Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O castelo de Palmela no horizonte

* Victor Nogueira



visto de Alferrara


ao pôr-do-sol, visto do cimo da torre no alto duma encosta, em Setúbal


Visto do Forte de S. Filipe, em Setúbal

VER 

Ao longe, o Castelo de Palmela

Em Alferrara, na Serra dos Gaiteiros

* Victor Nogueira


in  Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa in https://books.google.pt/books?isbn=9722721798

Um dos objectivos, malogrado, era visitar os Conventos de Alferrara, a meia encosta da Serra dos Gaiteiros, cujo acesso estava vedado a meio da tarde. O acesso a Alferrara faz-se pela Estrada das Machadas, ladeada de quintas onde outrora se cultivavam laranjais cujo fruto era também usado na confecção do extinto e afmado doce de laranja de Setúbal, estrada que é um estreito e sinuoso caminho vicinal onde mal cabem dois veículos lado-a-lado

 A Quinta de S. Paulo, propriedade da AMRS  (Associação de Municípios da Região de Setúbal), tem nos dias de hoje uma vertente pedagógica.  Restou-me apenas uma breve perambulação pelo Parque de Merendas da Quinta de S. Paulo, algo degradado, e nova visita à arca-de-água / nascente, hoje seca, do chamado Aqueduto dos Arcos, que outrora abastecia de água a então Vila de Setúbal. O adiantado da hora impediu a visão de Setúbal a partir do cimo da serra.


Parte integrante de uma paisagem cheia de história e envolvida pela imponência e beleza da Arrábida, a Quinta de São Paulo sempre teve uma forte ligação com as localidades vizinhas, nomeadamente Palmela e Setúbal. 

Conhecida pelos seus laranjais onde eram colhidas as famosas Laranjas de São Paulo, a Quinta ficou conhecida pela produção agrícola mas também cultural, associada nomeadamente a manifestações de carácter religioso. 

Situados com uma distância de cerca de 300 m e sensivelmente na mesma elevação da falda da Serra dos Gaiteiros, erguem-se «a noroeste da cidade de Setúbal, na orla do vale verdejante que se estende desde Palmela»(*) e em território já pertencente a este concelho. As razões para a escolha deste lugar de implantação terão sido «a beleza do sítio, a amenidade dos ares, a abundância de água, a abundante vegetação, a fauna e flora paradisíacas e o esplendor de uma desafogada paisagem».
São dois os monumentos em causa:

Antigo Convento de Nossa Senhora da Consolação de Frades da Ordem de São Paulo, de Alferrara 
(vulgo Convento de São Paulo; 1383);

Convento de Nossa Senhora da Conceição dos Frades Franciscanos Capuchos de Alferrara 
(vulgo Convento dos Capuchos de Alferrara; 1578).


(http://quinta.amrs.pt/quintaped.html)






Caminho de acesso aos conventos

Parque de merendas de S. Paulo


 




circuito pedestre (pormenores)










Arca-de água





a cumeada da Serra dos Gaiteiros com um convento a meia encosta



O Castelo de Palmela no horizonte








Setúbal no horizonte










 Google Earth


Estará esta construção na Estrada das Machadas ligada ao Aqueduto ?

fotos em 2017.11.21


AMRS  Publicado a 22/06/2011







VER TAMBÉM




Quinta de S. Paulo e Conventos, em Alferrara (Google Earth)

HISTÓRIA ADMINISTRATIVA/BIOGRÁFICA/FAMILIAR
O Mosteiro de Nossa Senhora da Consolação de Alferrara era masculino, e pertencia à Ordem dos Eremitas de São Paulo, Primeiro Eremita. 

Teve origem em eremitério documentado desde 1385, junto à Fonte Santa e à ermida de Almouquim, nos termos de Alferrara e Palmela. À imitação do eremitério de Barriga, a provença de Alferrara foi objecto da acção reformadora de Mendo Gomes de Seabra, que, de acordo com o testemunho do próprio, datado de 1428, desde cedo a submeteu à "irmandade da Serra de Ossa", reconhecendo a esta o direito de nomear os pobres que a deveriam habitar e visitar, usufruindo o eremitério, por seu lado, dos privilégios outorgados à Serra de Ossa. À data da morte do fundador, o eremitério foi entregue aos cuidados de um outro eremita, o clérigo João Eanes, encarregue por Mendo Seabra de governar as provenças de Alferrara, Mendoliva e Cela Nova, mantendo, contudo, a irmandade com a Serra de Ossa. 

Em 1454, Afonso V confirma a extensão a este eremitério de todos os privilégios da Serra de Ossa. 

Em 1458, pela bula "Speciali gratia", Pio II concedia-lhes a isenção do pagamento da dízima sobre os frutos das herdades da provença. 

Em 1466, consta da lista das casas sujeitas à Serra de Ossa. A este cenóbio seriam anexadas as rendas da casa de Mendoliva, abandonada em 1531 por falta de água, bem como as da Junqueira, em 1645.

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. 

Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional. (in http://digitarq.arquivos.pt/details?id=1441585)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A Quinta e os Conventos em Alferrara

* Victor Nogueira

As minhas "caminhadas" este fim de semana foram a uma "vila operária": o Bairro  Baptista, em Setúbal. Esta semana tenho de aproveitar um dia soalheiro para ir até à Quinta de S. Paulo, espaço de lazer, entre Palmela e Setúbal, em Alferrara, onde se encontram a nascente e mãe de água do aqueduto de Setúbal, e as ruínas dos Conventos de S. Paulo e de N. Sra da Conceição







fotos victor nogueira, in illo tempo


Situados com uma distância de cerca de 300 m e sensivelmente na mesma elevação da falda da Serra dos Gaiteiros, erguem-se «a noroeste da cidade de Setúbal, na orla do vale verdejante que se estende desde Palmela»(*) e em território já pertencente a este concelho. As razões para a escolha deste lugar de implantação terão sido «a beleza do sítio, a amenidade dos ares, a abundância de água, a abundante vegetação, a fauna e flora paradisíacas e o esplendor de uma desafogada paisagem».
São dois os monumentos em causa:



Antigo Convento de Nossa Senhora da Consolação de Frades da Ordem de São Paulo, de Alferrara 

(vulgo Convento de São Paulo; 1383);




Convento de Nossa Senhora da Conceição dos Frades Franciscanos Capuchos de Alferrara 

(vulgo Convento dos Capuchos de Alferrara; 1578).

CONVENTO DE SÃO PAULO
Este convento já sofreu obras de sustentação, marcando assim o início da intervenção no mesmo. As obras centraram-se na implantação de uma estrutura de protecção das águas da chuva, consolidação da estrutura principal do edifício e cobertura de paredes expostas aos elementos. Toda a envolvente tem sido alvo de regulares intervenções ao nível da limpeza dos terrenos e arranjo dos caminhos. As restantes intervenções necessárias estão dependentes do levantamento topográfico e arquitectónico que está a ser efectuado. Com base nestes levantamentos fundamentar-se-á a necessária intervenção neste edifício.

Acesso
É feito a partir do vale que antecede a plataforma isolada em que o Convento se situa «através de um íngreme caminho em zigue-zague, suportado por muros de alvenaria contrafortados. Este acesso termina numa esplanada em frente da igreja, com esplêndida vista sobre o Sado e a cidade de Setúbal, delimitado por um muro com assentos de pedra, no qual se vêem alguns vestígios de azulejos policromos, pós-terramoto.» (*)

Igreja
Com nave rectangular coberta por abóbada de berço que termina no arco triunfal, tendo o chão fragmentos de túmulos; «a capela-mor, menor que a nave, tem igualmente abóbada de berço»; «a frontaria da igreja separa os dois corpos do convento»;

Dois corpos monacais
a) «o mais estreito, onde estavam as celas e dormitórios, do lado direito, com a frontaria mais elevada que a da igreja, está completamente arruinado, em especial o último andar, sem cobertura»;



b) do lado esquerdo da igreja situa-se «o corpo do claustro, com um único andar coberto de terraço»; trata-se de um «belo espaço maneirista que conserva todos os elementos estruturais, muito sóbrios mas bem desenhados, realizado, provavelmente, na segunda metade do século XVII, durante a campanha de obras de 1672 (…). O claustro apresenta três arcos de volta inteira, apoiados em colunas toscanas de calcário (…). Mantém-se o chão de tijoleira, mas desapareceu o rodapé de azulejos das galerias.»

Terraço
«no ângulo noroeste do claustro, uma escada dá acesso ao terraço que cobre as galerias e outras dependências do mesmo corpo.»

Casa de Fresco 
«do lado oposto à igreja, conserva-se ainda a alameda de acesso à Fonte Santa.» Ao fundo, escavada na encosta, situa-se a «casa de fresco» da Fonte Santa ― «espaço em forma de gruta artificial totalmente decorada de embrechados, a qual devia ser utilizada pelos eremitas paulistas como local de meditação.» Considera-se esta Fonte Santa «uma das minúsculas mas maiores jóias do património artístico de Palmela».


CONVENTO DOS CAPUCHOS DE ALFERRARA
Apresentado-se mais degradado, também é alvo de sucessivas intervenções na envolvente como o desmatamento e arranjo dos acessos. Está também a ser alvo de um levantamento topográfico e arquitectónico, assim como uma avaliação das necessidades estruturais para se avançar para uma fase de sustentação.

Igreja 
«frontaria principal virada a poente e de grande interesse artístico», pois trata-se de «um dos exemplares mais interessantes da aplicação de estuques moldados em exteriores que existe em Portugal», só encontrando paralelos com monumentos situados nos antigos territórios portugueses da Índia; a frontaria está em risco de desabamento; «no vão central, um arco de volta inteira com as pedras rusticadas, e nos laterais remates rectos, apoiados em duas colunas, ao centro, e em duas meias-colunas, nas extremidades»; para além do nártex, «a igreja, resultante da reconstrução de 1639, tem apenas uma nave alongada, vazia, coberta por abóbada de berço de alvenaria estucada, compartimentada por arcos torais assentes numa cornija maneirista simples. (…) O arco triunfal mantém os pilares de cantaria até meia altura e o resto da estrutura, de tijolo, está despido. A capela-mor, quadrada, está igualmente vazia.» Adjacente à capela-mor, virada a nascente, situa-se o que se julga ser o recinto da sacristia, «de secção rectangular, com cobertura de abóbada de berço abatida» e «iluminada por duas janelas»;

Dependências monacais
Ao lado da igreja, na direcção sul, situa-se o edifício conventual; «todo o andar inferior é formado por muros grossos e por abóbadas de berço de robusta alvenaria». 
No centro do espaço conventual situa-se o claustro, que possui uma estrutura semelhante à de outros conventos capuchos, «com janelas no andar superior e as aberturas do inferior rematadas por lintel de pedra recto, em vez de arcadas, apoiado nos ábacos de quatro pilares de secção quadrada, nos cantos, e de duas colunas, muito toscas, em cada face.»
Junto do claustro situa-se uma dependência relativamente vasta, que se julga ter sido a sala do Capítulo.
«Próximo da portaria encontra-se outra dependência de construção cuidada, que deveria ter sido o refeitório, refeito em 1712». Como nos restantes espaços, «encontra-se coberto por abóbada de berço abatido, de alvenaria».



(*) Vítor SERRÃO e José MECO, Palmela histórico-artística: um inventário do património artístico concelhio, Lisboa/Palmela, Edições Colibri/Câmara Municipal de Palmela, 2007, p. 277-304. Todas as citações seguintes são retiradas desta fonte que apresenta uma descrição detalhada dos Conventos tanto do ponto de vista histórico como do ponto de vista artístico.

http://quinta.amrs.pt/conventos.html

ver também


antes das obras

Convento de S. Paulo de Alferrara reabre após 50 anos de abandono

in https://www.publico.pt/2017/06/25/local/noticia/convento-de-s-paulo-de-alferrara-reabre-apos-50-anos-de-abandono-1776710




Como encaramos a morte em cada parte do mundo


1 / 17 Gronelândia ©Klaus Bo


6 / 17 Nas margens do rio Ganges, Índia ©Klaus Bo


10 / 17 Madagáscar ©Klaus Bo


12 / 17 Guatemala ©Klaus Bo


13 / 17 Ritual fúnebre no Nepal ©Klaus Bo

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ATENÇÃO: esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

"Vamos todos morrer. Este facto é comum a todas as pessoas de todas as culturas, religiões e países do mundo", evidencia o fotógrafo dinamarquês Klaus Bo, em entrevista ao P3. "A forma como nos relacionamos com a morte e como nos despedimos daqueles que amamos, no entanto, varia bastante.” Essas variações estão no centro o projecto Dead and Alive, que o fotógrafo desenvolve há vários anos e que tem como objectivo retratar os rituais fúnebres das cinco principais religiões do mundo — o Islão, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Budismo e o Cristianismo — e de dez outros associados a outros credos. Tudo começou depois de ter fotografado um funeral numa mesquita, em Copenhaga, em 2002, e de ter visto, pela primeira vez, uma pessoa morta. "No Norte da Europa, a morte é um enorme tabu. Não queremos lidar com ela, não sabemos como falar sobre ela e os nossos rituais consistem em meia hora numa igreja, seguida de duas horas a comer bolo e a bebericar café. Nada mais. Por norma, nem sequer chegamos a ver o corpo da pessoa que morreu." Um ritual fúnebre dinamarquês difere em absoluto de um ritual indonésio; é essa diversidade que alimenta a curiosidade do fotógrafo e o mantém na sua cruzada. Ma'nene é o nome do ritual mais interessante que fotografou até hoje. Em Toraja, na Indonésia, durante o mês de Agosto, "aqueles que já morreram são retirados das suas campas por membros da família, são limpos e vestidos com roupas novas", descreve. "Depois disso, tiram-se fotografias de família com os falecidos", continua. "Assistir a isso foi uma experiência interessante e incrível." No Nepal, viu também um grupo de pessoas a colocar um morto rígido na posição de lótus, algo que jamais esquecerá. O dinamarquês tem sido bem-vindo em todos os locais por onde tem passado, mas admite que nem sempre é fácil ter acesso às cerimónias, por se tratarem de momentos tão íntimos e dolorosos.

Klaus Bo conclui que existe um elemento comum em todos os rituais que registou: a crença na vida eterna ou na reencarnação. "Em alguns locais acredita-se que a vida continua exactamente da mesma forma que aqui na Terra, mas que tudo acontece noutro lugar." A Dinamarca, no entanto, representa uma excepção à regra. "No meu país, existe a crença de que tudo acaba quando morres. Quase ninguém acredita que exista algo para além da morte e, ao mesmo tempo, recusamo-nos a aceitar a nossa própria mortalidade." Até hoje — e desde há vários anos —, Klaus Bo já fotografou rituais fúnebres em Madagáscar, Gana, Nepal, Índia, Dinamarca, Indonésia, Haiti, Gronelândia, Guatemala e Filipinas. Ultimamente tem andado a estudar a Roménia, mas confessa ter uma lista em que constam 55 rituais que considera suficientemente interessantes para fotografar à volta do mundo. "Quando comecei, não tinha ideia de que este projecto se tornaria no grande trabalho da minha vida." 

Klaus Bo dedica 30 a 40 horas ao projecto por semana, ao mesmo tempo que reúne fundos para novas expedições, trabalhando como freelancer. "Espero que no futuro [esta série fotográfica] dê origem a mais do que um fotolivro e a uma exposição itinerante", refere. O projecto  foi publicado na revista National Geographic, em 2016, em 2016, e continua em desenvolvimento. O seu progresso pode ser acompanhado através da conta de Instagram @deadandaliveproject.. Ao longo da carreira, Klaus Bo já trabalhou sobre vários temas, entre eles a vida de refugiados iraquianos na Síria, a perseguição aos cristãos coptas no Egipto ou a devastação causada pelo terramoto no Haiti, em 2010.