Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

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segunda-feira, 24 de abril de 2023

O homem da bicicleta ao alvorecer

 * Victor Nogueira


2023 04 24 Nos 49 anos do 25 de Abril, para que a memória não esqueça - O Homem da bicicleta, ao nascer do sol (Foto victor nogueira) ~ Outrora, a bicicleta era o meio de transporte dos pobres, instrumento de trabalho, referido, por exemplo, no filme "Ladrões de bicicletas" (Ladri di biciclette), de Vittorio de Sica 1948), estando a bicicleta na origem dum desporto então popular em vários países, anualmente culminando na "Volta a [..] em bicicleta". Volta esta que em Portugal esteve na base dum outro filme, "O Homem do Dia", de Henrique Campos (1958).


A bicicleta era naturalmente o meio de transporte frequentemente utilizado pelos militantes comunistas, na clandestinidade, em muitas das suas deslocações, para estabelecer contactos, organizar as lutas, distribuir a imprensa clandestina. A essa actividade se refere Álvaro Cunhal na sua obra literária, designadamente em "Até Amanhã, Camaradas".

Alexandre O'Neil, num seu poema, trata também esta temática, em "A Bicicleta"

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.


in "As horas já de números vestidas" (1981)

Do mesmo modo, prenunciando "A poesia está na rua", de Helena Vieira da Silva, Manuel Alegre, na sua "Praça da Canção" (1965)

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi à Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas.
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Desde o Minho ao Algarve
eu vou pelos caminhos.
E vêm homens perguntar se houve milagre
perguntam pela chuva que já tarda
perguntam pelos filhos que foram à guerra
perguntam pelo sol perguntam pela vida
e vêm homens espantados às janelas
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Porque eu trago notícias de todos os filhos
eu trago a chuva e o sol e a promessa dos trigos
e um cesto carregado de vindima
eu trago a vida
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Fotos de capa em fevereiro 27

 * Victor Nogueira


2022 02 27 Foto victor nogueira - numa das praias de Aljezur, em 1987


2021 02 27 foto victor nogueira - Portas com "história", algures - "Oficina Calçado"



Amália Rodrigues - Gaivota
Gaivota
Música: Alain Oulman / Letra: Alexandre O'Neill / Intérprete Amália Rodrigues
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


2018 02 27 Foto JJCF - Em Coimbra nos idos de '75 com a minhas tias Lili e Esperança


2o17 02 27 Foto victor nogueira - Mural em Setúbal - 1985 - comemorativo do 50º aniversário da morte de Fernando Pessoa. AutopsicografiaO poeta é um fingidor.



2016 02 27 foto victor nogueira - A2 - Pôr-do-sol na área de serviço de Palmela, cujo restaurante se encontra encerrado desde 1 de janeiro do corrente ano. Porque será que nas zonas de restauração das áreas de serviço servem tão mal e caro ? E dizem que as "privadas" é que servem bem e com optma gestão ! É sempre a aviar, minha gente.
Melhor só outrora em Casa Branca, no transbordo para o ramal ferroviário de Évora, enquanto nos procurávamos aviar no bar da estação onde o afobado "dono" não dava conta do recado perante a avalanche de clientes, empurrando-se uns aos outros tentando chamar a atenção para serem servidos, atentos ao apito do chefe da estação, não fosse a automotora partir deixando os menos precatados no cais e ao relento

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Fotos de capa em janeiro 17

 * Victor Nogueira


2022 01 17 Foto victor nogueira - Algures, em Setúbal, Paço de Arcos ou Vila do Conde (GEDC0688)


2021 01 17 Caxias Farol da Gibalta



2020 01 17 . Notícias do Bloqueio - II - Victor Nogueira
Estão suspensas as palavras
Proibidos os gestos
………..de ternura, amizade e amor.
O silêncio invade as ruas
………..entra nas casas
………..senta-se à mesa da gente.
Que sentido tem dizer
………..amor
………..amiga
………..camarada
………..companheiro?
Que sentido tem
………..abrir as mãos e os olhos
………..e perguntar qual o significado do
………..que vemos, ouvimos, entendemos e sentimos?
Gaivotas loucas, alvoraçadas, enchem os ares
………..de movimento e ruído.
Enquanto a vida escorre pelos dedos
………..indiferente
………..medíocre
………..submissa.
1985.Outubro.02 - Setúbal
Cartoon de autor não identificado



2020 1 17 -Alexandre O'Neill - POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos
~~~~~~~~
quadro - O Grito, de Edgar Munch


2018 01 17 foto victor nogueira - Maria Luísa, chez moi,, em 2013


2017 01 17 foto victor nogueira - anoitecer em Paço de Arcos



2013 01 17 Foto Victor Nogueira - Setúbal (Parque Verde da Lanchoa)

VER   

anoitecer outonal no Parque da Lanchoa, em Setúbal

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Fotos de capa em dezembro 31

  * Victor Nogueira


2021 12 31 Fotos victor nogueira - Vila Nova de Cerveira (pelourinho, antiga Casa da Câmara e Paços do Concelho) e Vila Real  (pelourinho)

VER     Pelourinhos 51 / Municípios 25 - Vila Nova de Cerveira e Vila Real


2021 12 31 Uma brevíssima passagem para desejar-vos um 2022 com muita "fartidão" e "fartoso", que vos dê os  donairosos dons da fala, da escrita e da retribuição,  E para quem quiser, recebam os moços um abraço e as moças um beijo, se mal não parecer. (No grupo dos Antigos Alunos do Instituto Superior Económico e Social de Evora ou ISESE)



E não são necessárias mais palavras. Façam tudo isso com destemor e muita saúde e terão um bom ano de 2022. Que assim seja para todos os amigos e amigas, com humor/amor/amizade, alegria e fantasia, sem esquecer alguns trocos para os gastos !


2020 12 31 - Volpedo - o 4º Estado


2020 12 31 A vida dos prisioneiros palestinos nas cadeias de Israel – cartum [Al-Arabya] in https://www.monitordooriente.com/20191004-o-isolamento.../



2020 12 31 Alexandre O’Neill - Perfilados de Medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…


2019 12 31 foto victor nogueira - autocarro na Belavista, em Setúbal (2019.12.17)

VER   Nocturnos em Setúbal, decembristas


2017 12 31 Cumprindo o ritual, um bom ano, com saúde, soalheiros dias e românticas noites
🙂
OS AMANTES SEM DINHEIRO
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
© EUGéNIO DE ANDRADE
In Os Amantes sem Dinheiro, 1950
·
foto victor nogueira - setúbal - pormenor da estátua do actor setubalense Carlos Rodrigues (Manuel Bola), da autoria do escultor Jorge Pé Curto, inaugurado em 2016.12.11




2017 12 31


2016 12 31 Carlos Drummond de Andrade, RECEITA DE ANO NOVO


2015 12 31 cartoon de Luís Afonso in Público 2015.12.31


2015 12 31 Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo


Susan Branch
Feliz ano de 2015. ❤
 
2014 12 31 Cecília Barata






2014 12 31

2013 12 31



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Fotos de capa em dezembro 22

 * Victor Nogueira


2021 12 22 Fotos victor nogueira - Póvoa de Varzim - Paços do Concelho e pelourinho, na Praça do Almada


2020 12 22 foto victor nogueira - Setúbal Fonte Luminosa, das Ninfas ou do Centenário (Avenida Luísa Todi)

A Fonte do Centenário ou Fonte Luminosa foi inaugurada em 1960 ano do primeiro centenário da elevação da Vila de Setúbal a cidade. que nesse ano se celebrava. O grupo alegórico que se observa no centro da fonte foi colocado em 12 de junho de 1971, representada cada uma das três estátuas o Mar, a Terra e a Poesia. É uma obra do escultor portuense Arlindo Rocha.

VER    fontenários e chafarizes 08 - Setúbal


2019 12 22 foto victor nogueira - Estação do Oriente, em Lisboa (1998.05.05) rolo 238


2019 12 22 Toda a vida é um palco num emaranhado de papéis e máscaras mais ou menos entretecidos e enleadas, com maior ou menor alienação. Ou um jogo, em que uns perdem e outros querem sempre ser os únicos vencedores. Majestáticos! Na plenitude das suas razões e certezas ou irracionalidades. Em que os outros não passam frequentemente de meros bonecos articulados. Uns e umas com todos os direitos. E o Outro, apenas com deveres. 

2016 12 22 Mindelo Natal 1973 - foto MNS (+) (a sombra) - Celeste (+), Victor, Maria Emília (+), tio Zé Barroso (+), avô Zé Luís (+), avô Barroso (+), tia Maria Luísa (+), tia-avó Esperança (+)


Sentir (Setúbal 1985 07 15) 

2016 12 22 Votos coloridos e virtuais. Sendo virtuais, neles cabe tudo o que lá quisermos pôr, ver ou (pre)-sentir 🙂

Sentir
............. o veludo
........................... da voz
............. o calor
........................... do sorriso
............. a fragrância
........................... do olhar
.............o encanto.
...........................da alegria
Libertar
.............os gestos
.............o silêncio
..............o riso
.............as lágrimas
Dizer
.............amor
.............camarada
..............amiga
..............companheiro

Setúbal 1985
Victor Nogueira

2015 01 10 je suis CHARLIE BROWN que é um dos personagens da série Peanuts, criada por Charles Schulz. Os personagens principais, para além de Charlie e do cão filósofo Snoopy, são Linus, Lucy, Schroeder, Patty Pimentinha, Marcie, Chiqueirinho, Sally Brown, Franklin Armstrong, Woodstock e Joe Cool, cada um com sua idiossincrasia. Trata-se duma BD em que a maturidade de alguns personagens co-existe com a normalidade e "manias" de outros, num clima de optimismo, tolerância, respeito mútuo e espírito de aventura sem esquecer o sonho.



Pomba da Paz, por Pablo Picasso


2015 12 22  -  Com votos de boas festinhas e melhor ano novo para o povo, no ovo

Amigo (Alexandre O'Neill),


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'


2014 12 22 Brrrr. Finalmente no Mindelo, a  1ª vez no inverno, depois de 1974.  Que frio gélido. eu diria mesmo, polar. bbrrrrrr tac tac tac castanholam os meus desgastados dentes. 

Haverá edredons que me aqueçam considerando que o quadro eléctrico é uma peça hoje museológica, a oferecer ao Museu da Electricidade em Lisboa ? Não me atrevo a ligar o aquecedor a gás, pois tenho muito respeitinho pelas faltas de oxigénio e abundância  de CO, isto é, monóxido de carbono. 

Enquanto não gelidifiquei, façam uma photoandarilhice virtual


2013 12 22 Porto - Natal de 1974 (Rua Fernandes Tomás) - o 2º Natal, de toda a família mais próxima reunida [pela 1ª vez e em 1973, após a sua ida para Angola em 1944] - Avô Zé Luís (+), Alexandrina (+), tio Zé Barroso (+), Carlos, tia Teresa, Victor, tia Isabel, Manuel, (+) tia avó Esperança (+), Celeste (+), Maria Emília (+), avô Barroso (+), tio José João (+) --- Foto Maria Luísa (+) Falta o meu irmão Zé Luís (+), na altura ainda a prestar o Serviço Militar Obrigatório, em Angola. 

VER   Victor Nogueira - Natais meus no antigamente


2012 12 22 SO(m)BRAS DE NATAL - Foto e texto - Victor Nogueira

Todos os becos têm pelo menos uma saída, a da entrada, e tantas outras quantas as portas, portões e janelas que neles estejam ou se encontrem. E, em última análise, uma marreta para abrir outra saída no muro ou na parede
Victor Nogueira
Natal de calor sufocante, com humidade que colava miríades de gotículas de suor ao corpo, com violentas tempestades, aterradoras trovoadas riscadas de raios, era o de Luanda, com a única maravilha da praia. O Natal, esse ainda era mais faz de conta, um pai Natal enfarpelado qd tudo andava em mangas de camisa, a neve da árvore representada com flocos de algodão ou o esguicho dum spray em bisnaga, o presépio com animais que nunca víramos: carneiros, burros, vacas .... Era um Portugal de faz de conta onde a única maravilha real era o alvoroço de acordar manhã cedo, a 25 de Dezembro, para desembrulhar as prendas, mais dadas pelo Menino Jesus quase despido que propriamente por um Pai Natal encalorado em desapropriadas vestes. E como vivíamos num Portugal de faz de conta que a nós, angolanos por nascimento e vivência, nada nos dizia, o ano lectivo era igual ao de cá, mas com Verão/calor infernal durante 9 meses e as férias grandes na época "fria". (...) Dum estrangeiro em Portugal, apátrida, ao contrário do que diz o BI
.
Victor Nogueira
Sabes, a 2ª vez que estive em Portugal. tinha 16 anos e desembarquei em pleno inverno, a caminho dum Porto cinzento, frio e chuvoso, mas com, um calor humano nas ruas que já não existe ou já não sinto.
A terceira vez tinha 20 anose. descia em Lisboa a calçada da estrela até económicas, no Quelhas, transido de frio, noite cerrada ainda às 8 da manhã (em Luanda já era dia às 5/6 da manhã), mal conseguindo falar ou escrever, os lábios e os dedos gelados como prisões, admirado pelas nuvens de fumo saindo pelas narinas dos guarda nocturnos, dos pessoas com quem me cruzava, dos burros ja desaparecidos, puxando carroças, num tempo em que os pobres andavam a pé, de bicicleta ou de motorizada, em cidades onde os automóveis eram ainda uma raridade. Deste País de faz de conta e do meu país falo no poema Raizes
.
Ao fim dum ano em Portugal, tão pequenino, tão mesquinho, tão vistas curtas, o nosso desejo era regressar a África. Mas para mim significava ter de andar para trás, para mudar de alínea e seguir engenharia.
Em história falava-se nas largas artérias pombalinas, espantosas ruelas qd as vi pela 1ª vez, face às largas avenidas e ruas de Luanda
Victor Nogueira
E só voltei a sentir calor humano e solidariedade nas aldeias do Alentejo, mas não nas vilas e cidades, onde vivi, nas gentes da Beira Baixa, por onde deambulei, e do Barreiro, onde trabalhei.Fiquei em Setúbal pk me fazia lembrar Luanda, mas esta é uma cidade individualista, um deserto, um cada um por si mas tudo coscuvilhando, um deserto cercado de maravilhas naturais que a mão do homem ainda não destruiu, ao contrário do que tem feito à cidade
.
Victor Nogueira
Ana, ainda existirá o Barreiro de humanidade onde trabalhei e, apesar de tudo, fui feliz ?
Victor Nogueira
Há 14 anos que nado por aqui, encontrei pessoas interessantes, re-encontrei velhas amizades, mas por muitas "juras" que se façam aqui quase tudo esboroa-se com o passar do tempo como água do rio que da fonte escorre para o mar. Aproveita-se a água enquanto passa, saltitamos de pedra em pedra, saboreamos a frescura e depois esperamos pela barcaça seguinte que uma vez mais e quase sempre a lado algum leva. Desapareces de repente e não sei pk, e como não sei, não volto a incomodar-te.