Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

em paço de arcos, esperando pela musa adormecida, que não tece

* Victor Nogueira

Está pois  a musa atrasada, o que é inabitual, mas a responsabilidade é dos transbordos ferroviários. Hoje o ponto de encontro não é o do costume, junto ao Pingo Doce, mas sim à sombra do antigo Quartel do Bombeiros Voluntários de Paço d'Arcos. Como não era previsível o atraso, não vim munido dum livro para ler para ocupar o tempo - presentemente O Gerente da Noite, de John Le Carrée, que serviu de inspiração a uma série televisiva homónima, mas não muito fiel. Pelo que me vou entretendo observando e fotografando com o meu olhar clínico, que o Nabais diz ser de fotógrafo, até que a musa adormecida aparece, com  o seu sorriso por detrás dos óculos escuros, finas rugas ao canto dos olhos, passo apressado, cabelos quase da cor do trigo em flor esvoaçando com  o sopro da leve aragem que varre a Avenida do Senhor Jesus dos Navegantes.









fotos em 2017.09.21









fotos  em 2017.08.27



ao entardecer no Parque dos Poetas, em Oeiras, sem musa nem música

* Victor Nogueira

Pare evitar entrar no pára-arranca na travessia do Tejo rumo ao Sado, havia que preencher o tempo até às 20 horas,  Descartada a sugestão de ir sozinho contemplar a paisagem para a beira-rio afastado o sentar-me num café a ler, decidi-me por nova visita ao Parque dos Poetas. Alguma da estatuária é figurativa, outra abstracta, e pelas aleas, no lajedo, "pétalas" contêm versos de vários autores. Junto a cada escultura uma lápide faz uma breve descrição do homenageado, contendo também informação sobre o escultor. Lá no cimo da encosta, em posição dominante, o chamado Templo da Poesia.

O entardecer estava descolorido e frio, com uma desagradável aragem varrendo as áleas, a luminosidade deficiente. Fica o registo das minhas "contemplações" no Parque dos Poetas,  sem musa nem música



Marquesa de Alorna 



José Anastácio da Cunha Pinheiro Manso

Copado, alto, gentil Pinheiro Manso; 
Debaixo cujos ramos debruçados 
Do sol ou lua nunca penetrados, 
Já gozei, já gozei mais que descanso... 

Quando para onde estás os olhos lanço, 
Tantos gostos ao pé de ti passados 
Vejo na fantasia retratados, 
Tão vivos, que jàmais de ver-te canso! 

Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro 
te hei-de cobrir, terás cópia crescida 
De flores, serás honra dêste outeiro. 

E para te dar glória mais subida, 
No meu tronco feliz, alto Pinheiro, 
O teu nome escreverei de Margarida.    



Correia Garção





Filinto Elísio - soneto

Estende o manto, estende, ó noite escura,
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem c’o pesar dum desgraçado
a quem nem feições lembram da ventura.
-
Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha desventura.
-
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.
-
Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa!






Nicolau Tolentino





Manuel Maria Barbosa du Bocage


António Feliciano de Castilho



Templo da Poesia






poema de Alexandre Herculano

Arrábida (Excerto)

    III

    Oh, como surge majestosa e bela, 
    Com viço da criação, a natureza 
    No solitário vale! E o leve insecto 
    E a relva e os matos e a fragância pura 
    Das boninas da encosta estão contando 
    Mil saudades de Deus, que os há lançado, 
    Com mão profusa, no regaço ameno 
    Da solidão, onde se esconde o justo. 
(texto integral em Alexandre Herculano - Arrábida)




fotos em 2017.09.20

VER TAMBÉM

Parque dos Poetas, em Oeiras

sobre a 1ª fase do Parque dos Poetas ver 

entre oeiras e lisboa, na primavera

https://www.facebook.com/vicnog.na.rede/media_set?set=a.10200406860679474.1073741826.1394553665&type=3

também pode ver

Oeiras - O Parque dos Poetas, pelo meu tio Castro Ferreira

http://osabordolhar.blogspot.pt/2007/09/jj-castro-ferreira-2.html


terça-feira, 19 de setembro de 2017

O gótico ou "manuelino" em Setúbal 03 - a Igreja do Convento de Jesus

* Victor Nogueira

A Igreja do antigo Mosteiro ou Convento de Jesus de Setúbal é uma edifício de estilo gótico considerado como um dos percusores do estilo manuelino, projectado em 1494 pelo arquitecto Diogo Boitaca, na sequência de voto de Justa Rodrigues Pereira, ama de D. Manuel I. Sem o bordão ou bengala de Maria, que nomes estranhos nos parecem hoje estes, na actualidade: Justa, Hermengarda, Aldegundes, Urraca, Luna, Íria, Isolda ...

A sua igreja-salão é anterior à da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, que também teve como autor Diogo Boitaca, a quem se deve também o risco da Torre de Belém, em Lisboa, ou do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.

Em 1888, com a extinção das ordens religiosas, o edifício é convertido no Hospital da Misericórdia, que ali funcionou até 1959 e, em 1961, é nele instalado o Museu de Setúbal. Devido às obras de recuperação do edifício conventual, os 14 painéis do Retábulo da Igreja de Jesus, conhecidos por “Primitivos de Setúbal” e considerados por especialistas como um dos conjuntos mais representativos do período renascentista português  estão presentemente expostos na Galeria Municipal que funciona nas antigas instalações do Banco de Portugal. (ver) Museu de Setúbal / Convento de Jesus - Direção Geral do Património Cultural.

A re-visita é pois à Igreja, onde a simpática e afável funcionária me pergunta se me lembro dela e do nome. Digo-lhe que sim, que me recordo da cara mas não do nome, e ela vai-me dizendo como se chama e em que sectores trabalhou na autarquia, incluindo o Urbanismo. Afinal, a Câmara de Setúbal tinha entre 1200 a 1500 trabalhadores, mas já se passaram muitos anos desde que me reformei, e natural é que se lembrem de mim, que estive  sempre em evidência, inicialmente na Direcção do Departamento de Recursos Humanos e posteriormente como Dirigente Sindical e representante dos Trabalhadores, após o meu saneamento por razões exclusiva, estritamente políticas, perpetrado pelo visceralmente anti-comunista PS/Mata Cáceres.

Ao entrar deparo-me com uma guia turística rodeada por numeroso grupo de visitantes e para eles perorando, enquanto alguns se contorcionam em acrobáticas poses para fotografar este ou aquele pormenor. Percorro pois a Igreja, desço à cripta, admiro e registo os painéis de azulejos, as colunas retorcidas, os pórticos manuelinos, as campas rasas com seus brasões de armas, que marcam e pretendem perpetuar para lá da morte quem por debaixo delas está sepultado, senhores transitoriamente poderosos em vida. Quem são eles ou elas? Que fizeram em vida que merecesse a dignificação após o esfarelamentos dos ossos ? Quem mais digno como Mozart ou os líderes das revoltas camponesas ou de escravos jaz sem nome nas valas comuns ou no Poço dos Negros, enredados e amortalhados com as "malhas que o Império tece" ?




Planta da Igreja de Jesus, da vila de Setúbal e do seu convento de freiras (1699-1743) por João Tomás Correia. Este desenho representa vários detalhes do edifício hoje perdidos.


Gravura na Revista Panorama (século XIX)


cruzeiro


igreja - exterior


Por debaixo do coro-alto



acesso à torre













entrada para a cripta



interior da cripta





o coro-alto visto do altar-mor




O altar-mor, sobre a cripta













fotos em 2017.09.19

VER TAMBÉM


SOBRE O EDIFÍCIO CONVENTUAL VER