Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

O universo fotográfico de Luana Navarro

 
30/05/2010 às 00:00:00 - Atualizado em 30/05/2010 às 17:57:56

Paula Melech
Daniel Caron
A fotógrafa curitibana abriu as portas de sua casa para compartilhar com a repórter Paula Melech sua ideias e referências artísticas..
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Se você um dia, andando pela rua, receber de algum desconhecido um pequeno envelope colorido e, ao abrir, descobrir poemas e frases publicitárias estampadas em papel adesivo, estará compartilhando de uma das ações do coletivo Mofo Zero.
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O Recontextualizações afetivas é uma das micro-ações propostas pelos artistas Arthur do Carmo, Lidia Sanae Ueta e Luana Navarro. Chegamos à casa da Luana numa quarta-feira, uma das poucas manhãs livres da artista.
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Enquanto elabora projetos para leis de incentivo - o que lhe ocupa boa parte do dia - ela organiza exposições individuais e ainda acumula dois cursos acadêmicos: especialização em história da arte e graduação em filosofia, isso depois de ter cursado jornalismo.

Procurando atuar ativamente no mundo, Luana busca sempre na imagem fotográfica o suporte para a sua obra. Ao mesmo tempo, é também um resgate da prática que a conduziu efetivamente para as artes visuais.
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Na fotografia, Luana aponta a relação entre o corpo e a cidade como outro interesse recorrente, inscrito em trabalhos como Corpo urbano e Microrresistências.

A escolha de entrar para a trupe dos aspirantes a jornalistas ela não julga mais equivocada, ao contrário, consegue visualizar reflexos da experiência convergindo para um ponto comum tanto no seu trabalho individual quanto no coletivo. No Mofo Zero, o discurso da grande mídia é questionado e deslocado para outros suportes,que permitem uma re-significação dessas informações.

É o caso de Despublicidade, onde frases publicitárias são deslocadas para espaços públicos, e Transamazônica - Imaginários compartilhados, desenvolvido com incentivo da Funarte Artes Visuais 2009, que questiona o imaginário criado a partir das publicidades veiculadas pela revista Realidade, no início da década de 70, sobre a Rodovia Transamazônica.

Consciente de que produzir um trabalho artístico hoje não está mais ligado à inspiração ou técnica, Luana não está à procura de respostas, mas de propor questionamentos.

Paraná Online: Como foi a experiência com o projeto Imaginários compartilhados?

Apesar da prévia visualização dos eventos propostos na elaboração do projeto enviado a FUNARTE, eles foram criações no ato de realizá-los. Isso foi muito importante, pois envolveu uma abertura nossa à pesquisa, à produção e ao diálogo de mão dupla, ou de mão múltipla (como foi o caso da realização das oficinas e da ação de envio de postais onde 29 criadores, contando conosco, estavam em diálogo).
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Este projeto, tanto para mim quanto para o Arthur não se encerrou no momento em que pegamos o caminho de volta para casa. Foram ao todo mais de 940 minutos de gravações audiovisuais, entre depoimentos, entrevistas, cenas, acontecimentos, participações nossas em eventos locais, nas quais ainda trabalhamos, além das quase 3.000 fotografias e registros em áudio.
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Parte disto já está reunido em uma série de trabalhos que faz parte do DVD Imaginários compartilhados em fase de distribuição. No nosso blog (imaginarioscompartilhados.wordpress.com) também está todo o desenvolvimento do trabalho com vídeos, imagens e textos.

Paraná Online: Que lugar a fotografia ocupa em sua vida?

O lugar da inquietação. Eu comecei a fotografar na faculdade de jornalismo e logo nas primeiras aulas de fotografia me dei conta que era isso o que me interessava no curso e era isso o que eu queria fazer.
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Claro que mais tarde percebi que o fotojornalismo não tinha nada a ver comigo, e que o que eu buscava era a fotografia enquanto prática artística. Aliás, os meus trabalhos todos partem da imagem fotográfica, mesmo quando os finalizo em outros suportes o meu primeiro experimento sempre é fotográfico.

Paraná Online:  Como ter participado do curso no Núcleo de Estudos de Fotografia determinou o seu pensamento sobre arte hoje?

O Núcleo, que é coordenado pela Milla Jung, foi um ponto muito importante na minha formação, foi lá que comecei a pensar a imagem e não apenas produzir imagens.
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Eu acho que acompanhei uma mudança muito importante no Nef, porque logo que eu comecei a participar dos cursos e a trabalhar lá a Milla tinha recentemente entrado no mestrado em Artes Visuais e ela começou a compartilhar suas novas referências o que para mim foi importante porque comecei a pensar outras possibilidades do trabalho artístico.
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Me dei conta que podia por exemplo experimentar outros suportes, deixar para trás o campo da fotografia encerrada em si mesma e me relacionar com um campo mais aberto.

Paraná Online:  Em torno de que questões se organiza o coletivo Mofo Zero?

Até agora os nossos trabalhos partiram principalmente de questões relacionadas ao mass-media. Não há uma pesquisa plástica no que produzimos, mas sim um interesse em gerar questões, acho que isso é o principal.
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Acreditamos que as ferramentas de trabalho do artista se fazem necessárias a partir das problemáticas colocadas pelos trabalhos desenvolvidos e não o contrário.

Paraná Online:  Como o estudo da filosofia está se relacionando com a sua atividade artística?

Estudando arte me dei conta de que frequentemente eu acabava caindo em referências que partiam da filosofia, e eu ficava muito angustiada por não ter uma base de leitura suficiente para entender determinados conceitos, que claro estavam teoricamente no campo filosófico e não artístico, foi aí que resolvi prestar o vestibular da UFPR.
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A filosofia é muito instigante assim como a arte. Não tenho pretensões de trabalhar diretamente no campo filosófico, meu interesse é continuar pensando arte.

Paraná Online: Quais as suas principais referências?

Acho que na realidade as pessoas que estão por perto são as referencias mais importantes, por isso creio que a Milla Jung, o Felipe Prando e a Anuschka Lemos, que juntos formaram o grupo de trabalho Escapatórias, sem dúvida nenhuma são uma referência para mim.
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Agora dos artistas consagrados, o Bas Jan Ader e o Felix Gonzáles-Torres me tocam muito, me emocionam. E recentemente a artista guatemalteca Regina José Galindo me despertou especial interesse com suas performances e ações.

Conheça mais sobre o trabalho de Luana Navarro:

www.luananavarro.com
www.imaginarioscompartilhados.wordpress.com
www.mofozero.wordpress.com
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

DeVERcidade e a fotografia contemporânea

  

Corpo Urbano, um dos trabalhos selecionados para integrar o 
deVERsidade, de autoria da fotógrafa de Curitiba (PR) Luana Navarro 
(Foto: Luana Navarro/Divulgação)

 

 Corpo Humano, de Luana Navarro

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DeVERcidade e a fotografia contemporânea

Embora seja comum identificar como contemporâneo tudo o que é produzido na atualidade, o professor Silas de Paula defende que esta é uma definição redutora. Ele analisa as provocações e inquietações trazidas por esta edição do deVERcidade
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Silas de Paula
especial para O POVO
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20 Fev 2010 - 18h05min
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A cultura visual é formada num processo de persuasão imagética ao longo de muitos anos, o que dá à maioria das pessoas um olhar conservador, oriundo de verdades estabelecidas. No entanto, é bom lembrar que o estranhamento e o conflito sempre fizeram parte das intenções dos artistas, levando à ruptura com regimes de visualidade vigentes.
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Do que estamos falando, então, ao utilizarmos a expressão ``fotografia contemporânea``? O dicionário nos mostra que o significado de contemporâneo refere-se ao que é atual. Definição simples, mas que se torna complexa quando entramos no campo artístico, pois tudo que é feito em qualquer tempo presente é contemporâneo, é atual. Embora seja comum ouvir a afirmação de que não existem mais categorias na arte, e que boa parte da discussão não se fundamenta no suporte ou na técnica, é impossível esquecer que a fotografia ajudou a modelar a arte do século 20 e que, atualmente, começa a dominá-la. A fotografia, que sempre sonhou em ser percebida como arte, vê agora a arte tornar-se fotográfica.
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Os discursos sobre a ausência de categorias na arte contemporânea mascaram outra dificuldade. Ao reunirmos tudo em um mesmo conjunto, seja de arte, artes visuais, etc., acabamos por criar um grande guarda-chuva que não dá conta das complexidades inerentes a cada tipo de processo. Esta postura pode, até, abrigar muitas coisas que facilitam a organização de mostras e exposições colocando tudo sob uma mesma denominação. Bom para a fotografia que não precisa mais se preocupar com a questão de ``ser ou não ser``. Tudo cabe. No entanto como fica o embate sobre a produção, processos e recepção desses trabalhos?
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A arte contemporânea não engloba, necessariamente, toda arte atual. O dito contemporâneo artístico caracteriza um estilo de arte e muitos dos seus critérios e categorias já faziam parte da vanguarda do começo do século 20, de processos posteriores e até mesmo da pintura do Renascimento do Norte, há mais de cinco séculos. Afirmar que o contemporâneo é o atual nos leva em direção a algo, no mínimo, redutor. O que denominamos de arte contemporânea é, simplesmente, uma categoria da arte atual. No entanto, é igualmente redutor não discutir essas questões.
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Marcel Duchamp, por exemplo, estava preocupado em demonstrar que a arte era inteiramente contingente e arbitrária, uma função do discurso e não uma revelação, e argumentava que a identidade, o sentido e o valor do trabalho artístico são construídos através de um processo ativo e dinâmico. A noção de identidade instável caminha paralela à percepção de uma realidade que é tanto convencionada (já visto, já lido), quanto congelada numa fantasmagoria de imagens e simulacros.
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Desconstrução
Pensando nisso, o espaço do deVERcidade foi aberto a inquietações e provocações onde tudo é possível. Boa parte dos trabalhos da mostra nos levou a um caminho fora de qualquer tipo de rotina, como uma tentativa de desconstruir discursos estabelecidos e propor um debate mais amplo. As imagens trazem uma profusão tão grande de olhares que colocam em xeque a certeza de que existe um caminho correto. Colocam tudo em dúvida -não só o seu próprio sentido, mas o nosso -, pois nada deve ser considerado artístico a não ser que suas ambiguidades, incertezas e obscuridades nos lancem de volta aos percursos da nossa própria visualidade: esse ato de ver que deve ser examinado como um produto de tensões entre imagens externas e processos internos de pensamento. Assim, partimos do pressuposto que as imagens de arte não possuem uma natureza peculiar própria que as separe da negociação de semelhança e do discurso de sintomas. Elas envolvem o jogo da ambiguidade da semelhança e a instabilidade das diferenças - questões fundamentais na fotografia e na arte em geral.
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Apesar da mostra deste ano permitir trabalhos de todo o País, o que nos interessa é aprofundar o debate sobre a fotografia no Ceará. O documental caracterizou e, ainda, caracteriza boa parte da produção local que nos colocou no cenário brasileiro e internacional. Mas, às vezes, temos uma sensação de déjà vu, de algo presente em nossa memória há muito tempo, por isso é importante discutir os nossos processos. Não só o documental, mas não precisamos fugir dele. É necessário entender, por exemplo, o que seria um documental contemporâneo, ou trazer para o debate algo como ``documental imaginário`` - questões que estão presentes nas discussões em outros locais. Não sabemos se este é o caminho mais correto, mas acreditamos que trará uma qualidade ainda maior à fotografia no Ceará.
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SILAS DE PAULA é fotógrafo, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e curador do IFoto 
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