Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

domingo, 27 de setembro de 2020

Monsaraz

 * Victor Nogueira

1975

O Carlos Nunes da Ponte esteve em Évora, este fim‑de‑semana. Fomos até Monsaraz. (...) Tirei umas fotos. (MCG - 1975.01.20)

1997

De Monsaraz recordo a vila cercada de muralhas, no alto do monte donde se avistam terras do Alentejo. Uma vila sob o comprido, de casas compradas pelos endinheirados, tempo decorrido após o seu abandono pela população, que a trocou pela planície e por Reguengos de Monsaraz. Duas ruas ladeadas de casas, uma porta na muralha e alguns postigos, um enorme silêncio nas ruas lajeadas. Recordo uma casa onde existe um mural representando um juiz, salvo erro na imagem dum homem corrupto, e uma imagem - Cristo? - quase em tamanho natural, em madeira, dum realismo tal que até se "viam" as veias entumescidas à flor da pele. Na sua topografia, Monsaraz e Óbidos têm alguma semelhança, embora a vila estremenha seja mais rica, ou não tivesse sido terra de veraneio dos reis de Portugal, antes de a trocarem pelas Caldas da Rainha.

Em Monsaraz existe um fresco gótico representando o bom juiz, rodeado de anjos, e o mau juiz, de face dupla, que subsiste nos Paços da Audiência. Conquistada aos Mouros, pertenceu aos Templários e depois à Ordem de Avis. Largo desafogado, com pelourinho e poço. Castelo num extremo, porta da vila no outro. (Memórias de Viagem, 1997) ([1])

Óbidos, no cimo dum escalavrado monte, da Serra d'El Rei, faz-me lembrar Monsaraz, embora mais "humilde" e em ponto maior: ruas estreitas, uma artéria central, uma terra sem habitantes, embora cheia de forasteiros, deambulando pelas ruas como em Valença do Minho, e sem trânsito automóvel. Tal como em Monsaraz, a decadência económica preservou a traça antiga e os edifícios ( ). Tal como em Monsaraz, noutro tempo a população migrou para a planície, neste caso para Caldas da Rainha, que inicialmente se chamava Caldas de Óbidos, (Notas de Viagem, 1997.06.28)

Reguengos de Monsaraz
Terra que foi do fabrico de mantas. Insólita a Igreja de Santo António, branca, com uma torre sineira poligonal na frontaria, construída na passagem do século XIX para o XX, em estilo neogótico. ( ) Situa se esta povoação numa região repleta de vestígios pré históricos: antas, dolmens e menires.  A insólita Igreja, neogótica, do séc. XIX, tem como orago Santo António. (Notas de Viagem 1997)

2000

Não parece uma vila alentejana. No largo principal, arborizado, ficam vários cafés, bancos, uma farmácia, uma pensão e uma enorme e insólita igreja, para além de algum comércio. Fotos a uma chaminé e a casas antigas. Para esta povoação migrou a de Monsaraz, entretanto deixada ao abandono e ruína, alcandorada lá no cimo do monte.

A caminho de Monsaraz há muitos pedregulhos. Atravessamos S.Pedro do Corval, célebre pelo artesanato  das muitas olarias. É uma povoação simpática, de casas baixas. 

Foto de Monsaraz ao longe. Antes de chegarmos à povoação fica Telheiro. Fotos à fonte. Visitamos o Convento da Orada, enorme e branco, com um ninho de cegonhas lá no cimo. (foto) Finalmente, Monsartaz, onde vim muitas vezes quando estudante em Évora. (Notas de Viagem 2000.09.17)



[1] -  É na praça de armas do castelo que se realizam as touradas. 












Desta varanda na Capela de S. José era celebrada a missa para os presos na cadeia defronte



cena de rua ao entardecer











A Igreja Matriz de Monsaraz ou Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, foi edificada no século XVI e reconstruída na sequência do terramoto de 1755 e no século seguinte.  

O altar-mor, composto por talha dourada, tem duas esculturas em madeira que representam Santo Agostinho e Santa Mónica.  

Merece destaque o túmulo de Gomes Martins Silvestre, primeiro alcaide e povoador de Monsaraz, construído em mármore de Estremoz, cuja face frontal mostra um cortejo fúnebre onde desfilam diversas figuras e no topo uma figura alusiva à actividade do cavaleiro templário.









Fotos em 1975.01 e  
2000.09.27 (rolo 507)

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