Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mostra reforça o diálogo entre a fotografia e as artes plásticas

Nahima Maciel 
Publicação: 23/09/2010 08:00

A fotografia está tão presente no cotidiano contemporâneo que é impossível evitá-la. O divertido e produtivo é se apropriar das imagens, destruí-las e reconstruí-las de maneira a compor novos significados. Paisagens revisitadas, em cartaz na Referência de Arte, é um mosaico de possibilidades conseguidas por meio de ressignificações para imagens mais do que instaladas no repertório visual de qualquer cidadão.

Imagens de Marcelo Feijó: montagens que se misturam com palavras - (Marcelo Feijò/Divulgação)
Imagens de Marcelo Feijó: montagens que se misturam com palavras.






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O curador Marcus Lontra reuniu trabalhos de Luiz Alphonsus, Marcelo Feijó, Almir Reis e João Bosco interessado em explorar como cada um manipula imagens produzidas com técnica fotográfica. “É uma ideia muito simples de reforçar o diálogo da fotografia com as artes plásticas”, explica. “Eu quis mostrar como cada um incorpora elementos fotográficos. Fotografia é uma realidade, sempre foi, e hoje ainda mais, especialmente no mercado. Galerias de foto são um fenômeno que vem acontecendo com frequência.”

Marcelo Feijó, professor da Universidade de Brasília (UnB), aproveita Paisagens revisitadas para mostrar as primeiras obras da série Sobre o mundo e suas imagens. O artista manipula fotografias realizadas em Paris, São Luís (Maranhão) e Lisboa. Faz montagens nas quais insere imagens famosas, citações nas quais recupera um imaginário sedimentado em quase dois séculos de história da fotografia. “Quando vou fotografar sou influenciado por essas imagens que tenho na cabeça. Temos uma memória coletiva e não conseguimos mais ver as coisas pela primeira vez”, acredita Feijó. “As imagens são parte de um projeto maior. É o resultado da minha vida de pesquisador da história da fotografia.”

Assim, uma paisagem urbana portuguesa ganha a inserção da foto Le violon d’Ingrès, feita por Man Ray em 1924, e uma esquina de prédios desgastados em São Luís combina com a sobreposição da imagem do beijo de Robert Doisneau. Sobre todas as fotos, Feijó escreve palavras como amor, dor, solidão, morte, vida, sonho e realidade, uma lembrança de sentimentos opostos e complementares que podem confundir ou sugerir situações ao espectador. “São palavras fundamentais que estão na vida de todo mundo, o tempo inteiro.”

No trabalho de Almir Reis, Brasília ganha destaque em fotografias da estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes e da rampa lateral do Museu Nacional. “É a valorização das cores e da iconografia de Brasília”, explica Marcus Lontra. De fato, o branco da cúpula do museu e o cinza da estátua ocupam tanto o olhar quanto os contornos e os ângulos focados pelo artista. No caso de Luiz Alphonsus, a série apresentada — um jogo de céus, nuvens, luas e sóis — foi garimpada no próprio arquivo fotográfico do artista.

Diálogos
A relação entre o espaço cósmico e urbano é preocupação constante na hora de organizar os diálogos entre as imagens. “O cosmos vem da minha relação com Brasília”, explica Alphonsus, que morou na capital durante a adolescência e hoje vive no Rio de Janeiro. “Esse céu gigantesco sempre marcou minha vida toda. E a questão do urbano também veio da ocupação do Planalto, de ver a cidade crescer.”

João Bosco, também do Rio, é o único que não encara o próprio trabalho como fotográfico, embora o resultado final seja uma impressão digital sobre tela após longas manipulações no Fotoshop. O primeiro passo no trabalho de Bosco é capturar imagens de objetos nos quais enxerga alguma potencialidade narrativa para construir paisagens um tanto surrealistas. Capturar pode ser fotografar ou simplesmente escanear brochuras ou desenhos. “Trabalho com a ideia de construir paisagens futurísticas. Não sou fotógrafo. O trabalho parece pintura, foto, desenho. Não é nada disso e é tudo isso”, garante.

Intitulada Apocalipse, a série apresentada na Referência traz pequenos esqueletos de animais que interagem com uma suposta espaçonave construída com escorredores de macarrão. É a versão de Bosco para um mundo de seres sem carne. “É um reflexo sobre o fim de um tempo e o princípio de outro. A ideia dos animais descarnados e vivos é a ideia de um mundo mutante. A partir desse pensamento vou construindo imagens de um mundo que está mudando.” Antes de Apocalipse, o artista construiu toda uma narrativa para a ideia com séries intituladas O início, Os deuses e A culpa.

PAISAGENS REVISITADAS
Exposição de Luiz Alphonsus, Marcelo Feijó, Almir Reis e João Bosco. Visitação até 9 de outubro, de segunda a sábado, das 10h às 22h, na Referência Galeria de Arte (Shopping Casa Park) 
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http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/23/diversaoearte,i=214319/MOSTRA+REFORCA+O+DIALOGO+ENTRE+A+FOTOGRAFIA+E+AS+ARTES+PLASTICAS.shtml
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