Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 13 de junho de 2026

Grandes Muralistas (52)

O cenário internacional do muralismo e da arte urbana é repleto de talentos gigantescos que transformaram cidades inteiras em autênticas galerias a céu aberto. Afastando-nos um pouco dos pioneiros mexicanos e dos nomes já mencionados anteriormente (como Banksy, Kobra ou Sfhir), o panorama mundial conta com vários outros artistas estrangeiros de enorme relevância:

1. Shepard Fairey (Obey) — Estados Unidos

Um dos nomes mais influentes do mundo, que funde a arte urbana com o design gráfico e o ativismo político. Ficou mundialmente célebre ao criar o icónico cartaz "HOPE" para a campanha presidencial de Barack Obama em 2008. O seu trabalho é facilmente reconhecível pelo uso de paletas de cores restritas (frequentemente vermelho, preto e creme), estética inspirada em cartazes de propaganda russa e crítica ao consumismo e ao abuso de poder.

2. ROA — Bélgica

É famoso pelos seus impressionantes murais a preto e branco de animais nativos das regiões onde pinta. O seu estilo foca-se no hiperrealismo, retratando roedores, aves e répteis com um nível de detalhe anatómico extraordinário, muitas vezes incluindo perspetivas que mostram os órgãos ou os esqueletos dos animais. A sua obra reflete sobre a relação entre a expansão urbana e a destruição da vida selvagem.

3. JR — França

Autodenominado um "photograffeur" (fotógrafo-graffiteiro), JR cria murais monumentais utilizando a técnica de colagem de fotografias a preto e branco (wheatpaste) em grande escala. Ele fotografa rostos de pessoas comuns — muitas vezes em zonas de conflito, favelas ou bairros marginalizados — e cola os seus retratos gigantescos em tetos, comboios e fachadas de prédios. O seu objetivo é dar visibilidade e dignidade a quem a sociedade frequentemente ignora.

4. PichiAvo — Espanha

Este duo de artistas de Valência revolucionou o muralismo ao criar um estilo único que junta duas realidades opostas: a mitologia clássica e o graffiti tradicional. Os seus murais apresentam figuras de deuses e esculturas da Grécia Antiga pintadas com um realismo e sombreamento académicos impressionantes, mas completamente sobrepostas e fundidas com tags, assinaturas e letras de graffiti de cores garridas.

5. Millo (Francesco Camillo Giorgino) — Itália

Millo é conhecido pelos seus murais gigantescos que parecem saídos de uma banda desenhada conceptual. O seu trabalho caracteriza-se pelo uso quase exclusivo de linhas pretas sobre fundo branco para desenhar cenários urbanos labirínticos e caóticos, nos quais introduce personagens gigantescas e inocentes, que interagem com a cidade de forma lúdica ou melancólica. As suas obras são reflexões poéticas sobre a solidão e a escala humana nas metrópoles.

6. Invader — França

Inspirado nos píxeis dos videojogos dos anos 80, este artista anónimo espalha a sua arte pelo mundo através de mosaicos feitos com azulejos cerâmicos que recriam personagens como as do jogo Space Invaders. Em vez de grandes pinturas, ele faz "invasões" cirúrgicas em pontos estratégicos (e muitas vezes inacessíveis) de grandes cidades globais, tendo criado um movimento de culto global onde os fãs procuram e catalogam as suas obras.

7. Insane 51 (Stathis Tsavalias) — Grécia

É um dos muralistas mais inovadores da atualidade técnica. Especializou-se em muralismo anaglífico (3D), o que significa que ele pinta múltiplas camadas sobrepostas de imagens que mudam dependendo do filtro de cor através do qual as olhas. Ao olhar para o mural de forma normal, vê-se uma imagem fatiada; porém, ao usar óculos 3D (com lentes vermelhas e azuis), o espetador consegue ver duas imagens completamente diferentes e tridimensionais ocultas na mesma parede (como um rosto humano e, por trás, o seu crânio).

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Portugal possui um cenário de arte urbana incrivelmente forte, sendo reconhecido internacionalmente como um dos principais palcos da street art mundial. Vários muralistas portugueses alcançaram grande prestígio global com técnicas inovadoras e estilos muito marcantes.

Os nomes mais famosos e influentes do panorama do muralismo e da arte urbana em Portugal incluem:

1. Vhils (Alexandre Farto)

É, sem dúvida, o artista urbano português mais famoso em todo o mundo. Ficou célebre pela sua técnica revolucionária de "esculpir" rostos em paredes. Em vez de apenas pintar, Vhils utiliza martelos pneumáticos, cinzeis, ácidos e pequenos explosivos para descascar as camadas superficiais de muros antigos e criar retratos hiperrealistas de grande escala. O seu trabalho foca-se na identidade, na passagem do tempo e na humanização das grandes metrópoles.

2. Bordalo II (Artur Bordalo)

Reconhecido globalmente pela sua série de obras monumentais intitulada "Big Trash Animals" (Grandes Animais de Lixo). Bordalo II não se limita à pintura mural clássica; ele cria esculturas e relevos tridimensionais nas fachadas dos edifícios utilizando lixo urbano. Pneus velhos, plásticos, para-choques de carros abandonados e sucata transformam-se em representações gigantescas e vibrantes de animais. A sua arte é um manifesto incisivo contra o consumismo desenfreado e a destruição ambiental.

3. Odeith

É uma das maiores referências mundiais do graffiti anamórfico e em 3D. Nascido na Damaia, Odeith domina a perspetiva, a geometria e os jogos de luz de forma tão extraordinária que consegue fazer com que as suas pinturas pareçam "flutuar" no espaço ou sair das paredes. Ele transforma esquinas degradadas e blocos de cimento abandonados em ilusões de ótica impressionantes de insetos gigantes, objetos suspensos e letras tridimensionais.

4. Add Fuel (Diogo Machado)

Conseguiu criar uma ponte genial entre a herança cultural histórica de Portugal e a arte contemporânea. O seu trabalho baseia-se na reinterpretação do design tradicional dos azulejos portugueses. Utilizando técnicas de stencil (estêncil) com um detalhe milimétrico, Add Fuel pinta fachadas inteiras simulando painéis de azulejos, mas introduzindo elementos gráficos modernos, padrões de cultura pop e uma forte ironia visual nas composições.

5. ±MaisMenos± (Miguel Januário)

O seu trabalho foca-se na arte urbana de cariz conceptual e forte ativismo político e social. Criado sob a forma de um projeto de intervenção, as suas obras utilizam o espaço público para questionar de forma cirúrgica os sistemas económicos, a política ocidental e o consumismo, frequentemente recorrendo a slogans curtos, jogos de palavras visuais e uma estética marcadamente minimalista e a preto e branco.

6. Tamara Alves

Uma das vozes femininas mais potentes do panorama nacional. O seu trabalho foca-se na representação do corpo humano ligado a elementos da vida selvagem e da natureza. Com um traço orgânico, fluido e por vezes inacabado, os seus murais evocam uma forte carga poética, sentimentos de paixão, liberdade, vulnerabilidade e a paixão no estado bruto.

7. Mariana Duarte Santos

Destaca-se por trazer uma técnica pictórica muito tradicional para o grande formato dos muros urbanos. O seu trabalho baseia-se muito na memória coletiva, no cinema clássico e na fotografia documental portuguesa do século XX (frequentemente inspirando-se em imagens de Artur Pastor). Os seus murais parecem pinturas a óleo ou desenhos a carvão gigantescos, retratando o quotidiano de pessoas comuns, tradições e profissões antigas de Portugal.

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