Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Segunda Escolha - António Pedro Ferreira


 

07 Janeiro, 2010

Segunda Escolha

© António Pedro Ferreira
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A [K Galeria] não podia começar melhor a programação deste ano. O trabalho António Pedro Ferreira, fotojornalista do Expresso, é hoje apresentado no Bairro Alto. É uma boa notícia porque quem (como eu) conhece minimamente as fotografias de António Pedro Ferreira fica sempre com a sensação de querer ver mais.
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Luiz Carvalho, também fotojornalista do semanário Expresso, escreveu sobre António Pedro Ferreira e "os meses intensos" que passou em Paris durante um estágio na agência Magnum.
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Eis esse texto:
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“O salto de um fotógrafo enquanto jovem
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O que leva um médico recém-nascido a abandonar o berço da Pátria e a refugiar-se em Paris na Casa de Portugal? A desilusão de um país adiado, o engano na escolha do canudo, ou a coragem de finalmente poder fugir com a amante? Entenda-se: a fotografia. Está ultima hipótese é a mais considerada em círculos próximos e amigos do António Pedro Ferreira.
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Esta fuga reporta a 1982 e estende-se até 84, o período sabático que esse jovem médico com a cabeça na fotografia permaneceu em Paris atrás de emigrantes portugueses, à procura de um conjunto de imagens que pudesse testemunhar e entender socialmente os seus conterrâneos emigrados. A aventura foi possível graças a uma parca bolsa da Secretaria de Estado da Cultura, ao apoio de amigos que então estudavam em Paris, a um impulso próprio dos apaixonados: uma urgência em pegar na Leica M4 e ir em busca de uma história, de um discurso visual.

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Foram meses intensos. A Agência Magnum fazia a supervisão do trabalho para apresentar ao promotor da bolsa e era o ciumento Jimmy Fox, rédacteur-en chef, que recebia o António Pedro todos os meses e lhe supervisionava o ensaio fotográfico. Nunca um fotógrafo português tinha tido esta possibilidade: poder estagiar na mais mítica agência de fotojornalismo.
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Depois das idas à Magnum, com todo o ritual que isso significa (imagine-se o que sentiu um fotógrafo como o António Pedro Ferreira ao poder ver o Henri Cartier-Bresson mesmo ao longe!) os dias eram longos e dedicados. Milhares de fotografias em bairros como St. Denis ou Gentilly, em festas, casamentos, momentos de ócio, trabalho. Contactos, amizades, intimismo, cumplicidades.
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As noites eram para o laboratório de fotografia improvisado, uma arrecadação com água corrente, na residência universitária onde pernoitava.
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O que é notável nestas fotografias do António Pedro é que elas marcam o início de uma nova atitude no fotojornalismo português. Estávamos perante um jovem que queria intervir na sociedade, testemunhando, convergindo com uma preocupação inabalável de produzir fotografias com referências. Fotografia pura e dura. Daí a Magnum e o aval de qualidade que sempre atestou ao seu trabalho.
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Se o poema de Manuel Alegre sobre a emigração em França nos comove, o filme “O Salto” nos envolve, ou se as cantigas de José Mário Branco nos embalam para um tempo a preto-e-branco, as fotografias do António Pedro são o somatório de tudo isto na síntese perfeita do instante decisivo.
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Tive a felicidade de ter podido compartilhar com o meu amigo alguns dias nesse distante ano de 1983. Lembro-me de um baile em St. Germain-des-Prés e de um jantar festivo numa colectividade nos arredores de Paris. Eram tempos simples, austeros, mas de uma esperança infinita que nos foi traída.
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Luiz Carvalho, 25 de Novembro 2009


Segunda Escolha, de António Pedro Ferreira
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De seg. a sex. das 10h às 18h, sáb. das 14h às 19h (excepto feriados)
Até 6 de Fevereiro


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