Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

sábado, 20 de fevereiro de 2010

DeVERcidade e a fotografia contemporânea

  

Corpo Urbano, um dos trabalhos selecionados para integrar o 
deVERsidade, de autoria da fotógrafa de Curitiba (PR) Luana Navarro 
(Foto: Luana Navarro/Divulgação)

 

 Corpo Humano, de Luana Navarro

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DeVERcidade e a fotografia contemporânea

Embora seja comum identificar como contemporâneo tudo o que é produzido na atualidade, o professor Silas de Paula defende que esta é uma definição redutora. Ele analisa as provocações e inquietações trazidas por esta edição do deVERcidade
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Silas de Paula
especial para O POVO
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20 Fev 2010 - 18h05min
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A cultura visual é formada num processo de persuasão imagética ao longo de muitos anos, o que dá à maioria das pessoas um olhar conservador, oriundo de verdades estabelecidas. No entanto, é bom lembrar que o estranhamento e o conflito sempre fizeram parte das intenções dos artistas, levando à ruptura com regimes de visualidade vigentes.
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Do que estamos falando, então, ao utilizarmos a expressão ``fotografia contemporânea``? O dicionário nos mostra que o significado de contemporâneo refere-se ao que é atual. Definição simples, mas que se torna complexa quando entramos no campo artístico, pois tudo que é feito em qualquer tempo presente é contemporâneo, é atual. Embora seja comum ouvir a afirmação de que não existem mais categorias na arte, e que boa parte da discussão não se fundamenta no suporte ou na técnica, é impossível esquecer que a fotografia ajudou a modelar a arte do século 20 e que, atualmente, começa a dominá-la. A fotografia, que sempre sonhou em ser percebida como arte, vê agora a arte tornar-se fotográfica.
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Os discursos sobre a ausência de categorias na arte contemporânea mascaram outra dificuldade. Ao reunirmos tudo em um mesmo conjunto, seja de arte, artes visuais, etc., acabamos por criar um grande guarda-chuva que não dá conta das complexidades inerentes a cada tipo de processo. Esta postura pode, até, abrigar muitas coisas que facilitam a organização de mostras e exposições colocando tudo sob uma mesma denominação. Bom para a fotografia que não precisa mais se preocupar com a questão de ``ser ou não ser``. Tudo cabe. No entanto como fica o embate sobre a produção, processos e recepção desses trabalhos?
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A arte contemporânea não engloba, necessariamente, toda arte atual. O dito contemporâneo artístico caracteriza um estilo de arte e muitos dos seus critérios e categorias já faziam parte da vanguarda do começo do século 20, de processos posteriores e até mesmo da pintura do Renascimento do Norte, há mais de cinco séculos. Afirmar que o contemporâneo é o atual nos leva em direção a algo, no mínimo, redutor. O que denominamos de arte contemporânea é, simplesmente, uma categoria da arte atual. No entanto, é igualmente redutor não discutir essas questões.
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Marcel Duchamp, por exemplo, estava preocupado em demonstrar que a arte era inteiramente contingente e arbitrária, uma função do discurso e não uma revelação, e argumentava que a identidade, o sentido e o valor do trabalho artístico são construídos através de um processo ativo e dinâmico. A noção de identidade instável caminha paralela à percepção de uma realidade que é tanto convencionada (já visto, já lido), quanto congelada numa fantasmagoria de imagens e simulacros.
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Desconstrução
Pensando nisso, o espaço do deVERcidade foi aberto a inquietações e provocações onde tudo é possível. Boa parte dos trabalhos da mostra nos levou a um caminho fora de qualquer tipo de rotina, como uma tentativa de desconstruir discursos estabelecidos e propor um debate mais amplo. As imagens trazem uma profusão tão grande de olhares que colocam em xeque a certeza de que existe um caminho correto. Colocam tudo em dúvida -não só o seu próprio sentido, mas o nosso -, pois nada deve ser considerado artístico a não ser que suas ambiguidades, incertezas e obscuridades nos lancem de volta aos percursos da nossa própria visualidade: esse ato de ver que deve ser examinado como um produto de tensões entre imagens externas e processos internos de pensamento. Assim, partimos do pressuposto que as imagens de arte não possuem uma natureza peculiar própria que as separe da negociação de semelhança e do discurso de sintomas. Elas envolvem o jogo da ambiguidade da semelhança e a instabilidade das diferenças - questões fundamentais na fotografia e na arte em geral.
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Apesar da mostra deste ano permitir trabalhos de todo o País, o que nos interessa é aprofundar o debate sobre a fotografia no Ceará. O documental caracterizou e, ainda, caracteriza boa parte da produção local que nos colocou no cenário brasileiro e internacional. Mas, às vezes, temos uma sensação de déjà vu, de algo presente em nossa memória há muito tempo, por isso é importante discutir os nossos processos. Não só o documental, mas não precisamos fugir dele. É necessário entender, por exemplo, o que seria um documental contemporâneo, ou trazer para o debate algo como ``documental imaginário`` - questões que estão presentes nas discussões em outros locais. Não sabemos se este é o caminho mais correto, mas acreditamos que trará uma qualidade ainda maior à fotografia no Ceará.
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SILAS DE PAULA é fotógrafo, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e curador do IFoto 
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