Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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sábado, 27 de março de 2021

quinta-feira, 21 de maio de 2020

gaivotas em terra


foto victor nogueira - setúbal 2018.01 - gaivotas em terra


GAIVOTA, por  Alexandre O'Neill

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

setúbal - gaivotas em terra.longe do mar

* Victor Nogueira


Foto victor nogueira - setúbal - gaivotas em terra.longe do mar (2019.12.25)

sábado, 28 de dezembro de 2019

O voo planado das gaivotes

* Victor Nogueira










imagens captadas em 2019.12.25, 
em Setúbal, na Praceta Fernando Alcobia

* FERNANDO ALCOBIA (1914 - 1939) || DEPORTADO PARA O  TARRAFAL, ONDE MORREU AOS 25 ANOS DE IDADE *

Fernando Alcobia foi um dos jovens comunistas a morrer no Tarrafal, vítima das condições desumanas a que os presos políticos eram sujeitos e de falta de qualquer assistência médica. Tinha 25 anos.

Filho de Júlia Alcobia, Fernando Alcobia nasceu em 15 de Fevereiro de 1914, em Lisboa.

Vendedor de jornais, era militante da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e integraria o Comité de Zona N.º 1 do Partido Comunista, tendo a seu cargo a Agitação e Propaganda.

No âmbito da semana de agitação e de luta contra a fome, a guerra e o fascismo, preparada pelo PCP e que deveria decorrer entre 25 de Fevereiro e 2 de Março de 1935, afixou nos prédios de Alfama propaganda política. 

Em Abril de 1935, segundo José Pacheco Pereira, participou na reunião do Pleno da FJCP realizada em Queluz e onde Álvaro Cunhal foi eleito seu Secretário Político.

No dia 10 de Junho de 1935, aquando do Cortejo do Trabalho Nacional que desfilou na Avenida perante Óscar Carmona e Oliveira Salazar, fez parte do grupo que se deslocou à Serra de Monsanto para tentar proceder à largada, falhada, de balões vermelhos com a foice e o martelo.

Dias depois, em 16 de Junho, participou, com Américo Gonçalves de Sousa, Fernando Moura e José Machado Pinto, na distribuição de manifestos no Parque Eduardo VII. Preso, conseguiu fugir na sequência da intervenção de José Machado Pinto que disparou contra o seu captor, o agente José Machado Pinto, guarda auxiliar Nº 264 da P. S. P. de Lisboa.

Procurado, refugiou-se em Espanha, onde seria preso pela Guarda Civil, por estar indocumentado, e entregue à Guarda Fiscal de Elvas.

Entregue, em 3 de Dezembro de 1935, à Secção Política e Social da PVDE, foi, primeiro, enviado para uma esquadra e, em 27 de Dezembro, seguiu para Peniche.

Entre 4 de Fevereiro e 8 de Setembro de 1936, andou constantemente a ser transferido, passando, cronologicamente, pela 1.ª Esquadra, Peniche, Aljube, outra esquadra, 1.ª Esquadra, Aljube, 1.ª Esquadra e, novamente, Aljube. 

[RGP/2233]

Segundo o seu Cadastro Político, foi acusado de, em Agosto de 1936, ter tentado fugir do Aljube com José Machado Pinto através da "abertura de um buraco na parede da casa de banho da sala n.º 3" [ANTT, Cadastro 6006; Processo 1898].

De seguida, integrou a primeira leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde chegou em 29 de Outubro de 1936 e faleceu ao fim de três anos, em 19 de Dezembro de 1939.

Segundo relato dos seus companheiros, Fernando Alcobia 

«passara muitas vezes pela frigideira. Pela primeira vez em Outubro de 1938. E a sua saúde sofreu o primeiro abalo. Foi depois a «brigada brava», de onde certa vez o trouxeram em braços. Numa outra altura meteram-no na frigideira com um abcesso no ouvido. Passou toda uma noite com dores agudas a pedir a vinda do médico. Não veio o Tralheira (nome pelo qual os presos tratavam o médico assassino). Queriam que trabalhasse e não o podia fazer e toda uma manhã ficou sentado numa pedra gemendo com dores. De volta ao campo, levaram-no para a frigideira e ali esteve vinte dias, sempre com um abcesso, sempre sem que Esmeraldo Pais Prata (o médico assassino) o tratasse. Trabalho, frigideira, frigideira, trabalho, foi o que Fernando Alcobia teve de sofrer até 15 de Dezembro, quando adoeceu com uma biliosa. O estado de fraqueza em que se encontrava quebrou-lhe todas as resistências à doença.

Esmeraldo Pais Prata veio enfim vê-lo. Estava na agonia. Acendeu uma lanterna e os olhos de Fernando Alcobia não reagiram. A morte já não tardaria muito. Fernando Alcobia tinha vinte e quatro anos e ia morrer assassinado.

-Se estiver pior amanhã, mandem-me chamar.

- E que tratamento lhe devo fazer, senhor doutor? - perguntou Virgílio de Sousa (o enfermeiro), que só depois de muito insistir conseguira que o Tralheira fosse ver o doente.

- Tratamento? Sim! Olhe, ponha-lhe umas compressas de água fria na testa.

Fernando Alcobia morreu pelas dez da manhã.

Morria muito jovem, devido à frigideira, ao trabalho da «brigada brava», às mãos daqueles que o fizeram sofrer tudo isto e tudo lhe negaram.» [Tarrafal - Testemunhos, Caminho, 1978, pp. 142-143].

Fernando Alcobia era o sustento da sua mãe, que vivia no Beco da Lapa - 56, e a sua namorada "pouco sabia dele e da sua vida e que só setenta anos mais tarde viria a saber quem ele era e o que lhe acontecera" [Blogue Cravo de Abril]. Segundo este mesmo Blogue, Fernando Alcobia é a personagem Simão, namorado de Teresa, no romance "O Tempo das Giestas", de José Casanova.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes: ANTT, Cadastro Político 6006; RGP/2233.

[João Esteves]


Gaivotas em terra

* Victor Nogueira


foto victor nogueira - setúbal, gaivotas em terra em 25 de dezembro, um dia ameno e límpido, sem tempestades no ar