Castro Barroso Gato Nogueira - Blog Photographico - lembrança da moça do Alentejo
Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui
“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)
«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973
foto victor nogueira - Palácio da Comenda, de Raul Lino, na foz da Ribeira da Ajuda, em Setúbal
O murete em 1º plano protege do movimento das marés o que resta da estação arqueológica romana. Lá no cimo, como que suspenso das nuvens, não de água mas de verdura, o Palacete, projectado por Raúl Lino, que faz parte do imaginário de muitos dos que por ali passam ou "estacionam" no Parque das Merendas.
Neste Palácio e nas redondezas, num outro edifício, que também fotografei há anos por estar então abandonado, foi em 1987 parcialmente rodado o filme "Balada da Praia dos Cães", de José Fonseca e Costa, baseado no romance homónimo de José Cardoso Pires (1982) , com uma fabulosa interpretação de Raúl Solnado. A obra baseia-se em factos verídicos relativos ao assassinato do Capitão Almeida Santos, um dos implicados na chamada "Revolta da Sé". Sobre os acontecimentos um dos então fugitivos do Presídio Militar de Elvas - o cabo António Gil - escreveu em 1984 um livro: "O drama da praia do Guincho". Outro dos envolvidos no crime foi o médico miliciano Jean-Jacques Valente, cujo "diário da prisão" terá servido de inspiração para a novela de Cardoso Pires. Mais tarde, em 2002, investigador da PJ, Correia das Neves deu o seu testemunho sobre a sua investigação aos acontecimentos em "O Crime do Guincho",
Um filme de José Fonseca e Costa Baseado no romance de José Cardoso Pires Com Raul Solnado, Assumpta Serna, Patrick Bauchau, Sergi Mateu, Carmen Dolores, Henrique Viana Nas dunas da praia do Guincho, a oeste de Lisboa, um bando de cães vadios põe a descoberto o cadáver de um homem, identificado depois como sendo o corpo de um oficial do exército procurado pela polícia polítca, de cujas garras escapara fugindo do Forte de Elvas na companhia de dois camaradas de oposição ao regime ditatorial, com a ajuda de uma misteriosa mulher.
Apanhada de surpresa por esta descoberta macabra, a polícia política, que andava no seu encalço sem encontrar qualquer pista, decide entregar a investigação à polícia judiciária para não se tornar suspeita de ter cometido o hediondo crime aos olhos da opinião pública. Intervém então chefe de brigada da polícia civil Elias Santana, um homem só, ultramontano e beato, onanista fascinado pelos meandros dos vícios da grande cidade que tanto melhor combaterá quanto melhor os conhecer.
Confrontado com a mulher misteriosa que entretanto se entregara às autoridades, Elias Santana, ao mesmo tempo que vai reconstituindo, imaginando e deduzindo o que se terá passado após a fuga do Major e dos seus cúmplice, será mais uma vítima dos encantos e do poder da sedução de Mena, uma mulher indecifrável que o pode levar à perdição...
Balada da Praia dos Cães relata a investigação dum assassínio. A história começa com o relatório da descoberta dum cadáver enterrado numa praia, graças a alguns cães que, casualmente, dão com o morto sepultado na areia. Mais tarde a polícia descobre tratar-se do major Luís Dantas Castro, um militar preso por tentativa de sedição militar contra o regime político vigente, e que escapara da prisão, indo recolher-se, juntamente com três cúmplices: Mena, uma jovem mulher com quem o major tinha uma violenta e obsessiva relação antes do seu encarceramento, o arquitecto Fontenova, outro prisioneiro detido pelo seu envolvimento com a revolta militar e membro do mesmo movimento de resistência anti-salazarista do Major, e o cabo Barroca, um guarda do campo a cumprir o seu serviço militar.
Os quatro refugiam-se numa casa situada a 20 km de Lisboa, aguardando a ajuda do advogado Gama e Sá, por eles apelidado Comodoro.
O responsável pela investigação é Elias Santana, um chefe da brigada da Polícia Judiciária, que vai reconstituindo o crime graças sobretudo aos interrogatórios feitos a Mena, confirmados e completados mais tarde pelos outros dois cúmplices, entretanto detidos. Comprova-se que o major fora assassinado pelos seus três companheiros de fuga.
A acção do livro desenrola-se em dois planos: por um lado, o sucedido antes do crime, contado pela perspectiva de Mena; por outro, o próprio inquérito policial e a vida de Elias Santana. Neste último plano, o livro retrata a realidade e os métodos da polícia em pleno regime do Estado Novo, bem como a vida triste, rotineira e apagada de Elias Santana.
Um dos interessantes livros de Rui Canas Gaspar sobre Setúbal [Histórias, Coisas e Gentes de Setúbal] fala-me dos chamados Palácios da Comenda (na foz da Ribeira da Ajuda ou de Aravil) e dos Arciprestes, na Quinta da Varzinha. Este último já foi objecto de uma publicação neste blog (1). A informação do adiantado estado de degradação e devassa do Palácio da Comenda orienta-me para uma visita a este.
Partindo do Parque das Merendas da Comenda, na foz da Ribeira da Ajuda, sigo pela margem esquerda. Intrigam-me umas ruínas circulares que mais tarde identifico como sendo do degradado sítio romano (de cetárias) e uns muretes paralelos ao rio sado, que em pesquisa posterior verifico serem uma defesa do campo arqueológico relativamente ao movimento das marés.
A ribeira é um fio de água entremeado de pequenas lagunas no concorrido Parque de Merendas, defronte do qual se vislumbra a Península de Troia e para montante o Forte e a Praia de Albarquel e Setúbal, para juzante se avistando o Forte do Outão.
O Palácio de Raul Lino
O Palácio da Comenda situa-se lá no cimo da penedia e para ele subo ultrapassado um portão escancarado, na ladeira me cruzando com grupos de pessoas que sobem ou descem descontraídamente. O aparente bom estado de conservação do edifício é desmentido pelas portas e janelas esventradas, com vidros e portadas partidas.
Circulando um pouco labirinticamente pelo edifício - de salas amplas, desafogadas e abertas ao sol e à brisa - alguns aspectos me intrigaram; não dei pelas cozinhas nem por WC hodiernos e apenas uma das salas tinha uma pequena lareira, talvez recente, consequência provável da orientação solar do conjunto habitacional.
fonte - obra de Rui Canas Gaspar supra-referida
O edifício, substituindo um anterior, foi erguido em cima duma fortificação (baluarte) segundo projecto do arquitecto Raúl Lino, autor também do edifício dos Paços do Concelho de Setúbal, que haviam sido destruídos por um incêndio na noite de 4 de Outubro de 1910. Nesse dia e sem esperar por Lisboa a República fora proclamada não só em Setúbal como também na Moita e em Loures, povoações com forte implantação operária. Haverá outro edifício projectado por Lino, numa vivenda em adiantado e crescente estado de degradação na avenida dos Combatentes, paredes meias com o Departamento de Urbanismo Municipal.
Depois de adquirido por Xavier de Lima para mais um ambicioso complexo hoteleiro, o projecto foi descartado e a Herdade e o Palácio da Comenda caíram no abandono, tendo a Câmara em 2016 iniciado o processo de classificação patrimonial do edifício (2).
De Raúl Lino e do Palácio da Comenda fala João Reis Ribeiroem O Palacete da Comenda e uma dormida de Raul Lino ao luar, (3)donde se extraem as duas lantas seguintes:
Comenda: rés-de-chão , em desenho de Raul Lino (in A Arquitectura Portuguesa, 1908)
Comenda: 1º andar, em desenho de Raul Lino (A Arquitectura Portuguesa, 1908)
Os painéis de azulejos encontram se desaparecidos na sua maioria, embora seja possível "vê-los" na blogosfera. (4)
fotos em Azeitão, Arrábida e Setúbal (5)
Para outra photo-reportagem ficam o sítio romano arqueológico e as circum-vizinhas ruínas da Igreja de N. Sra da Ajuda, no Casal da Ajuda, destruída pelo terramoto de 1755.
No final deste post pode visualizar um vídeo dePedro Rodrigues., remetendo uma hiperligação para dois excertos do filme "A Balada da Praia dos Cães", de José Fonseca e Costa, nesta propriedade parcialmente rodado. O que eu fiz, ilustrando o meu processo de escolher o ângulo da fotografia ficou demasiado pesado para publicação neste blog
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(1) -
Sic transit gloria mundi e o Palácio dos Arciprestes em Setúbal