Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 30 de maio de 2026

Murais de Solidariedade Internacionalista (14) - Palestina nas paredes, em Setúbal

  * Victor Nogueira


2024 04 12 Foto Victor Nogueira - Setúbal, Av. António Maria Portela - "Um mural pela Paz" Mural de Azhir Al Majed - "Uma janela para um País livre" "Paiting for Palestine" (2024 04 09 IMG_4376)

Este mural, executado em 28 de Janeiro de 2024, foi de imediato vandalizado, sendo recuperado em 28 de Fevereiro de 2024.

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

«O projeto “Uma Janela para um País Livre” surgiu na sequência do último conflito entre Israel e a Palestina, iniciado a 7 de outubro de 2023. tendo por base a obra de Azhar Al Majed, artista da Palestina.

Em Setúbal, decorre no âmbito da iniciativa “Histórias que as Paredes Contam”, que está também a desenvolver várias atividades relacionadas com a celebração dos 50 anos do 25 de Abril.

O desafio de associação à campanha, que arrancou a 14 de janeiro, em Belfast, na Irlanda do Norte, foi lançado pelo sociólogo irlandês Bill Rolston. Além de promover o fim da opressão da Palestina e proclamar a paz, tem como objetivo divulgar obras de artistas palestinianos.»


~
2024 04 19 Foto victor nogueira - Setúbal, Av Amália Rodrigues - Mural Palestina Livre (2024 04 16 IMG_4461)   Palestina livre já!! Plataforma U.S. Palestina


2024 04 20 Foto victor nogueira - Setúbal Av Amália Rodrigues - Mural Palestina Livre (2024 04 16 IMG_4459) Fim ao genocídio / Palestina Livre

 
  
2021 01 08 foto victor nogueira - «Palestina Vencerá» - grafito da JCP em setúbal, na esquina da Rua de S. Cristóvão com a Rua José António Januário da Silva (foto em 2020.12)


Palestina   vencerá - JCP (Setúbal Foto Victor Nogueira 2017 05 01  IMG_5355)


Palestina   vencerá - JCP (Setúbal - Largo de Santo António, anterior a 2018

(pormenor da foto seguinte)

Em Setúbal no Largo de Santo António  

São os versos finais da Letra da Música » Hip Hop/Rap » Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada 

Publicada por Victor Nogueira à(s) domingo, abril 21, 2024 

Murais de Solidariedade Internacionallsta (13) - em Orgosolo

 * Victor Nogueira


2026 05 24 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Batalha de Morgogliai' (ou Murguliai)

«Este mural em Orgosolo, pintado em 1984 pelo artista Francesco Del Casino, é uma das obras mais famosas e debatidas da vila sarda, lidando diretamente com o estigma histórico do banditismo na Sardenha e a repressão estatal.

O que está escrito?
No canto superior esquerdo, lê-se em caligrafia cursiva a frase que dá título à obra:

"Caccia grossa a Orgosolo"

Tradução: "Caça grossa em Orgosolo" (ou "Caçada de Grande Porte em Orgosolo").

Origem: O título é uma referência direta ao livro Caccia grossa, publicado em 1900 por Giulio Bechi, um oficial do exército italiano. No livro, Bechi descrevia as operações militares de repressão na Sardenha no final do século XIX, tratando a perseguição aos fugitivos locais de forma depreciativa, como se fosse uma caçada a animais selvagens.

O que representa?
O mural retrata um episódio histórico real e sangrento ocorrido entre 9 e 10 de julho de 1899, conhecido como a "Batalha de Morgogliai" (ou Murguliai).

A Fotografia de Troféu: A composição reconstrói visualmente uma célebre e controversa fotografia da época. Nela, um destacamento de carabinieri (polícia militarizada italiana) posa orgulhosamente com as suas armas, exibindo o corpo sem vida do fugitivo Elias Serra-Sanna como se fosse um troféu de caça.

A Crítica à Violência do Estado: Ao transpor esta cena para as paredes da vila com um estilo gráfico anguloso e satírico, o mural denuncia o tratamento brutal e colonialista imposto pelo Estado italiano à população da Sardenha Central. Em vez de resolver os problemas estruturais de pobreza e isolamento da Barbagia, o governo central respondia frequentemente com militarização e execuções.

A Perspetiva Local: A obra inverte a narrativa oficial da "vitória da lei". Para os habitantes locais, a ostentação do cadáver (que na altura chegou a ser transportado num veículo pelas ruas como se fosse um javali selvagem) foi vista como uma humilhação profunda e uma violação da dignidade humana.

Em suma, o mural representa um resgate da memória histórica coletiva de Orgosolo, transformando uma antiga imagem de propaganda e repressão numa denúncia permanente contra os abusos de poder.» (Google Gemini) 


2026 05 25 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Pablo Neruda e 'Ode ao gato'

«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda.

O que está escrito?
O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda

Tradução: "...o homem quer ser peixe e ave, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para ser andorinha, o poeta tenta imitar a mosca, mas o gato quer ser apenas gato..."

O que representa?
A obra aborda a crise de identidade, o desejo de transformação e a eterna insatisfação que caracteriza os seres humanos, em claro contraste com a simplicidade e aceitação da natureza pura.

O Drama da Inveja e da Ambição: Através das metáforas de Neruda, o mural ilustra como a humanidade e até certos animais idealizados passam a vida a desejar ser outra coisa. O engenheiro (símbolo da lógica e da exatidão) anseia pela liberdade do poeta, a mosca sonha com a elegância da andorinha, e o cão sente-se pequeno por não ser o leão. Há uma busca constante por aquilo que não se tem.

A Sabedoria do Gato: A reviravolta poética surge no final da frase: "mas o gato quer ser apenas gato". O felino representa a integridade, a autossuficiência e a paz de quem aceita a sua própria natureza. Ele não aspira a voar ou a governar; basta-lhe existir plenamente na sua condição.

A Conexão com as Personagens: No plano visual, vemos dois homens de feições humildes e reflexivas, vestidos com trajes tradicionais e boinas típicas da Sardenha. O homem mais velho segura afetuosamente um gato no colo. O contraste entre a expressão pensativa dos humanos (carregados de sonhos, frustrações ou memórias) e a quietude serena do gato sentado ilustra perfeitamente a mensagem escrita: a busca humana pela transcendência versus a perfeita aceitação do presente pelo animal.
O texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

Aqui está o fragmento correspondente do poema, na sua versão original em espanhol e com a respetiva tradução para português:

Versão Original (Espanhol)
(...)
El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

Tradução para Português
(...)
O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
la mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.» (Google Gemini)



2026 05 26 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Charlot nas Trincheiras' (Shoulder Arms, de 1918)

«Tem toda a razão, e peço desculpa pela falha na identificação! O olhar melancólico e o icónico bigode curto pertencem, sem dúvida, à imortal personagem de Charlie Chaplin (Charlot).

O mural reconstrói uma imagem do filme "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms, de 1918), uma das suas obras-primas da fase do cinema mudo, onde o realizador usou a comédia e a sátira para abordar os horrores da Primeira Guerra Mundial.

Refazendo a análise com a devida precisão histórica e cinematográfica:

O que está escrito?
Dentro do balão de fala, em italiano:

"un' altra guerra? no grazie."

Tradução: "Outra guerra? Não, obrigado."

O que representa?
O mural utiliza a figura universal e profundamente humanista de Charlot para lançar um manifesto pacifista intemporal.

A sátira à Guerra através de Chaplin: No filme de 1918, Chaplin interpreta um recruta trapalhão enviado para as trincheiras de França. O filme foi revolucionário porque, em vez de fazer propaganda militarista, expôs a miséria, a lama, o medo e o absurdo do quotidiano dos soldados, usando o humor como arma de crítica social.

O Contraste da Personagem: A pintura capta na perfeição a essência de Charlot: o equipamento militar pesado e desajeitado (o capacete, o fuzil, os cinturões e o cantil) contrasta com a sua fisionomia vulnerável. Ele não representa a força bruta do exército, mas sim o homem comum, frágil e pacífico, esmagado pelas decisões geopolíticas dos poderosos.

Uma Mensagem Atualizada: Ao acrescentar o balão "Outra guerra? Não, obrigado", o muralista de Orgosolo atualiza a obra de Chaplin. O apelo original de 1918 contra a Primeira Guerra é recontextualizado para rejeitar qualquer novo conflito armado no mundo. A cortesia irónica da frase ("não, obrigado") carrega o peso e o cansaço de uma humanidade que já sofreu demasiados massacres.

Ao trazer Charlot para as paredes de Orgosolo, o artista uniu a genialidade humanista do cinema de Chaplin à tradição de protesto e luta pela paz que define a identidade desta vila sarda.» (Google Gemini)


2026 05 27 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra a guerra e o General Luigi Cadorna

«Este mural, localizado na icónica Via Cadorna em Orgosolo, é um dos mais contundentes e politicamente carregados da vila. Ele faz uma denúncia feroz contra os horrores da Primeira Guerra Mundial, atacando diretamente a figura do General Luigi Cadorna, que foi o chefe do Estado-Maior do Exército Italiano até à desastrosa derrota na Batalha de Caporetto em 1917.

A colocação deste mural é propositadamente irónica e provocadora, uma vez que está pintado exatamente na rua que o Estado batizou com o nome do general.

O que está escrito?
O mural está repleto de dados estatísticos em tons de vermelho e preto, além de frases de protesto:

1. Bloco de texto à esquerda (Estatísticas da Guerra):

"Generale L. Cadorna massimo responsabile degli eccidi della 1ª Guerra Mondiale.
Soldati morti su tutti i fronti: 8 milioni 740 000
Soldati italiani morti: 571 000
Invalidi e mutilati: 451 645
Dispersi: 117 000"

Tradução: "General L. Cadorna, o maior responsável pelos massacres da 1ª Guerra Mundial. Soldados mortos em todas as frentes: 8.740.000. Soldados italianos mortos: 571.000. Inválidos e mutilados: 451.645. Desaparecidos: 117.000."

2. Inscrição a vermelho, ao centro (sobre as execuções):

"210 000 soldati fucilati e condannati perché volevano farla finita con la guerra."

Tradução: "210.000 soldados fuzilados e condenados porque queriam acabar com a guerra." (Nota: Cadorna ficou historicamente conhecido pela sua disciplina implacável, autorizando fuzilamentos sumários e a "decimação" de unidades para punir a alegada cobardia ou insubordinação).

3. Balão de fala da mulher (em dialeto sardo/italiano):

"E a te Cadorna non bastano gli accidenti che a Caporetto ne hai ammazzati tanti. Noi si patisce tutti questi pianti e tu nato d'un cane non li senti..."

Tradução livre: "E a ti, Cadorna, não te bastam as desgraças, tu que em Caporetto mataste tantos. Nós sofremos todos estes prantos e tu, filho de um cão, não os ouves..."

4. No chão, junto aos corpos:

"generali assassini" (Generais assassinos)

O que representa?
A composição visual reforça o tom de luto, revolta e acusação contra o militarismo de Estado:

A Mãe e o Filho: No centro, destaca-se a figura de uma mulher com uma expressão de profundo sofrimento e horror, carregando ao colo um bebé envolto num pano amarelo salpicado de vermelho (simbolizando sangue ou o impacto da guerra nas gerações futuras). Ela representa a dor das mães, esposas e famílias camponesas que viram os seus filhos e maridos serem levados para a frente de batalha como "carne para canhão".

As Vítimas e o Arame Farpado: Na parte inferior, abaixo de uma barreira de arame farpado (símbolo máximo da guerra de trincheiras), veem-se corpos caídos e rostos pintados a vermelho e preto, representando os soldados sacrificados nos campos de batalha.

Justiça Histórica Local: Orgosolo utiliza este espaço para reescrever a narrativa oficial. Ao transformar uma rua que deveria homenagear um general num memorial de denúncia dos seus crimes e incompetência, a comunidade sarda expressa o seu histórico sentimento anti-militarista e a rejeição à violência imposta pelo governo central.» (Google Gemini)


2026 05 28 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Dia Internacional da Mulher

«Este magnífico mural em Orgosolo aborda uma das lutas sociais mais marcantes da era contemporânea: a emancipação feminina e a memória histórica que deu origem ao Dia Internacional da Mulher.

A obra foi realizada em 8 de março de 1978 (como indica a data pintada na base direita), um período de intensa ebulição dos movimentos feministas em Itália e na Sardenha.

O que está escrito?
O mural está dividido em três secções textuais manuscritas em italiano:

1. No cartaz de protesto (à esquerda):

"DONNE UNITE PER L'EMANCIPAZIONE E LA LIBERAZIONE E UNA PARITÀ REALE NELLA FAMIGLIA E NEL MONDO DEL LAVORO"

Tradução: "Mulheres unidas pela emancipação e a libertação, e por uma igualdade real na família e no mundo do trabalho."

2. No manifesto central menor (a preto e branco):

"DONNE E UOMINI UNITI NELLA LOTTA"

Tradução: "Mulheres e homens unidos na luta."

3. No texto explicativo do fundo (ao centro-direita):

"8 marzo 1908 in una fabbrica di New York, 129 donne venivano rinchiuse dentro dal padrone e morivano in un incendio"

Tradução: "8 de março de 1908, numa fábrica de Nova Iorque, 129 mulheres eram trancadas lá dentro pelo patrão e morriam num incêndio."
(Nota histórica: Embora a narrativa popular misture as datas de vários protestos e o trágico incêndio real da fábrica Triangle Shirtwaist em Nova Iorque — que ocorreu a 25 de março de 1911 —, este texto reflete a versão histórica amplamente partilhada pelos movimentos operários e feministas dos anos 70 para justificar o simbolismo do 8 de março).

O que representa?
Visualmente, o mural divide-se de forma brilhante entre a ação política viva e o drama histórico:

O Protesto e a Reivindicação (Lado Esquerdo): Duas mulheres são retratadas em pleno ato de manifestação, com expressões faciais determinadas e bocas abertas, como se estivessem a gritar palavras de ordem. Uma delas segura o grande cartaz que exige igualdade tanto na esfera privada (na família) como na pública (no trabalho). O estilo cubista e expressionista típico de Orgosolo acentua a força e o dinamismo do movimento.

O Martírio e a Tragédia (Lado Direito): Em claro contraste, o lado direito ilustra o horror do incêndio na fábrica. Uma mulher surge cercada por chamas estilizadas a vermelho, amarelo e preto, com os braços acorrentados e uma expressão de puro pânico e sofrimento, simbolizando o sacrifício das trabalhadoras têxteis encurraladas.

A União de Esforços: O pequeno cartaz central com a silhueta de uma mulher encapuçada faz questão de lembrar que, embora a causa seja focada nos direitos das mulheres, a transformação da sociedade necessita de "mulheres e homens unidos na luta".

Este mural é um testemunho histórico precioso do papel de Orgosolo como altifalante das causas globais de esquerda e dos direitos humanos, provando que a vila sarda não olhava apenas para os seus próprios problemas, mas conectava-se diretamente com as lutas laborais e sociais internacionais.» (Google Gemini)

2026 05 29 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Revolta de Pratobello

«Este mural retrata um dos momentos mais importantes e orgulhosos da história moderna de Orgosolo e da Sardenha: a Revolta de Pratobello, ocorrida em junho de 1969.

Trata-se de um exemplo perfeito de resistência popular pacífica, onde os habitantes da vila conseguiram derrotar os planos militaristas do governo italiano.

O que está escrito?
Do lado direito, em caligrafia cursiva italiana, está reproduzido um diálogo marcante entre um oficial do exército e uma mulher local (uma orgolese):

« E quanti siete, voi, a Orgosolo? »
« Cinquemila siamo »
« Non ce la farete mai contro lo stato » disse l'ufficiale.
L'Orgolesa sorridendo, lo rassicurò:
« Oh non si preoccupi ce la facciamo ce la facciamo. »

1969
PRATOBELLO

Tradução: * « E quantos são vocês, em Orgosolo? »

« Somos cinco mil »

« Nunca conseguirão vencer o Estado », disse o oficial.

A mulher de Orgosolo, sorrindo, tranquilizou-o:

« Oh, não se preocupe, nós conseguimos, nós conseguimos. »

O que representa?
O mural ilustra a essência do que aconteceu em Pratobello em 1969, quando o Estado italiano decidiu confiscar os campos de pastagem comunitários da zona de Pratobello para criar um campo de tiro permanente e uma base militar.

O Confronto de David contra Golias: Visualmente, vemos o contraste direto entre duas forças. À esquerda, uma mulher sarda com o lenço tradicional na cabeça (su carneddu), representando a população civil e a identidade da comunidade. À direita, um militar uniformizado e armado. No entanto, a pose da mulher não é de submissão, mas de firmeza e diálogo direto.

A Resistência Coletiva: Para os pastores de Orgosolo, perder aquelas terras significava a destruição total do seu sustento e da sua cultura. Em vez de responderem com violência armada, os 5000 habitantes da vila (homens, mulheres, crianças e idosos) decidiram marchar pacificamente até Pratobello e ocupar os campos, colocando-se à frente dos alvos e impedindo fisicamente os exercícios militares.

A Vitória Popular: Perante uma comunidade inteira unida e irredutível, o exército italiano foi forçado a recuar e a abandonar o projeto da base militar escassos dias depois.

Este mural celebra a coragem, a união e a eficácia da não-violência, servindo como o grande símbolo de que a determinação de um povo unido pode fazer frente aos poderes mais centralizados do Estado.» (Google Gemini) 


2026 05 30 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália  -  Gaza - assasinato de Muhammad al-Durrah (rapaz palestiniano de 12 anos)

Este mural de Orgosolo é uma obra de profunda carga dramática e política, dividida em três painéis sequenciais no estilo de fotogramas ou banda desenhada. Ele retrata um dos acontecimentos mais marcantes do início da Segunda Intifada e da cobertura jornalística de conflitos no Médio Oriente.

O que está escrito?
No topo (Data e Local):

No primeiro painel: "30 settembre"

No segundo painel: "2000"

No terceiro painel: "GAZA"

Na parte inferior (Poema/Manifesto):
O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:

Painel 1: Come uccelli, sogni e speranze volano via...

Painel 2: Nessuna catena riuscirà a tenerli

Painel 3: "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"

Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados): "Terra mia, Spirito mio"

Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."

O que representa?
O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.

A Sequência do Drama (Os Três Painéis):

Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.

Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.

Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.

O Significado Político e Social:
As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.

Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos.

VER  

Auto-retrato e variações 13 - Esculturas 04

 * Victor Nogueira

Esculturas geradas pelo Google Gemini, a partir dum auto-retrato de minha autoria: Leopoldo de Almeida, Fernando Botero, Michelangelo, Donatelo, Constantin Brancusi, Rui Chafes e Lagoa Henriques


2026 05 24 - Auto-retrato e variações 87 - Escultura estilo Leopoldo de Almeida


2026 05 25 - Auto-retrato e variações 88 - Escultura estilo Fernando Botero


2026 05 26 - Auto-retrato e variações 89 - Escultura estilo Michelangelo


2026 05 27 - Auto-retrato e variações 90 - Escultura estilo Donatelo


2026 05 28 - Auto-retrato e variações 91 - Escultura estilo Constantin Brancusi,


2026 05 29 - Auto-retrato e variações 92 - Escultura estilo Rui Chafes


2026 05 30 - Auto-retrato e variações 93- Escultura ao estilo de Lagoa Henriques

sábado, 23 de maio de 2026

Murais de Solidariedade Internacionallsta (12) - em Orgosolo

* Victor Nogueira


2026 05 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Vu Cumprá Quattro Mori'

«Este mural de Orgosolo (datado de 2015, como indica a assinatura no canto inferior direito) traz uma forte dose de ironia política, cruzando a história da Sardenha com o fenómeno moderno da imigração e do turismo.

O que está escrito?
"Vu Cumprá Quattro Mori???"

A expressão "Vu cumprá": É uma corruptela fonética italiana da frase "Vuoi comprare?" ("Queres comprar?"). Em Itália, esta expressão tornou-se uma gíria (muitas vezes com tom paternalista ou pejorativo) para designar os vendedores ambulantes africanos que percorrem as praias a vender mercadorias aos turistas.

"Quattro Mori" (Os Quatro Mouros): É o nome oficial da histórica bandeira da Sardenha, que apresenta uma cruz vermelha e quatro cabeças de mouros com faixas na testa.

Tradução literal: "Queres comprar quatro mouros???"

O que representa?
Este mural é uma brilhante sátira social baseada num duplo sentido histórico e visual. Ele representa:

1. A Ironia Histórica dos "Mouros"
A bandeira da Sardenha (I Quattro Mori) tem as suas origens ligadas às batalhas medievais contra os invasores sarracenos (mouros). O mural cria um paralelismo genial e irónico: o homem retratado é um imigrante africano moderno (um "mouro" real) que, em vez de invadir a ilha, está na praia a tentar sobreviver, vendendo souvenires com a própria bandeira que celebra a derrota dos seus antepassados.

2. A Crítica ao Turismo de Massa e à Comercialização da Identidade
O vendedor ambulante está carregado de mercadorias típicas de praia, mas todas elas foram "sardizadas":

Ele acena com duas bandeiras da Sardenha.

Veste uma camisola e calções com o padrão dos Quatro Mouros.

Vende malas, óculos de sol, chapéus de sol e relógios, todos estampados com o símbolo sardo.

O artista critica a forma como a identidade, a cultura e os símbolos históricos da Sardenha foram transformados em mercadoria barata para consumo do turismo de massa de verão.

3. Solidariedade e Inclusão Social
Ao pintar o vendedor ambulante com os símbolos da ilha, o mural também humaniza e integra a figura do imigrante na realidade sarda. Ele corre na areia da praia, sob o sol, esforçando-se por trabalhar, tornando-se — de uma forma caricata mas digna — parte do ecossistema moderno da Sardenha.» (Google Gemini)


2026 05 18 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - 1. Ecologia 2. Guerra Civil Espanhola

«Este impressionante edifício em Orgosolo está dividido em dois grandes murais com temáticas e mensagens totalmente distintas: a secção superior aborda o ecologismo, enquanto a secção inferior é uma homenagem histórica de cariz antifascista.

1. A Secção Superior: Ecologismo e Consciência
O que está escrito?
"Solo quando l'ultimo albero sarà stato abbattuto l'ultimo fiume avvelenato l'ultimo pesce pescato vi accorgerete che non si può mangiare il denaro"

Tradução: "Apenas quando a última árvore tiver sido derrubada, o último rio envenenado, o último peixe pescado, é que se vão dar conta de que não se pode comer o dinheiro."

Origem: Esta é a famosa profecia atribuída à sabedoria ancestral dos povos nativos norte-americanos (frequentemente atribuída à tribo Cree) e imortalizada em discursos como o do ambientalista e escritor Ailton Krenak, a reflexão central destaca a dependência absoluta da humanidade face à natureza:

O que representa?
Representa uma crítica severa ao capitalismo voraz, à industrialização sem limites e à destruição do meio ambiente em nome do lucro financeiro. A pintura ilustra árvores cortadas, terra seca, poluição e uma figura humana desolada e nua no centro, simbolizando a pobreza espiritual e física a que a humanidade chegará se destruir a natureza.

2. A Secção Inferior: Homenagem à Guernica e à Resistência Espanhola
A parte de baixo é uma reinterpretação artística direta da famosa obra Guernica, de Pablo Picasso, adaptada para comemorar os 50 anos do início da Guerra Civil Espanhola.

O que está escrito?
À esquerda:

"18 Luglio 1936 - 18 Luglio 1986 Spagna" (18 de Julho de 1936 - 18 de Julho de 1986 Espanha) — Marca a data do golpe militar de Francisco Franco que deu início à guerra.

No centro (em cima da porta):

"cantando aspetto la morte / già cantano gli usignoli / sulla cima dei fucili / e in mezzo alla battaglia"

Tradução: "cantando espero a morte / já cantam os rouxinóis / no topo dos fusis / e no meio da batalha".

À direita (perto do cavalo):

"Travolti senza rimedio / gridiamo amaramente..." e "Ahi Spagna della mia vita / Ahi Spagna della mia morte - Miguel Hernández"

Tradução: "Arrebatados sem remédio / gritamos amargamente..." e "Ai Espanha da minha vida / Ai Espanha da minha morte".

Contexto: Estes versos pertencem ao poeta espanhol Miguel Hernández, um fervoroso defensor da República que foi preso pelo regime franquista e morreu na prisão em 1942.

O que representa?
Esta secção representa o antifascismo, o horror da guerra e a dor do povo espanhol sob a ditadura de Franco. Ao utilizar a iconografia de Guernica (o touro, a mãe a chorar com o filho morto nos braços, o cavalo agonizante), os pintores de Orgosolo ligaram a sua própria veia de protesto político à memória histórica internacional, celebrando a resistência cultural e a poesia que sobreviveu mesmo perante as armas. » (Google Gemini) 



2026 05 19 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Intervenções humanitárias - 'Restore Hope' Somália 1990's

«O mural contém duas inscrições em línguas diferentes:

A frase em inglês (no topo, junto às figuras superiores):

"restore hope"

Tradução: "restaurar a esperança". É uma referência direta à Operação Restore Hope, uma intervenção internacional liderada pelos Estados Unidos na Somália no início dos anos 1990 para tentar conter a fome e a crise humanitária decorrentes da guerra civil.

O texto em italiano (no centro, em redor da janela):

"Sono ipocrisia e impostura tutti i piani per attenuare la povertà delle masse con l'elemosina dei ricchi" — Lev Tolstoj

Tradução: "São hipocrisia e impostura todos os planos para atenuar a pobreza das massas com a esmola dos ricos."

Autor: A frase é uma citação do célebre escritor e pensador russo Liev Tolstói (com as suas datas de nascimento e morte indicadas abaixo: 1828 - 1910).

O que representa?
O mural é uma crítica geopolítica e social ao sistema humanitário internacional e à forma como a riqueza global está distribuída.

Crítica à "Esmola" Institucional: Através da frase de Tolstói, o mural argumenta que a caridade corporativa ou a ajuda humanitária pontual das nações ricas não resolvem os problemas estruturais da pobreza. Pelo contrário, são vistas como paliativos "hipócritas" que aliviam a culpa dos mais abastados sem alterar as dinâmicas de exploração que causam a miséria.

A Dualidade do Sofrimento: Visualmente, a obra divide-se em representações comoventes da vulnerabilidade humana face à subnutrição. No topo, uma figura maternal ampara uma criança debilitada pela fome extrema, evocando as terríveis imagens mediáticas das crises humanitárias da década de 1990. Na parte inferior esquerda, outra figura segura uma criança ao colo, reforçando o impacto geracional da pobreza.

Denúncia de Intervenções Militares/Humanitárias: Ao incluir a expressão "restore hope", o artista questiona a eficácia e as verdadeiras intenções por detrás das missões internacionais da ONU e de grandes potências, sugerindo que muitas vezes falham em trazer uma dignidade duradoura e emancipação real às populações afetadas.» (Google Gemini


2026 05 20 - Mural em Ortosolo, Sardenha, Itália - ofícios artesaais e tradicionais

«Este mural foca-se na história local e no reconhecimento dos antigos ofícios artesanais da comunidade, prestando uma homenagem muito pessoal e afetuosa.

O texto está escrito em dialeto sardo, no canto inferior direito:

"a ziu Bertu Calaresu mastru e..."

Tradução: "Ao tio [Zio/Ziu é um termo de respeito tradicional para os idosos na Sardenha] Alberto Calaresu, mestre de..."

Contexto: A palavra "mastru" refere-se a um mestre de obras, pedreiro ou mestre artesão, e o texto indica que a pintura é uma dedicatória direta a esta figura marcante da comunidade de Orgosolo.

Ao contrário dos murais de grande escala política ou internacional, esta obra representa a memória e a valorização do trabalho manual, da construção civil e dos construtores locais que ergueram a própria vila.

O Retrato do Mestre: À esquerda, destaca-se a figura expressiva e realista de Ziu Bertu (Tio Alberto), com um olhar cansado mas focado, segurando um metro de carpinteiro articulado (metro de madeira) nas mãos. As suas roupas humildes e feições marcadas simbolizam uma vida inteira dedicada ao trabalho digno.

Os Ofícios da Construção: À direita, o mural divide-se em ilustrações mais simples e estilizadas que mostram as diferentes vertentes do trabalho de pedreiro:

Um homem a transportar materiais numa carriola (carrinho de mão) verde.

No topo, um operário numa estrutura de andaime a assentar tijolos ou a rebocar uma parede com uma colher de pedreiro.

O mural representa um monumento à classe trabalhadora local, imortalizando os rostos e as profissões tradicionais que, embora discretas, são a fundação e a verdadeira força identitária de Orgosolo.» (Google Gemini)

2026 05 21 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - D. Quixote, de Cervantes

«Este mural foca-se na literatura clássica universal, trazendo uma representação estilizada e abstrata de Dom Quixote de la Mancha e o seu fiel escudeiro, Sancho Pança, personagens imortalizadas pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes.

Aqui estão o texto e o significado desta obra:

O texto está escrito num bloco quadrado amarelo à esquerda das personagens, imitando a página de um livro em caligrafia cursiva italiana:

"Il cavaliere dell'eterna gioventù
ormai verso la cinquantina
la legge che batteva
nel suo cuore
partì un bel mattino
di luglio
per conquistare il bene,
il vero il giusto..."

Tradução livre para o português:
"O cavaleiro da eterna juventude / já perto dos cinquenta anos / [seguindo] a lei que batia / no seu coração / partiu numa bela manhã / de julho / para conquistar o bem, / o verdadeiro, o justo..."

(Nota: Na parte inferior do texto há uma assinatura ilegível e, ao lado da montaria, a data 6-10-2016).

O que representa este mural?
Este mural é uma celebração do idealismo, da justiça e da busca utópica por um mundo melhor, usando a figura mitológica do "Cavaleiro da Triste Figura".

1. Elementos Visuais e Estilo
Dom Quixote: Aparece ao centro com a sua armadura cinzenta, montado no seu cavalo (Rocinante) e segurando uma longa lança que corta uma composição geométrica no topo.

Sancho Pança: Está logo abaixo, de forma mais compacta, montado no seu burro.

Abstração Colorida: No topo da lança, há uma explosão de formas abstratas e coloridas (que lembram o estilo do pintor Wassily Kandinsky), simbolizando o mundo de fantasia, os moinhos de vento transformados em gigantes e os delírios idealistas de Quixote.

2. O Significado Profundo em Orgosolo
Embora não seja um mural de protesto político direto como os de Pratobello, a escolha de Dom Quixote em Orgosolo não é por acaso. O poema descreve-o como o "cavaliere dell'eterna gioventù" que luta pelo bem, pela verdade e pela justiça.

Para uma vila com um histórico tão forte de resistência comunitária e lutas sociais, a figura de alguém que desafia o "status quo" e luta por causas consideradas impossíveis ou perdidas ressoa perfeitamente com a alma e a identidade utópica dos habitantes locais.

O poema transcrito neste mural do Dom Quixote é do famoso poeta turco Nâzım Hikmet (1902–1963).

O poema intitula-se originalmente Don Chisciotte (Dom Quixote) e faz parte da sua célebre obra poética mundialmente traduzida. Como curiosidade, a tradução mais famosa deste poema para a língua italiana foi feita justamente por Joyce Lussu, a ativista e escritora que também foi homenageada no mural anterior (o do poema sobre as sapatilhas de Buchenwald).

Aqui está o texto integral do poema "Dom Quixote" (1947), do poeta turco Nazım Hikmet, traduzido para o português: (Google Gemini)

 


2026 05 22 . Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Saúde pública e prevenção

«Este terceiro mural incluído no seu ficheiro (Mural em Orgosolo-Autunno-in-Barbagia-murales14.jpg) data de março de 1979 e aborda uma temática de saúde pública e crise humanitária através de uma alegoria dramática.

O que está escrito?
O mural usa palavras-chave escritas diretamente sobre as roupas e objetos das personagens para identificar o que cada uma simboliza:

Na lâmina da espada: "VIRUS"

Na túnica da figura agressora: "FAME" (Fome) e "EPIDEMIA" (Epidemia)

Na camisola da mulher que protege a criança: "MEDICINA PREVENTIVA"

No canto esquerdo: A data "7-3-'79" (7 de março de 1979).

No canto inferior direito (sobre a montanha de corpos): As assinaturas dos autores do mural (Fistrale A.F., Carta P., Bassu M., Giobbo G.M., Goddi A.M.).

O que representa?
Este mural é uma alegoria sobre a luta da ciência e da saúde pública contra a mortalidade provocada por doenças e pela subnutrição. O estilo visual angular e dramático volta a beber muito da influência de Guernica de Picasso para transmitir urgência e sofrimento.

A Ameaça Transmissível: A grande figura escura e monstruosa no centro personifica as maiores ameaças à sobrevivência humana na época: a Fome e a Epidemia. Ela ergue uma espada (o Vírus) pronta para golpear, representando como as doenças infecciosas e a falta de recursos atacam as populações de forma devastadora.

A Defesa pela Ciência (Medicina Preventiva): A figura feminina central, rotulada como "Medicina Preventiva", coloca-se corajosamente como um escudo entre o agressor e os mais vulneráveis. Ela carrega uma criança saudável nas costas, simbolizando que a prevenção (como a vacinação, o saneamento e a nutrição adequada) é a única barreira eficaz para salvar as futuras gerações.

O Custo da Inação: À direita, a trágica montanha de corpos empilhados ilustra o resultado fatal de quando a fome e as epidemias vencem a batalha. À esquerda, outra imagem comovente mostra uma mãe a chorar enquanto abraça fortemente o seu filho, personificando a dor familiar provocada pelas crises sanitárias.

O mural funciona como um manifesto em defesa do investimento na medicina social e preventiva, lembrando que a saúde pública é um direito fundamental e a principal arma para proteger a vida contra as forças da natureza e da negligência socioeconómica.» (Google Gemini)


2026 05 23 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Outono Alemão' de 1977

«Este mural, pintado na fachada do histórico "Bar Ziu Mesina" em Orgosolo, é uma das obras mais complexas e politicamente carregadas da vila. Ele aborda os trágicos acontecimentos do "Outono Alemão" de 1977, ligando o terrorismo de Estado, a luta armada e o perigo latente do fascismo através das palavras do dramaturgo Bertolt Brecht.

O que está escrito?
O mural está repleto de textos e nomes que exigem uma leitura atenta:

1. O Bloco Central (A lápide/monumento)
Abaixo do busto de um homem a fumar cachimbo, lê-se uma inscrição fortemente irónica:

"Helmut Schmidt (capo del governo tedesco) difensore della democrazia e della civiltà occidentale esperto in suicidi di Stato. L'imperialismo pose 19-10-1977"

Tradução: "Helmut Schmidt (chefe do governo alemão) defensor da democracia e da civilização ocidental, especialista em suicídios de Estado. O imperialismo colocou [esta inscrição] 19-10-1977."

2. Nomes ao redor da base (Os mortos)
Abaixo do monumento, encontram-se os nomes dos principais membros do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda alemão RAF (Fração do Exército Vermelho), encontrados mortos na prisão de alta segurança de Stammheim precisamente em meados de outubro de 1977:

"Andreas Baader" (escrito junto à árvore seca, à esquerda)

"Gudrun Ensslin" (no centro-esquerda)

"Ulrike Meinhof" (no centro-direita, cuja morte ocorreu antes, em 1976, mas que iniciou o ciclo de mistério)

3. O Texto à Direita (Citação de Bertolt Brecht)
Na parede branca do lado direito, encontra-se uma das mais célebres advertências antifascistas da literatura:

"E voi imparate che occorre vedere, non guardare in aria occorre agire, non parlare. Questo mostro stava una volta per governare il mondo. I popoli lo spensero. Però non cantiamo vittoria troppo presto: il grembo da cui nacque é ancora fecondo." — Bertolt Brecht

Tradução: "E vós aprendei que é preciso ver, não olhar para o ar; é preciso agir, não falar. Este monstro esteve uma vez prestes a governar o mundo. Os povos o extinguiram. Porém, não cantemos vitória demasiado cedo: o ventre de onde nasceu ainda é fecundo."

O que representa?
Este mural representa a desconfiança radical perante o poder do Estado e um alerta contra o ressurgimento do fascismo institucional.

A Crítica ao "Outono Alemão": A obra foca-se na chamada "Stammheimer Todesnacht" (A Noite da Morte de Stammheim), na qual os líderes do grupo Baader-Meinhof apareceram mortos nas suas celas de isolamento. A versão oficial do governo de Helmut Schmidt foi a de suicídio coletivo coordenado. No entanto, os movimentos de esquerda da época (incluindo os muralistas de Orgosolo) acusaram o Estado alemão de execução política camuflada. A expressão "especialista em suicídios de Estado" é uma denúncia direta a essa narrativa oficial.

A Estética do Luto: Do lado esquerdo, a árvore seca, desfolhada e com um corvo pousado, junto a uma figura prostrada, evoca um ambiente de morte, censura e perda de liberdade.

O Alerta de Brecht: A inclusão da epígrafe de Bertolt Brecht (retirada da sua peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui, que satiriza a subida de Hitler ao poder) eleva a mensagem do mural a um plano universal. O artista utiliza a tragédia alemã dos anos 70 para lembrar que as estruturas autoritárias não desapareceram com a Segunda Guerra Mundial. O "ventre fecundo" serve de aviso: as democracias liberais podem facilmente adotar métodos totalitários ou dar espaço ao neofascismo se a população permanecer passiva ("olhar para o ar").» (Google Gemini)


Auto-retrato e variações 12 - Esculturas 03

* Victor Nogueira

 Esculturas geradas pelo Google Gemini, a partir dum auto-retrato de minha autoria: João CutileiroMachado de Castro, Ron Mueck, Miguelangelo,  Alberto Kissola e Alberto Giacometi

2026 05 17 - Auto-retrato e variações 80 - Escultura estilo João Cutileiro

2026 05 18 - Auto-retrato e variações 81 - Escultura equestre estilo Machado de Castro

2026 05 19 - Auto-retrato e variações 82 - Escultura hiperrealista estilo Ron Mueck

2026 05 20 - Auto-retrato e variações 83 - Escultura estilo 'David', de Miguelangelo

2026 05 21 - Auto-retrato e variações 84 - Escultura estilo João Cutileiro


2026 05 22 - Auto-retrato e variações 85 - Escultura estilo Alberto Kissola


2026 05 23 - Auto-retrato e variações 86 - Escultura estilo Alberto Giacometi