Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

domingo, 21 de junho de 2020

Cela (Coutos de Alcobaça)

* Victor Nogueira

A seta à beira da estrada na noite chuvosa desperta-me a curiosidade, por estar assinalada com o símbolo de monumento. Meto pelo atalho, parecendo me que a estrada corre por entre cerros. O monumento é afinal uma igreja iluminada no negrume da noite, que não sei se é manuelina ou um pastiche romântico do século XIX. Não encontro referências nos livros que consulto pelo que sigo adiante.    


Existem a Cela Nova e a Cela Velha. O nome está ligado a uma lenda que refere ter existido neste local uma cela habitada por um frade que recebia tributos dos camponeses da região e os guardava numa casa, ainda hoje conhecida como Tulha. (Notas de Viagem, 1997.10.26)

Regresso à Cela Nova, cuja igreja dedicada a Santo André revejo pormenorizadamente, apercebendo me também do seu pelourinho e do edifício do antigo celeiro. Sigo por outros caminhos em busca de Cela Velha; a povoação tem um ar de abandono, mas a visão de Cela Velha é ainda mais deprimente, embora paradoxalmente pareça mais recente: situa-se no fundo duma descida aprazível mas interminável e, quase no seu termo, uma placa partida indica a existência dum monumento. Lá ao fundo um largo, alguns edifícios degradados, uma bomba de gasolina, a  estação do caminho de ferro e um segundo monumento, tal como o primeiro dedicado a Humberto Delgado. Estranho estes dois monumentos a Humberto Delgado: o primeiro avista-se perfeitamente do largo da estação, lá em cima, a meia encosta.

Na Cela Velha uma igreja nova e um coreto sem cobertura, perto dum edifício duma qualquer associação cuja finalidade não fixei, onde convivem vários homens, para além duma fonte centenária, de 1894.

O primeiro lugar de culto que existiu na Cela estava completamente em ruínas, quando D. Manuel I mandou edificar no mesmo local uma nova igreja, dedicada a Santo André. Da primitiva construção desse templo pouco resta e a última grande empreitada, realizada em 1909 deixou-nos a talha barroca setecentista do altar-mor, a pia baptismal do séc. XVI e as seis gárgulas com formas de animais que guarnecem os flancos do templo.

De Cela Nova retenho a rua do Matadouro. Em Cela Velha procuro a razão de ser das Ruas do Castelo e da Via Romana, mas ninguém me sabe esclarecer; havia um velhote que sabia destas histórias todas, mas faleceu há dois meses!  Mas talvez tenha havido aqui ocupação romana e o castelo, de existência apontada no cimo dum cabeço e acesso por Famalicão, deve ser a torre de D. Framundo, da qual apenas subsistem ruínas cobertas pelo matagal. Esta torre era um local de vigia e farol para a navegação nos tempos em que o mar cobria toda esta região.  (Notas de Viagem, 1997.12.08)



Cela era uma das catorze vilas dos antigos Coutos do Mosteiro de Alcobaça, tendo recebido forais dos Abades em 1286 e novamente em 1324 Um foral novo foi concedido por  D. Manuel, em 1514,  referindo-se a Cella Nova, para distingui-la de Cela Velha, hoje aldeia, possivelmente a anterior sede concelhia. O seu pelourinho, erguido no largo da Igreja Matriz, terá sido construído na sequência do foral manuelino.




ver Cela - Monumento a Humberto Delgado

Fotos em 1997.12.08
rolo 211



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