Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A minha guerra “Fechámos os quartéis e demos as armas”

 
Direitos reservados  A sair de um helicóptero durante missão em Cangonbé, no Leste  
A sair de um helicóptero durante missão em Cangonbé, no Leste
Correio da Manhã - 18 Abril 2010 - 00h00
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Para os comandos, a vida militar em Angola era feita de sobressalto. 
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.Tínhamos de estar sempre prontos para novas operações debaixo de fogo.

Nascido e criado em Lisboa, vivi em Campo de Ourique a minha juventude. Foi aos 21 anos que ingressei na vida militar, quando iniciei em Mafra a recruta em Infantaria. Corria o ano de 1972 e eu era um cadete. Não fazia ideia do que era África. 
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A 5 de Janeiro de 1973, acabado de fazer 22 anos, embarquei de avião para Angola. Nunca mais me esqueço do primeiro impacto quando chegámos a Luanda. Tínhamos deixado Lisboa com cinco graus, mas quando a porta do avião se abriu em Angola estavam 35. Era um calor sufocante que nos marcou logo desde o início da comissão.
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Tal como estava planeado, partimos para a Funda e Belo Horizonte, onde fizemos o curso de Comandos. Os dois primeiros dias até foram simpáticos – estivemos no Grafanil, onde se podia beber tudo o que quiséssemos sem pagar nada. Mal sabíamos o que nos esperava nos dias seguintes... A primeira prova que nos fizeram no curso de Comandos foi precisamente um teste de resistência à sede. Ao fim de várias horas sem beber nada, vi dezenas de camaradas desmaiarem. Éramos 300 a fazer o curso, e mais de metade dos soldados desfaleceu durante a prova de sede. Mas havia mais dificuldades para vencer. 
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À prova seguinte chamavam o ‘teste do mosquito’ e consistia em estarmos imóveis durante largas horas, proibidos de usar repelente e sem podermos enxotar os milhares de insectos que voavam à nossa volta. Lembro-me de um camarada que foi tão massacrado pelas picadas que, no fim da prova, a cara dele parecia um bolo. Estava irreconhecível.
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Depois de acabar o curso de Comandos fui mobilizado para o Leste de Angola, para a zona do Luso, hoje conhecida como Luenas. Juntei-me à Companhia de Comandos 2041 e os combates começaram pouco depois de termos chegado. Os Comandos tinham por missão fazer golpes de mão de grande rapidez e violência. Já graduado em alferes, comandei vários grupos de 30 homens. Partíamos em cinco helicópteros e mais um helicanhão e atacávamos onde fosse preciso. Nunca se podia dormir descansado, porque estávamos sempre prontos para ser chamados para nova missão a qualquer momento. 
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O Leste de Angola, a par com o Norte, era a zona onde a guerra era mais violenta e sabíamos que, para os Comandos, a missão nunca era fácil. Lembro-me que os primeiros combates em que participei foram na zona da N’riquinha, junto à fronteira com a Zâmbia.
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Aliás, aí acontecia um fenómeno curioso: Quando as nossas tropas deixavam alguns mantimentos (cerveja, comida, farinha) junto à fronteira, havia alguma tranquilidade. Se não houvesse essas ‘ofertas’ era certo que havia bombardeamentos com morteiros. Lembro-me de uma missão que tivemos em Lupiri, em que fomos muito maltratados pelo inimigo durante vários dias.
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A vida militar era dura, mas criavam-se laços de grande amizade e companheirismo. Sabíamos que qualquer um de nós estava disposto a dar a vida pelos outros. Havia muita coragem. Perdemos dois homens da companhia em combates e esses foram os momentos mais tristes que vivi em Angola.
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Em 1974, a minha Companhia foi colocada no Norte de Angola, em Salazar. Ficámos nas bases dos comandos em Piri e Úcua. Aí a guerra era ainda pior do que no Leste. O inimigo combatia com ferocidade e, ao contrário do Leste, que era plano e seco, a paisagem era de selva tropical, quase intransponível. Era muito difícil deslocarmo-nos naqueles terrenos e o inimigo aproveitava para nos atacar. Eu levava sempre a minha máquina fotográfica e fiz fotos incríveis dessas missões.
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Nem só de guerra se fez a minha passagem por Angola. É um país lindíssimo, que eu conheci de uma ponta à outra e fiquei fascinado. A vida em Luanda era um descanso, onde havia praia, marisco e mulheres lindíssimas. 
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Vivi o 25 de Abril de 1974 em Angola. A Revolução trouxe reacções muito diferentes, eu não gostei do que se passou. Fiz o meu dever como combatente, mas Angola foi entregue de mão-beijada a movimentos que não estavam preparados para receber o país. Durante os últimos meses que estive em Angola, fechávamos os quartéis de Luanda e entregávamos as armas, sabendo que os angolanos já as estavam a usar para se matarem uns aos outros e começar a guerra civil.
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Regressei a Portugal em Janeiro de 1975 e nunca mais voltei a Angola. Ali vivi os melhores dois anos da minha vida e também os piores dois anos da minha vida. 
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PAIXÃO PELA FOTOGRAFIA
Em Angola, Alberto Amado conheceu alguns dos melhores fotógrafos que trabalhavam na província ultramarina. Comprou a um deles uma máquina fotográfica Nikon F5, que nunca largava: "Ia sempre para as missões com ela e fiz fotos incríveis. Tenho imagens como nunca vi em lado nenhum", conta o antigo comando. Um dia, ele próprio foi protagonista de uma notícia, publicada na revista ‘Notícias’, de Angola: "Estava em Luanda e vi um carro a cair na baía. Atirei-me à água e consegui salvar a mulher que guiava o carro". Um fotógrafo captou o gesto de heroísmo. 
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PERFIL
Nome: Alberto Amado
Comissão: Angola (1973/1975)
Actualidade: Tem 59 anos e quatro filhos. Desempregado, trabalhava com automóveis



Alberto Amado, Angola (1973-1975)
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