* VIctor Nogueira
Castro Barroso Gato Nogueira - Blog Photographico - lembrança da moça do Alentejo
Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui
“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)
«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Estatuária (24) - Miscelânia setubalense
quinta-feira, 22 de abril de 2021
Monumentos ao 25 de Abril
* Victor Nogueira
As fotografias que se seguem referem-se a três monumentos comemorativos do 25 de Abril, a saber: 25 anos da Revolução de Abril, do escultor João Cutileiro (Lisboa - 1999), Monumento à Resistência Antifascista, à Liberdade e à Democracia, do escultor José Aurélio (Setúbal - 2005) e Monumento ao 25 de Abril e às Nacionalizações, dos escultores Virgílio Domingues e António Trindade (Setúbal - 1985). No final figura uma hiperligação ao Monumento a Humberto Delgado, na Cela (Coutos de Alcobaça), do escultor alcobacense José Aurélio (1975).
Escreveu Alexandre Pomar: «João Cutileiro construiu uma fonte no cimo do Parque Eduardo VII. A evocação e homenagem ao 25 de Abril só podia ser um antimonumento. (...) Para Cutileiro, «o 25 de Abril é anti-monumental por definição», no acto do derrubar um regime imóvel e autoritário (como um monumento) e de recolocar um destino colectivo nas mãos de um povo. E a sua intervenção de escultor também não quis ser um monumento no sentido tradicional de consagração formal de um momento congelado no tempo, de sacralização da distância entre os símbolos de um poder, divino ou heróico, e o espaço comum da cidade. A sua «Evocação do 25 de Abril», título presente na necessária lápide inaugural, é bem uma fonte, tipologia construtiva que põe em evidência quer o significado da permanente agitação da água em movimento quer a ideia de que «a fonte é a origem» (J.C.).
A abordagem dos emblemas formais e dos seus sentidos seria inesgotável: a fonte e o cravo, o derrubar de uma forma prévia autoritária, a ideia de inacabamento de um processo em construção, a recusa de uma «mensagem» escrita (mas estão lá sinais de trabalho trazidos da pedreira), a mobilidade da água, a forma fálica presente em qualquer obelisco ou coluna, e que aqui remete para a configuração dos megalitos alentejanos. E teria ainda de prolongar-se com absoluta coerência no equacionar da problemática da escala.
A opção do escultor foi a de contrapor uma dimensão humana ao gigantismo autoritário das colunas pré-existentes, transformando um lugar votado à representação do poder (com maiúscula, tal como em algumas concepções da arte) num espaço de uso público, de lazer e de prazer. Os degraus que limitam um dos lados do lago são um convite directo a mergulhar os pés na frescura da água corrente; o arranjo do espaço envolvente é propício à permanência, inventando uma praça num lugar privilegiado da cidade mais ainda inóspito. Às memória romanas que as colunas transportam, com sentido imperial, contrapõe-se a lembrança das fontes de Roma, mas despidas das suas mitologias de Neptunos e sereias, que também não poderiam ter lugar na evocação do 25 de Abril.» (in Cutileiro, Evocação do 25 de Abril - Alexandre Pomar)



