Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

domingo, 5 de setembro de 2010

Educação patrimonial e ambiental pela arte

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Entre as atividades realizadas pelo Projeto Casarões em Foco, Educação Patrimonial pela Arte, destaca-se a exposição fotográfica. Uma das fotos é o "Casarões da Barragem"
FOTO: IZABELE LUTIANNE
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AS ARTES VIDEOGRÁFICAS despertaram o interesse dos mais jovens pela história local. Eles colheram o testemunho dos mais velhos sobre a construção da vila operária
FOTO: ALEX PIMENTEL
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5/9/2010
ONGs estimulam, de forma especial, a preservação de riquezas materiais e imateriais em Senador Pompeu

Senador Pompeu - Sensibilizar a comunidade para a importância da preservação de sua história. Oficinas de fotografia, de vídeo, encenações teatrais, palestras e concurso literário, estas foram as ferramentas utilizadas pelo Fórum Popular Pela Preservação do Patrimônio Cultural e Ambiental de Senador Pompeu no Projeto Casarões em Foco, Educação Patrimonial Pela Arte. Eles lutam pela restauração dos casarões erguidos no entorno do Açude Patu. A iniciativa, promovida por meio da Associação Comunitária do Sítio Barragem, se estendeu por todo o mês de agosto nesta cidade sertaneja marcada pelo flagelo da seca de 1932.

A programação teve início com a primeira vivência artística em produção de vídeo. Jovens, na maioria estudantes da comunidade, receberam orientações básicas sobre gravação de vídeo, uso da filmadora, planos, ângulos, composição, roteiro e edição. O resultado do aprendizado foi apresentado através do vídeo "Um Olhar Sobre os Casarões da Barragem", totalmente concebido pelos moradores do Sítio Barragem. Eles nunca tinham usado uma filmadora. Após oficinas de conhecimentos técnicos, o vídeo estava finalizado.

Uma ilha de edição foi montada em um dos casarões da Barragem. Enquanto editavam, as imagens eram projetadas em um telão. Todos podiam acompanhar o processo passo-a-passo, participando, sugerindo e aprendendo a usar o software de edição de vídeo. Clássicos de Amadeus Mozart e Frederic Chopin inspiraram a composição audiovisual. A trilha do vídeo conduz o espectador a uma viagem pelos casarões através dos olhares de jovens moradores do sítio histórico da Barragem do Patu.

"Alguns deles, mesmo morando no sítio histórico, não conheciam os casarões. Nesse aspecto, o projeto está alcançando seus objetivos, está aproximando a comunidade de seu patrimônio por meio da arte", justificava a orientadora Karla Sâmara. Os trabalhos foram orientados pelo Núcleo de Audiovisual do Instituto Casarão: Karla Samara, Gerlânio Rodrigues e Washington Alves, em parceria com a Uzina Produção, sob a supervisão técnica do cineasta Fram Paulo da Silva. Eles ficaram felizes com o resultado e impressionados com as habilidades dos aprendizes.

Os participantes da oficina de Vivência Artística em Fotografia também surpreenderam. Após as orientações do fotógrafo Washington Alves, o grupo assimilou o objetivo principal da proposta e caiu em campo. As 16 edificações, incluindo três casas de pólvora, o hospital e a Casa de Inspetoria - a mais antiga do conjunto arquitetônico, erguida em 1922 - se destacaram na exposição "Olhares". O resultado dos trabalhos percorreu distritos e povoados de Senador Pompeu. Ainda pode ser visto no portal do Instituto Casarão: http://institutocasarao.blogspot.com.

Vegetação

Embora o foco principal tenha sido o conjunto arquitetônico da antiga Vila dos Ingleses, levantada para a construção do Açude Patu, além da preservação patrimonial, a vegetação típica da região também recebeu a atenção dos participantes. O representante do Instituto Humaitá de Cidadania, Marcos Holanda, destacou, na rodada de conversa com a comunidade, a necessidade dos moradores desenvolverem atividades sustentáveis no entorno dos casarões. "Dessa forma poderemos contemplar também nossas riquezas naturais", acrescentou.

Simbologia

Na palestra, a presidenta do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antonio Conselheiro, Marta Souza, ressaltou a simbologia dos casarões. Representam toda uma história de sofrimento, de lutas e conquistas, tendo como elemento principal a Barragem do Patu. A Vila seria construída para amenizar o sofrimento dos sertanejos, um oásis no meio do sertão, mas, ironicamente, foi usada para aprisionar seu povo, vítimas da grande seca de 1932.

De acordo com a líder comunitária Marta Souza, o episódio histórico desencadeou o movimento de fé e, também, a devoção popular pelas almas da barragem, milhares de vítimas do flagelo da seca, que são lembradas durante a realização da Caminhada da Seca. A romaria é realizada há 28 anos no segundo domingo de novembro. Milhares de fiéis partem, no início da manhã, da Igreja Matriz da cidade até o cemitério onde foram enterradas, em covas rasas, como indigentes.

Defesa

"Temos a responsabilidade de preservar nosso patrimônio"

Marta Sousa
Presid. do Centro de Defesa dos Dir. Humanos Antônio Conselheiro

"Nos últimos 20 anos os poderes públicos pouco têm feito"

Valdecy Alves
Advogado e Membro do Fórum Popular de Senador Pompeu

MAIS INFORMAÇÕES

Projeto Casarões em Foco, Educação Patrimonial Pela Arte
Sertão Central
(88) 9916.5994

RECURSOSProjeto contou com apoio de R$ 20 mil

O "Casarões em Foco" teve recursos do III Edital de Apoio à Preservação do Patrimônio de Natureza Material

Segundo o produtor geral do Projeto Casarões em Foco, Fram Paulo da Silva, os recursos para sua realização foram captados por meio do III Edital de Apoio à Preservação do Patrimônio de Natureza Material, da Secretaria de Cultura do Estado (Secult). Foram contemplados com R$ 20 mil. Além da Associação Comunitária do Sítio Barragem, responsável pela apresentação do projeto, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro, Igreja Católica, Instituto Humaitá de Cidadania, Federação das Associações Comunitárias de Senador Pompeu, Instituto Casarão de Cultura e Cidadania, o artista e advogado Valdecy Alves, o pároco Carlos Roberto e Associação Comunitária de Engenheiro José Lopes participaram da sua execução.

O produtor explicou que a iniciativa foi dividida em três vias principais. Na primeira, a arte como o meio didático e dinâmico para falar da importância dos Casarões da Barragem, devem ser preservados pela questão cultural e socioeco-nômica, por ser um importante mecanismo de potencialização do turismo local e geração de trabalho e renda.

Cultura digital

No segundo aspecto estão as vivências em cultura digital por meio de oficinas para gerar material informativo a ser divulgado nas mais diversas mídias. Por último, as oficinas sobre educação patrimonial com os moradores do Sítio Barragem, arredores e estudantes. O projeto foi executado durante todo o mês de agosto.

Entre as atividades, foi realizada uma disputa literária. A redação da estudante Maria Rouziane Linhares Costa, aluna do 2° ano do Ensino Médio do Colégio de Educação Básica Luiz Albuquerque, reflete exatamente as exposições orais.

Luta de um povo

"Senador Pompeu, há muitos anos, conhece a luta de seu povo para que seu legado não se apague junto com o tempo. Essa mesma cidade, apesar de pequena aos olhos de muitas pessoas, foi palco de grandes acontecimentos que deixaram vários patrimônios como herança, retratando visivelmente a luta de toda uma geração que deve ser lembrada. Andando um pouco pode-se encontrar os grandes prédios, casarões ingleses, estação de trem, um cemitério que hoje é local de peregrinação e devoção, além de documentos até desconhecidos por muitos", escreve a aluna.

Homenagem

E continua: "Anualmente, no segundo domingo de novembro, acontece a caminhada da seca, homenageando os sertanejos mortos no campo de concentração que funcionou neste mesmo local. Tudo isso é de vital importância não só para seus moradores que viram tudo acontecer, como também para o País, já que são desses pequenos fragmentos espalhados que se forma a verdadeira história brasileira. Infelizmente essas memórias ficarão apagadas materialmente se nenhuma providência for tomada, as propriedades estão sendo destruídas aos poucos por ação de vândalos e também pela falta de manutenção, há movimentos em prol dessa conservação, mas o Governo do Estado não dá a devida importância ao que está acontecendo, e as autoridades municipais se tornam omissas enquanto tudo é destruído. Restaurar esses patrimônios é manter vivo um ícone da cultura, do turismo e da fé deste Município, é uma forma de eternizar a reflexão sobre a tragédia que deu fim a tantas vidas para que nunca mais tanto sofrimento venha a atingir o sertão. Desconhecer o próprio passado é fechar as portas para a construção de um novo futuro". Maria Rouziane foi a vencedora do concurso literário do Projeto Casarões em Foco.

Alex Pimentel
Colaborador
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http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=845868
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