Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 6 de junho de 2026

Murais de solidariedade internacionalista (19) - Abril nas paredes

 * Victor Nogueira



 Foto Victor Nogueira - Paço de Arcos - mural 1986 Rua Marquês de Pombal Por um século XXI livre de armas nucleares  -  Marcha  da Paz . [Lisboa] 21-6-86 - MDM


2021 07 31 Foto Victor Nogueira  - Liberdade  pata Mumia Abu-Jamal, pseudônimo de Wesley Cook (24 de abril de 1954)


foto victor nogueira - 1974 75 - cartazes e murais de abril 05 - Lisboa  [PCP (R)] Manifestação dia 26 [...] [contra a NATO e a CIA]


Lisboa (estaçao sul e sueste) 1975 -0001  CMLP - Comité Marxista-Leninista Português -  Contra as manobras da NATO -   Rossio 19.30 h


Torre da ;Marinha 1979 08 - 0002 # 1917  -  1978 Viva o 61º aniversário da Grande Revolução Socialista


Festa do Avante 2018- Solidariedade internacionaista_ contra a guerra defender a Paz (IMG_8514)


Festa do Avante 2018 - Liberdade para a Palestina, Fim ao terrorismo de Israel  (IMG_8517)


Festa do Avante 2018 - Karl Marx - A libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores (IMG_8489)

Murais de Solidariedade internacionalista (18) . Marxistas

 

2026 04 14 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália, sobre as lutas operárias, o PCI e o marxismo-leninismo.

«O mural é uma homenagem ao pensamento marxista-leninista e às lutas operárias italianas do início do século XX. As figuras à esquerda: No topo, o rosto de Antonio Gramsci, intelectual e fundador do Partido Comunista Italiano (natural da Sardenha). Abaixo dele, o "trio clássico" do comunismo: Lenin, Friedrich Engels e Karl Marx. O contexto: A obra evoca o período do Biennio Rosso (1919-1920), uma época de intensa agitação social na Itália, marcada por greves e ocupações de fábricas por operários.

🧾 TRANSCRIÇÃO + TRADUÇÃO  

🔴 Painel esquerdo (balão superior)  Italiano (original):

GLI OPERAI ITALIANI HANNO APPRESO DALLA LORO / ESPERIENZA CHE NON È  /  POSSIBILE CHE IL PARTITO  / DELLA CLASSE OPERAIA SI LIMITI AD UNA  / AZIONE RIVENDICATIVA, MA CHE ESSO DEVE  / CONDURRE UNA LOTTA POLITICA PER LA  /
CONQUISTA DEL POTERE, PER L’ABBATTIMENTO  / DEL CAPITALISMO E PER LA REALIZZAZIONE  / DELLA DITTATURA DEL PROLETARIATO

Português:  Os operários italianos aprenderam com a sua experiência que não é possível que o partido  / da classe operária se limite a uma ação reivindicativa, mas que deve  / conduzir uma luta política pela conquista do poder, pela derrubada  / do capitalismo e pela realização da ditadura do proletariado  

🔴 Painel esquerdo (balão manuscrito lateral) Italiano: Livorno nel gennaio del 1921 nasce il P.C.I. /  e fonda il Partito Comunista

Português:  Em Livorno, em janeiro de 1921, nasce o PCI  / e é fundado o Partido Comunista

🔴 Painel esquerdo (faixa vermelha) Italiano: PARTITO COMUNISTA  / SEZIONE DELLA INTERNAZIONALE COMUNISTA

Português: Partido Comunista  / Secção da Internacional Comunista

🔴 Faixa inferior (centro)  Italiano:

DOPO 20 GIORNI DI OCCUPAZIONE DELLE  / FABBRICHE GLI OPERAI SONO COSTRETTI A  / RITORNARE AL LAVORO SENZA OTTENERE NULLA  / DAI PADRONI  / /  SUBITO DOPO BEN 50000  /  OPERAI TORINESI VENGONO  / LICENZIATI E I PADRONI  / INIZIANO A DARE  / SOLDI AI FASCISTI

Português:  Depois de 20 dias de ocupação das  / fábricas, os operários são obrigados a  / regressar ao trabalho sem obter nada  / dos patrões  / / Logo depois, cerca de 50.000  / operários de Turim são  / despedidos e os patrões começam a dar  / dinheiro aos fascistas

🔴 Painel direito (título) Italiano: OPERAI METALLURGICI

Português: Operários metalúrgicos

🔴 Painel direito (texto principal) Italiano: OGNI ESIGENZA LA LOTTA AD OLTRANZA IL  /
POSSESSO DELLE FABBRICHE È AVVENIRE  / TUTTA LA TECNICA NELLE MANI DEGLI OPERAI  / VITA ECONOMICA SENZA PADRONI  / / LA PARTE INDUSTRIALE NON PUÒ VIVERE SENZA DI NOI  / E COSÌ STABILIREMO CHE SOLO QUANDO VORREMO / CEDERE, IL PUBBLICO AVRÀ ACCOLTO  / LE NOSTRE RICHIESTE

Português:
Toda a exigência: a luta até às últimas consequências; a posse das fábricas é o futuro; / toda a técnica nas mãos dos operários;  / vida económica sem patrões  / / A parte industrial não pode viver sem nós  / e assim estabeleceremos que só quando quisermos  / ceder, o público terá acolhido  / as nossas reivindicações

🔴 Painel direito (primeiro bloco) Italiano: COMPAGNI! / / LASCIAMO CHE I NOSTRI AVVERSARI, I PADRONI, SI STRUTTURINO  / DURANTE LA GUERRA: NOI QUESTE CANAGLIE DOBBIAMO  / COMBATTERLE CON FORZA E DECISIONE  / / NON DIMENTICHIAMO CHE NELLA GUERRA  / DICHIARATA TRA LE CLASSI  / DOBBIAMO COLPIRE I NOSTRI NEMICI  / COME SI MERITANO PUNIRLI

Português: Camaradas! / / Deixemos que os nossos adversários, os patrões, se organizem  / durante a guerra: nós devemos  / combatê-los com força e decisão  / / Não esqueçamos que na guerra  / declarada entre as classes  / devemos atingir os nossos inimigos  / e puni-los como merecem

🔴 Painel direito (segundo bloco)  Italiano:  COMPAGNI! / / DOMENICA NON ABBANDONATE IL DOVERE  / RIMANETE UNITI  / E POI NON LASCIATE SFUGGIRE  / QUESTA OCCASIONE  / / ORGANIZZATEVI  / RAFFORZATE I CONSIGLI  / CONTINUATE LA LOTTA

Português: Camaradas!  / / No domingo não abandonem o dever  / permaneçam unidos  / e não deixem escapar  / esta ocasião  / / organizem-se  / reforcem os conselhos  / continuem a luta » (Google Gemini e chatGPT)



2026 05 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Nuestra patria è il mondo intero' (A nossa pátria é o mundo inteiro)



Stornelli d'esilio (anonimo -- Pietro Gori) canta Margot -


Franco Trincale Nostra Patria è il mondo intero


Nostra Patria è il Mondo Intero - Canti di Rivolta


 (A nossa Pátria é o mundo inteiro) é o refrão de uma canção/poema anarquista italiana intitulada "Stornelli d'esilio" (Cantos de exílio), escrita pelo intelectual e ativista anarquista Pietro Gori em 1895.

Embora a frase seja anarquista, o mural inclui os nomes de Karl Marx e Federico Engels, unindo diferentes vertentes do pensamento revolucionário e internacionalista sob uma linguagem visual inspirada em Picasso.
 VER  

Pietro Gori - A nossa Pátria é o mundo inteiro

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Murais de solidariedade internacionalista (17) - Estaline



Mural na Baixa da Banheira 1980 -0001 #  PCP (R) Viva o centenário do nascimento de Estaline (Foto Victor Nogueira)

«A imagem mostra um mural político pintado numa parede exterior na Baixa da Banheira, no período após o 25 de Abril de 1974), que serve como cartaz de propaganda e convocatória para um evento partidário.

À esquerda do mural, está desenhado o símbolo comunista da foice e do martelo com uma estrela de cinco pontas, acompanhado pela sigla PCPRPartido Comunista Português (Reconstruído), uma organização de tendência marxista-leninista/maoísta ativa em Portugal no período pós-revolucionário. Ao centro, destaca-se um retrato pintado de Estaline (Ióssif Stálin).

O que está escrito no mural divide-se em duas partes principais:

Ao centro (por cima e por baixo do retrato):

"Viva o Centenário do Nascimento de STÁLINE! Grande Guia do Proletariado Mundial!" (Nota: O centenário do nascimento de Estaline celebrou-se em dezembro de 1979, o que ajuda a enquadrar a data da fotografia).

À direita (o anúncio do evento):

"COMÍCIO de ENCERRAMENTO do 3º CONGRESSO do PCP(R) dia 1 de JULHO DOMINGO AS 15 HORAS no Campo Pequeno com a Presença de delegações Estrangeiras"

O que representa: O mural representa a atividade de propaganda política da extrema-esquerda portuguesa no final da década de 1970. Especificamente, serve para convocar os apoiantes e a classe trabalhadora para o grande comício que encerrava o Terceiro Congresso do PCP(R), realizado na praça de touros do Campo Pequeno, em Lisboa, e simultaneamente homenagear a figura histórica de Estaline no ano do seu centenário.» (Google Gemini)


«Este mural parece ser um dos famosos murais políticos de Orgosolo, aldeia conhecida pelas centenas de pinturas murais com temas históricos, sociais e ideológicos.

O que está escrito?

Na faixa superior lê-se uma citação atribuída a Aleksandr Solzhenitsyn:

"Sullo stesso nastro d'asfalto su cui di notte circolano i carri per trasportare i prigionieri, di giorno camminano i giovani con le bandiere e i fiori cantando canzoni allegre e spensierate."

Tradução aproximada:

"Sobre a mesma faixa de asfalto por onde, durante a noite, circulam os veículos que transportam os prisioneiros, durante o dia caminham os jovens com bandeiras e flores, cantando canções alegres e despreocupadas."

É uma reflexão sobre a coexistência entre a vida quotidiana e a repressão política.

À direita aparece uma frase atribuída a Joseph Stalin:

"Una singola morte è una tragedia, un milione di morti è una statistica."

Tradução:

"Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística."

Embora a frase seja popularmente atribuída a Stalin, os historiadores discutem se ele a pronunciou realmente.


O que representa o mural?

O mural é uma crítica ao sistema repressivo da antiga União Soviética, especialmente ao período de Stalin.

À esquerda

Vê-se um agente da polícia política soviética (NKVD), empunhando um chicote.

No texto italiano ao lado lê-se, em resumo, que:

  • a denúncia anónima tornou-se um instrumento comum;
  • incentivava-se a denunciar familiares e vizinhos;
  • criou-se um clima de medo e suspeita.

Ao centro

Há um contraste muito evidente:

  • uma criança pioneira soviética com bandeira;
  • trabalhadores e camponeses sorridentes;
  • símbolos do comunismo (foice e martelo);
  • slogans em russo como:

МИР – ТРУД – МАЙ

que significa:

"Paz – Trabalho – Maio"

(slogan tradicional das celebrações do 1.º de Maio soviético).

Esta parte representa a propaganda oficial do regime.

À direita

Aparecem prisioneiros numerados, carregando pedras e puxando vagonetas.

São uma referência aos:

Gulag

os campos de trabalho forçado onde milhões de pessoas foram presas durante o período estalinista.

Os textos vermelhos enumeram números de vítimas, execuções, deportações e mortes associadas às repressões soviéticas.


Mensagem global do mural

A composição opõe duas realidades:

  1. A imagem idealizada da União Soviética
    • paz;
    • trabalho;
    • progresso;
    • juventude feliz.
  2. A realidade da repressão
    • polícia política;
    • denúncias;
    • prisões;
    • campos de trabalho;
    • milhões de vítimas.

O "buraco" pintado na parede funciona como uma metáfora visual: por trás da fachada colorida da propaganda, o artista mostra aquilo que considera ter sido a realidade oculta do regime.

Trata-se, portanto, de um mural fortemente antitotalitário, centrado na denúncia dos crimes do estalinismo e dos Gulags, tema muito associado às obras de Solzhenitsyn, especialmente o livro Arquipélago Gulag.

Pela estética, pelo tema e pela localização, é muito provável que este mural tenha sido realizado por artistas ligados ao movimento muralista de Orgosolo nas décadas finais do século XX.» (chatGPT)

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Este é mais um mural marcante localizado em Orgosolo, na Sardenha. Ao contrário do anterior, este foca-se numa perspetiva histórica e altamente crítica em relação ao regime soviético, ao Stalinismo e ao sistema do Gulag.

A composição estabelece um forte contraste entre a propaganda oficial idealizada pelo regime e a realidade violenta de repressão, trabalho forçado e censura.

O que está escrito (Tradução e Transcrição)

1. A citação principal (no topo):

"Sullo stesso nastro d'asfalto su cui di notte circolano i carri per trasportare i prigionieri - di giorno camminano i giovani con le bandiere e i fiori cantando canzoni allegre e spensierate."Aleksander Solzenicyn

  • Tradução: "Na mesma faixa de asfalto onde de noite circulam as carruagens para transportar os prisioneiros - de dia caminham os jovens com bandeiras e flores cantando canções alegres e despreocupadas."

  • Significado: Esta frase do famoso dissidente e escritor soviético Aleksandr Solzhenitsyn sintetiza a dualidade do regime totalitário: a fachada festiva diurna versus o terror e os sequestros políticos noturnos.

2. Os títulos à direita:

  • "Una singola morte è una tragedia" / "Un milione di morti è una statistica"Stalin

    • Tradução: "Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística" (frase historicamente atribuída a Josef Stalin, ilustrando o cinismo e a desumanização do regime perante a perda de vidas em massa).

3. Os blocos de texto explicativos (históricos):

  • À esquerda: Explica o clima de paranoia e denúncia do regime, onde bastava uma denúncia anónima para que alguém fosse considerado "inimigo do povo" e enviado para morrer no Gulag. Refere que, para o nascimento do comunismo, se eliminou a inteligência, a propriedade privada, as tradições, a história e a religião, classificando-o como uma "verdadeira catástrofe demográfica e da cultura russa".

  • À direita: Lista os números estimados de vítimas em diferentes períodos do regime soviético (Guerra Civil, coletivização forçada de 1929-1933, fuzilamentos políticos do Grande Terror de 1937-1938, as mortes nos campos do Gulag entre 1935-1956, e as fomes). Os números a vermelho destacam marcas como 1.000.000, 3.000.000 e 1.200.000 de mortos.

O que representa (Elementos Visuais)

O mural divide-se visualmente em três cenários interligados:

A. A figura do opressor (Esquerda)

Representa Lavrentiy Beria (identificado pelo texto vertical junto à sua perna: "Lavrentij Berija capo del NKVD / Organizzatore delle repressioni di massa"). Beria foi o temido chefe da polícia secreta de Stalin (NKVD). Ele surge retratado com óculos, farda militar, pisando papéis (que simbolizam direitos, leis ou vidas descartadas) e empunhando um chicote, personificando o terror do Estado.

B. A ilusão da Propaganda (Centro)

Dentro de uma moldura que simula uma rutura na parede cinzenta, irrompe uma imagem colorida que replica os cartazes de propaganda idealizados pelo Realismo Socialista:

  • Camponeses e operários sorridentes, fortes e orgulhosos, carregando trigo sob a bandeira vermelha da URSS com a foice e o martelo, com o Kremlin de Moscovo ao fundo.

  • Está escrito "МИР, ТРУД, МАЙ" (Paz, Trabalho, Maio), o famoso slogan soviético do Dia do Trabalhador.

C. A realidade do Gulag (Direita)

Imediatamente ao lado da imagem colorida e idílica, a pintura regressa ao tom cinzento e sombrio para mostrar a realidade oculta:

  • Prisioneiros numerados (como se vê o número nas costas de um deles: 20361) em trabalhos forçados, acorrentados e a empurrar um carrinho de mão cheio de pedras pesadas.

Resumo da Obra

Este mural funciona como um memorial histórico e uma denúncia explícita dos crimes de Estado da União Soviética sob o comando de Stalin e Beria, usando as próprias palavras de Solzhenitsyn para expor como a propaganda festiva servia para encobrir um sistema brutal de repressão e morte. (Google Gemini)

Murais de solidariedade internacionalista (16) - em Orgosolo

 * Victor Nogueira


2026 05 31 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Homenagem a Fabrizio De André

«Este mural de Orgosolo afasta-se momentaneamente da temática puramente militar ou operária para prestar um tributo comovente à música de intervenção italiana. Trata-se de uma homenagem a Fabrizio De André, um dos maiores cantautores (cantautori) da história de Itália, cuja ligação à Sardenha foi profunda, complexa e espiritual.

O texto manuscrito no centro da parede reproduz os versos finais de uma das canções mais célebres e emotivas de De André, intitulada "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro"), escrita em 1967:

"Dio di misericordia
tuo bel paradiso
lo hai fatto soprattutto
per chi non ha sorriso
per quelli che han vissuto con la
coscienza pura
l'inferno esiste solo
per chi ne ha paura."

Tradução:
"Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu, para aqueles que viveram com a consciência pura; o inferno existe apenas para quem tem medo dele."

(Nota histórica: De André escreveu esta canção em homenagem ao seu amigo íntimo e também cantor Luigi Tenco, que se tinha suicidado pouco tempo antes. A letra desafia as convenções religiosas rígidas da época, defendendo que os marginalizados, os infelizes e os que sofrem encontram a paz independentemente dos dogmas).

A composição visual é uma belíssima fusão da identidade de Fabrizio De André com a própria cultura sarda:

A Figura do Cantautor: Do lado direito, vemos Fabrizio De André representado de forma realista, sentado com a sua guitarra acústica ao colo. O seu olhar é sereno e pensativo, captando a sua postura típica de "poeta dos vencidos" e dos marginalizados da sociedade.

A Ligação à Sardenha (Lado Esquerdo): À esquerda do texto, surgem duas figuras típicas da ilha: um homem mais jovem com uma t-shirt onde se lê "NOMADI" (referência tanto ao estilo de vida nómada/pastoril como à famosa banda de rock nómada/de intervenção italiana I Nomadi) e, ao seu lado, um idoso com a boina tradicional sarda (berritta) apoiado num cajado. Representam o povo comum, os pastores e as gentes da Barbagia que acolheram o músico.

A Pintura Surrealista (Ao Centro): Acima do texto, há uma composição mais abstrata e cubista, que mostra uma figura a tocar harmónica e um cenário que funde a natureza rústica da Sardenha com traços de fumo e formas oníricas. Esta secção evoca a própria criatividade poética e a imaginação do músico.

O Contexto de De André na Sardenha:
Este mural carrega um significado emocional gigantesco para a população local. Fabrizio De André apaixonou-se de tal forma pela Sardenha que comprou uma propriedade em Tempio Pausania, onde decidiu viver. Em 1979, ele e a sua esposa, Dori Ghezzi, foram raptados por um grupo de banditismo sardo e mantidos em cativeiro nas montanhas do Supramonte durante quase quatro meses.

Em vez de guardar rancor, após ser libertado, De André declarou que compreendia a miséria profunda dos seus raptores (vítimas de um sistema de abandono económico) e dedicou canções lindíssimas à dignidade do povo sardo. Este mural é a resposta de Orgosolo: uma declaração de amor e respeito eterno a um poeta que soube ler a alma da ilha.» (Google Gemini)



2026 06 03 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Solidariedade com a Palestina 

«Este mural de Orgosolo aborda um tema geopolítico de grande impacto e sofrimento humano: o conflito israelo-palestiniano, focando na destruição e nas vítimas civis.

O mural contém duas frases principais escritas em italiano com uma caligrafia cursiva fluida na parede branca: À esquerda (no topo): "Quante stragi di innocenti per la fine di un tiranno?"  Tradução: "Quantos massacres de inocentes pelo fim de um tirano?"  À direita (ao centro):  "due popoli una strage" Tradução: "dois povos, um massacre" Há também pequenas inscrições integradas no desenho: Nas ruínas ao centro, lê-se de forma discreta: "DUE POPOLI DUE STATI" (Dois povos, dois Estados).

Há assinaturas e datas de autoria ou retoques nos cantos, como "KIKINU" perto do soldado e à extrema direita.

Este mural é uma forte denúncia pacifista e humanitária contra os custos humanos da guerra, criticando a violência que atinge a população civil de ambos os lados do conflito.

1. Elementos Visuais e Simbologia
O Soldado e as Vítimas: À esquerda, um soldado com capacete e fardamento militar aponta uma arma pesada. Abaixo e ao centro, corpos caídos e contorcidos no chão representam a morte de inocentes. O estilo destas figuras humanas caídas remete fortemente à carga dramática de Guernica, de Pablo Picasso, uma referência artística recorrente nos murais políticos de Orgosolo para retratar o horror da guerra.

Os Símbolos Religiosos e Culturais: Uma das figuras caídas ao centro carrega visivelmente uma Estrela de David ao pescoço. O mural procura humanizar as vítimas, sublinhando que a dor do luto e da perda afeta tanto israelitas como palestinianos.

A Destruição: Ao fundo, veem-se edifícios em ruínas e uma árvore seca, simbolizando a devastação das cidades, das casas e da própria vida na região afetada pelo conflito.

2. O Significado Político
A frase "dois povos, um massacre" resume a mensagem central do muralista: independentemente das divisões políticas, das fronteiras ou das justificações dos governantes (a busca pelo "fim de um tirano"), o resultado real da guerra no terreno é partilhado na forma de tragédia e sofrimento para as pessoas comuns de ambas as nações. A inscrição "dois povos, dois Estados" reforça o apelo diplomático e pacífico por uma coexistência soberana e justa como alternativa à violência.» (Google Gemini)



2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha Itália - Contra a I Grande Guerra (1914 - 1918)
2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha Itália - Contra a I Grande Guerra (1914 - 1918)

«Este mural, presente é mais uma obra de forte teor político e histórico em Orgosolo, conectando a memória das guerras mundiais com a identidade e os ideais do povo sardo.

O texto principal está escrito em letras cursivas vermelhas no canto inferior esquerdo, abaixo da figura de um soldado na trincheira:

"non per un palmo
di lontana frontiera
abbiamo gettato al vento la nostra
giovinezza ma per un più alto
ideale di libertà e di giustizia"

Tradução para o português:
"Não por um palmo / de uma fronteira distante / jogámos ao vento a nossa / juventude, mas por um mais alto / ideal de liberdade e de justiça"

Outras inscrições:
Assinatura e data: Logo após o texto, lê-se "E. Lussu 24-5-1924", indicando que a frase é uma citação de Emilio Lussu proferida ou escrita nessa data (exatamente nove anos após a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial).

No papel do soldado: A figura agonizante na trincheira segura um pedaço de papel onde se vislumbram palavras de ordem políticas, historicamente ligadas ao pós-guerra e às reivindicações camponesas como "Guerra alla guerra..." (Guerra à guerra) e "Terra ai contadini" (Terra aos camponeses).

O que representa este mural?
O mural é uma poderosa crítica aos horrores da Primeira Guerra Mundial e um manifesto sobre o sacrifício da juventude sarda, que foi enviada em massa para a frente de combate (através da famosa Brigata Sassari).

1. O Contraste Visual (Guerra vs. Identidade)
O lado esquerdo (A Tragédia): Mostra um soldado caído num cenário sombrio e cinzento de trincheira, cercado por arame farpado e fumo de explosões. Ele representa o sacrifício físico e mental dos jovens camponeses arrancados das suas terras para lutar numa guerra cujas fronteiras geopolíticas não lhes diziam nada.

O lado direito (A Resistência e a Vida): Em forte contraste, o lado direito explode em cores e formas que celebram o povo sardo. Vê-se uma multidão compacta de homens, mulheres e crianças com traços marcantes, camponeses, pastores, cavalos e os típicos cactos da região (fichi d'India).

2. Símbolos de Identidade e Luta
A Bandeira dos Quatro Mouros: Um homem a cavalo ergue orgulhosamente a bandeira oficial da Sardenha (I Quattro Mori), reforçando o sentimento de autonomia e o nacionalismo sardo defendido por Emilio Lussu no período pós-guerra.

A Citação de Emilio Lussu: Como oficial da Brigada Sassari durante o conflito, Lussu testemunhou a morte de milhares de conterrâneos. A sua frase resume o sentimento de revolta da época: a juventude sarda não morreu feliz por meras disputas territoriais do Estado italiano ("um palmo de fronteira distante"), mas sim na esperança de que esse sacrifício trouxesse uma verdadeira transformação social, dignidade, liberdade e justiça para o seu próprio povo.» (Google Gemini)
  
Esta foto já havia sido publicada em  2026 04 20   Murais de Solidariedade Internacionallsta (09)



2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Che Guevara

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)
O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."

Tradução: "Sobretudo, sejais capazes de sentir no mais profundo do coração qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário."

Nota de rodapé no mural: Logo abaixo do texto, entre parênteses, lê-se: (dalla lettera ai figli) (da carta aos filhos) e a assinatura Ernesto Che Guevara, com o ano 1965.

2. Slogans de Protesto (À Direita)
No lado direito do mural, inseridos no cenário de manifestação, encontram-se dois slogans pacifistas muito conhecidos:

Ao fundo, em letras brancas sobre fundo vermelho: "NO ALLA GUERRA" (Não à guerra).

No cartaz erguido pela mulher: "NOT IN MY NAME" (Não em meu nome — um famoso slogan internacional utilizado em protestos contra intervenções militares).

O que representa este mural?
O mural funciona como um manifesto de solidariedade global, empatia e pacifismo, cruzando referências históricas com causas humanitárias modernas.

1. A Figura de Che Guevara
Ernesto "Che" Guevara é retratado à esquerda com a sua icónica boina com a estrela e fardamento verde. O muralista optou por realçar as suas mãos com traços fortes e geométricos (estilo que remete ao muralismo mexicano de Diego Rivera ou David Alfaro Siqueiros). A citação escolhida — extraída da carta de despedida que Che escreveu aos seus filhos em 1965, quando partiu de Cuba — não foca nas armas ou no combate, mas sim na empatia universal como o verdadeiro motor de um idealista.

2. O Protesto Pacifista e Artístico
À direita, o cenário muda para uma manifestação de rua. As figuras humanas neste setor são desenhadas com uma forte influência do cubismo e do estilo expressionista de Pablo Picasso (uma clara alusão ao sofrimento civil retratado em Guernica).

Uma mulher descalça grita erguendo o cartaz "Not in my name".

Abaixo dela, um homem com expressão de angústia carrega o símbolo universal da Paz estampado na camisola.

3. O Significado em Orgosolo
Colocar a frase de Che Guevara ao lado de um protesto anti-guerra contemporâneo serve para redefinir o conceito de "revolucionário" em Orgosolo. O mural sugere que, no mundo atual, a verdadeira revolução não se faz necessariamente com armas, mas sim através da recusa da guerra e da capacidade de partilhar a dor dos povos oprimidos ou bombardeados em qualquer canto do planeta.» (Google Gemini)




2026 06 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o trabalho infantil e homenagem ao jovem ativista paquistanês Iqbal Masih

«Este mural em Orgosolo lança luz sobre uma trágica causa humanitária global: a exploração do trabalho infantil e o assassinato do jovem ativista paquistanês Iqbal Masih.

Aqui está o detalhamento do texto e do profundo significado desta obra:

O texto está escrito em italiano diretamente sobre a parede branca, dividido em duas mensagens principais (uma em letras de imprensa maiúsculas e outra em letra cursiva vermelha):

1. O Manifesto (Em cima, em letras garrafais):
"GLI unici strumenti di lavoro che un bambino dovrebbe tenere in mano sono penne e matite."

Tradução: "Os únicos instrumentos de trabalho que uma criança deveria ter na mão são canetas e lápis."

2. A História de Iqbal (O bloco de texto em vermelho):
"Nel giorno di Pasqua, sicari della mafia dei fabbricanti di tappeti sparano a bruciapelo contro Iqbal Masih uccidendolo, mentre corre in bicicletta nella città di Muridke, vicino a Lahore in Pakistan. Iqbal aveva dodici anni e dall'età di quattro anni aveva lavorato, in condizioni di schiavitù, nelle fabbriche di tappeti. Si era ribellato a questa condizione, era fuggito ed era diventato il simbolo della lotta contro il lavoro minorile."

Tradução: "No dia de Páscoa, assassinos a soldo da máfia dos fabricantes de tapetes dispararam à queima-roupa contra Iqbal Masih, matando-o, enquanto ele andava de bicicleta na cidade de Muridke, perto de Lahore, no Paquistão. Iqbal tinha doze anos e, desde os quatro anos de idade, tinha trabalhado, em condições de escravatura, nas fábricas de tapetes. Tinha-se rebelado contra esta condição, fugira e tornara-se o símbolo da luta contra o trabalho infantil."

(Nota: Abaixo do retrato estilizado do menino, encontram-se os anos que delimitam a sua curta vida: 1983 - 1995).

O que representa este mural?
Este mural é uma homenagem à memória de Iqbal Masih e funciona como uma denúncia universal e atemporal contra a escravidão infantil.

1. A Retratação e o Símbolo
À esquerda, o muralista pintou o rosto de Iqbal em tons de vermelho e bege. A escolha cromática crua e os traços fortes dão-lhe o aspeto de um ícone ou mártir da resistência camponesa/operária. Iqbal não é retratado como uma vítima indefesa, mas com um olhar digno de quem se rebelou contra um sistema opressor.

2. O Contraste Social da Mensagem
A frase do topo resume a filosofia do mural. O contraste entre os "instrumentos" que lhe foram impostos na infância (ferramentas de tecelagem, nós apertados, privação) e os instrumentos que por direito lhe pertenciam (a educação, representada pelas canetas e lápis) serve para lembrar o espectador de que o trabalho infantil rouba o futuro e a dignidade das crianças.

3. O Contexto de Orgosolo
Fiel à tradição dos murais da vila, que historicamente defendem os direitos dos trabalhadores, dos camponeses e dos oprimidos, esta obra expande a lente da comunidade para o plano internacional. Ao expor a "máfia dos tapetes" no Paquistão, o mural liga a secular luta sarda contra as injustiças sociais à causa global dos direitos humanos e à proteção da infância.» (Google Gemini) 


2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O que está escrito?

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

O que representa este mural?

Este mural é uma crítica profunda à glorificação da guerra e aos interesses económicos que a sustentam, defendendo que a verdadeira felicidade de uma sociedade reside na paz e na dignidade do dia a dia, e não no sacrifício heroico.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Veterano de Guerra: A figura central é um homem idoso, sentado e apoiado numa bengala, vestindo roupas humildes e a típica boina sarda (coppola). O seu olhar cansado e as feições marcadas simbolizam a sabedoria do tempo e o peso de quem já testemunhou os conflitos da história.

  • As Memórias do Passado: Atrás do idoso, num plano mais sombrio e cinzento cercado por arame farpado, surgem duas figuras de soldados de infantaria feridos (um deles com a cabeça ligada). Esta imagem serve como uma recordação das cicatrizes físicas e psicológicas deixadas pelos combates na juventude daquela geração.

  • A Natureza Local: À direita, a representação de um cardo selvagem sardo traz um elemento da flora local, simbolizando a resiliência e a dureza da vida na região de Barbagia.

2. O Significado Político e Social

Ao cruzar a filosofia de Brecht com a experiência humanitária contemporânea de Gino Strada, o mural desconstrói a narrativa romântica do "heroísmo militar". A obra argumenta que os heróis e os mártires só são necessários quando as sociedades falham ou entram em colapso devido a guerras motivadas pelo lucro financeiro e pelo poder. Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marcada pela resistência contra opressões externas e pela militarização do seu território, o mural é um apelo a uma sociedade pacífica, justa e autossuficiente, onde as pessoas comuns possam simplesmente viver em paz. (Gogle Gemini)

VER  Brecht e Gino Strada: guerra e paz

domingo, 31 de maio de 2026

Murais de solidariedade internacionalista (15) - Os Murais de Orgosolo

A Sardenha é a pátria do muralismo italiano e Orgosolo é a sua "capital".

A Sardenha, terra de contrastes, sabores fortes e cores vivas, habitada por um povo discreto e gentil, é a pátria do muralismo italiano e Orgosolo é a sua "capital". Na verdade, a cidade de Barbagia alberga 150 pinturas murais nas suas ruas que atraem a curiosidade de milhares de turistas italianos e estrangeiros todos os anos.


O primeiro mural em Orgosolo foi assinado em 1969 por Dioniso, nome coletivo de um grupo de anarquistas. Alguns anos depois, para honrar a Resistência e a Libertação da Itália do nazifascismo, um professor de Siena e os seus alunos do ensino básico criaram outros, aos quais se juntou mais tarde a contribuição de vários artistas e grupos locais. Embora Orgosolo continue a ser o líder da tradição mural, vilas como San Sperate, Villamar e Serramanna têm cultivado ao longo dos anos este fenómeno artístico e social que ainda hoje se expressa em questões globais e internacionais. Dezenas de pinturas murais embelezam muitas outras aldeias do interior da Sardenha e contam, na sua própria linguagem, os costumes e a cultura das pessoas que as habitam.


A tradição mural da Sardenha remonta a Pinuccio Sciola, a um grupo de arquitetos milaneses, bem como ao mestre Francesco Del Casino, durante os anos de protesto juvenil, no entanto, os autores de muitos murais são desconhecidos. A paixão política e social dos anos 60 e 70 deu origem a murais coletivos com figuras dramáticas, para contar a vida dos pastores, a miséria e as lutas pela terra, os politizados dos anos 70 e 80 que contavam as transformações da sociedade italiana gradualmente deram lugar a "pinturas" decorativas destinadas a ilustrar a vida quotidiana da vida pastoral e das aldeias insulares.


As técnicas são muito simples. Os muralistas sardos utilizam tintas à base de água, típicas dos interiores, e, portanto, extremamente perecíveis, talvez por uma escolha estética segundo a qual as obras só são repintadas se a comunidade sentir a necessidade, caso contrário, estão destinadas a desaparecer, deixadas à memória e à recordação. Os estilos são bastante diversificados e vão do impressionismo ao hiper-realismo, da pintura ingénua ao realismo.


Em Carbonia, Iglesias, Ozieri e San Teodoro, as casas que ladeiam as vias de transporte tornaram-se ao longo do tempo as "telas" de uma experimentação artística completa que, para além das intenções dos autores, se reconecta com a tradição dos grafítis de Lescaux e Pompeia, com a pintura revolucionária de Diego Rivera e Josè Clemente Orozco no México e não é alheia às escolhas e temas de tanta arte de rua contemporânea, de Lex&Sten em Itália a Shepard Fairey na América e Banksy no Reino Unido. Os murais da Sardenha representam hoje uma nova forma de mobiliário urbano, mas na maioria dos casos mantêm inalterada a mensagem de uma arte coletiva e popular sujeita todos os dias ao julgamento de quem a aprecia.

https://www.italia.it/pt/sardenha/orgosolo/o-que-fazer/os-murais-de-orgosolo 

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ITÁLIA: Os maravilhosos murais de Orgosolo, com estilo picassiano e repletos de mensagens de protesto.

Nas montanhas da Sardenha encontra-se a pequena e pitoresca vila de Orgosolo. E é tão pitoresca que se assemelha a uma pequena galeria de arte. As ruas e casas estão completamente decoradas com fascinantes pinturas murais, os chamados "murais". As obras frequentemente intercalam mensagens de protesto, frases de efeito e slogans, e os motivos muitas vezes retratam cenas políticas ou historicamente importantes. Mas, claro, há também muitos outros temas e motivos envolvidos, e de tempos em tempos novas obras de arte são adicionadas. As belíssimas fotos foram tiradas pelos fabulosos fotógrafos de viagens e exploradores do mundo, Praxinho e Ruth Neubauer .

O estilo de pintura existente é muito interessante, pois à primeira vista pouco se assemelha ao grafite convencional, assemelhando-se mais a uma tela aplicada em paredes residenciais. Muitas obras apresentam elementos abstratos e remetem a Picasso, além de traçarem paralelos com grandes obras de arte da história contemporânea. Este lugar é uma pequena joia artística, onde os amantes da arte urbana encontrarão verdadeiro deleite.

A primeira pintura mencionada nos Murais foi feita em 1968 pelo grupo anarquista milanês Dioniso em Orgosolo. O fundador foi Francesco del Casino, de Siena, que se estabeleceu em Orgosolo depois de assistir ao filme "Bandidos em Orgosolo". Casino era próximo ao Partido Comunista Italiano e o filme o tocou e inspirou profundamente. Este filme foi filmado pelo diretor Vittorio De Seta em 1961 em Orgosolo e mostra um pastor envolvido em um roubo de gado e acusado de assassinar um carabineiro, razão pela qual ele é obrigado a iniciar uma vida de bandido nas montanhas. E Casino também iniciou um projeto. Em 1975, ele começou a fazer pinturas fantásticas com estudantes nas paredes das casas em Orgosolo. A primeira ocasião foi o 30º aniversário da luta guerrilheira contra o fascismo.

Na verdade, esses estilos de pintura começaram na Sardenha, na pouco conhecida vila de San Sperate. Eles se espalharam e outros lugares também foram pintados. As pinturas murais em Orgosolo expressaram inicialmente o protesto contra o planejado campo de treinamento da OTAN em Pratobello. O protesto também é dirigido aos líderes do Grupo de Milão, que desviaram os fundos do plano de construção na Sardenha. Muitas imagens recentes comentam sobre a política mundial.

Numa das pinturas, Helmut Schmidt é referido como um "especialista em assassinatos de Estado" devido a Stammheim. Outra retrata a vitória dos combatentes cambojanos e vietnamitas contra os EUA. Questiona-se o número de vítimas inocentes na queda de Saddam Hussein. Outras imagens representam a vida simples de um pastor e da aldeia, defendem a preservação da língua sarda ou até incluem mensagens publicitárias. É, sem dúvida, uma magnífica galeria a céu aberto com estilo próprio, de valor histórico e repleta de mensagens.

Os estudos de Alfredo Niceforo sobre o crime na Sardenha também são satirizados por um mural irônico. Muitos dos mais de 120 murais, que agora compõem o conjunto, têm uma orientação estilística voltada para o cubismo, à semelhança de Guernica, de Picasso, mas também há pinturas mais realistas entre eles. Além de Francesco del Casino, os murais foram concebidos pelo artista autodidata Pasquale Buesca, que também residia em Orgosolo. O grupo feminista "Le Api" e o artista milanês Massimo Cantoni também participaram de algumas das obras. Apesar de alguns danos, principalmente devido a alterações nas casas ou às intempéries, todos os murais ainda se encontram em grande parte muito bem preservados. Uma visita de um dia a Orgosolo é altamente recomendada para quem aprecia esse tipo de arte.

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