* Inês Belo e Marcos Borga Repórter Fotográfico
Na sua intervenção, António Alves reproduziu momentos históricos destes 50 anos: o fim do Estado Novo, a espontaneidade popular do 25 de Abril representada pela manifestação dos moradores do Bairro da Liberdade, as primeiras páginas dos jornais
Assinalando os 50 anos de Abril, a Galeria de Arte Urbana de Lisboa convidou cinco artistas de diferentes gerações a fazer um mural. A sua resposta à pergunta “Onde está a Liberdade?” está espalhada na cidade
25.09.2024
Subindo a Avenida Calouste
Gulbenkian, em direção à Praça de Espanha, ter-se-á a melhor perspetiva do
mural de António Alves. Teve o “privilégio” de viver o 25 de Abril de 74,
conta-nos, abstraindo o olhar como se fosse de novo o jovem adolescente que, naquele
dia, saiu bem cedo da Margem Sul para vir trabalhar para Lisboa e foi
surpreendido com a Revolução na rua. Nessa altura, com 17 anos, já tinha como
referência as pichagens de rua com frases contra a Guerra Colonial.
Depois, foi muralista no PREC e hoje, aos 67 anos, continua a andar com latas
de tinta na mochila para poder desabafar na parede.
António Alves é um dos cinco
convidados da iniciativa 5 Décadas, 5 Artistas, 5 Murais promovida
pela Galeria de Arte Urbana (GAU) da Câmara Municipal de Lisboa, que assinala
os 50 anos da Revolução dos Cravos. O convite, explica o coordenador da GAU,
Hugo Cardoso, foi lançado a artistas com percursos representativos das cinco
décadas da história da arte urbana em Portugal, desafiando-os a refletir sobre
a pergunta “Onde está a Liberdade?”. Além de António Alves (anos
70/80), participaram Youth One (anos 90, o início do graffiti), ±MAISMENOS±
(anos 2000, entrada da street art nas galerias de arte), Kruella D’Enfer (anos
2010, afirmação das mulheres na arte urbana) e Arisca (anos 2020, sangue novo
no feminino).
Tinta plástica, latas de spray, stencil, cada artista escolheu os materiais para dar forma e cor às suas reflexões em muros e empenas que vão dos 80 aos 180 metros quadrados. Uns reproduziram à mão os desenhos em quadrículas, outros optaram por projetá-los nas paredes e depois subir na grua para fazer os contornos. As intervenções encontram-se dispersas na malha de Lisboa, formando uma coroa que passa por Campolide, Areeiro, Alfama e Castelo.
Fique a conhecer, em primeira
mão, as principais histórias da edição que chega às bancas no dia seguinte
António Alves
Na sua intervenção, reproduziu
momentos históricos destes 50 anos: o fim do Estado Novo, a espontaneidade
popular do 25 de Abril representada pela manifestação dos moradores do Bairro
da Liberdade, as primeiras páginas dos jornais, a independência das ex-colónias,
as feministas que se manifestam pelos seus direitos. O mural termina com a
palavra Liberdade. Está enevoada, um sinal dos tempos mas também de que há
esperança. Cç. dos Mestres / Av. Calouste Gulbenkian
Youth One
Para Adalberto Brito (Youth One),
o 25 de Abril representou uma oportunidade de vida, após a família ter perdido
tudo em Angola, fugindo à Guerra Colonial. Este seu percurso está refletido na
empena de um prédio no Bairro da Liberdade. Mulheres e homens dão expressão ao
passado e ao presente. O futuro, repleto de desafios, escolhas, anseios, fica
por conta de uma criança. Bairro da Liberdade, Rua B, 1
±MAISMENOS±
Recorrendo a um teste de acuidade
visual – no qual a leitura se torna mais difícil à medida que as letras vão
diminuindo –, Miguel Januário (±MAISMENOS±) manifesta o seu ceticismo quanto ao
cumprimento dos valores de Abril. Passaram-se 50 anos, mas isso não é o mais
importante. A Liberdade é o bem maior e, para continuarmos a ser livres, é
preciso ter visão. Estaremos todos míopes? O melhor será fazer o teste. Av.
Gago Coutinho, 3
Kruella D’Enfer
No Teatro Taborda, Ângela
Ferreira (Kruella D’Enfer) criou um labirinto onírico em que os conceitos de
teatro e de liberdade se entrelaçam. Para a artista visual e ilustradora,
nascida em 1988 em Tondela, ambos estão ligados enquanto meios de expressão e
reflexão social. O muro traça o caminho onde surgem máscaras, cravos, uma
pomba, que tanto podem ser contemplados de perto como decifrados do miradouro
da Graça. Teatro Taborda, R. Costa do Castelo, 75
Arisca
Com 31 anos, é a mais nova desta
mão-cheia de artistas. A Inês Arisca, nascida no Porto, coube trabalhar duas
empenas, situadas frente a frente, que se confrontam e ao mesmo tempo se
complementam. De um lado, o conhecimento (“não existe liberdade sem a busca de
conhecimento”), do outro, o afeto e a empatia (“é quase revolucionário, neste
mundo individualista e violento em que vivemos”). Este é o seu primeiro
trabalho, em nome próprio, em Lisboa. R. dos Caminhos de Ferro, 58 e 66






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