Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 6 de junho de 2026

Murais de solidariedade internacionalista (16) - em Orgosolo

 * Victor Nogueira


2026 05 31 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Homenagem a Fabrizio De André

«Este mural de Orgosolo afasta-se momentaneamente da temática puramente militar ou operária para prestar um tributo comovente à música de intervenção italiana. Trata-se de uma homenagem a Fabrizio De André, um dos maiores cantautores (cantautori) da história de Itália, cuja ligação à Sardenha foi profunda, complexa e espiritual.

O texto manuscrito no centro da parede reproduz os versos finais de uma das canções mais célebres e emotivas de De André, intitulada "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro"), escrita em 1967:

"Dio di misericordia
tuo bel paradiso
lo hai fatto soprattutto
per chi non ha sorriso
per quelli che han vissuto con la
coscienza pura
l'inferno esiste solo
per chi ne ha paura."

Tradução:
"Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu, para aqueles que viveram com a consciência pura; o inferno existe apenas para quem tem medo dele."

(Nota histórica: De André escreveu esta canção em homenagem ao seu amigo íntimo e também cantor Luigi Tenco, que se tinha suicidado pouco tempo antes. A letra desafia as convenções religiosas rígidas da época, defendendo que os marginalizados, os infelizes e os que sofrem encontram a paz independentemente dos dogmas).

A composição visual é uma belíssima fusão da identidade de Fabrizio De André com a própria cultura sarda:

A Figura do Cantautor: Do lado direito, vemos Fabrizio De André representado de forma realista, sentado com a sua guitarra acústica ao colo. O seu olhar é sereno e pensativo, captando a sua postura típica de "poeta dos vencidos" e dos marginalizados da sociedade.

A Ligação à Sardenha (Lado Esquerdo): À esquerda do texto, surgem duas figuras típicas da ilha: um homem mais jovem com uma t-shirt onde se lê "NOMADI" (referência tanto ao estilo de vida nómada/pastoril como à famosa banda de rock nómada/de intervenção italiana I Nomadi) e, ao seu lado, um idoso com a boina tradicional sarda (berritta) apoiado num cajado. Representam o povo comum, os pastores e as gentes da Barbagia que acolheram o músico.

A Pintura Surrealista (Ao Centro): Acima do texto, há uma composição mais abstrata e cubista, que mostra uma figura a tocar harmónica e um cenário que funde a natureza rústica da Sardenha com traços de fumo e formas oníricas. Esta secção evoca a própria criatividade poética e a imaginação do músico.

O Contexto de De André na Sardenha:
Este mural carrega um significado emocional gigantesco para a população local. Fabrizio De André apaixonou-se de tal forma pela Sardenha que comprou uma propriedade em Tempio Pausania, onde decidiu viver. Em 1979, ele e a sua esposa, Dori Ghezzi, foram raptados por um grupo de banditismo sardo e mantidos em cativeiro nas montanhas do Supramonte durante quase quatro meses.

Em vez de guardar rancor, após ser libertado, De André declarou que compreendia a miséria profunda dos seus raptores (vítimas de um sistema de abandono económico) e dedicou canções lindíssimas à dignidade do povo sardo. Este mural é a resposta de Orgosolo: uma declaração de amor e respeito eterno a um poeta que soube ler a alma da ilha.» (Google Gemini)



2026 06 03 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Solidariedade com a Palestina 

«Este mural de Orgosolo aborda um tema geopolítico de grande impacto e sofrimento humano: o conflito israelo-palestiniano, focando na destruição e nas vítimas civis.

O mural contém duas frases principais escritas em italiano com uma caligrafia cursiva fluida na parede branca: À esquerda (no topo): "Quante stragi di innocenti per la fine di un tiranno?"  Tradução: "Quantos massacres de inocentes pelo fim de um tirano?"  À direita (ao centro):  "due popoli una strage" Tradução: "dois povos, um massacre" Há também pequenas inscrições integradas no desenho: Nas ruínas ao centro, lê-se de forma discreta: "DUE POPOLI DUE STATI" (Dois povos, dois Estados).

Há assinaturas e datas de autoria ou retoques nos cantos, como "KIKINU" perto do soldado e à extrema direita.

Este mural é uma forte denúncia pacifista e humanitária contra os custos humanos da guerra, criticando a violência que atinge a população civil de ambos os lados do conflito.

1. Elementos Visuais e Simbologia
O Soldado e as Vítimas: À esquerda, um soldado com capacete e fardamento militar aponta uma arma pesada. Abaixo e ao centro, corpos caídos e contorcidos no chão representam a morte de inocentes. O estilo destas figuras humanas caídas remete fortemente à carga dramática de Guernica, de Pablo Picasso, uma referência artística recorrente nos murais políticos de Orgosolo para retratar o horror da guerra.

Os Símbolos Religiosos e Culturais: Uma das figuras caídas ao centro carrega visivelmente uma Estrela de David ao pescoço. O mural procura humanizar as vítimas, sublinhando que a dor do luto e da perda afeta tanto israelitas como palestinianos.

A Destruição: Ao fundo, veem-se edifícios em ruínas e uma árvore seca, simbolizando a devastação das cidades, das casas e da própria vida na região afetada pelo conflito.

2. O Significado Político
A frase "dois povos, um massacre" resume a mensagem central do muralista: independentemente das divisões políticas, das fronteiras ou das justificações dos governantes (a busca pelo "fim de um tirano"), o resultado real da guerra no terreno é partilhado na forma de tragédia e sofrimento para as pessoas comuns de ambas as nações. A inscrição "dois povos, dois Estados" reforça o apelo diplomático e pacífico por uma coexistência soberana e justa como alternativa à violência.» (Google Gemini)



2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha Itália - Contra a I Grande Guerra (1914 - 1918)
2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha Itália - Contra a I Grande Guerra (1914 - 1918)

«Este mural, presente é mais uma obra de forte teor político e histórico em Orgosolo, conectando a memória das guerras mundiais com a identidade e os ideais do povo sardo.

O texto principal está escrito em letras cursivas vermelhas no canto inferior esquerdo, abaixo da figura de um soldado na trincheira:

"non per un palmo
di lontana frontiera
abbiamo gettato al vento la nostra
giovinezza ma per un più alto
ideale di libertà e di giustizia"

Tradução para o português:
"Não por um palmo / de uma fronteira distante / jogámos ao vento a nossa / juventude, mas por um mais alto / ideal de liberdade e de justiça"

Outras inscrições:
Assinatura e data: Logo após o texto, lê-se "E. Lussu 24-5-1924", indicando que a frase é uma citação de Emilio Lussu proferida ou escrita nessa data (exatamente nove anos após a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial).

No papel do soldado: A figura agonizante na trincheira segura um pedaço de papel onde se vislumbram palavras de ordem políticas, historicamente ligadas ao pós-guerra e às reivindicações camponesas como "Guerra alla guerra..." (Guerra à guerra) e "Terra ai contadini" (Terra aos camponeses).

O que representa este mural?
O mural é uma poderosa crítica aos horrores da Primeira Guerra Mundial e um manifesto sobre o sacrifício da juventude sarda, que foi enviada em massa para a frente de combate (através da famosa Brigata Sassari).

1. O Contraste Visual (Guerra vs. Identidade)
O lado esquerdo (A Tragédia): Mostra um soldado caído num cenário sombrio e cinzento de trincheira, cercado por arame farpado e fumo de explosões. Ele representa o sacrifício físico e mental dos jovens camponeses arrancados das suas terras para lutar numa guerra cujas fronteiras geopolíticas não lhes diziam nada.

O lado direito (A Resistência e a Vida): Em forte contraste, o lado direito explode em cores e formas que celebram o povo sardo. Vê-se uma multidão compacta de homens, mulheres e crianças com traços marcantes, camponeses, pastores, cavalos e os típicos cactos da região (fichi d'India).

2. Símbolos de Identidade e Luta
A Bandeira dos Quatro Mouros: Um homem a cavalo ergue orgulhosamente a bandeira oficial da Sardenha (I Quattro Mori), reforçando o sentimento de autonomia e o nacionalismo sardo defendido por Emilio Lussu no período pós-guerra.

A Citação de Emilio Lussu: Como oficial da Brigada Sassari durante o conflito, Lussu testemunhou a morte de milhares de conterrâneos. A sua frase resume o sentimento de revolta da época: a juventude sarda não morreu feliz por meras disputas territoriais do Estado italiano ("um palmo de fronteira distante"), mas sim na esperança de que esse sacrifício trouxesse uma verdadeira transformação social, dignidade, liberdade e justiça para o seu próprio povo.» (Google Gemini)
  
Esta foto já havia sido publicada em  2026 04 20   Murais de Solidariedade Internacionallsta (09)



2026 06 04 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Che Guevara

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)
O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."

Tradução: "Sobretudo, sejais capazes de sentir no mais profundo do coração qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário."

Nota de rodapé no mural: Logo abaixo do texto, entre parênteses, lê-se: (dalla lettera ai figli) (da carta aos filhos) e a assinatura Ernesto Che Guevara, com o ano 1965.

2. Slogans de Protesto (À Direita)
No lado direito do mural, inseridos no cenário de manifestação, encontram-se dois slogans pacifistas muito conhecidos:

Ao fundo, em letras brancas sobre fundo vermelho: "NO ALLA GUERRA" (Não à guerra).

No cartaz erguido pela mulher: "NOT IN MY NAME" (Não em meu nome — um famoso slogan internacional utilizado em protestos contra intervenções militares).

O que representa este mural?
O mural funciona como um manifesto de solidariedade global, empatia e pacifismo, cruzando referências históricas com causas humanitárias modernas.

1. A Figura de Che Guevara
Ernesto "Che" Guevara é retratado à esquerda com a sua icónica boina com a estrela e fardamento verde. O muralista optou por realçar as suas mãos com traços fortes e geométricos (estilo que remete ao muralismo mexicano de Diego Rivera ou David Alfaro Siqueiros). A citação escolhida — extraída da carta de despedida que Che escreveu aos seus filhos em 1965, quando partiu de Cuba — não foca nas armas ou no combate, mas sim na empatia universal como o verdadeiro motor de um idealista.

2. O Protesto Pacifista e Artístico
À direita, o cenário muda para uma manifestação de rua. As figuras humanas neste setor são desenhadas com uma forte influência do cubismo e do estilo expressionista de Pablo Picasso (uma clara alusão ao sofrimento civil retratado em Guernica).

Uma mulher descalça grita erguendo o cartaz "Not in my name".

Abaixo dela, um homem com expressão de angústia carrega o símbolo universal da Paz estampado na camisola.

3. O Significado em Orgosolo
Colocar a frase de Che Guevara ao lado de um protesto anti-guerra contemporâneo serve para redefinir o conceito de "revolucionário" em Orgosolo. O mural sugere que, no mundo atual, a verdadeira revolução não se faz necessariamente com armas, mas sim através da recusa da guerra e da capacidade de partilhar a dor dos povos oprimidos ou bombardeados em qualquer canto do planeta.» (Google Gemini)




2026 06 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o trabalho infantil e homenagem ao jovem ativista paquistanês Iqbal Masih

«Este mural em Orgosolo lança luz sobre uma trágica causa humanitária global: a exploração do trabalho infantil e o assassinato do jovem ativista paquistanês Iqbal Masih.

Aqui está o detalhamento do texto e do profundo significado desta obra:

O texto está escrito em italiano diretamente sobre a parede branca, dividido em duas mensagens principais (uma em letras de imprensa maiúsculas e outra em letra cursiva vermelha):

1. O Manifesto (Em cima, em letras garrafais):
"GLI unici strumenti di lavoro che un bambino dovrebbe tenere in mano sono penne e matite."

Tradução: "Os únicos instrumentos de trabalho que uma criança deveria ter na mão são canetas e lápis."

2. A História de Iqbal (O bloco de texto em vermelho):
"Nel giorno di Pasqua, sicari della mafia dei fabbricanti di tappeti sparano a bruciapelo contro Iqbal Masih uccidendolo, mentre corre in bicicletta nella città di Muridke, vicino a Lahore in Pakistan. Iqbal aveva dodici anni e dall'età di quattro anni aveva lavorato, in condizioni di schiavitù, nelle fabbriche di tappeti. Si era ribellato a questa condizione, era fuggito ed era diventato il simbolo della lotta contro il lavoro minorile."

Tradução: "No dia de Páscoa, assassinos a soldo da máfia dos fabricantes de tapetes dispararam à queima-roupa contra Iqbal Masih, matando-o, enquanto ele andava de bicicleta na cidade de Muridke, perto de Lahore, no Paquistão. Iqbal tinha doze anos e, desde os quatro anos de idade, tinha trabalhado, em condições de escravatura, nas fábricas de tapetes. Tinha-se rebelado contra esta condição, fugira e tornara-se o símbolo da luta contra o trabalho infantil."

(Nota: Abaixo do retrato estilizado do menino, encontram-se os anos que delimitam a sua curta vida: 1983 - 1995).

O que representa este mural?
Este mural é uma homenagem à memória de Iqbal Masih e funciona como uma denúncia universal e atemporal contra a escravidão infantil.

1. A Retratação e o Símbolo
À esquerda, o muralista pintou o rosto de Iqbal em tons de vermelho e bege. A escolha cromática crua e os traços fortes dão-lhe o aspeto de um ícone ou mártir da resistência camponesa/operária. Iqbal não é retratado como uma vítima indefesa, mas com um olhar digno de quem se rebelou contra um sistema opressor.

2. O Contraste Social da Mensagem
A frase do topo resume a filosofia do mural. O contraste entre os "instrumentos" que lhe foram impostos na infância (ferramentas de tecelagem, nós apertados, privação) e os instrumentos que por direito lhe pertenciam (a educação, representada pelas canetas e lápis) serve para lembrar o espectador de que o trabalho infantil rouba o futuro e a dignidade das crianças.

3. O Contexto de Orgosolo
Fiel à tradição dos murais da vila, que historicamente defendem os direitos dos trabalhadores, dos camponeses e dos oprimidos, esta obra expande a lente da comunidade para o plano internacional. Ao expor a "máfia dos tapetes" no Paquistão, o mural liga a secular luta sarda contra as injustiças sociais à causa global dos direitos humanos e à proteção da infância.» (Google Gemini) 


2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O que está escrito?

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

O que representa este mural?

Este mural é uma crítica profunda à glorificação da guerra e aos interesses económicos que a sustentam, defendendo que a verdadeira felicidade de uma sociedade reside na paz e na dignidade do dia a dia, e não no sacrifício heroico.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Veterano de Guerra: A figura central é um homem idoso, sentado e apoiado numa bengala, vestindo roupas humildes e a típica boina sarda (coppola). O seu olhar cansado e as feições marcadas simbolizam a sabedoria do tempo e o peso de quem já testemunhou os conflitos da história.

  • As Memórias do Passado: Atrás do idoso, num plano mais sombrio e cinzento cercado por arame farpado, surgem duas figuras de soldados de infantaria feridos (um deles com a cabeça ligada). Esta imagem serve como uma recordação das cicatrizes físicas e psicológicas deixadas pelos combates na juventude daquela geração.

  • A Natureza Local: À direita, a representação de um cardo selvagem sardo traz um elemento da flora local, simbolizando a resiliência e a dureza da vida na região de Barbagia.

2. O Significado Político e Social

Ao cruzar a filosofia de Brecht com a experiência humanitária contemporânea de Gino Strada, o mural desconstrói a narrativa romântica do "heroísmo militar". A obra argumenta que os heróis e os mártires só são necessários quando as sociedades falham ou entram em colapso devido a guerras motivadas pelo lucro financeiro e pelo poder. Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marcada pela resistência contra opressões externas e pela militarização do seu território, o mural é um apelo a uma sociedade pacífica, justa e autossuficiente, onde as pessoas comuns possam simplesmente viver em paz. (Gogle Gemini)

VER  Brecht e Gino Strada: guerra e paz

domingo, 31 de maio de 2026

Murais de solidariedade internacionalista (15) - Os Murais de Orgosolo

A Sardenha é a pátria do muralismo italiano e Orgosolo é a sua "capital".

A Sardenha, terra de contrastes, sabores fortes e cores vivas, habitada por um povo discreto e gentil, é a pátria do muralismo italiano e Orgosolo é a sua "capital". Na verdade, a cidade de Barbagia alberga 150 pinturas murais nas suas ruas que atraem a curiosidade de milhares de turistas italianos e estrangeiros todos os anos.


O primeiro mural em Orgosolo foi assinado em 1969 por Dioniso, nome coletivo de um grupo de anarquistas. Alguns anos depois, para honrar a Resistência e a Libertação da Itália do nazifascismo, um professor de Siena e os seus alunos do ensino básico criaram outros, aos quais se juntou mais tarde a contribuição de vários artistas e grupos locais. Embora Orgosolo continue a ser o líder da tradição mural, vilas como San Sperate, Villamar e Serramanna têm cultivado ao longo dos anos este fenómeno artístico e social que ainda hoje se expressa em questões globais e internacionais. Dezenas de pinturas murais embelezam muitas outras aldeias do interior da Sardenha e contam, na sua própria linguagem, os costumes e a cultura das pessoas que as habitam.


A tradição mural da Sardenha remonta a Pinuccio Sciola, a um grupo de arquitetos milaneses, bem como ao mestre Francesco Del Casino, durante os anos de protesto juvenil, no entanto, os autores de muitos murais são desconhecidos. A paixão política e social dos anos 60 e 70 deu origem a murais coletivos com figuras dramáticas, para contar a vida dos pastores, a miséria e as lutas pela terra, os politizados dos anos 70 e 80 que contavam as transformações da sociedade italiana gradualmente deram lugar a "pinturas" decorativas destinadas a ilustrar a vida quotidiana da vida pastoral e das aldeias insulares.


As técnicas são muito simples. Os muralistas sardos utilizam tintas à base de água, típicas dos interiores, e, portanto, extremamente perecíveis, talvez por uma escolha estética segundo a qual as obras só são repintadas se a comunidade sentir a necessidade, caso contrário, estão destinadas a desaparecer, deixadas à memória e à recordação. Os estilos são bastante diversificados e vão do impressionismo ao hiper-realismo, da pintura ingénua ao realismo.


Em Carbonia, Iglesias, Ozieri e San Teodoro, as casas que ladeiam as vias de transporte tornaram-se ao longo do tempo as "telas" de uma experimentação artística completa que, para além das intenções dos autores, se reconecta com a tradição dos grafítis de Lescaux e Pompeia, com a pintura revolucionária de Diego Rivera e Josè Clemente Orozco no México e não é alheia às escolhas e temas de tanta arte de rua contemporânea, de Lex&Sten em Itália a Shepard Fairey na América e Banksy no Reino Unido. Os murais da Sardenha representam hoje uma nova forma de mobiliário urbano, mas na maioria dos casos mantêm inalterada a mensagem de uma arte coletiva e popular sujeita todos os dias ao julgamento de quem a aprecia.

https://www.italia.it/pt/sardenha/orgosolo/o-que-fazer/os-murais-de-orgosolo 

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ITÁLIA: Os maravilhosos murais de Orgosolo, com estilo picassiano e repletos de mensagens de protesto.

Nas montanhas da Sardenha encontra-se a pequena e pitoresca vila de Orgosolo. E é tão pitoresca que se assemelha a uma pequena galeria de arte. As ruas e casas estão completamente decoradas com fascinantes pinturas murais, os chamados "murais". As obras frequentemente intercalam mensagens de protesto, frases de efeito e slogans, e os motivos muitas vezes retratam cenas políticas ou historicamente importantes. Mas, claro, há também muitos outros temas e motivos envolvidos, e de tempos em tempos novas obras de arte são adicionadas. As belíssimas fotos foram tiradas pelos fabulosos fotógrafos de viagens e exploradores do mundo, Praxinho e Ruth Neubauer .

O estilo de pintura existente é muito interessante, pois à primeira vista pouco se assemelha ao grafite convencional, assemelhando-se mais a uma tela aplicada em paredes residenciais. Muitas obras apresentam elementos abstratos e remetem a Picasso, além de traçarem paralelos com grandes obras de arte da história contemporânea. Este lugar é uma pequena joia artística, onde os amantes da arte urbana encontrarão verdadeiro deleite.

A primeira pintura mencionada nos Murais foi feita em 1968 pelo grupo anarquista milanês Dioniso em Orgosolo. O fundador foi Francesco del Casino, de Siena, que se estabeleceu em Orgosolo depois de assistir ao filme "Bandidos em Orgosolo". Casino era próximo ao Partido Comunista Italiano e o filme o tocou e inspirou profundamente. Este filme foi filmado pelo diretor Vittorio De Seta em 1961 em Orgosolo e mostra um pastor envolvido em um roubo de gado e acusado de assassinar um carabineiro, razão pela qual ele é obrigado a iniciar uma vida de bandido nas montanhas. E Casino também iniciou um projeto. Em 1975, ele começou a fazer pinturas fantásticas com estudantes nas paredes das casas em Orgosolo. A primeira ocasião foi o 30º aniversário da luta guerrilheira contra o fascismo.

Na verdade, esses estilos de pintura começaram na Sardenha, na pouco conhecida vila de San Sperate. Eles se espalharam e outros lugares também foram pintados. As pinturas murais em Orgosolo expressaram inicialmente o protesto contra o planejado campo de treinamento da OTAN em Pratobello. O protesto também é dirigido aos líderes do Grupo de Milão, que desviaram os fundos do plano de construção na Sardenha. Muitas imagens recentes comentam sobre a política mundial.

Numa das pinturas, Helmut Schmidt é referido como um "especialista em assassinatos de Estado" devido a Stammheim. Outra retrata a vitória dos combatentes cambojanos e vietnamitas contra os EUA. Questiona-se o número de vítimas inocentes na queda de Saddam Hussein. Outras imagens representam a vida simples de um pastor e da aldeia, defendem a preservação da língua sarda ou até incluem mensagens publicitárias. É, sem dúvida, uma magnífica galeria a céu aberto com estilo próprio, de valor histórico e repleta de mensagens.

Os estudos de Alfredo Niceforo sobre o crime na Sardenha também são satirizados por um mural irônico. Muitos dos mais de 120 murais, que agora compõem o conjunto, têm uma orientação estilística voltada para o cubismo, à semelhança de Guernica, de Picasso, mas também há pinturas mais realistas entre eles. Além de Francesco del Casino, os murais foram concebidos pelo artista autodidata Pasquale Buesca, que também residia em Orgosolo. O grupo feminista "Le Api" e o artista milanês Massimo Cantoni também participaram de algumas das obras. Apesar de alguns danos, principalmente devido a alterações nas casas ou às intempéries, todos os murais ainda se encontram em grande parte muito bem preservados. Uma visita de um dia a Orgosolo é altamente recomendada para quem aprecia esse tipo de arte.

https://vagabundler.com/italy/orgosolo/

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sábado, 30 de maio de 2026

Murais de Solidariedade Internacionalista (14) - Palestina nas paredes, em Setúbal

  * Victor Nogueira


2024 04 12 Foto Victor Nogueira - Setúbal, Av. António Maria Portela - "Um mural pela Paz" Mural de Azhir Al Majed - "Uma janela para um País livre" "Paiting for Palestine" (2024 04 09 IMG_4376)

Este mural, executado em 28 de Janeiro de 2024, foi de imediato vandalizado, sendo recuperado em 28 de Fevereiro de 2024.

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«O projeto “Uma Janela para um País Livre” surgiu na sequência do último conflito entre Israel e a Palestina, iniciado a 7 de outubro de 2023. tendo por base a obra de Azhar Al Majed, artista da Palestina.

Em Setúbal, decorre no âmbito da iniciativa “Histórias que as Paredes Contam”, que está também a desenvolver várias atividades relacionadas com a celebração dos 50 anos do 25 de Abril.

O desafio de associação à campanha, que arrancou a 14 de janeiro, em Belfast, na Irlanda do Norte, foi lançado pelo sociólogo irlandês Bill Rolston. Além de promover o fim da opressão da Palestina e proclamar a paz, tem como objetivo divulgar obras de artistas palestinianos.»


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2024 04 19 Foto victor nogueira - Setúbal, Av Amália Rodrigues - Mural Palestina Livre (2024 04 16 IMG_4461)   Palestina livre já!! Plataforma U.S. Palestina


2024 04 20 Foto victor nogueira - Setúbal Av Amália Rodrigues - Mural Palestina Livre (2024 04 16 IMG_4459) Fim ao genocídio / Palestina Livre

 
  
2021 01 08 foto victor nogueira - «Palestina Vencerá» - grafito da JCP em setúbal, na esquina da Rua de S. Cristóvão com a Rua José António Januário da Silva (foto em 2020.12)


Palestina   vencerá - JCP (Setúbal Foto Victor Nogueira 2017 05 01  IMG_5355)


Palestina   vencerá - JCP (Setúbal - Largo de Santo António, anterior a 2018

(pormenor da foto seguinte)

Em Setúbal no Largo de Santo António  

São os versos finais da Letra da Música » Hip Hop/Rap » Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada 

Publicada por Victor Nogueira à(s) domingo, abril 21, 2024 

Murais de Solidariedade Internacionallsta (13) - em Orgosolo

 * Victor Nogueira


2026 05 24 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Batalha de Morgogliai' (ou Murguliai)

«Este mural em Orgosolo, pintado em 1984 pelo artista Francesco Del Casino, é uma das obras mais famosas e debatidas da vila sarda, lidando diretamente com o estigma histórico do banditismo na Sardenha e a repressão estatal.

O que está escrito?
No canto superior esquerdo, lê-se em caligrafia cursiva a frase que dá título à obra:

"Caccia grossa a Orgosolo"

Tradução: "Caça grossa em Orgosolo" (ou "Caçada de Grande Porte em Orgosolo").

Origem: O título é uma referência direta ao livro Caccia grossa, publicado em 1900 por Giulio Bechi, um oficial do exército italiano. No livro, Bechi descrevia as operações militares de repressão na Sardenha no final do século XIX, tratando a perseguição aos fugitivos locais de forma depreciativa, como se fosse uma caçada a animais selvagens.

O que representa?
O mural retrata um episódio histórico real e sangrento ocorrido entre 9 e 10 de julho de 1899, conhecido como a "Batalha de Morgogliai" (ou Murguliai).

A Fotografia de Troféu: A composição reconstrói visualmente uma célebre e controversa fotografia da época. Nela, um destacamento de carabinieri (polícia militarizada italiana) posa orgulhosamente com as suas armas, exibindo o corpo sem vida do fugitivo Elias Serra-Sanna como se fosse um troféu de caça.

A Crítica à Violência do Estado: Ao transpor esta cena para as paredes da vila com um estilo gráfico anguloso e satírico, o mural denuncia o tratamento brutal e colonialista imposto pelo Estado italiano à população da Sardenha Central. Em vez de resolver os problemas estruturais de pobreza e isolamento da Barbagia, o governo central respondia frequentemente com militarização e execuções.

A Perspetiva Local: A obra inverte a narrativa oficial da "vitória da lei". Para os habitantes locais, a ostentação do cadáver (que na altura chegou a ser transportado num veículo pelas ruas como se fosse um javali selvagem) foi vista como uma humilhação profunda e uma violação da dignidade humana.

Em suma, o mural representa um resgate da memória histórica coletiva de Orgosolo, transformando uma antiga imagem de propaganda e repressão numa denúncia permanente contra os abusos de poder.» (Google Gemini) 


2026 05 25 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Pablo Neruda e 'Ode ao gato'

«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda.

O que está escrito?
O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda

Tradução: "...o homem quer ser peixe e ave, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para ser andorinha, o poeta tenta imitar a mosca, mas o gato quer ser apenas gato..."

O que representa?
A obra aborda a crise de identidade, o desejo de transformação e a eterna insatisfação que caracteriza os seres humanos, em claro contraste com a simplicidade e aceitação da natureza pura.

O Drama da Inveja e da Ambição: Através das metáforas de Neruda, o mural ilustra como a humanidade e até certos animais idealizados passam a vida a desejar ser outra coisa. O engenheiro (símbolo da lógica e da exatidão) anseia pela liberdade do poeta, a mosca sonha com a elegância da andorinha, e o cão sente-se pequeno por não ser o leão. Há uma busca constante por aquilo que não se tem.

A Sabedoria do Gato: A reviravolta poética surge no final da frase: "mas o gato quer ser apenas gato". O felino representa a integridade, a autossuficiência e a paz de quem aceita a sua própria natureza. Ele não aspira a voar ou a governar; basta-lhe existir plenamente na sua condição.

A Conexão com as Personagens: No plano visual, vemos dois homens de feições humildes e reflexivas, vestidos com trajes tradicionais e boinas típicas da Sardenha. O homem mais velho segura afetuosamente um gato no colo. O contraste entre a expressão pensativa dos humanos (carregados de sonhos, frustrações ou memórias) e a quietude serena do gato sentado ilustra perfeitamente a mensagem escrita: a busca humana pela transcendência versus a perfeita aceitação do presente pelo animal.

O texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

Aqui está o fragmento correspondente do poema, na sua versão original em espanhol e com a respetiva tradução para português:

Versão Original (Espanhol)
(...)
El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

Tradução para Português
(...)
O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
la mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.» (Google Gemini)



2026 05 26 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Charlot nas Trincheiras' (Shoulder Arms, de 1918)

«Tem toda a razão, e peço desculpa pela falha na identificação! O olhar melancólico e o icónico bigode curto pertencem, sem dúvida, à imortal personagem de Charlie Chaplin (Charlot).

O mural reconstrói uma imagem do filme "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms, de 1918), uma das suas obras-primas da fase do cinema mudo, onde o realizador usou a comédia e a sátira para abordar os horrores da Primeira Guerra Mundial.

Refazendo a análise com a devida precisão histórica e cinematográfica:

O que está escrito?
Dentro do balão de fala, em italiano:

"un' altra guerra? no grazie."

Tradução: "Outra guerra? Não, obrigado."

O que representa?
O mural utiliza a figura universal e profundamente humanista de Charlot para lançar um manifesto pacifista intemporal.

A sátira à Guerra através de Chaplin: No filme de 1918, Chaplin interpreta um recruta trapalhão enviado para as trincheiras de França. O filme foi revolucionário porque, em vez de fazer propaganda militarista, expôs a miséria, a lama, o medo e o absurdo do quotidiano dos soldados, usando o humor como arma de crítica social.

O Contraste da Personagem: A pintura capta na perfeição a essência de Charlot: o equipamento militar pesado e desajeitado (o capacete, o fuzil, os cinturões e o cantil) contrasta com a sua fisionomia vulnerável. Ele não representa a força bruta do exército, mas sim o homem comum, frágil e pacífico, esmagado pelas decisões geopolíticas dos poderosos.

Uma Mensagem Atualizada: Ao acrescentar o balão "Outra guerra? Não, obrigado", o muralista de Orgosolo atualiza a obra de Chaplin. O apelo original de 1918 contra a Primeira Guerra é recontextualizado para rejeitar qualquer novo conflito armado no mundo. A cortesia irónica da frase ("não, obrigado") carrega o peso e o cansaço de uma humanidade que já sofreu demasiados massacres.

Ao trazer Charlot para as paredes de Orgosolo, o artista uniu a genialidade humanista do cinema de Chaplin à tradição de protesto e luta pela paz que define a identidade desta vila sarda.» (Google Gemini)


2026 05 27 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra a guerra e o General Luigi Cadorna

«Este mural, localizado na icónica Via Cadorna em Orgosolo, é um dos mais contundentes e politicamente carregados da vila. Ele faz uma denúncia feroz contra os horrores da Primeira Guerra Mundial, atacando diretamente a figura do General Luigi Cadorna, que foi o chefe do Estado-Maior do Exército Italiano até à desastrosa derrota na Batalha de Caporetto em 1917.

A colocação deste mural é propositadamente irónica e provocadora, uma vez que está pintado exatamente na rua que o Estado batizou com o nome do general.

O que está escrito?
O mural está repleto de dados estatísticos em tons de vermelho e preto, além de frases de protesto:

1. Bloco de texto à esquerda (Estatísticas da Guerra):

"Generale L. Cadorna massimo responsabile degli eccidi della 1ª Guerra Mondiale.
Soldati morti su tutti i fronti: 8 milioni 740 000
Soldati italiani morti: 571 000
Invalidi e mutilati: 451 645
Dispersi: 117 000"

Tradução: "General L. Cadorna, o maior responsável pelos massacres da 1ª Guerra Mundial. Soldados mortos em todas as frentes: 8.740.000. Soldados italianos mortos: 571.000. Inválidos e mutilados: 451.645. Desaparecidos: 117.000."

2. Inscrição a vermelho, ao centro (sobre as execuções):

"210 000 soldati fucilati e condannati perché volevano farla finita con la guerra."

Tradução: "210.000 soldados fuzilados e condenados porque queriam acabar com a guerra." (Nota: Cadorna ficou historicamente conhecido pela sua disciplina implacável, autorizando fuzilamentos sumários e a "decimação" de unidades para punir a alegada cobardia ou insubordinação).

3. Balão de fala da mulher (em dialeto sardo/italiano):

"E a te Cadorna non bastano gli accidenti che a Caporetto ne hai ammazzati tanti. Noi si patisce tutti questi pianti e tu nato d'un cane non li senti..."

Tradução livre: "E a ti, Cadorna, não te bastam as desgraças, tu que em Caporetto mataste tantos. Nós sofremos todos estes prantos e tu, filho de um cão, não os ouves..."

4. No chão, junto aos corpos:

"generali assassini" (Generais assassinos)

O que representa?
A composição visual reforça o tom de luto, revolta e acusação contra o militarismo de Estado:

A Mãe e o Filho: No centro, destaca-se a figura de uma mulher com uma expressão de profundo sofrimento e horror, carregando ao colo um bebé envolto num pano amarelo salpicado de vermelho (simbolizando sangue ou o impacto da guerra nas gerações futuras). Ela representa a dor das mães, esposas e famílias camponesas que viram os seus filhos e maridos serem levados para a frente de batalha como "carne para canhão".

As Vítimas e o Arame Farpado: Na parte inferior, abaixo de uma barreira de arame farpado (símbolo máximo da guerra de trincheiras), veem-se corpos caídos e rostos pintados a vermelho e preto, representando os soldados sacrificados nos campos de batalha.

Justiça Histórica Local: Orgosolo utiliza este espaço para reescrever a narrativa oficial. Ao transformar uma rua que deveria homenagear um general num memorial de denúncia dos seus crimes e incompetência, a comunidade sarda expressa o seu histórico sentimento anti-militarista e a rejeição à violência imposta pelo governo central.» (Google Gemini)


2026 05 28 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Dia Internacional da Mulher

«Este magnífico mural em Orgosolo aborda uma das lutas sociais mais marcantes da era contemporânea: a emancipação feminina e a memória histórica que deu origem ao Dia Internacional da Mulher.

A obra foi realizada em 8 de março de 1978 (como indica a data pintada na base direita), um período de intensa ebulição dos movimentos feministas em Itália e na Sardenha.

O que está escrito?
O mural está dividido em três secções textuais manuscritas em italiano:

1. No cartaz de protesto (à esquerda):

"DONNE UNITE PER L'EMANCIPAZIONE E LA LIBERAZIONE E UNA PARITÀ REALE NELLA FAMIGLIA E NEL MONDO DEL LAVORO"

Tradução: "Mulheres unidas pela emancipação e a libertação, e por uma igualdade real na família e no mundo do trabalho."

2. No manifesto central menor (a preto e branco):

"DONNE E UOMINI UNITI NELLA LOTTA"

Tradução: "Mulheres e homens unidos na luta."

3. No texto explicativo do fundo (ao centro-direita):

"8 marzo 1908 in una fabbrica di New York, 129 donne venivano rinchiuse dentro dal padrone e morivano in un incendio"

Tradução: "8 de março de 1908, numa fábrica de Nova Iorque, 129 mulheres eram trancadas lá dentro pelo patrão e morriam num incêndio."
(Nota histórica: Embora a narrativa popular misture as datas de vários protestos e o trágico incêndio real da fábrica Triangle Shirtwaist em Nova Iorque — que ocorreu a 25 de março de 1911 —, este texto reflete a versão histórica amplamente partilhada pelos movimentos operários e feministas dos anos 70 para justificar o simbolismo do 8 de março).

O que representa?
Visualmente, o mural divide-se de forma brilhante entre a ação política viva e o drama histórico:

O Protesto e a Reivindicação (Lado Esquerdo): Duas mulheres são retratadas em pleno ato de manifestação, com expressões faciais determinadas e bocas abertas, como se estivessem a gritar palavras de ordem. Uma delas segura o grande cartaz que exige igualdade tanto na esfera privada (na família) como na pública (no trabalho). O estilo cubista e expressionista típico de Orgosolo acentua a força e o dinamismo do movimento.

O Martírio e a Tragédia (Lado Direito): Em claro contraste, o lado direito ilustra o horror do incêndio na fábrica. Uma mulher surge cercada por chamas estilizadas a vermelho, amarelo e preto, com os braços acorrentados e uma expressão de puro pânico e sofrimento, simbolizando o sacrifício das trabalhadoras têxteis encurraladas.

A União de Esforços: O pequeno cartaz central com a silhueta de uma mulher encapuçada faz questão de lembrar que, embora a causa seja focada nos direitos das mulheres, a transformação da sociedade necessita de "mulheres e homens unidos na luta".

Este mural é um testemunho histórico precioso do papel de Orgosolo como altifalante das causas globais de esquerda e dos direitos humanos, provando que a vila sarda não olhava apenas para os seus próprios problemas, mas conectava-se diretamente com as lutas laborais e sociais internacionais.» (Google Gemini)

2026 05 29 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Revolta de Pratobello

«Este mural retrata um dos momentos mais importantes e orgulhosos da história moderna de Orgosolo e da Sardenha: a Revolta de Pratobello, ocorrida em junho de 1969.

Trata-se de um exemplo perfeito de resistência popular pacífica, onde os habitantes da vila conseguiram derrotar os planos militaristas do governo italiano.

O que está escrito?
Do lado direito, em caligrafia cursiva italiana, está reproduzido um diálogo marcante entre um oficial do exército e uma mulher local (uma orgolese):

« E quanti siete, voi, a Orgosolo? »
« Cinquemila siamo »
« Non ce la farete mai contro lo stato » disse l'ufficiale.
L'Orgolesa sorridendo, lo rassicurò:
« Oh non si preoccupi ce la facciamo ce la facciamo. »

1969
PRATOBELLO

Tradução: * « E quantos são vocês, em Orgosolo? »

« Somos cinco mil »

« Nunca conseguirão vencer o Estado », disse o oficial.

A mulher de Orgosolo, sorrindo, tranquilizou-o:

« Oh, não se preocupe, nós conseguimos, nós conseguimos. »

O que representa?
O mural ilustra a essência do que aconteceu em Pratobello em 1969, quando o Estado italiano decidiu confiscar os campos de pastagem comunitários da zona de Pratobello para criar um campo de tiro permanente e uma base militar.

O Confronto de David contra Golias: Visualmente, vemos o contraste direto entre duas forças. À esquerda, uma mulher sarda com o lenço tradicional na cabeça (su carneddu), representando a população civil e a identidade da comunidade. À direita, um militar uniformizado e armado. No entanto, a pose da mulher não é de submissão, mas de firmeza e diálogo direto.

A Resistência Coletiva: Para os pastores de Orgosolo, perder aquelas terras significava a destruição total do seu sustento e da sua cultura. Em vez de responderem com violência armada, os 5000 habitantes da vila (homens, mulheres, crianças e idosos) decidiram marchar pacificamente até Pratobello e ocupar os campos, colocando-se à frente dos alvos e impedindo fisicamente os exercícios militares.

A Vitória Popular: Perante uma comunidade inteira unida e irredutível, o exército italiano foi forçado a recuar e a abandonar o projeto da base militar escassos dias depois.

Este mural celebra a coragem, a união e a eficácia da não-violência, servindo como o grande símbolo de que a determinação de um povo unido pode fazer frente aos poderes mais centralizados do Estado.» (Google Gemini) 


2026 05 30 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália  -  Gaza - assasinato de Muhammad al-Durrah (rapaz palestiniano de 12 anos)

Este mural de Orgosolo é uma obra de profunda carga dramática e política, dividida em três painéis sequenciais no estilo de fotogramas ou banda desenhada. Ele retrata um dos acontecimentos mais marcantes do início da Segunda Intifada e da cobertura jornalística de conflitos no Médio Oriente.

O que está escrito?
No topo (Data e Local):

No primeiro painel: "30 settembre"

No segundo painel: "2000"

No terceiro painel: "GAZA"

Na parte inferior (Poema/Manifesto):
O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:

Painel 1: Come uccelli, sogni e speranze volano via...

Painel 2: Nessuna catena riuscirà a tenerli

Painel 3: "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"

Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados): "Terra mia, Spirito mio"

Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."

O que representa?
O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.

A Sequência do Drama (Os Três Painéis):

Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.

Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.

Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.

O Significado Político e Social:
As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.

Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos. (Google Gemini)