Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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domingo, 20 de novembro de 2011

Fotografia de nus motiva investigação a Ai Weiwei por “pornografia"




Autoridades chinesas continuam a cercar artista


19.11.2011 - 19:45 Por AFP, Hugo Torres
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A fotografia “Um Tigre Oito Seios” é o motivo da nova investigação sobre Ai Weiwei
A fotografia “Um Tigre Oito Seios” é o motivo da nova investigação sobre Ai Weiwei (DR)

 A dissidência política e a evasão fiscal eram os motivos apontados pelas autoridades chinesas para investigar – e prender – Ai Weiwei. Mas, no final desta semana, o artista descobriu que também estava a ser investigado por espalhar pornografia. Wei Wei ainda se riu, até um assistente ter sido levado para prestar declarações.

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O problema está numa fotografia feita por Zhao Zhao, o assistente que na quinta-feira, segundo o próprio Weiwei, foi levado para uma esquadra da polícia na capital, Pequim, de onde o artista está proibido de sair. “Disseram-lhe claramente que se tratava de investigação que agora estavam a fazer sobre mim, por pornografia”, disse, à AFP.


A fotografia, intitulada “Um Tigre Oito Seios” (tradução livre do inglês) mostra Ai Wei Wei rodeado por quatro mulheres, os cinco nus, num interior aparentemente vazio. “Quando me prenderam, disseram ‘isto é pornografia’, mas eu ri-me e disse: ‘sabem o que é pornografia?’”, contou. “Nudez não é pornografia”, afirmou, nesta sexta-feira.



O artista recordou, em declarações àquela agência, por telefone, a história da fotografia: “Quando internautas vieram ter comigo para tirar fotografias, perguntámos por que não fazíamos fotografias de nudez. Como toda a gente concordou, fizemos e publicámo-las na Internet. E foi isso. Nunca mais pensámos no assunto.”



Mas onde Ai Weiwei vê apenas nudez, as autoridades chinesas vêem obscenidade – e avançaram com mais uma investigação sobre o artista, que ainda este ano esteve 81 dias preso, em parte incerta. Weiwei diz tratar-se de um mero subterfúgio, que esta é mais um episódio da perseguição política de que tem sido alvo.



O artista chinês ainda recentemente pagou 8,45 milhões de yuans (9,87 milhões de euros) de um total de 15 milhões de yuans que, segundo as autoridades do seu país, Ai Wei Wei devia em impostos atrasados. A quantia paga pelo activista foi recolhida numa acção de angariação de fundos, para a qual contribuíram muitos chineses.



Ai Weiwei disse ainda que o nível de participação nesta campanha o fez perceber que “não está sozinho” e, consequentemente, a sentir-se motivado para esta nova investigação.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Benetton retira imagem do Papa a beijar o imã do Cairo




Publicidade mostra beijos impossíveis

17.11.2011 - 08:58 Por Romana Borja-Santos
A imagem do Papa a dar um beijo a Safwad Hagazi, imã do Cairo, foi retirada mas as restantes cinco mantêm-se
A imagem do Papa a dar um beijo a Safwad Hagazi, imã do Cairo, foi retirada mas as restantes cinco mantêm-se (Foto: Stefano Rellandini/Reuters)
 A polémica imagem do Papa Bento XVI a beijar Safwad Hagazi, imã do Cairo, que fazia parte da nova campanha da Benetton não durou 24 horas. Após um comunicado do Vaticano a criticar veementemente esta publicidade, a marca acabou por retirá-la.

A Benetton voltou a dar que falar numa acção de marketing, continuando a apostar em beijos impossíveis: o Papa Bento XVI e um imã egípcio, os presidentes americano e chinês, a chanceler alemã e o chefe de Estado francês. A campanha com estas montagens fotográficas, cujos cartazes invadiram as ruas de Roma e Milão e os sites noticiosos um pouco por todo o mundo, faz parte de uma iniciativa da fundação Unhate (Deixe de Odiar, em tradução livre do inglês), financiada pelo grupo de Luciano Benetton e que tem por objectivo, lê-se na sua página oficial, “contribuir para a criação de uma nova cultura de tolerância” e de diálogo, independentemente das diferenças.


Uma cultura de tolerância e de diálogo que foi vista com muitos maus olhos pelo Vaticano, que a 500 metros dos aposentos do Papa tinha um cartaz que mostrava Bento XVI a beijar Safwad Hagazi. Nos outros cartazes da campanha o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, beija o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. Desta vez as fotografias não são de Oliviero Toscani, mas ao olhar para a imagem que junta os líderes das duas Coreias é impossível não pensar nele. Tão impossível como o beijo entre Kim Jong-il e Lee Myung-bak.



O porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, veio ontem apelidar a campanha de “manipuladora”, considerando “absolutamente inaceitável” a apropriação que foi feita da imagem do Sumo Pontífice. Federico Lombardi ameaçou mesmo que o Vaticano tomaria medidas junto das autoridades competentes se a Benetton não recuasse. “É uma grave falta de respeito pelo Papa, uma ofensa contra os sentimentos dos fiéis e um exemplo claro de como a publicidade pode violar as mais elementares regras de respeito pelas pessoas para atrair a atenção das pessoas através da provocação”, disse o porta-voz, citado pela AFP.



Por seu lado, a Benetton defendeu-se, assegurando que o propósito da campanha passava “exclusivamente por combater a cultura de ódio em todas as formas”, mas aceitou, ainda assim, retirar esta imagem do conjunto total de seis fotografias que compunham a campanha. “Lamentamos que o uso da imagem do Pontífice com o imã tenha ofendido as sensibilidades dos fiéis desta forma”, reforçou a marca num comunicado citado pela Reuters.

sábado, 17 de abril de 2010

Encontrada fotografia inédita de Rimbaud

15.04.2010 - 13:15 Por PÚBLICO
Uma fotografia inédita de Arthur Rimbaud, que mostra o poeta sentado numa varanda do Hotel de l’Univers, em Aden, na Abissínia, foi encontrada por acaso por dois livreiros numa feira de rua de antiguidades. A imagem, a única que existe de boa qualidade mostrando Rimbaud adulto, não está datada, mas os dois livreiros, Jacques Desse e Alban Caussé, acreditam que pode ter sido captada no início de 1880.
São muito raras as imagens de Rimbaud durante o período em que 
viveu em África 
São muito raras as imagens de Rimbaud durante o período em que viveu em África ()


A descoberta, que aconteceu há cerca de dois anos, foi um puro acaso. A fotografia, que mostra um grupo de seis homens e uma mulher, fazia parte de um conjunto de imagens de Aden e chamou a atenção de Desse e Caussé por ter escrito na parte de trás Hotel de l’Univers – um dos dois estabelecimentos hoteleiros administrados por franceses na colónia, e precisamente aquele em que Rimbaud estivera instalado em Aden, onde viveu os últimos anos da sua vida, antes de morrer em França, aos 37 anos.

São muito raras as imagens de Rimbaud durante o período em que viveu em África, e em nenhuma é possível distinguir claramente os traços do seu rosto. Na que agora os dois livreiros divulgaram o rosto vê-se nitidamente, os olhos tristes, um pequeno bigode.

Para confirmarem as suspeitas de que poderia tratar-se do poeta, os dois homens pediram a ajuda de Jean-Jacques Lefrère, biógrafo de Rimbaud, que, ao fim de uma investigação, e de comparações com as imagens de adolescência do poeta, confirmou que se trata efectivamente dele.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Fugas e Hospedeira daRyanair




Dia das Mentiras: Agora a sério: Ryanair continua a ter pilotos e não substitui hospedeiras… Porém, será que a rainha de Inglaterra voou na easyJet?

Era demasiado evidente, não era? Tivemos leitores em dúvida, leitores a rir e até leitores que acharam que a mentirinha pecava por ser demasiado evidente (especialmente no Facebook). Abram-se alas para comentário oficial: pautamo-nos por fornecer sempre informações verdadeiras (e corrigir quaisquer erros o mais depressa possível); uma mentira, mesmo a 1 de Abril, só poderia ser, a nosso ver, fácil de desmontar.
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Estávamos na dúvida era sobre o alvo, mas decidimo-nos de imediato quando nos chegou um comunicado da Ryanair a anunciar a substituição de hospedeiras e comissários de bordo por máquinas de venda automáticas... Além de que a Ryanair (a quem agradecemos a paciência) tem por tradição inventar sempre uma boa no 1.º de Abril (uma das nossas preferidas é o anúncio de voos "low cost" para a Lua). Aos nossos leitores que não apreciam estes delírios de 1 de Abril, fica também o nosso agradecimento pela tolerância... (já agora: as imagens que ilustravam a peça pertencem ao filme "Aeroplano").
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A propósito, a easyJet também entrou na brincadeira, mas ao contrário da Ryanair, cujo comunicado dava a sua piadinha por verdadeira, a concorrente explicava claramente que era uma informação fictícia, porém, convenhamos, muito bem preparada com comunicado e vídeo: Teria a rainha de Inglaterra viajado na easyJet? "Sua Majestade esteve ontem no aeroporto de Londres Luton, onde foi vista a entrar para o seu primeiro voo público de sempre, em direcção à Escócia", "E em vez de utilizar o comboio real – que custa aproximadamente €60 por viajem – a poupada monarca optou por apanhar um voo da easyJet em alternativa, que apenas lhe custou €23 euros..". Fica a "prova":
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Já agora, sublinhe-se que não era a primeira monarca a voar numa companhia de baixo custo: a Rainha Sofia de Espanha já experimentou a Ryanair.
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Hospedeiras da falida Air Comet em calendário de nus para reinvindicarem salários

 

E por falar em hospedeiras, nenhumas são mais célebres mundialmente esta semana que as da companhia aérea espanhola Air Comet, que entrou em falência em Dezembro: com oito ou nove meses de salário em atraso, decidiram usar um método da Ryanair - embora esta com outros fins solidários - e algumas posaram nuas para um calendário que pretende chamar a atenção para a sua situação. E também dar algum lucro, já que foram feitos 1500 calendários à venda por €15 cada. "É uma reivindicação dos direitos que nos correspondem", disse à Reuters a hospedeira Adriana Ricardo, que entra no calendário. "Devem-nos oito ou nove meses de salários, dependendo dos casos", sublinhou.

Segundo o site da tv espanhola Antena 3, onde um grupo das hospedeiras participou num programa (vídeo abaixo), pode adquirir-se o calendário via o mail act.azafatas@gmail.com (o êxito do calendário deverá decerto levar a novas edições...).


 
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segunda-feira, 15 de março de 2010

PÚBLICO - 20 anos de fotojornalismo



.Fotogaleria

PÚBLICO - 20 anos de fotojornalismo



 

 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Encontro de editores de fotojornalismo iberoamericanos, em Madrid



Fotojornalistas iberoamericanos dizem que modelo gratuito dos media na Net é “suicídio”

Público - 30.01.2010 - 16:23 Por Lusa
Vários editores de fotografia de jornais espanhóis e latino-americanos defenderam hoje a cobrança do acesso a conteúdos on-line e expressaram reservas quanto à figura do “fotojornalista-orquestra”, que se multiplica a fazer fotografias e vídeos.
Os fotógrafos iberoamericanos criticaram a multifuncionalidade 
pedida à profissão, por causa do vídeo  
 
Os fotógrafos iberoamericanos criticaram a multifuncionalidade pedida à profissão, por causa do vídeo (Hugo Calçada (arquivo))
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“A não cobrança não está a funcionar. É um modelo que está a esgotar-se”, disse à agência EFE Dani Yako, do jornal argentino “Clarin”, antes da sua intervenção no encontro de editores de fotojornalismo ibero-americanos que decorre em Madrid.
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O encontro marcou o encerramento do Transatlântica, um fórum do Festival de fotografia PhotoEspanha criado em 2009 para fomentar o intercâmbio entre instituições e profissionais espanhóis e latino-americanos.
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No encontro estiveram também representantes dos jornais espanhóis “El Mundo”, “El País” e “La Vanguardia”, o brasileiro “Folha de São Paulo” e o mexicano “Excelsior”, que analisaram o estado de saúde do fotojornalismo iberoamericano.
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A fotografia na América Latina está “ao mais alto nível internacional” e, em Espanha, é “cada vez melhor”, disse o presidente da PhotoEspanha, Alberto Anaut.
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Os conferencistas abordaram ainda o visionamento dos conteúdos dos media na Internet, que a maioria dos presentes defendeu dever passar a ser pago.
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“Penso que mais tarde ou mais cedo o acesso aos conteúdos passará a ser pago. A quem ocorreu que o trabalho na Internet teria que ser gratuito?”, referiu Ulises Castellanos, do “Excelsior”, acrescentando que a gratuitidade “é um suicídio”.
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Por outro lado, Carla Romero, do “Folha de São Paulo”, defende “o acesso a conteúdos gratuitos na Internet”, embora admita que as próximas gerações terão que pagar, caso triunfem iniciativas como a do “New York Times”.
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O norte-americano “New York Times” anunciou que irá passar a cobrar o acesso aos conteúdos on-line do jornal a partir de 2011.
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Outra realidade que inquieta os editores de fotografia é o aparecimento do “fotojornalista-orquestra”, um profissional que além de fotografar faz também vídeos.
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Ulises Catellano é contra esta nova realidade, já que acredita que “as duas coisas não sairão bem feitas”.
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“Tirar fotografias é uma especialidade. Fazer vídeos é outra”, lembrou.

A opinião é partilhada por Dani Yako, que considera que a multiplicidade de funções “retira profissionalismo e qualidade” ao trabalho do fotógrafo. 
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Fernando Lemos - Eu sou a fotografia

Enric Vives-Rubio
Fernando Lemos

Eu sou a fotografia

Público -02.12.2009 - Sérgio B. Gomes
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O surrealista Fernando Lemos veio do Brasil com negativos na mala para tirar deles fotografias inéditas dos tempos em que abriu caminho na escuridão criativa dos anos 50. Fotografias nunca antes vistas em público
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O mestre gosta de acompanhar o processo. Gosta da revelação e do contacto com os líquidos do laboratório. O mestre Fernando Lemos, 83 anos, nome maior do surrealismo português, veio do Brasil com os negativos na mala para tirar deles fotografias inéditas dos tempos em que, ao lado de Fernando de Azevedo e Vespeira, abriu caminho na escuridão criativa dos anos 50. O minúsculo laboratório em Lisboa, de onde saíram retratos nunca antes vistos publicamente, faz-lhe lembrar o Japão, de tão pequeno e atafulhado que está. O mestre avisa o impressor: "Cuidado com o retoque! Não se esqueça daquilo que lhe disse". O mestre disse que gosta do preto como se fosse preto tinta-da-china e do branco como se fosse branco papel. Os meios-tons ficam para o impressor.
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Conversámos com Fernando Lemos no dia em que estava marcada a viagem para Vila Nova de Famalicão, onde a Fundação Cupertino de Miranda expõe a série realizada nos primeiros anos da década de 50 que o tornaram incontornável na história da fotografia portuguesa. E não só. Ao lado dessas imagens já conhecidas, há novos retratos de amigos feitos "por amor, amizade, respeito intelectual e aprendizagem".
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Ainda fotografa?
Muito pouco. Considero a fotografia já em mim. Já me perguntaram também se eu era fotógrafo. Respondo: "Não. Eu sou a fotografia". Em tudo o que vejo, é como se fosse a fotografia a ver essas coisas. Tenho a fotografia na minha cultura visual.
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As imagens sobrepostas em duplas exposições são um dos traços mais distintivos do seu trabalho. Qual é papel do acidental nas imagens que captou?
Tenho-me garantido mais por juízos de gente nova. Ultimamente tenho-me dado até mais com fotógrafos. Aos artistas plásticos nem quero vê-los à frente - todos chatos e intimistas. O que os mais novos me dizem é que estas fotografias parecem ter sido feitas hoje. E isso para mim foi uma revelação espantosa.
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Mas quando está a fazer a dupla exposição não está à espera que o acidental também faça o seu trabalho?
Sem dúvida. Como não tinha uma máquina automática, era preciso passar o rolo manualmente, aquilo a que se chamava "mão na roda". O que queria preparar na composição era um pensamento mais pictórico e gráfico. Quando imaginava certa situação para um retrato, ocultava parte da captura da imagem já preparando a outra, como se estivesse pintando, fazendo com que a matéria fosse aderindo uma à outra, transformando esta pele deste corpo na mesma pele do outro corpo que é o mesmo repetido. Há aqui alguma herança cubista, na medida em que de uma posição vemos vários ângulos do objecto. Os meus corpos também se foram mostrando dos vários lados. Os retratos não são uma coisa estática. Há uma mudança de gesto, de olhar. Dentro disto, é claro que há o flagrante, há o instante. Saber se a luz está boa ou não, tudo isso para mim é secundário. O desafiante é esse "flagra".
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É verdade que às vezes prefere o resultado do que aparece no negativo do que a imagem que é ampliada a partir dele?
Sim, é verdade. Prefiro a imagem do negativo no sentido da surpresa do registo. A fotografia para mim é um percurso meio aquático. Na hora de tirar uma cópia da banheira, dá ideia que se está a pescar um peixe, fresquinho. A fotografia para mim também é a transparência. A transparência é uma forma de espionagem. Apanhamos certas coisas e nem sabemos que as apanhámos. Como um furto.
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Como fotógrafo, tenho directrizes já bem definidas e que passei várias vezes para o laboratório e tentei passar para o António [impressor de Lisboa]: "Os pretos são pretos porque são feitos com tinta-da-china, os brancos são os brancos do papel. Considere sempre que estou desenhando, e você inventa nos meios-tons, nos cinzentos. Isso é um trabalho seu, do laboratório".
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E incomoda-o o retoque?
Acho que o retoque é como a última solução, uma coisa a que não se pode fugir. É como as nossas rugas. No retoque que se faz por causa dos danos do tempo correm-se riscos, demora muito para ficar bem feito e é sempre um remendo, uma maquilhagem, um botox. É melhor deixar como está.
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É raro alguém conseguir apontar a "sua" primeira fotografia. Tem esse momento bem presente na vista tirada da sua casa, na Rua do Sol ao Rato, em Lisboa. O que é que recorda desse momento?
No grupo surrealista ninguém estava interessado em usar a fotografia. Havia umas colagens, mas não se usava para reproduzir. A fotografia aproximou-se de mim por causa do rosto, do nosso rosto como portugueses. Até aí, achava que não havia nada que nos desse a cara da nossa gente. Lembrei-me da fotografia e pensei que a cara das pessoas com quem tinha amizade já era algo que valia a pena, um começo para essa colecta de retratos, por amor, por amizade, por respeito intelectual, por aprendizagem.
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Resolvi comprar uma câmara, a mais barata que consegui. Felizmente tinha uma lente fenomenal e a vantagem de não ser automática. Morava num quinto andar. No dia seguinte, assim que acordei, peguei nela e fui à cozinha que tinha uma janelinha pequena. Não resisti. Era a minha rua, o meu bairro, o sítio onde nasci. Decidi: é aqui que vai acontecer a minha primeira fotografia. E sempre a coloquei assim.
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No catálogo da exposição da Casa Jalco [exposição surrealista com Fernando de Azevedo e Vespeira, 1952], António Pedro dizia que "pintava com a máquina fotográfica e com os pincéis". Este é talvez o resumo perfeito para explicar a indiferenciação entre o pintor e o fotógrafo. Revê-se nesta descrição enquanto criador?
Não há distinção. Sou muito gráfico. Executei a fotografia como se estivesse pintando, usando matéria para ela se fundir, para adquirir as qualidades da pintura, mais do que as qualidades da fotografia, como o recorte. O Manuel Bandeira, que fez um texto para a minha primeira exposição no Rio de Janeiro também se refere a esta questão...
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... dizia que se "sente o pintor nas suas fotografias"...
Porque a fotografia não foi feita para imitar a pintura, mas para ser a técnica da fusão.
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O desafio de chegar ao campo do surrealismo pela fotografia é maior do que pelas outras artes, como pela pintura ou pela poesia?
Sim, é verdade. Os trabalhos que me impressionaram mais no surrealismo foram aqueles que usaram a fotografia.
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Fala-se sempre da influência de Man Ray na sua obra fotográfica. Que alcance teve o surrealismo de Ray nas imagens que produziu?
Vim a conhecer o Man Ray depois de fazer aquelas fotografias. Não tínhamos assim tanta informação sobre o que se passava lá fora. Quando descobri o trabalho dele achei que era um gajo porreiro. Mas a influência de Man Ray - que conheci em Paris - nem foi pela fotografia. Foi mais por essa postura multifacetada perante os vários suportes de criação. Ele era um artista total. Deu lições radicais sobre várias coisas. Considero-o importante, mas diria que me senti mais influenciado pelo Max Ernst, por exemplo.
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Quer dizer que a sua fotografia foi mais influenciada pela pintura?
Sim. Na fotografia vi muitas coisas, e ainda vejo, mas tenho ideia que as origens são sempre as mesmas. Esse surrealismo de figurinha sifilítica herdada do Dalí, essa coisa do erotismo, da masturbação e dos corpos estragados são meio "demodé". Para mim, a fotografia do Man Ray é música de câmara, quer dizer, é muito laboratório.
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Já disse que a sua fotografia era "sensorial e quase primitiva". Quer aprofundar esta descrição?
Tenho insistido muito nesta ideia para afastar qualquer pretensão de que sirvo de exemplo para alguma grande teoria da fotografia. Nem o efeito das exposições, nem os prémios me convencem que sou um caso excepcional. Entrei na fotografia como um primitivo. Esta descrição é como uma defesa. É também sinal de alguma cobardia ao não querer assumir um estatuto. Entrei na fotografia por acaso. Parece que deu certo. Ainda bem.
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É apresentado como o único fotógrafo surrealista português dos anos 50. No entanto, no ano passado, um leilão em Lisboa revelou um outro fotógrafo que encontrou inspiração na mesma corrente artística no final dos anos 50, Victor Palla. Já viu essas imagens?
Sim. Gostei do trabalho dele. Admirava-o muito por causa das capas de livros que criava. Era das poucas coisas que se faziam bem em Portugal. Eram novas, não provincianas. Estive uma ou duas vezes com ele, mas não falámos de fotografia. Havia entre nós uma apreciação meio secreta...
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Havia uma admiração mútua?
Sem dúvida. Ele sabia que o admirava e eu sabia que ele me admirava.
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Na prática, o seu exemplo não foi seguido de maneira consequente nos anos seguintes. O Estado Novo venceu o surrealismo?
Não sei. Sob certos aspectos talvez tenha vencido. Mas não se pode falar em vitória. Um Estado que não teve capacidade para outra coisa que não fosse instaurar medo, destruição. Ele não destruiu só o surrealismo, destruiu o próprio processo histórico. Fez a feira popular com aquelas coisas todas feitas de estafa e gesso. Estragaram toda a festa. Os discursos do Salazar foram uma anedota, meio hilários, meio dementes. Só um povo humilde como o nosso podia aceitar aquela situação. Até a polícia política era a mais atrasada delas todas. Eram todos uns sacanas sem categoria nenhuma.
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O livro "Lisboa, Cidade Triste e Alegre" [álbum com fotografias de Victor Palla/Costa Martins, poemas de vários autores portugueses editado em 1959 e considerado um dos melhores livros de fotografia portugueses] vai ser reeditado em Dezembro. Partilha do entusiasmo que gira à volta desta obra?
Partilho. É uma boa notícia. O livro tem uma reputação enorme. Dá uma versão de Lisboa absolutamente adequada. É uma fotografia que eterniza certas coisas de Lisboa, que é das poucas cidades no mundo com características que não são palpáveis em outros lugares.
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E o livro reflecte isso...
Reflecte e dá uma lição humanista. Lisboa é a minha cidade. O livro do Palla/Martins dá-nos uma Lisboa que não pode ser igualada por mais ninguém.
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A exposição inaugurada na Fundação Cupertino de Miranda tem fotografias inéditas. Quando andou a mexer de novo nos seus negativos o que é que procurou?
Muito pouca coisa. Não fui à procura de nada que fosse exclusivo. Há uma ou outra imagem que já podia ter sido ampliada. Mas não me preocupei muito com isso. Não sou pesquisador.
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No novo conjunto prevalece um tipo de retrato psicológico, mais voltado para a sugestão. O que é que procura transmitir com este estilo?
Procuro mostrar que somos vários. Quando aparecemos em qualquer situação, não temos uma cara fixa, não somos uma máscara. Quis captar os retratos desta forma para se perceber que temos na nossa cara um mundo de coisas para explodir, para esconder. Não se fica a conhecer uma pessoa ao olhar para a calça, para o sapato. Conhecemos, quando olhamos para o rosto das pessoas.
Continua a tentar "adivinhar a idade do futuro"?
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Ouvi essa expressão numa entrevista ao Philip Glass. Ele dizia que não sabia a idade do futuro. Achei interessante. Sabe-se a idade do passado, do presente, mas qual é a idade do futuro? Fiquei a pensar nisso. Depois do livro do Saramago, "As Intermitências da Morte", chego a ter medo que a morte me esqueça. Tomamos tudo muito a sério. É a questão também do surrealismo, o não tomar a sério. Mas é preciso levar as pessoas a entenderem que só gente séria é que pode brincar.
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Versão alargada desta entrevista em http://blogs.publico.pt/artephotographica
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Albert Watson Profissão: fotógrafo

Albert Watson

Profissão: fotógrafo

Público - 18.12.2009
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Por: Simone Duarte, em Nova Iorque
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É difícil acreditar que Albert Watson é cego de um olho desde que nasceu. Considerado um dos 20 fotógrafos mais influentes de todos os tempos, fez algumas das imagens mais mediáticas das últimas quatro décadas. Quem é que ainda não foi fotografado por ele?
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Pode nunca ter ouvido falar em Albert Watson mas já viu uma das suas fotos. Alfred Hitchcock foi a primeira celebridade capturada pelas lentes da câmara deste escocês de Edimburgo radicado em Nova Iorque. Foi em 1973 para a capa da "Harper's Bazaar". A imagem do cineasta britânico, que também era um grande "chef", a segurar um ganso morto representou uma viragem na carreira de Watson, que se mudara anos antes para os EUA com a mulher e os dois filhos. Mais de 40 anos depois, a questão é: quem é que ainda não foi fotografado por Albert Watson?.
Bill Clinton, Kate Moss, Clint Eastwood, Michael Jackson, Uma Thurman, Mick Jagger, Andy Warhol, Nicole Kidman, David Lynch, Naomi Campbell, Jack Nicholson, David Bowie, Cate Blanchett, Spike Lee, Scarlett Johansson, a Rainha Isabel II (Watson foi o fotógrafo oficial do casamento do Príncipe André e Sarah Ferguson). A lista parece infindável. .

São mais de 250 capas da "Vogue". Sem contar com os trabalhos para a "Rolling Stone", a "Vanity Fair", a "Time", a "Harper's Bazaar"... E ainda 600 anúncios para TV. Mas o convívio com tantas celebidades não parece ter alterado uma das maiores características do fotógrafo: a simplicidade. São 18h30 de uma noite fria em Manhattan e Watson chega atrasado ao seu estúdio em Tribeca. Veio de um "casting" para um novo trabalho. Pede desculpas. Não gosta de chegar atrasado..

A célebre foto de Kate Moss, nua, agachada, tirada em Marrocos está numa das paredes. Watson explica que esta grande sala vai ser transformada em galeria. Sentamo-nos à mesa onde o filho Aaron deixou os três livros do pai e publicações com algumas das fotos tiradas ao longo das últimas décadas. Nas salas de trás estão armazenados milhares de negativos. Começamos a conversar sobre a fotografia de Mick Jagger em que o vocalista dos Rolling Stones aparece como um leopardo. A foto integra a exposição do Museu de Brooklyn "Who Shot Rock & Roll: A Photographic History, 1955 to the Present".
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Nos últimos 17 anos já falou inúmeras vezes sobre esta foto de Mick Jagger mas é inevitável perguntar, principalmente nos dias de hoje em que todos acham que tudo é obra do Photoshop: como teve a ideia? 
O mais interessante é que esta não era a intenção inicial. A ideia era fotografar Mick a conduzir um Corvette com um leopardo ao lado. Algo surreal e estranho. Estava tudo combinado mas no momento o treinador do leopardo achou perigoso e decidiu que era melhor arranjar uma divisória de vidro para separar os dois. Enquanto esperávamos tive a ideia de fazer uma dupla exposição. Perguntei ao Mick, já o tinha fotografado outras vezes, e ele concordou. Primeiro fotografei o leopardo. 12 poses. Fiz várias exposições, muita luz, menos luz, normal, pouca luz. E anotei cada uma. A cor que prevalece no rosto do leopardo é o branco, claro, com as pintas negras. A pele de Jagger também é muito branca. Depois marquei no "viewfinder" o contorno do animal, o formato dos olhos, nariz, boca. Rebobinei o filme e fotografei Jagger na mesma posição, com exposições contrárias às que fizera com o leopardo. Das 12, quatro ficaram boas, três perfeitas. Mas só vim a saber depois. Quando a divisória do carro ficou pronta prosseguimos com a sessão de fotos. Quando fui revelar e vi como as fotos tinham ficado (tive muita sorte porque os olhos encaixaram perfeitamente e a parte de cima dos lábios também), revelei uma e mandei para a revista. Toda a gente adorou.
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E qual foi a reacção de Mick Jagger ?
Tivemos um pequeno problema. Mandámos a foto para Mick, que estava em Los Angeles. Ele viu rapidamente e deu o OK. Na manhã seguinte tinha três chamadas dele, eu só pensava "será que ele mudou de ideias?" Afinal, queria usar a foto para a capa do novo álbum, mas era tarde de mais. A fotografia já tinha sido enviada para a revista. 
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Existe alguma diferença entre fotografar Mick Jagger ou Kate Moss, ou aquela rapariga desconhecida que está nesta foto atrás de si [na parede, uma foto recente de uma menina num jardim]?
Não. Trato todos de modo igual. Há mais stress quando se trata de uma celebridade. Por mais amigável, simpática, maravilhosa e fácil que uma celebridade seja [imita "uma celebridade" com gestos, mexe os braços: "O que quer que eu faça, que eu sorria?"], há mais stress. Ainda que hoje para mim não faça diferença. Olhe aqui este livro sobre Marrocos [folheia o seu livro de fotos sobre o país]: trato estas pessoas do mesmo modo que as "celebridades". Não importa se é uma criança no meio da rua. Estou completamente com ela como estou com um "famoso". Fotografo tudo: paisagens, carros, celebridades, desconhecidos... Fotografar uma celebridade tem uma grande vantagem e uma grande desvantagem: uma fotografia de Kate Moss é logo reconhecida porque é a Kate Moss, mas quando fotografo o rosto de uma mulher mais velha, como esta em Marrocos, quem vê a foto presta atenção à textura, à composição...
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E quando é que a fotografia se transforma em arte? [Albert Watson, com Richard Avedon e Irving Penn, fez a transição das capas de revistas de moda para os livros de arte...]
A fotografia pode percorrer viagens distintas. Uma fotografia pode ser para uma revista, para um livro, para uma galeria e para um museu. Eu entrei logo para este mundo da moda, das revistas, da "Vogue", da"Vanity Fair", às vezes da "Rolling Stone"; fiz posters de filmes como "Kill Bill", "Memórias de uma Gueisha", "O Código Da Vinci"... mas no fundo fui, sou e serei sempre fotógrafo. Não um fotógrafo de moda mas um fotógrafo que tira também fotos de moda. Às vezes os editores das revistas reclamam que as minhas fotos têm força a mais. E talvez tenham razão. Quando comecei, nos anos 70, andava com a minha Nikon na mão, tirava fotos das raparigas a sorrirem [volta a gesticular e a imitar], a segurarem o gelado, a cairem na piscina, a olharem para a câmara, a beijarem um rapaz... Nos anos 80 o meu trabalho mudou. Lembro-me de uma capa para a "Vogue" italiana, a foto da modelo com a cara coberta por um pano. O editor perguntou-me se eu não podia mostrar o rosto dela. Não foi chegar um dia e dizer: "tchum, tchum, tchum... Sou um fotógrafo". Quando eu tirava as fotos das jovens modelos com gelados, gostava de ver o meu nome na foto mas depois deixou de ter importância e as fotos foram ficando mais definidas, mais fortes, mais expressivas e mais monumentais - não "monumentalmente" boas mas "monumentalmente" mais fortes, mais poderosas, mais pesadas... O que faz uma fotografia transformar-se em arte? A sua longevidade. Ela pode ser vista em Julho, em Outubro ou daqui a anos e ainda tem a mesma força.

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Outra foto com destaque na exposição é a de Michael Jackson. De novo nada de Photoshop...
Curioso. Noutro dia num blogue alguém comentou que não gostava da foto porque criava uma ilusão óptica, mas foi justamente por isso que fiz a foto. O meu trabalho é resultado dos meus quatro anos de desenho gráfico e de três anos na escola de cinema. Nesta foto usei oito espelhos para fotografar Mickael Jackson. Era para a capa do "Invincible" mas não chegou a ser usada. 
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O que significa ter sido considerado um dos 20 fotógrafos mais influentes de todos os tempos?
Sempre tive e tenho uma enorme paixão por fotografia. É uma obsessão. Aliás só resulta se formos obcecados. Noutro dia um jovem fotógrafo disse que queria ser igual a mim. Posso ter à minha frente uma mulher ou uma paisagem: as imagens têm a mesma força e o mesmo interesse. O seu gravador, por exemplo: fotografá-lo-ia sobre uma superfície de aço, você poderia preferir que eu o colocasse sobre uma toalha vermelha com flores. Eu até poderia tentar mas não deixaria de fazer o que tem sentido e é verdadeiro para mim.
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Porque decidiu ser fotógrafo?
Tinha um certo interesse por fotografia. A primeira vez que segurei uma câmara e olhei pelo "viewfinder" fez sentido. As minhas mãos deslizaram pela máquina e tudo pareceu fácil [interrompe e sorri]. Não escreva, por favor, que fotografar para mim é fácil. O que quero dizer é que sempre tive o desejo de tirar grandes fotos. E quando tive a câmara pela primeira vez nas mãos, tudo pareceu natural. Fez sentido. Mas como qualquer trabalho solitário tem de ser praticado todos os dias da nossa vida. 
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Galeria dos vencedores do World Press Photo 2010


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