Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Murais 13 . Pichação e grafitagem

Pichação é o acto de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edificações, asfalto de ruas ou monumentos, usando tinta em spray aerossol, dificilmente removível, estêncil ou mesmo rolo de tinta.

No geral, assinaturas pessoais, conhecidas também como tag, declarações de amor ou eventualmente frases de protesto ou insulto. Também utilizada como forma de demarcação de territórios entre grupos – às vezes gangues rivais.

Com a popularização do aerossol, após a Segunda Guerra Mundial, a pichação ganhou mais agilidade e mobilidade. Na revolta estudantil de 1968, em Paris, o spray foi usado como forma de protesto contra as instituições universitárias e manifestação pela liberdade de expressão.

No final de 1969 e início da década de 1970, as ruas de Los Angeles foram tomadas por pichações que demarcavam a disputa territorial pelo tráfico de drogas entre duas violentas gangues rivais: Bloods, representada pela cor vermelha, e Crips, representada pela cor azul. A disputa tomou proporções nacionais, e hoje a pichação e a rivalidade entre as duas gangues ainda persiste em várias cidades estadunidenses

https://pt.wikipedia.org/wiki/Picha%C3%A7%C3%A3o

Um grafito (português europeu) ou grafite (português brasileiro) ou grafíti (aportuguesamento do italiano graffiti, plural de graffito) é uma inscrição feita em paredes, existentes desde o Império Romano. Considera-se grafite uma inscrição caligrafada, um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade. Por muito tempo visto como um assunto irrelevante ou mera contravenção, actualmente o grafite já é considerado como forma de expressão incluída no âmbito das artes visuais,mais especificamente, da arte urbana - em que o artista aproveita os espaços públicos, criando uma linguagem intencional para interferir na cidade. Entretanto, há quem não concorde, equiparando o grafite à pichação. Grafitar locais públicos ou privados, sem autorização dos respectivos proprietários, é actividade proibida por lei em vários países.

Normalmente distingue-se o grafite, de elaboração mais complexa, da simples pichação, quase sempre considerada como contravenção.

A partir do movimento contra cultural de Maio de 1968, quando os muros de Paris foram suporte para inscrições de carácter poético-político, a prática do grafite generalizou-se pelo mundo, em diferentes contextos, tipos e estilos, que vão do simples rabisco ou de tags repetidas ad nauseam, como uma espécie de demarcação de território, até grandes murais executados em espaços especialmente designados para tal, ganhando status de verdadeiras obras de arte. Os grafites podem também estar associados a diferentes movimentos e tribos urbanas, como o hip-hop, e a variados graus de transgressão.

Termos e gírias

  • Asdolfinho - Novo estilo de grafite desenvolvido por americanos, no qual é visado a pintura animal.

  • Backjump - Comboio pintado em circulação, enquanto está parado durante o percurso (numa estação por exemplo).
  • Bite - Cópia, influência directa de um estilo de outro writer.
  • Bombing - Grafite rápido, associado à ilegalidade, com letras mais simples e eficazes.
  • Bubble Style - Estilo de letras arredondadas, mais simples e "primárias", mas que é ainda hoje um dos estilos mais presentes no grafite.

  • Cap - Válvula (bico) aplicável às latas para a pulverização do spray. Existem variados caps, que variam consoante a pressão, originando um traço mais suave ou mais grosso (ex: Skinny", "Fat", "NY Fat Cap", etc.).
  • Characters - Personagens, caricaturas, bonecos pintados a grafite.
  • Crew - "Equipa", grupo de amigos que habitualmente pintam juntos e que representam todos o mesmo nome. É regra geral os writers assinarem o seu tag e respectiva crew (normalmente sigla com dois a 4 letras) em cada obra.
  • Cross (atropelar) - Pintar um grafite ou assinatura por cima de um trabalho de um outro writer.

  • Degradé - Passagem de uma cor para a outra sem um corte direto. Por exemplo uma graduação de diferentes tons da mesma cor.

  • End to end - Carruagem ou comboio pintado de uma extremidade à outra, sem atingir a parte superior do mesmo (por ex. as janelas e parte superior do comboio não são pintadas).

  • Fake (falso) - Pessoa que assume o nome de "grafiteiro", carrega o nome, porém usando técnicas de street art.
  • Fill-in - Preenchimento (simples ou elaborado) do interior das letras de um grafite.

  • Grapixo - Grafite que se aproxima da pichação. As letras em formato rúnico, angulares, são representadas em 3-dimensões, com sombreamento, contornos e um background.

  • Hall of Fame - Trabalho geralmente legal, mural mais trabalhado onde normalmente pinta mais do que um artista na mesma obra, explorando as técnicas mais evoluídas.
  • Highline (sub-contorno) - Contorno geral de todo o grafite, posterior ao outline.
  • Hollow - Grafite ou Bomb que não tem fill (preenchimento) algum e, geralmente, é ilegal

  • Inline - Contorno das letras, realizado na parte de dentro das letras.

  • Kings - Writer que adquiriu respeito e admiração dentro da comunidade do grafite. Um estatuto que todos procuram e que está inevitavelmente ligado à qualidade, postura e anos de experiência.

  • Outline - Contorno das letras cuja cor é aplicada igualmente ao volume das mesmas, dando uma noção de tridimensionalidade.

  • Roof-top - Grafite aplicado em telhados, outdoors ou outras superfícies elevadas. Um estilo associado ao risco e ao difícil acesso mas que é uma das vertentes mais respeitáveis entre os writers.

  • Spot - Denominação dada ao lugar onde é feito um grafite.

  • Tag - Nome/Pseudónimo do artista.
  • Throw-up - Estilo situado entre o "tag"/assinatura de rua e o bombing. Letras rápidas normalmente sem preenchimento de cor (apenas contorno).
  • Top to bottom" - Carruagem ou carruagens pintadas de cima a baixo, sem chegar no entanto às extremidades horizontais.
  • Toy - O oposto de King. Writer inexperiente, no começo ou que não consegue atingir um nível de qualidade e respeito dentro da comunidade.
  • Train - Denominação de um comboio (trem,vagão) pintado.

  • Whole Car - Carruagem inteiramente pintada, de uma ponta à outra e de cima a baixo.
  • Whole Train - Um comboio (trem,vagão) com todas as carruagens inteiramente pintadas, de uma ponta à outra e de cima a baixo.
  • Wild Style - Estilo de letras quase ilegível. Um dos primeiros estilos a ser utilizado no surgimento do grafite.
  • Writer - Escritor de grafite.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Grafito

Murais 12 - O graffiti e suas diferentes formas

 * Mathias Brotero em parceria com a Kanui

Atualizado: 05/08/2020 - 11:2221/01/2014 - 0:00

Por: Redação

O grafite é sempre alvo de polêmicas, e depois do filme “Cidade Cinza”, dos Gêmeos essa forma de arte ganhou uma atenção especial. Os que são contra o grafite argumentam que “é tudo pichação”. Mas você sabia que pichação é uma vertente do grafite? Existem diversas formas dessa arte. Eis algumas:

Stencil– Esse formato é caracterizado pela rapidez com que pode ser feito (basta pintar os espaços ocos na cartolina que faz o contorna da imagem). Geralmente a superfície aonde o stencil é feito é pequena.O Bansky é um dos artistas mais influentes dessa vertente.


Série de Monalisas grafitadas pelo artista Banksy

Bomb – É o mais comum em Sampa. Caracterizado pelos desenhos e formatos rápidos em paredes, vagões de trem, portas de garagem, entre outras superfícies, o Bombé mais conhecido por ser feito em paredes ilegais.


Estilo mais comum nas ruas de São Paulo.

Wildstyle – Nascido nas ruas de Nova Iorque na década de 70, essa forma complexa de grafite é caracterizada pelas intersecções das formas. Muitas vezes são tão detalhadas que nem dá para ler direito o que está escrito.


Skate, grafitti, hip hop são alguns dos elementos que fazem parte da cultura underground, da cultura de rua.

 ThrowUp – Essa forma do grafite consiste em desenhar somente as formas vistas no “Bomb”, sem preenchimento.

Variação do estilo “Bomb”, adaptada a outras influências.

3D - Apesar de ser um tanto quanto auto explicativo, pode-se dizer que esse formato que tenta dar a impressão de algo tridimensional é relativamente novo no grafite.


Estilo busca recursos tridimensionais para suas criações.

Além dessas, há muitas outras vertentes como a pichação ou as tags. Essa forma de arte faz parte da cultura underground das ruas, que mescla arte, skate, hip-hop entre ouros temas. No skate, por exemplo, é muito comum que a arte de um shape tenha sido feita por um artista de rua. Bons exemplos desses são alguns shapes da Element e Santa Cruz.

Confira a matéria completa, com autoria de André Perioto no Skate4life.

https://catracalivre.com.br/agenda/o-graffiti-e-suas-diferentes-formas/

Murais 11 - Para entender grafite, pichação e linguagem das ruas

 

O grafiteiro que foi pra dentro da galeria é menos grafiteiro? O pichador é artista?

Projeto Lupa

Entrevistas e perfis


No segundo grau, Pedro Russi desenhava nos bancos da escola e nas paredes. Caminhava pelas ruas de Montevidéu - ele é uruguaio - anotando em um caderno as frases interessantes que via. Na universidade, adotou a lata de spray em percursos noturnos para grafitar. Nesta época, estudou Medicina, que abandonou para se dedicar ao teatro de rua - uma outra forma de interagir com o espaço urbano - e depois formou-se em Pedagogia. Já no Brasil, cursou mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação.O caderno que usava para coletar o pensamento das ruas acabou virando material de estudo na pós-graduação.

“Claro que não sabia que isso iria se configurar em um diário de campo, porque não era esse o interesse, mas foi o resgate dessa forma de realocar a cidade e entender que ela não é apenas o ‘algo’ rua, a estrada , a ponte. A cidade é a vivência que a gente tem neste espaço.”

Da pesquisa saíram os livros Paredes que falam: as pichações como comunicações alternativas e Grafitis - trazos de imaginación y espacios de encuentros (publicado apenas em espanhol).

“Eu não escolhi o tema por ser legal. Os diferentes tipos de intervenção urbana - seja a pichação ou grafite, a feira, o teatro de rua, o fato de como eu observo as praças, a forma como as pessoas se apropriam dos lugares, como vão reconfigurando, como vão fazendo releituras - é algo que eu vivencio.”

Hoje, Pedro Russi é coordenador do curso de Comunicação na UnB. E acredita que a atitude subversiva de “pichador” se mantém ao provocar os estudantes a não se acomodarem a um sistema. “Às vezes um estudante brinca e fala: ‘Professor, você não mostra o caminho das pedras’. Eu digo: ‘Eu nunca vou mostrar o caminho das pedras, e ainda vou te jogar pedras no teu caminho’. Eu acho que essa é a função também da universidade”, destaca. Ao Projeto Lupa, ele fala sobre grafite, pichação e a linguagem das ruas.

***

Lupa: Qual a diferença conceitual entre grafite e pichação?

Pedro: O Brasil é um dos lugares onde tem mais força a distinção entre pichação e grafite. Vou primeiro fazer uma distinção mais “de dicionário”. O grafite seria aquilo mais relacionado à arte, mais relacionado ao desenho, que tem uma história mais relacionada ao que seria o Hip Hop, uma vertente que a gente chama de uma vertente mais americana, dos Estados Unidos. Eu discordo disso, mas estou simplesmente fazendo um esclarecimento de definição. 

A pichação seria aquele risco, aquela coisa que vai tentar brincar com a altura [quem picha mais alto]. Traz certos tipos de letras, formatos, cores, tipo de traço e velocidade na escrita. E a pichação, aqui do Brasil, teria essa característica mais do que é negativo, mais da poluição, eu brinco, mais de “atos de doença”. O pessoal coloca a pichação como uma doença que tem que ser exterminada e tem que ser extirpada. Essa distinção aqui no Brasil é uma distinção que faz um reflexo de classe.

O picho é mais marginal, o picho é mais de uma classe social determinada e o grafite está numa outra classe social, numa elite. Tanto que quando a gente dialoga com o pessoal que está no grafite, na pichação, tende a haver uma distinção: ‘Eu sou grafiteiro, não sou pichador’.Não importa que haja diversas outras situações ocorrendo na cidade. Podem ter mil, quatro mil pessoas morando na rua, mas parece que só a pichação é o que suja a cidade.

Então, tem essa questão de extirpar essas marcas. A gente observa quando uma pessoa apaga uma pichação e deixa tipo um curativo, né? Uma coisa que é, como que extirpar um câncer. Tem uma questão de higienização aí: a pichação é suja, a pichação tem que ser higienizada. Então essas duas definições, o grafite como mais relacionado à arte, à uma expressão artística, e a pichação a um ato de doença, um ato sujo, a um ato de alguém que está fora de um sistema, cria no Brasil essa definição.



Lisboa, 2013. Foto: Emília Silberstein


NY, 2014. Foto: Emília Silberstei

L: E em outros países, como é?

P: Em outros lugares essa diferenciação não acontece tanto. Não existe essa necessidade de dizer “eu sou um grafiteiro que escreve” e “eu sou um grafiteiro que desenha”. Basta dizer  “eu sou grafiteiro”. Ponto. Não tem tanto essa de diferenciar grafite e pichação. Então isso também é interessante. Coloca esse sujeito num âmbito de uma relação social, num outro patamar.

L: E como é que essas duas vertentes conversam na rua?

P: A pichação e o grafite, segundo essa lógica em que se pretende “separar” as duas vertentes, dialogam e, quando se fala dialogar, é no sentido de que eles estão em interação no espaço urbano. Porque não são simplesmente coisas, são ações. É o mesmo que num ônibus. Num ônibus você está com outro sujeito, mas quando o outro sujeito começa a falar mais alto, ou grita com você, você tem reações, ou você observa que até tem alguém que está roubando outro, ou que está xingando o outro.

É interessante porque às vezes o pessoal não observa que essa pintura na parede, seja ela qual for, estabelece um diálogo. E como todo diálogo e como toda interação, ela tem seus conflitos. E tem vários conflitos. Então, tem momento em que, por exemplo, um desenho de um grafite é provocado por uma pichação; e às vezes uma pichação é provocada por um grafite. E às vezes também tanto uma pichação quanto um grafite são provocados por um cartaz colocado em cima que oferece um serviço de churrasco. Às vezes o pessoal quer normalizar e normatizar e criar situações que não acontecem na própria interação humana. Porque o grafite e a pichação são interações humanas.

L: É só mais um aspecto da sociedade, no fim das contas?

P: Sim. A pichação e o grafite estão em interação. Às vezes o pessoal quer colocar um grafite e diz: “Não, não pode ser tocado”. É como dizer: “Eu posso falar e ninguém pode opinar sobre o que eu estou falando”. Então o que acontece? O pessoal quer colocar normas e éticas em um aspecto em que a gente não colocaria num outro contexto. Aí aparece uma questão de território, aí aparece uma questão de grupo, aí aparecem várias questões. E às vezes a gente quer colocar normas éticas que são inventadas por um processo de domesticação. Tudo tem que ter seu lugar, tudo tem que estar em algum lugar.

L: E quando esse lugar é a rua, as regras mudam um pouco? A rua é, de fato, de todo mundo?

P: Rua é vivência. Eu não entendo a rua como um objeto material. A rua não é o asfalto, a rua é vivência. A pichação ou o grafite, vamos chamar de pichação, coloca uma tensão, coloca uma questão do limite das coisas. Então, quando eu desenho numa parede, eu desenho num lugar, esse lugar, mesmo que seja uma parede supostamente privada porque é minha casa, ela está em convivência com um cenário que é uma vivência externa. Então, o espaço público ele é interação, ele é tensão.

L: E nesse sentido da rua como espaço de comunicação, a rua “fala” a partir do momento em que alguém escreveu, desenhou?

P: A pergunta é uma pergunta muito antiga, que é atribuída ao filósofo George Berkeley : “Se uma árvore caísse numa ilha e não tivesse ninguém nessa ilha, essa árvore faria ruído?”.

É o mesmo que quando você coloca uma TV no meio de uma sala ligada e essa sala não tem ninguém.  Isso é um meio de comunicação? Então, quando penso a cidade, quando penso a rua, quando penso o urbano, eu não penso no sentido das coisas físicas. Se a rua não tem ninguém é o mesmo que uma televisão no meio de uma sala sem ninguém, não é um meio de comunicação.

E aí fica essa questão de uma árvore que cai e não tem ninguém. Eu posso pensar que faz ruído, mas eu estou fazendo pela parte da minha experiência, para poder inferir que aquilo vai fazer barulho é porque eu tenho uma experiência, é porque eu tenho vivência, porque tenho interação com outro. O grafite e a pichação são uma reinterpretação do urbano, onde os espaços, onde as paredes, os suportes, são observados sob uma outra forma de entender o urbano.


NY 2016. Foto: Emília Silberstein


Montevidéu, 2011.Foto: Emília Silberstein

L: E nesse sentido dessa interpretação do urbano, o que é trazido normalmente como discussão? Quem está por trás dessa “discussão”?

P: Toda a nossa história é uma situação de tensão. Quando falo de tensão, falo de interação, estou me colocando em tensão, em interação com outro. A pichação se coloca nesse lugar. E vai tensionar porque se apresenta em lugares que não são pensados para isso. Nesse “dever ser”, de dever ser cidade, de dever ser relação, a pichação ou o grafite diz: “Não, eu não estou num ‘dever ser’”. E é aqui nisto que se ancora uma questão interessante que é o que essa marca provoca na nossa interação de convivência humana. Porque mesmo que seja um desenho bonito, ou um desenho menos bonito, ele não vai provocar por ele ser de uma classe alta ou classe baixa ou marginal.

Então, saber o autor não vai me ajudar a entender a reinterpretação urbana que esse grafite ou essa pichação está fazendo. É uma questão interessante porque muitas vezes o pessoal procura saber quem é o autor, porque dependendo do autor vai dizer se a coisa é linda ou não. E aí se cria um obstáculo epistemológico, se cria um obstáculo de interpretação em que eu vou dizer se uma coisa é interessante ou não dependendo da gênese de quem fez.

Às vezes uma marca feita na espontaneidade de quem está com uma lata de spray na mão, ou com quem está com uma tinta, ou quem está com uma pedra, e faz uma marca, pode ser uma reinterpretação, eu acho uma reinterpretação muito mais interessante e muito mais provocadora do que um grafite pintado pelos Gêmeos, por exemplo.

No nosso desespero de encontrar o ponto zero, de encontrar quem foi o primeiro e quem foi o autor, a gente deixa de entender a pichação ou o grafite no seu estado de interpretação. Porque a gente procura, seja para parabenizar ou seja para castigar, sempre o culpado. A gente procura o autor. Assim como a gente quer encontrar, vai dizer que esse autor é interessante porque foi escrito por um grande conhecido, essa obra por um grande conhecido, e esta não porque ninguém conhece.

Então, acho que isso é interessante. E é um dos pontos que é difícil também tratar, que é o tema do anonimato. Quando eu discuto muitas vezes o anonimato num grafite, o anonimato numa pichação, não é para se esconder, senão também para chamar a atenção de que o que está lá não tem dono. Eu não fico muito preocupado com o autor, me interessa muito mais o que ele está provocando nesse espaço de interações e nesse espaço de convivência.

L: A partir do momento em que você leva o grafite, a arte de rua, para uma tela, para uma galeria, para dentro da casa de uma pessoa, o que ela é?

P: É arte. Pode se chamar de arte. Na verdade, eu estou sendo bastante injusto se eu falo que isso é arte. Isso é domesticação. Ou seja, algo está se incluindo numa definição. Numa definição que vai responder a determinados cânones, a determinada ordem. Quando o pessoal diz que o grafite é uma arte, está domesticando o grafite porque é um grafite que vai responder a determinados parâmetros que vão estabelecer: “É arte por isso ou aquilo”. É um “dever ser”. Então um grafite colocado dentro de uma casa, um grafite feito numa parede em que “aqui pode pichar”, “aqui pode grafitar”, é domesticado. É um ato domesticado.

L: Então existe uma subversão inerente à questão...

P: Sim.

L:O grafiteiro que foi pra dentro da galeria é menos grafiteiro?

P: Ele deixa de ser grafiteiro se eu tomo a essência da questão do grafite.


Brasília, 2017. Foto: Emília Silberstein

L: Isso deve ser meio polêmico dentro do meio...

P: Sim, é polêmico... mas não tem como, o grafiteiro deixa de ser grafiteiro. Se eu estou fazendo grafite para ganhar dinheiro, então eu não estou fazendo grafite, eu estou fazendo outra coisa, estou fazendo pintura de rua. Ponto. Em espanhol tem um ditado que diz: “No puedo chiflar y comer gofio a la misma vez” [o equivalente a “não dá pra assobiar e chupar cana”, em português]. Não estou falando que ser domesticado seja melhor ou pior, é apenas outra coisa. O domesticado que estou falando é no sentido de trabalhar com certas lógicas de um “dever ser”. Quando as prefeituras dizem: “Ah, agora pode grafitar a cidade”, não é grafitar a cidade, é: “Pode pintar as paredes da cidade, em determinados locais”. Ponto. Eu acho que se é permitido já mudou de conceito. Porque a essência se foi. Tanto que quando eu levo esse conceito do permitido à rigor eu posso entender que nisso tem um erro histórico de que o pessoal diz que as primeiras pichações começaram nas cavernas, e as cavernas não são pichações ou grafites.

L: Porque não era proibido?

P: Porque não era proibido. Porque era parte de um ritual.

L: Então quando a lei que regulamenta o grafite surgiu, acabou o grafite?

P: Acabou.

L: Ou seja, onde é permitido, como nas cavernas...

P: Acabou. Nas cavernas não tinha nenhuma subversão. Porque era a forma como se deixava escritas as táticas e as estratégias para determinadas situações ou uma espécie de roteiro do que depois seria caçado lá fora da “caverna”. Mas o que o pessoal diz é que tanto o grafite e a pichação eles não são grafite e pichação pela marca na parede, senão pelo que implica. O signo não está na mancha senão no que ela está provocando, onde está criando a tensão. Por isso que uma foto colocada num lugar pode ser uma pichação. É uma pichação ou não é? A tinta é só mais um meio para isso.

Já faz tempo que não picho. Em paredes. Não falta vontade, é por falta de tempo mesmo. Mas eu acho que também o compromisso está, em minha parte, em colocar esse tipo de discussões também. Eu continuo pichando na minha forma como me relaciono com a universidade, de alguma forma, por minha postura ser um pouco marginal, no sentido de tentar caminhar pelas margens.

Me ajusto pouco no sistema de várias coisas. Mesmo sendo coordenador de um curso. Alguém pode dizer: “Mas ele é coordenador, como está fora do sistema?” Eu aceitei ser coordenador com certos ajustes de que vou me preocupar que a coordenação seja uma coordenação pedagógica e não administrativa. Isso foi um pacto. Ou seja, mais preocupado pela vivência do que por responder à cânones administrativos.

***

Pedro Russi é coordenador do curso de Comunicação Social da Universidade de Brasília, acredita na função provocadora da Academia. Fez doutorado e mestrado  em Ciências da Comunicação pela UNISINOS-RS e formou-se em Ciências da Educação-Pedagogia pela Universidade Católica do Uruguai). Mora no Brasil desde 1999. Em Brasília, desde 2006.

***

Nota da edição: Uma vez por mês você acompanha, no PdH, uma republicação do Projeto Lupa. 

Ele reúne depoimentos e fotos de profissionais ligados à arte de contar histórias. Apresentam escritores, roteiristas, jornalistas, contadores de histórias, dramaturgos, redatores publicitários, críticos literários, letristas musicais, entre tantos outros. São muitos personagens, com algo em comum: a paixão pelas palavras.

https://www.papodehomem.com.br/para-entender-grafite-pichacao-e-linguagem-das-ruas


 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

"Sonha" ou a degradação no tempo

*  Victor Nogueira


Numa parede que limita o adro da Igreja de N. Sra da Anunciada, o "Sonha" degrada-se com a passagem do tempo e a acção de humanas ou desumanas mãos (foto GEDC0573)


o antes ...





... e o agoramente!





Sentir
.............   o veludo
...........................     da voz
.............   o calor
...........................     do sorriso
.............   a fragrância
...........................     do olhar
 .............o encanto.
 ...........................da alegria
 Libertar
 .............os gestos
 .............o silêncio
..............o riso
 .............as lágrimas
 Dizer
 .............amor
 .............camarada
..............amiga 
..............companheiro


1985.Julho.15 - Setúbal

Notícias do Bloqueio II




        Estão suspensas as palavras
        Proibidos os gestos
                   de ternura, amizade e amor.
         O silêncio invade as ruas
                   entra nas casas
                   senta-se á mesa da gente.
         Que sentido tem dizer
                   amor
                   amiga
                   camarada
                   companheiro?
         Que sentido tem
                   abrir as mãos e os olhos
                   e perguntar qual o significado do
                   que vemos, ouvimos, entendemos e sentimos?
         Gaivotas loucas, alvoraçadas, enchem os ares
         de movimento e ruído
         enquanto a vida escorre pelos dedos
                   indiferente
                   medíocre
                   submissa.

1985.Outubro.02 - Setúbal

segunda-feira, 13 de abril de 2020

DO ART ... NOT WAR




 Foto victor nogueira - 'DO ART ... NOT WAR' é o slogan neste grafito na Rua Luís Sá, uma rua desolada onde abundam corroídos pelo tempo. Presumo que o homenageado por esta artéria seja o dirigente do PCP falecido em 1999.

VER 

Murais e Grafitos em Setúbal 78

domingo, 12 de janeiro de 2020

Murais em Setúbal 75 - Grafito

* Victor Nogueira


foto victor nogueira - grafito em setúbal, no bairro do troino (2018.07.24)

domingo, 22 de dezembro de 2019

Festas felizes… da parte de Banksy

O artista urbano mais famoso do mundo terá criado este postal de Natal por Leonor Riso 


Pensa-se que será Banksy o autor desta pintura, em que José e Maria são impedidos de chegar a Belém devido ao muro da Cisjordânia. Actualmente, esta estrutura que divide Israel e a Palestina tem 760 quilómetros, mas está planeado que chegue aos 790. Pode chegar até aos 8 metros de altura e a ideia da sua construção surgiu em 2001. Começou a ser erigido em meados de 2002, segundo a revista ‘VEJA’. Para entrar em Israel, é necessário passar por vários checkpoints. O caminho inverso, com destino à Palestina, é menos controlado, segundo a mesma revista. Banksy já visitou a Palestina, em 2005, e também Israel, em 2007. O artista urbano pintou dos dois lados do muro. O jornal ‘The Guardian’ afirma que no seu site, Bansky relembra que a estrutura é considerada ilegal pelas Nações Unidas. Esta imagem tende a surgir todos os Natais, e de acordo com o ‘Huffington Post’, data de 2005. O cantor Robbie Williams terá comprado esta pintura, depois de a ver exposta numa galeria. Carregue na imagem seguinte para ver as pinturas que Bansky realizou nos dois lados do muro da Cisjordânia.




Este graffiti foi criado na parte palestiniana do muro, em 2005. De acordo com o jornal ‘The Guardian’, tem o nome de ‘Janela na Cisjordânia’.

A pomba da paz com um colete anti-bala foi pintada num edifício em Belém, e a sua autoria também é atribuída a Banksy e a outros artistas. Retrata a paz numa situação precária.

A imagem coloca uma menina a tentar escapar do muro com balões. Terá o nome de ‘Balloon Debate’ (debate com balões). Esta imagem está do lado da Cisjordânia. 

Este graffiti foi criado na parte palestiniana do muro, em 2005. De acordo com o jornal ‘The Guardian’, tem o nome de ‘Janela na Cisjordânia’.


O mais recente trabalho do artista Banksy foi revelado na simbólica cidade palestiniana de Belém, na Cisjordânia: um pequeno presépio em frente a um pedaço de muro perfurado por um obus. Intitulada “A cicatriz de Belém”, a obra foi apresentada na sexta-feira e está exposta na entrada do hotel Walled-Off, que Banksy abriu em 2017 na cidade e cujos quartos dão para o muro construído por Israel em prejuízo dos palestinianos.

Uma parte do muro, com as palavras paz e amor grafitadas, serve de pano de fundo a um presépio numa pequena mesa, com presentes ao pé. O impacto do obus no muro provocou um buraco com forma de estrela que fica acima de Maria, José e Jesus, rodeados de uma vaca e de um burro. Para Wissam Salsaa, director do hotel, “A cicatriz de Belém” simboliza uma “cicatriz da vergonha": “O muro simboliza a vergonha por todos os que apoiam o que se passa na nossa terra, todos os que apoiam a ocupação ilegal” da Cisjordânia por Israel desde 1967. 

foto - Ahmad Gharabl
https://www.publico.pt/2019/12/21/culturaipsilon/noticia/novo-trabalho-banksy-exposto-belem-cisjordania-presepio-1898194)


terça-feira, 17 de julho de 2018

Murais em Setúbal 62 - Série Setúbal Mais Bonita

* Victor Nogueira

Os murais e grafitos da presente publicação situados nas redondezas da Praça do Tratado de Lisboa, em Setúbal, dois deles resultantes do Projecto Setúbal Mais Bonita.




(Google Earth)

EN 10  - Parque Natural da Arrábida



(Google Earth)

Rua General Daniel de Sousa, 93 - Setúbal Mais Bonita



Avenida General Daniel de Sousa, 29 -  Creche Golfinho Azul




Rua General Daniel de Sousa, 130 / 134


(Google Earth)







Rua General Daniel de Sousa, 138 - Setúbal Mais Bonita (Bocage)


fotos em 2018.06/07

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Murais em Setúbal 54 - Grafitos 07 - Animais 02

* Victor Nogueira

Esta recolha inclui também grafitos já publicados em  Murais em Setúbal 18 - Grafitos 02 - Rostos e Animais  Em grafitos, no entanto os "animais" são em muito menor número que os "rostos humanos", alguns destes com ar de ET's (extra-terrrestes), mesmo considerando conjuntos mais elaborados como os murais,  de que são exemplo  Golfinhos em Setúbal 03 - o mural ou  Murais em Setúbal 13 - Quinta da Saboaria para lá dos Jardins de Infância, onde, aqui sim, proliferam,  conjuntaamente com a flora, nomeadamente flores.



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Rua das Oliveiras (pormenores)


Rua de Ormuz (pormenor)


Avenida dos Combatentes da Grande Guerra


Rua Balneário Dr. Paula Borba



Avenida da Belavista





Bairro da Belavista


Rua Clube Recreativo da Palhavã


Rua José Carlos da Maia






Rua  José Augusto dos Santos


fotos em 2017 / 2018


MURAIS COM TEMÁTICA ANIMAL





Série Murais e Grafitos em Setúbal