Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Pelourinhos 55 / Municípios 33 - Forais

 * Victor Nogueira

Foral manuelino de Évora (Wikipedia)

«As cartas de foral eram concedidas pelo Rei ou por um senhor, laico ou eclesiástico, a uma terra, estabelecendo as normas a seguir pelos habitantes entre si e em relação à entidade outorgante. Trata-se, na realidade, de uma carta de privilégio, e não existem grandes diferenças entre as concedidas pelo rei e as outorgadas pelos senhores particulares ou eclesiásticos.

A atribuição de forais a concelhos, novos ou já existentes, feita pelo rei, nos séculos XIII e XIV, pressupunha um movimento das próprias populações no sentido de se libertarem das leis e da justiça senhorial. Muitas vezes o foral concedido a uma terra tomava como modelo outros, com ou sem alterações, o que justifica a criação de tipologias. Ao longo do século XV, o fortalecimento do poder real e as leis gerais levaram ao declínio das instituições concelhias, pelo que os forais perderam a sua importância, ficando reduzidos a simples listas de tributos dos municípios. Com a reforma manuelina, os forais tornam-se, praticamente, uma actualização dos privilégios e dos encargos das localidades.

Com o advento do liberaliAmo foram promulgadas várias leis tendentes à supressão dos forais, até por fim abolidos pelo Decreto de 13 de Agosto de 1832, confirmado pela Carta de lei de 22 de Junho de 1846.

ÂMBITO E CONTEÚDO

Colecção que contém forais antigos, foros e costumes de alguns concelhos, traslados e capítulos de forais, apontamentos para a passagem de foral novo, forais manuelinos e os forais novíssimos.

As suas dimensões e conteúdos são variáveis, mas reportam-se, em regra, às liberdades e garantias das pessoas e bens dos moradores, rendas, foros e direitos a que eram obrigados, coimas e multas devidas pelos diversos delitos, imunidades coleltivas, encargos e privilégios, forma das provas judiciárias, citações, fianças.

Os forais novíssimos que se encontram nesta série são, de modo geral, certidões das reformas dos anteriores.»

IN 

Forais - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq


«Uma carta de foral, ou simplesmente foral, era um documento real utilizado em Portugal, que visava estabelecer um concelho e regular a sua administração, deveres e privilégios. A palavra "foral" deriva da palavra portuguesa "foro", que por sua vez provém do latim "forum".

Os forais foram concedidos entre o século XII e o XV. Eram a base do estabelecimento do município e, desse modo, o evento mais importante da história da vila ou da cidade. Era determinante para assegurar as condições de fixação e prosperidade da comunidade, assim como no aumento da sua área cultivada, pela concessão de maiores liberdades e privilégios aos seus habitantes.

O foral tornava um concelho livre do controle feudal, transferindo o poder para um "concelho de vizinhos", com a sua própria autonomia municipal. Por conseguinte, a população ficava direta e exclusivamente sob o domínio e jurisdição da Coroa, excluindo o senhor feudal da hierarquia do poder.

O foral garantia terras públicas para o uso coletivo da comunidade, regulava impostos, portagens e multas e estabelecia direitos de proteção e deveres militares dentro do serviço real.

Um pelourinho estava diretamente associada à existência de um foral. Era erguido na praça principal da vila ou cidade quando o foral era concedido e simboliza o poder e autoridade municipais, uma vez que era junto ao pelourinho que se executavam sentenças judiciais de crimes públicos que consistissem em castigos físicos.

Os forais entraram em decadência no século XV, tendo sido exigida pelos procuradores dos concelhos a sua reforma, o que viria a acontecer no reinado de D. Manuel I de Portugal. Foram extintos por Mouzinho da Silveira em 1832.

Os forais manuelinos

Com o objetivo de sistematizar a governação local ao nível administrativo, D. Manuel I de Portugal nomeou uma comissão que, durante duas décadas, procedeu à recolha de toda a documentação existente - Privilégios e antigos Forais - e reformulou-a segundo uma certa sistematização, o que fez com que os chamados "Forais Novos" fossem quase idênticos, assegurando uma certa unificação. São também conhecidos como de "leitura nova", uma vez que o monarca instituiu um novo tipo de letra caligráfica - o gótico librário, mais inteligível.

Em seu reinado foram reformulados 596 forais, reunidos nos "Livros dos Forais Novos". A reforma prolongou-se entre 1495 e 1520, abrangendo cerca de 570 concelhos.

Iconograficmente, o tipo principal caracteriza-se por apresentar, no frontispício, na parte superior, as armas reais ao centro (sempre com nove castelos), ladeado pelas esferas armilares e uma faixa horizontal com o nome do rei (MANVEL), tendo a particularidade de a letra "D" ser formada por uma serpente alada com cabeça de dragão. (Wikipedia)


2014 - 500 anos do Foral do Soajo - cartaz em Arcos de Valdevez



2016 - 500 anos do Foral de Vila do Conde - autocolantes

terça-feira, 7 de março de 2017

Como era Portugal quando a RTP entrou na nossa vida




João Villaret numa das emissões da RTP no primeiro ano da televisão
Foto Arquivo


Uma ida à praia em 1957, em Quarteira, Algarve
Foto Arquivo


A chegada de Isabel II, no Cais das Colunas, em Lisboa
Foto Arquivo


Obras para a construção do metro no Marquês de Pombal, em Lisboa
Foto Arquivo


Feira de São Martinho, em Penafiel
Foto Arquivo


Festa das Vindimas na sede do Rancho Infantil de Matosinhos
Foto Arquivo


O desfile da Queima das Fitas do Porto
Foto Arquivo


Casal de namorados na Feira de São José, em Matosinhos
Foto Arquivo

Sessenta anos depois, o país mudou bastante. Nos hábitos, na saúde e sociedade e na realidade financeira. Aqui fica um retrato de um país quando a RTP entrou, enfim, na nossa casa...

Pouco mais de 8,5 milhões de portugueses, mas uma taxa de natalidade que nos faz hoje corar de vergonha: 215 mil nascimentos por ano contra os 85 mil que as estatísticas oficiais registaram em 2015. Era assim Portugal em 1957: apenas 9,5% dos rebentos nasciam fora dos casamentos. Hoje são a maioria (50,7%, de acordo com os dados da Pordata). Uma taxa de mortalidade infantil de 77,5 óbitos de crianças por cada mil nados vivos (em contraponto com os 2,9 da atualidade) e esperança média de vida de 60 e 66 anos para homens e mulheres, respetivamente, muito aquém dos 77 e 83 anos estimada nos dias de hoje.

Nesse ano, a inflação fixou-se nos 1,43%. O produto interno bruto estava abaixo do 30 mil milhões, a léguas dos 185 mil milhões que o INE apurou para 2016.

Quando a caixa mágica entrou definitivamente na vida dos portugueses, um recetor de TV custava entre 5900 e 7800 escudos (entre 30 e 39 euros), um valor equivalente a nove meses de salário de um trabalhador não qualificado. Júlio Isidro, 72 anos e 57 de carreira, o mais antigo profissional de televisão português no ativo ("e provavelmente o que tem mais tempo de vida profissional em toda a Europa"), era um dos sortudos com televisão em casa. "Por causa de circunstâncias caricatas. A minha avó tinha sido fiadora de uma loja de eletrodomésticos. O homem fugiu e não pagou aos fornecedores. A minha avó lá teve de pagar as contas e ficou proprietária da loja. Portanto, fomos lá buscar um televisor. Um Nordmende, alemão, claro", recorda ao DN.

A visita da rainha Isabel II de Inglaterra a Portugal, em fevereiro, já tinha sido o primeiro grande teste à capacidade de mobilização dos profissionais da RTP. Durante os quatro dias de visita oficial, a monarca "mereceu da RTP as honras de um jornal diário que lhe era integralmente dedicado", relata Vasco Hogan Teves, o biógrafo oficial da RTP no livro do cinquentenário da empresa.

Chegou, enfim, o dia 7 de março. A primeira emissão regular da RTP começou às 21.30. Três minutos depois, o chefe dos serviços de produção, Domingos de Mascarenhas, fez uma alocução sobre o "Presente e o Futuro da RTP". Canções a Granel, um espetáculo de variedades apresentado por Raul Solnado, com Maria de Lurdes Resende, entre outros artistas convidados, durou 20 minutos, antes do noticiário. Após um intervalo, os jogos de futebol militar comentados por Lança Moreira (22.25), o documentário A TAP por Dentro (22.40), o bailado Os Enganos do Amor (23.00) e um último bloco noticioso (23.25) completaram a emissão.

"Em minha casa jantava-se religiosamente às 20.00. Naquele dia, logo a seguir, a empregada levantou a mesa, arredou a mesa, alinhou as 12 cadeiras lado a lado, como se fosse um teatro, e sentámo-nos todos a ver a emissão", recorda Júlio Isidro, cuja carreira televisiva haveria de começar logo três anos depois, no Programa Juvenil, ao lado de Lídia Franco e João Lobo Antunes.

O apresentador recorda que a emissão "foi vista de luz apagada". "Estávamos lá todos: o meu pai no meio, os avós, a criançada num canto e a vizinha de cima", lembra ao DN, acrescentando que o "fascínio da televisão" já tinha começado meses antes, aquando das emissões experimentais, em setembro de 1956. "Morava na João Crisóstomo, paredes meias com a antiga Feira Popular. Tinha 11 anos e, como as crianças não pagavam, aproveitava a chegada de casais, pedia-lhes para me darem a mão e entrava à socapa."

Percorra a galeria de imagens acima para ver vários momentos do dia-a-dia do país em 1957

http://www.dn.pt/sociedade/interior/como-era-portugal-quando-a-rtp-entrou-na-nossa-vida-5708655.html