Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Kant_O_XimPi fez 4 anos em 14 de Junho

 

 

DOIS MOMENTOS, DOIS RETRATOS

DOIS MOMENTOS, DOIS RETRATOS

1 . - Uma "manife" em Évora, num verão quente, nos idos de 1974

Ontem, no comício do PC, ali no Rossio de S.Brás, o Álvaro Cunhal falou na independência dos povos das colónias. (...) Ainda antes do Álvaro Cunhal falar o palco foi abaixo por duas vezes. Uma multidão imensa concentrava se em redor do palco, junto ao Monte Alentejano, agitando se inúmeras bandeiras vermelhas do PC. Em uníssono, a multidão repetia as palavras de ordem, de punho erguido.
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Detecto, junto a mim, um grupo que vai comentando ao sabor das intervenções. Quando se falam nas torturas sofridas pelo Cunhal e outro comunista, uma mulher ao meu lado diz me: "Coitadinho! Bandidos!" E a multidão grita: "Morte à PIDE!". Dois delegados dos Sindicatos Agrícolas (Évora e Beja) enumeram as quebras dos contratos colectivos de trabalho e o nome dos latifundiários. A multidão grita: "Morte aos cães!" "A terra a quem a trabalha!".
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Ao meu lado, algumas mulheres dizem: "É assim mesmo!" e "Essa sou eu!", quando se fala em ranchos despedidos. O Álvaro Cunhal cita as lutas revolucionárias dos trabalhadores alentejanos e a "palha" que os latifundiários teriam mandado dar aos trabalhadores que imploravam comida. E a revolta; que enquanto houvesse ovelhas, galinhas e porcos não comiam palha os trabalhadores!
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O Partido faz a sua campanha e no palco estão pessoas que já conheço de há muito. Por detrás delas, enormes, em fundo vermelho, as efígies de Marx, Engels e Lenine. A brancura de Évora é agora quebrada por cartazes do PC. Marx, Engels e Lenine enchem as ruas, conjuntamente com cartazes com a foice e o martelo. (1974.07.28)
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2. - Passa Camarada
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Na Voz do Operário ao chegar à porta para o pátio olhei por cima do ombro e vi o Álvaro e o seu guarda-costas e disse-lhe naturalmente: «Passa, camarada» ao que ele retorquiu " Passa tu, camarada, que chegaste primeiro» E assim ficámos lado a lado no pátio, numa lenta fila para o almoço, enquanto as pessoas vinham cumprimentá-lo ou apresentá-lo aos filhos de colo ou não.
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Foi uma hora divertida e tenho pena de não ter fixado por escrito as conversas, as impressões já desvanecidas e, sobretudo, os diálogos bem humorados com Dias Lourenço sobre as peripécias em torno das fugas de Peniche.
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Porquê Kant_O_XimPi

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A teia ou os dados estão lançados

Quarta-feira, Maio 30, 2007




1. - Victor Nogueira disse...


Os dados estão lançados e hoje é apenas uma de inúmeras batalhas que se travaram e travarão para que o homem e a mulher sejam diferentes num Mundo Novo a construir, umas com o peso da derrota, outras com sabor a pequena vitória. Um abraço a todos quantos acreditaram que há trinta anos a muralha de aço se não esboroaria, com a conivência de muitos e o cepticismo acomodatícios de outros tantos que, alternando nos maestros do Baile Mandado, permitem que a pauta e a música sejam as mesmas, irmãos gémeos que pé ante pé abriram a porta aos dias cinzentos que em todo o Mundo serão negros se o permitirmos.

Mas pode ser que a Utopia e o Sonho se tornem realidade para aqueles que se mantêm lúcidos e não se rendem ao canto das sereias ou à flauta dos faunos.

Chegará o tempo em que, parafraseando Brecht, as pessoas percebam que a violência do rio é proporcional à extrema violência das margens que o têm comprimido.

Victor Nogueira

2. - Victor Nogueira disse...

Bom dia

Decididamente a Greve e Brecht não serão muito estimulantes para os habituais comentadores!

Será que estão na linha do aviso do Brecht? - primeiro levaram os comunistas, mas não liguei porque não sou comunista, depois levaram os sindicalistas e não me importei porque não sou sindicalista... e por aí fora até à constatação final de que para os tiranos ninguém está livre ou inocente, nos tempos sombrios, quaisquer que eles sejam.

Um abraço

Fahrenheit 451

Fotografia - Victor Nogueira

Colocado por Victor Nogueira @ Quarta-feira, Maio 30, 2007
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Kant_O_XimPi
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Retratos (28) - A teia que não enleia nem quer ou sabe prender

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