Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Persistência da memória

* Victor Nogueira



Diz-me Penélope que as violetas da minha tia Lili continuam viçosas, as violetas que me pediu como lembrança depois do seu falecimento.

Desde a minha juventude até 2017 a Lili conheceu não poucas das minhas amizades e a casa dela esteve sempre aberta a todas elas, desde o Zamith, dos bancos da "primária" em Luanda, e a Emília, das aulas em Económicas, em Lisboa, passando pela malta do Arcada, em évoraburgomedeval, até ao Gilberto e o Filipe, sem esquecer a minha Mana Flor, já falecida, e Penélope.

Os que partiram continuam vivos enquanto estiverem na memória dos que os conheceram e com eles con-viveram!

Foto - Penélope
Setúbal, 2010.05.06

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Setúbal, em dias de quarentena e fantasmagoria 02

* Victor Nogueira

Inopinadamente, afrontando com brevidade deuses. ínvias potestades  e os interditos, de Ítaca veio Penélope até à beira-Sado. Que teias  tece Ulisses sabem os seus botões, os botões de João Baptista Cansado da Guerra.  Não serão as mesmas que Penélope tece. João Bimbelo fez todos os meios caminhos como andarilho e para lá disto nada existe. Desceu pois Penélope ao povoado de João Bimbelo, não um povoado como cidade aberta sem muros nem ameias, desassombrado, mas um povoado entre mil aldeias encerradas, de muros, barreiras e insanos medos e angústias, que João, racionalmente,  não partilha.

Caminha pois João Baptista Cansado da Guerra com Penélope, percorrendo as ruas da cidade deserta. O Largo da Fonte Nova está vazio de pessoas, salvo uma ou outra que passa, duas jovens sentadas nos bancos com os cães pela trela e pombos que deambulam pelo chão, indiferentes ao  SARS-COV-2. Também João e Penélope descansam brevemente num dos bancos do Largo.. E João repara que pelo Troino, bairro que foi de pescadores e hoje da restauração, estão fechados os estabelecimentos comerciais e a esmagadora. maioria das casas de comes e  bebes, como aliás na Luísa Todi. Repara João que há mais caixas da EDP pintadas com motivos alusivos ao mar e à pesca, que fotografa. Mas isso será tema para outra publicação.

No percurso vai pois João fotografando e alguém a seu pedido suspende o estacionamento do carro para que ele possa fotografar um mural. Penélope estranha o silêncio. é uma cidade diferente, diz ela, uma cidade sem ruído, (quase) sem movimento e sem azáfama, que anteriormente percorrera com João Bimbelo.

Passam pelas Fontaínhas e Penélope diz que gostaria de conhecer essa Setúbal medieval, que João diz ser de ruas estreitas, como na Alfama e Mouraria ulissiponenses, com a sua Porta do Sol ou da Moura Encantada. de Palhais intra-muros e, fora deles, a Nascente, S. Domingos, das casas conventuais, e as Fontainhas, dos pescadores, tal como para Poente o Troino, outrora separado da Vila pela Ribeira do Livramento, também povoado de pescadores, também com as suas casas conventuais,  tudo unificado com o passar dos tempos, numa vila que ps«assou a ser designada como Setúbal, no século XIX  alcandorada a cidade. Mas esta é. como muitas outras, uma deambulação que ficará para tempos vindouros se esse for o intento e desejo de Penélope

Rumam de seguida até à zona industrial da Mitrena e João apercebe-se de como é desolado, agreste, falho de vida, este caminho que outrora percorreu muitas vezes, incluindo aqueles dois anos em que aos operários  deu aulas nos Estaleiros da Setenave. Já lá não estão as chaminés da Central Termo-Eléctrica ou os pequenos estaleiros navais que bordejavam as margens do Estuário do Rio Sado, Mas Penélope diz que gostou de conhecer e lhe agradou esta outra face de Setúbal, uma face que os turistas desconhecem.


Travessa Álvaro Anes


Rua Ladislau Parreira



 Mercearia Mafaria ao Largo
Praça Machado dos Satos




Rua Vasco da Gama







Café Restaurante A Brasileira


Rua do Ligeiro





Largo Joaquim António Correia




Pizzaria Kefish Take Away





Largo da Fonte Nova, Palácio Feu Guião e Monumento a Mariana Torres, operária assassinada pela GNR durante uma manifestação por melhores condições de vida e de trabalho, em 1911






Praça Machado dos Santos


Rua Ladislau Parreira


Avenida Luísa Todi (Fontaínhas)



Local onde estiveram as demolidas chaminés da Central Termo-léctrica



Esteiros do Rio Sado e ruínas do Moinho de Maré da Mitrena


fotos em 2020.04.23

terça-feira, 29 de outubro de 2019

«O Mistério na Serra da Arrábida»

* Victor Nogueira


foto Victor Nogueira - Eça e Ramalho escreveram «O Mistério da Estrada de Sintra»- Menos ambicioso, eu fotografo «O Mistério na Serra da Arrábida», onde não se sabe bem se a terra confina com o Mar-Oceano ou com o Sétimo Céu!

Álvaro de Campos - ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
'Fui como ervas, e não me arrancaram'

Álvaro de Campos - Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
11-5-1928

sábado, 28 de abril de 2018

Entre Paço de Arcos e a Estrela

* Victor Nogueira


“Então? É hoje que vamos ao caril?”

Já andávamos há algumas semanas a falar disto, ir almoçar ao caril. Eu não conhecia mas fiquei com curiosidade. “Mas é um indiano?!” pareceu-me uma pergunta legítima. “Não, é tipo uma tasca que se chama O Queque. Mas tem sempre caril e é um espectáculo!” Ok, gosto de tascas, gosto de caril, gosto de descobrir coisas novas. “Bora lá!”
Então O Queque é mesmo uma tasca, que enche completamente ao almoço por causa do dito caril. Todos os dias há um diferente, fomos no dia do frango e do camarão. Os donos [que vieram de Moçambique] são extremamente atenciosos connosco, talvez por não nos conhecerem (ao contrário do que acontece com quase todas as outras pessoas, a quem já tratam pelo nome). “Está tudo bem por aqui?” “Estão a gostar?” “Querem mais alguma coisa?”… gosto de ser bem tratado e de simpatia genuína.


Foto e texto in http://www.ondevamosjantar.com/o-queque/
***


O Queque -  não confundir com Os Queques da Linha, mais abaixo - fica  ali em Paço de Arcos, numa rua muito íngreme, em que é preciso comer um bife para subi-la e meter travões aos pés para descê-la, ali na Rua Instituto Conde de Agrolongo 3C.

Foi pois este o restaurante de  clientela maioritariamente habitual escolhido para o almoço, já meu conhecido dos tempos em que lá íamos almoçar comida africana com os meus pais e posteriormente com outras pessoas, como o meu filho Rui Pedro ou as minhas tias Lili e Chicolateira ou pessoas amigas. O dono é sempre  superatencioso, com um Yah na conversação como a minha mana Clarisse, também moçambicana, embora não esteja bem certo que ainda se recordasse de mim após uma ausência de alguns anos.  No entanto desta vez a escolha não foi o caril ou outra iguaria africana mas apenas entrecosto assado.

O tempo instável, ora quente e abafado, ora frio e negramente nublado, malogrou mais um passeio ao longo do paredão em Paço de Arcos pelo que o rumo foi reorientado  mais para nascente, para Belém, junto aos Museus de Arte, Arquitectura e Tecnologia e o da Electricidade, que não visitámos, culminando numa breve visita à Basílica da Estrela e um café numa esplanada junto ao lago onde evolucionam patos reais com suas crias, no aprazível jardim fronteiro, onde ia muitas vezes nos meus tempos de estudante em Económicas, para deambular, ler ou estudar. Penélope diz que nunca vira o Jardim com os olhos de hoje, desta tarde. Por fotografar ficou o quiosque Arte Nova, junto à Basílica.

O Jardim da Estrela ou de Guerra Junqueiro, um dos passeios públicos da burguesia oitocentista e subsequente, com o  seu coreto, tem espalhadas por ele vários conjuntos escultóricos.

Em Belém o sossego da tarde era quebrado pelo movimento contínuo de aviões com origem ou destino no Aeroporto General Humberto Delgado.


Guitarra na Proa -Homenagem a Amália Rodrigues, ao Fado e a Lisboa, da autoria de Domingos de Oliveira, inaugurada em 14 de Abril de 2000, na Av. Brasília, junto ao rio e frente à Cordoaria.


Ponte 25 de Abril e Monumento a Cristo-Rei, em Almada







À sombra do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia


Ao fundo o Museu da Electricidade





Jardim da Estrela









De autoria desconhecida, seria talvez uma de duas estátuas que representam os rios e que foram cedidas à Câmara, em 1876, pela Real Academia de Belas Artes.








O elegante coreto foi construído em 1884 e colocado neste espaço verde em 1936. Anteriormente situava-se na Avenida da Liberdade


Ao Jardim da Estrela se refere António Gedeão no seu poema "Saudades da terra"

(...)

E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.

(...)

Texto integral do poema em https://jardimdaestrela.wordpress.com/2015/06/12/antonio-gedeao/



Basílica da Estrela




A Basílica da Estrela (ou Real Basílica e Convento do Santíssimo Coração de Jesus) são um templo e um antigo convento de freiras carmelitas edificado  num local conhecido por Casal da Estrela, propriedade da Casa do Infantado, conjunto erguido em cumprimento duma promessa. Com efeito, na segunda metade do século XVIII, D. Maria I e D. Pedro III  prometeram construir uma igreja se tivessem um filho para herdar o trono. A criança nasceu mas veio a falecer antes da conclusão das obras deste monumental conjunto arquitectónico, similar ao Convento de Mafra.


Fotos em 2018.04.27

Sobre a estatuária do Jardim poderá ver os verbetes 
em https://jardimdaestrela.wordpress.com/: