a veces los fotógrafos, o el periodismo en general, pecamos un poquito-mucho de egocentrismo y para mí lo más importante es no olvidar en ningún momento que lo importante de esta fotografía no soy yo como fotógrafo sino lo que estaba fotografiando. Lo importantes es que la gente, al menos por un día, hable de Yemen, y de lo que está pasando en Yemen. En ese sentido me siento muy bien con el World Press Photo si sirve para que, por lo menos un par de días, se hable de Yemen otra vez.
¿Cómo te iniciaste en el fotoperiodismo?
Empecé cuanto tenía 19 años. Al principio trabajaba en periódicos de Cataluña, el Periódico de Catalunya, 20 Minutos y después también para El País. Con 20 años me fui a vivir a Gaza. Ese fue el primer viaje que hice. En Gaza al principio empecé a trabajar con la agencia EFE. Después me ofrecieron trabajar para France Press. Así empezó todo.
¿Has vivido muchas situaciones de riesgo?
Cuando escoges esta profesión sabes lo que conlleva... A veces vives momentos de riesgo. Yo creo que es más inconsciencia. Cada vez tengo más miedo y supongo que llegará un momento que miraré las cosas desde segunda línea. El riesgo va implícito en la profesión que hemos escogido, el fotoperiodismo y no hay que darle mayor importancia.

Costa, premiado en el "World Press Photo", pide más respeto a la fotografía

El fotógrafo Joan Costa, que ha recibido hoy el segundo premio "Worl Press Photo" en la categoría de "Naturaleza" ha declarado que "es hora de que las instituciones y los medios españoles concedan más prestigio a la fotografía".
"En internet ni siquiera se respeta nuestras firmas", ha señalado el fotógrafo español, curtido en la profesión después de haber atravesado por labores de colaborador de prensa y agencias.
El galardonado ha logrado el premio con la imagen de un invertebrado en el Océano Pacífico que consiguió durante su participación en la Expedición Malaespina 2010.
"Todos los días, los científicos tomaban muestras de estos microorganismos que, en cuanto los sacas del agua y los metes en formol, pierden todos los matices y texturas. Por eso monté un laboratorio de macro-fotografía y este es el resultado", ha señalado Costa, especializado en fotografía científica, en declaraciones a Efe.
EFE