Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 18 de julho de 2026

Murais de solidariedade internacionalista (24) - em Orgosolo

 


2026 07 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - NO AI LICENZIAMENTI – OTTANA

Este mural em Orgosolo  é um clássico manifesto político bícromo (vermelho e branco) que documenta as intensas lutas sindicais, operárias e antimilitaristas da Sardenha durante a década de 1970.


O que está escrito?

O mural está repleto de slogans políticos, siglas de sindicatos e palavras de ordem distribuídas pelas bandeiras e cartazes erguidos pela multidão:

1. Nas Bandeiras Superiores:

  • "C.G.I.L. ORGOSOLO" Confederação Geral Italiana do Trabalho, o principal sindicato de esquerda do país.

  • "FLM" Federazione Lavoratori Metalmeccanici (Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos).

  • "NO AI LICENZIAMENTI – OTTANA" "Não aos despedimentos – Ottana" (uma referência direta à crise do polo petroquímico da região vizinha de Ottana, cujo encerramento e cortes de postos de trabalho geraram revolta na Sardenha).

  • "CONSIGLIO DI F[ABBRICA]" "Conselho de Fábrica".

2. Nos Cartazes Empunhados pela Multidão:

  • "LA SARDEGNA VUOLE LA RINASCITA NON BASI MILITARI" "A Sardenha quer o renascimento, não bases militares" (o grande lema do movimento regionalista e pacifista sardo).

  • "FASCISTI ASSASSINI" "Fascistas assassinos".

  • "CONCIMI NON PROIETTILI" "Fertilizantes [adubos], não projéteis" (exigindo investimento na agricultura local em vez de militarização).

  • "CASA DEL POPOLO" (No canto superior direito) "Casa do Povo".

3. Na Base do Painel:

  • "RINASCITA" "Renascimento" (termo político usado na época para defender o desenvolvimento económico autónomo da ilha através do trabalho, e não da dependência do Estado ou do exército).

O que representa este mural?

A obra representa a união entre a classe operária industrial e o movimento pacifista camponês da Sardenha, servindo como um protesto coletivo contra a exploração económica e a militarização do território.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • A Estética de Propaganda Socialista: Utilizando unicamente o contraste forte entre o vermelho vivo e o branco, o mural inspira-se diretamente no grafismo dos cartazes revolucionários soviéticos e nos panfletos do cubismo/expressionismo político europeu.

  • A Massa Humana: Uma densa multidão de rostos com expressões sérias, determinados e combativos surge unida em marcha. Os braços erguidos sustentam os cartazes que dão voz às exigências populares.

  • A Hoz e o Martelo: Visível em grande destaque na bandeira do lado direito, este símbolo reafirma a forte matriz comunista e socialista que impulsionou o movimento muralista de Orgosolo na década de 1970.

2. O Significado Político

Este mural sintetiza os dois grandes traumas e lutas da Barbagia naquela época:

  1. O Antimilitarismo: A rejeição absoluta à instalação de bases militares da NATO e do exército italiano na ilha (como aconteceu na revolta de Pratobello), argumentando que a Sardenha precisava de investimentos na agricultura ("fertilizantes") e no trabalho, e não de ser usada como campo de tiro ("projéteis").

  2. A Luta Operária: A solidariedade com os operários das indústrias químicas e metalúrgicas de Ottana. O Estado italiano tentara industrializar à força o centro da Sardenha com grandes polos petroquímicos que rapidamente faliram, deixando milhares de famílias desamparadas devido a despedimentos massivos.


2026 07 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - CONCIMI NON PROIETTILI (Pratobello)

Este mural em Orgosolo  capta a essência da célebre revolta de Pratobello, sendo um dos símbolos mais puros do pacifismo e do orgulho camponês da Sardenha.

O que está escrito?

O mural apresenta três inscrições manuscritas em diferentes zonas e línguas:

1. No cartaz vermelho central (em italiano):

"CONCIMI NON PROIETTILI"

  • Tradução: "Fertilizantes [adubos], não projéteis".

2. Junto ao ombro do camponês (à esquerda):

"PRATOBELLO 1970"

  • Localização e Ano: Assinala o rescaldo imediato da famosa revolta popular ocorrida em junho de 1969 e a consolidação do movimento no ano seguinte.

3. No canto superior esquerdo (em língua sarda, esbatido a vermelho):

"...oitos cun mitras in manu / ...a lotta de firmare / ...currian invanu"

  • Significado: Trata-se de fragmentos de poemas populares locais que descrevem a chegada dos soldados armados ("com metralhadoras na mão") e como as tentativas do Estado de travar a luta deles e fazê-los correr foram "em vão".

O que representa este mural?

A obra representa a rejeição absoluta da comunidade à militarização das suas terras e a defesa da vocação agrícola e pastoril da região, celebrando a vitória da resistência civil face ao exército italiano.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Camponês/Pastor: Desenhado com traços expressionistas marcantes a azul e branco, o homem ergue um cartaz mesmo acima da sua cabeça. O seu rosto, com uma barba densa e olhar firme, personifica o povo rústico da Barbagia — uma comunidade que não se deixa intimidar pelas forças estatais.

  • O Slogan de Contraste ("Concimi non Proiettili"): O fundo vermelho vivo do cartaz serve para destacar o lema principal. A exigência é de uma simplicidade desarmante: a terra da Sardenha serve para ser cultivada, alimentada e trabalhada ("fertilizantes"), e não para ser cercada e destruída por exercícios de artilharia pesada do exército ou da NATO ("projéteis").

  • O Contexto Coletivo: Na fotografia histórica, a presença das duas crianças locais vestidas com cores vivas em frente à pintura acentua o cariz geracional do muralismo em Orgosolo, mostrando que estas obras fazem parte do cenário quotidiano onde os jovens crescem a aprender a história de resistência dos seus pais.

2. O Significado Político e Social

Quando o governo de Roma tentou transformar as pastagens comunitárias de Pratobello num campo de tiro permanente, a resposta de Orgosolo não foi o banditismo ou a violência armada, mas sim a união popular não-violenta. Este mural imortaliza o argumento moral dos pastores: o trabalho e a vida rural são infinitamente mais valiosos para o progresso do que a indústria da guerra. 


2026 07 08 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Homenagem a Carlo Giuliani

Este mural em Orgosolo  é a versão detalhada e focada do memorial criado pelo artista Francesco Del Casino em homenagem a Carlo Giuliani — o jovem ativista de 23 anos baleado mortalmente pelas forças policiais durante os protestos contra a cimeira do G8 em Génova, em julho de 2001.

O que está escrito?

O texto espalha-se pela fachada em caligrafia cursiva e em maiúsculas, dividindo-se em três mensagens centrais:

1. A Dedicatória (No topo esquerdo):

"a Carlo Giuliani"

2. O Manifesto em Italiano (À direita, a vermelho):

"Alle donne [e gli uomini che erano a Genova] e anche a quelli che [non c'erano] ma ai quattro angoli [da terra non lasciano] decidere a nessuno della loro vita del loro lavoro e del loro futuro"

  • Tradução: "Às mulheres [e aos homens que estavam em Génova] / e também àqueles que [não estavam] / mas que nos quatro cantos [da terra não deixam] / que ninguém decida / sobre as suas vidas / sobre o seu trabalho e / sobre o seu futuro". (Nota: Os trechos entre parênteses retos correspondem às partes do texto lateral que ficam ligeiramente cortadas ou implícitas nesta perspetiva mais aproximada da foto).

3. A Frase em Língua Sarda (À esquerda da porta):

"UNU MUNDU MENZUS E.S.T. [URZ]ENTE"

  • Tradução: "Um mundo melhor é urgente" (uma variação regionalista do famoso lema altermundialista "Outro mundo é possível").

O que representa este mural?

Esta obra representa um manifesto contra a repressão estatal, uma crítica à globalização económica desenfreada e um símbolo de solidariedade internacionalista.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Jovem em Movimento (Carlo): Pintado mesmo por cima da ombreira da porta de metal, a figura de Carlo Giuliani surge com traços cubistas/expressionistas, vestindo a camisola interior branca e calças escuras que usava no dia em que foi morto. Ele está representado numa pose dinâmica de ação e protesto.

  • O Mar de Mãos: Dezenas de mãos estilizadas surgem na parte superior do mural e rodeiam a abertura da porta. Elas simbolizam tanto o clamor, o apoio e a união da multidão que protestava em Génova, como o sentimento de perda coletiva.

  • A Família de Trabalhadores (Canto Inferior Direito): Um grupo de figuras populares (uma mãe, um pai, um idoso e uma criança) surge agrupado numa paleta de tons terrosos e avermelhados. Eles representam as pessoas comuns, os cidadãos trabalhadores cujos destinos são afetados pelas decisões económicas tomadas à porta fechada pelas grandes potências internacionais.

2. O Significado Político

O mural faz a ponte entre um trauma político nacional italiano (os episódios de violência policial no G8 de 2001) e o espírito de resistência da própria comunidade de Orgosolo. Ao utilizar a língua sarda para exigir um "mundo melhor", o mural eleva a figura de Carlo Giuliani à categoria de símbolo universal da luta pelos direitos civis, pelo direito ao trabalho digno e pela autodeterminação dos povos frente ao poder das grandes elites financeiras globais.


2026 07 10 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - EGUAGLI ... 

Este mural em Orgosolo  é uma representação artística de cariz revolucionário que celebra a luta pelas causas sociais e pelos ideais de esquerda.

O que está escrito?

No canto superior direito da composição, pintado a azul claro no céu, lê-se o início de uma palavra em italiano:

"EGUAGLI..."

Significado:

Trata-se do início da palavra "Eguaglianza" (que significa "Igualdade"), um dos três pilares fundamentais das revoluções sociais e democráticas (junto à Liberdade e Fraternidade), amplamente reivindicado nos movimentos operários e de esquerda representados na vila.

O que representa este mural?

A obra representa a luta popular e a insurreição pelas liberdades sociais e pela igualdade, recorrendo a uma iconografia que mistura referências históricas das revoluções dos séculos XIX e XX.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • A Porta-Bandeira (À Direita): Em grande destaque, uma figura jovem empunha com determinação uma grande bandeira vermelha, o símbolo universal das lutas socialistas, comunistas e operárias. Ela veste roupas casuais, com uma camisola às riscas e um casaco aberto, personificando a juventude revolucionária.

  • O Homem Armado de Cartola (À Esquerda): Contrariando a indumentária camponesa, surge um homem elegantemente vestido de preto, com camisa branca, gravata e uma cartola, segurando firmemente uma espingarda. Esta figura evoca os burgueses liberais e intelectuais do século XIX que se juntaram às barricadas populares em revoluções históricas (como as de 1848 na Europa) para combater o absolutismo.

  • A Multidão e as Silhuetas (Ao Fundo): Entre as duas figuras principais, erguem-se silhuetas azuis com braços erguidos e punhos fechados em sinal de protesto, sugerindo uma massa popular em plena manifestação. Do lado direito, vê-se a silhueta escura de uma figura em movimento (provavelmente a fugir ou a avançar no combate).

  • O Grande Sol Vermelho: No topo esquerdo, um disco solar intensamente vermelho domina o céu. Este elemento é um símbolo clássico da iconografia socialista (o "Sol do Futuro" ou Sole dell'Avvenire), que representa a aurora de uma nova era de justiça e igualdade social para os trabalhadores.

  • A Rocha Real: O mural foi pintado aproveitando uma saliência de rocha natural escura na base da parede, conferindo um aspeto tridimensional à pintura; as personagens parecem estar literalmente em cima de um terreno acidentado ou de uma barricada de pedra.



2026 07 12 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - SCUDETTO A CAGLIARI 

Este imponente mural em Orgosolo afasta-se da habitual temática de protesto político para celebrar um dos momentos de maior orgulho coletivo e afirmação social de toda a história da Sardenha: a conquista do campeonato italiano de futebol pelo Cagliari Calcio em 1970, liderado pelo mítico avançado Gigi Riva.

O que está escrito?

O mural é desenhado como uma colagem de primeiras páginas de jornais históricos da época (como a La Gazzetta dello Sport e La Nuova Sardegna), contendo vários títulos marcantes:

  • No topo, em letras garrafais pretas: "Campioni d'Italia E' fatta!" (Campeões de Itália, está feito!).

  • Nas manchetes dos jornais:

    • "CAGLIARI CAMPIONE" (Cagliari Campeão).

    • "SCUDETTO A CAGLIARI" (O Scudetto para o Cagliari).

    • "CAGLIARI NELLA STORIA" (Cagliari na História).

  • Ao centro: "12 APRILE 1970" (A data exata em que o título foi matematicamente conquistado) acompanhada pelo escudo do Scudetto com as cores da bandeira italiana.

  • Na base: "VINTI I CAMPIONI DI UN'ALTRA ITALIA" (Vencidos os campeões de uma outra Itália) — uma alusão direta à vitória sobre as ricas equipas industriais do norte (como a Juventus, o Inter e o Milan).

  • No canto inferior direito: "Cagliari impazzisce nello stadio folgorato da ROMBO DI TUONO" (Cagliari enlouquece no estádio fulgurado por Rombo di Tuono). "Rombo di Tuono" (Rolo de Trovão) era a célebre alcunha dada a Gigi Riva devido à potência avassaladora do seu remate de pé esquerdo.

O que representa este mural?

Esta obra representa a redenção social, o orgulho identitário e a vitória histórica da Sardenha face à marginalização do norte continental de Itália.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Retrato de Gigi Riva: Ocupando toda a metade esquerda do mural, surge a figura imponente de Gigi Riva, retratada em tons de cinzento com braços cruzados, olhar determinado fixo no horizonte e a camisola branca clássica do clube com o símbolo dos Quatro Mouros no peito. Riva é visto na ilha não apenas como um atleta, mas como um herói nacional adotivo que recusou propostas milionárias dos grandes clubes do norte por amor à Sardenha.

  • A Estética de Arquivo: O fundo, imitando jornais antigos amarelados com fotografias a preto e branco das bancadas repletas de adeptos, confere à pintura um valor documental e nostálgico, transformando a fachada da casa numa página de história viva.

2. O Significado Social e Político

Até 1970, nenhuma equipa do sul de Itália ou das ilhas tinha conseguido vencer o campeonato de futebol, um domínio absoluto das potências económicas de Milão e Turim. Para os sardos — frequentemente estereotipados e menosprezados pelo continente como uma terra isolada de pastores e bandidos —, ver o Cagliari sagrar-se Campeão de Itália foi um grito de emancipação. O futebol serviu como um veículo de orgulho cultural, provando que uma equipa da periferia insular podia derrotar o poder financeiro e centralizador "da outra Itália".



2026 07 13 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - O renascimento! Trinta anos à espera dele e... a envelhecer... 

Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_45d859.jpg) é uma crítica direta e pungente ao chamado "Plano de Renascimento" (Piano di Rinascita) — uma iniciativa económica lançada pelo governo italiano a partir do final de década de 1950 e anos 1960 para tentar industrializar e modernizar a Sardenha.

O que está escrito?

O texto em língua sarda está escrito em letra cursiva na parte superior direita da pintura:

"sa rinascita! / trent'annos isettandela / e... imbezzes..."

Tradução:

"O renascimento! Trinta anos à espera dele e... a envelhecer..."

(A frase ironiza a promessa de prosperidade económica que, após três décadas de espera, nunca chegou a concretizar-se para a maioria das pessoas da região, deixando-as apenas mais velhas e sem futuro).

O que representa este mural?

A obra representa o sentimento de desilusão, opressão e sufoco da população sarda perante as promessas de progresso industrial do Estado italiano, que resultaram antes em militarização, descaracterização do território e desemprego.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • A Sardenha Aprisionada (A Figura Central): O elemento principal é uma grande estátua cinzenta que retrata uma mãe com o filho ao colo (uma representação clássica da própria ilha e da sua descendência). No entanto, esta imagem materna está fortemente envolvida e amarrada por arame farpado. O arame farpado é um símbolo carregado na Sardenha: representa tanto a expropriação de terras para campos de tiro militares como a perda de liberdade e a destruição da pastorícia livre.

  • A Industrialização Forçada (À Esquerda): Mostra cabras a correr sobre colinas vermelhas sob a sombra de chaminés de fábricas ao fundo. Esta imagem ilustra o impacto do projeto de industrialização pesada (como as indústrias petroquímicas) sobre as zonas rurais e agrícolas tradicionais da Barbagia, que acabou por gerar poluição e falências em massa.

  • O Controlo Policial e Militar (À Direita): Retrata um carabinieri (guarda militarizado italiano) com farda escura ao lado de um pastor local com traje típico. A presença do militar, que vigia atentamente o cidadão, simboliza a forte presença policial e o sentimento de que a ilha foi tratada pelo Estado centralizado como um território a ser controlado e policiado à força, em vez de ser verdadeiramente apoiado.

2. O Significado Político

Este mural serve como um balanço histórico negativo do "Plano de Renascimento". O que deveria ter sido uma era de progresso socioeconómico para os sardos acabou, na perspetiva da comunidade de Orgosolo, por se converter num cativeiro económico e militar. O mural é um grito de protesto que reclama o direito da Sardenha a desenvolver-se seguindo a sua própria vocação tradicional e não os esquemas impostos de fora.


2026 07 15 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - - 11 setembro 2001 NEW YORK ORE 8,48 

Este mural em Orgosolo  retrata os trágicos atentados terroristas do 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, servindo como uma reflexão imediata e humanitária sobre a violência global.

O que está escrito?

O texto reparte-se entre dados informativos que contextualizam o evento e uma mensagem moral escrita em língua sarda:

1. Dados Históricos (No topo):

  • "NEW YORK ORE 8,48" Nova Iorque, 8h48 (a hora local do impacto do primeiro avião na Torre Norte).

  • "11-9-2001" A data exata dos acontecimentos.

2. Mensagem Moral (À direita das torres, em sardo):

"sos deretos de sos populos non si ottenene cun sas barbaridades"

  • Tradução: "Os direitos dos povos não se obtêm com barbaridades".

3. Assinatura (No canto inferior esquerdo):

  • "KIKINU 28-9-2001" Indica o autor ("Kikinu", proprietário do estabelecimento comercial adjacente) e a data em que a obra foi concluída, escassas duas semanas após o ataque.

O que representa este mural?

A obra representa uma condenação absoluta do terrorismo e da violência indiscriminada, afirmando que nenhuma causa política ou ideológica justifica o assassinato de inocentes.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • As Torres Gémeas em Chamas: A pintura ilustra o World Trade Center em Nova Iorque no momento exato dos ataques. A torre da esquerda exibe uma explosão colorida que simula o embate de uma das aeronaves, enquanto a torre da direita é encimada por uma densa e escura nuvem de fumo que se propaga pelo céu.

  • A Linha do Horizonte de Nova Iorque: Em primeiro plano, surgem elementos gráficos icónicos da cidade norte-americana, nomeadamente a silhueta da Ponte de Brooklyn e outros arranha-céus circundantes.

  • O Contraste Comercial: O mural foi pintado na parede exterior da conhecida loja e bar "Kikinu", integrando-se diretamente na fachada urbana quotidiana da vila.

2. O Significado Político e Humanitário

Orgosolo possui uma longa tradição de murais com forte teor anti-imperialista e de apoio a movimentos de libertação nacional um pouco por todo o mundo. Contudo, com este mural, a comunidade local demarca uma linha ética intransponível.

A frase "os direitos dos povos não se obtêm com barbaridades" funciona como um aviso universal: mesmo que existam opressões ou reivindicações geopolíticas legítimas contra potências globais, o recurso ao terror contra a população civil é estritamente condenável e deslegitima qualquer luta. É um manifesto a favor da paz e da dignidade humana básica.


2026 07 16 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Sardigna patria cara

Este mural em Orgosolo  é um forte manifesto nacionalista e ambientalista sardo, que protesta contra a exploração colonial, a militarização e o depósito de resíduos tóxicos na ilha da Sardenha.

O que está escrito?

À direita das figuras, na parede branca, está escrito um poema em língua sarda (com caligrafia cursiva):

"Sardigna patria cara / e ospitale / cantas peleas as bidu in sinu tou / e oe sun torrande dae nou / chin s'idea de ti colonizzare / gal' una borta arribban dae / s'esternu ca in Roma / tenes su rivale eternu!"

Tradução livre:

"Sardenha, pátria querida e hospitaleira, quantas lutas já viste no teu seio. E hoje regressam novamente com a ideia de te colonizar; mais uma vez chegam do exterior, porque em Roma tens o teu rival eterno!"

O que representa este mural?

Esta obra representa a denúncia histórica da Sardenha como um território "colonizado" e sacrificado pelo governo central de Roma e por potências estrangeiras (como os EUA), servindo de lixeira nuclear ou campo de testes militares à custa do sofrimento da população local.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Mapa da Sardenha Sob Ameaça: Ao fundo, delineado a preto, está o mapa geográfico da ilha da Sardenha. No topo do mapa, surge a bandeira dos Estados Unidos da América, simbolizando a forte e contestada presença militar norte-americana na ilha através de bases da NATO.

  • A Ameaça Nuclear / Lixo Tóxico: Logo abaixo da bandeira dos EUA, uma figura assustadora envergando um fato de proteção química e uma máscara de gás segura uma caixa com o símbolo internacional de perigo radioativo e a palavra "SCORIE" (escória / resíduos nucleares). Trata-se de uma crítica direta às tentativas e decisões de depositar resíduos radioativos e industriais perigosos em solo sardo.

  • O Guerrilheiro Sardo: À esquerda, um jovem de boina militar (com parecenças estilísticas a Che Guevara) segura firmemente uma espingarda automática, representando a resistência armada, o espírito de rebeldia e a prontidão do povo sardo para defender a sua terra por qualquer meio necessário.

  • O Grito de Dor e Desespero: No canto inferior direito, um homem de traços expressionistas leva a mão à cabeça e grita em agonia. O seu rosto traduz o desespero e o cansaço dos habitantes perante a destruição ecológica, a poluição e as doenças associadas aos polígonos de tiro militar e aos resíduos.

  • As Figuras Tradicionais e Identitárias: No canto inferior esquerdo e ao centro, surgem representações de camponeses locais e figuras com máscaras tradicionais do folclore sardo (como os Mamuthones ou máscaras rituais da Barbagia), reforçando que a agressão externa ataca não só o meio ambiente, mas também a integridade da cultura e da identidade milenar da ilha.

2. O Significado Político

O mural resume o sentimento de muitos nacionalistas de esquerda na Sardenha: a convicção de que o governo em Roma trata a ilha como uma colónia de exploração. Ao longo das décadas, vastas áreas sardeiras foram vedadas para treino militar internacional (como os polígonos de Quirra e Teulada) e várias zonas foram propostas para acolher resíduos tóxicos e nucleares nacionais. O mural é um aviso poético e estético de que os sardos identificam o Estado italiano como o seu "rival eterno" e continuam dispostos a resistir a este processo de colonização moderna.


2026 07 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - A Sardenha quer o renascimento, não bases militares 

Este mural em Orgosolo  é, na verdade, uma antologia visual e histórica, uma vez que reúne e justapõe vários fragmentos e recriações de murais célebres da própria vila — a maioria deles originalmente concebidos por Francesco Del Casino a partir dos anos 1970. É um compêndio da memória coletiva da Sardenha.

O que está escrito?

O mural funciona como um mural de cartazes e manifestos sobrepostos. Eis o que está escrito nas suas diferentes secções:

1. No Painel Vermelho e Branco (Canto Inferior Direito):

  • Na base: "RINASCITA" (Renascimento).

  • Nos cartazes erguidos:

    • "NO AI LICENZIAMENTI – LOTTA" (Não aos despedimentos – Luta).

    • "CONSIGLIO DI FABBRICA" (Conselho de Fábrica).

    • "LA SARDEGNA VUOLE LA RINASCITA NON BASI MILITARI" (A Sardenha quer o renascimento, não bases militares).

    • "FASCISTI ASSASSINI TORNATE..." (Fascistas assassinos, voltem...).

    • "NORD E SUD UNITI NELLA LOTTA" (Norte e Sul unidos na luta).

2. Nos Cartazes Centrais e Superiores (Fundo Branco/Preto):

  • Cartaz do meio (com o punho erguido): "PASCOLI LIBERI DA PADRONI E DAI CANNONI" (Pastos livres de patrões e de canhões — um lema central da revolta de Pratobello contra o exército).

  • Cartaz à esquerda deste: "MUNICÌPIO / IL POPOLO DECIDE / IL SINDACO FIRMA" (Município / O povo decide / O presidente da câmara assina).

  • Cartaz mais acima à esquerda: "No... ALLA REPRESSIONE" (Não... à repressão).

  • Cartaz com a ave de rapina: "QUESTI SONO GLI ANIMALI CHE PROTEGGERÀ IL PARCO" (Estes são os animais que o parque protegerá — ironizando a criação de parques naturais que limitavam a pastorícia).

  • Cartazes à direita da ave: "DONNE E UOMINI UNITI NELLA LOTTA" (Mulheres e homens unidos na luta) e "ASSEMBLEA POPOLARE AVVOLTOI IN SARDEGNA" (Assembleia Popular: Abutres na Sardenha).

3. No Texto à Direita (Abaixo da Janela):

  • "QUANTO ANNI... CONTRO PASTORI... PROVOCAZIONE COLONIALE AL PERIODO..." (Quantos anos... contra os pastores... provocação colonial ao período...).

O que representa este mural?

Esta obra representa uma síntese da identidade resistente de Orgosolo. Em vez de focar um único acontecimento, ela serve como uma linha do tempo visual que celebra a fusão entre a cultura pastoril e a luta política de esquerda da ilha.

1. Divisão Visual e Simbologia

  • O Lado Esquerdo: A Tradição e a Identidade Sarda Pintado com cores terrosas e tons azulados/esverdeados ao estilo cubista, mostra o quotidiano e as raízes da Barbagia. Vê-se uma densa colónia de cactos (figos-da-índia, típicos da paisagem), rostos expressivos de camponeses, uma criança ao colo e um cavalo majestoso. Um cavaleiro ao fundo ergue orgulhosamente a bandeira dos Quatro Mouros (a bandeira oficial da Sardenha), afirmando o orgulho identitário.

  • O Lado Direito (Painel Vermelho): A Luta de Classes e Antimilitarismo Esta secção reproduz o célebre manifesto bícromo das lutas sindicais e operárias. Representa a solidariedade dos pastores com os operários despedidos das petroquímicas (em Ottana) e o protesto em massa contra a instalação de bases militares da NATO que roubavam as terras de pasto à comunidade.

  • A Secção Superior: A Crónica Gráfica dos Protestos Os desenhos que parecem cartazes colados na parede representam diferentes momentos da história local: o topo mostra um pastor a protestar, o centro evoca a vitória popular onde o poder político municipal se submetia à assembleia do povo, e os outros criticam as forças de repressão do Estado e as restrições ambientais que sufocavam a economia tradicional.

2. Significado Cultural

Este grande painel funciona como um monumento à própria tradição muralista de Orgosolo. Ele recorda a quem passa que as paredes desta vila não são apenas decorações, mas sim um jornal público e histórico onde se plasma a memória das vitórias populares contra o que consideravam a exploração colonial e militar do Estado central.


2026 07 18 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Manifestações de Pratobello

Este mural em Orgosolo é um dos manifestos históricos mais emblemáticos da vila, retratando diretamente a militarização da Sardenha e a célebre revolta popular de Pratobello em 1969, quando a população local se levantou pacificamente contra a imposição de um campo de tiro do exército italiano nas suas terras de pasto.

O que está escrito?

O texto está escrito em língua sarda (variante logudoresa/barbagina), em letra cursiva na parte superior do mural:

"... imbezes de trattores pro arare arriban carrarmados e cannones e truppas de masellu d'addestrare..."

Tradução livre:

"... em vez de tratores para arar, chegam tanques e canhões e tropas de matadouro para treinar..."

O que representa este mural?

A obra representa o protesto contra a ocupação militar do território sardo, denunciando como o Estado central italiano enviou forças armadas e destruição ecológica para uma região rural que precisava urgentemente de investimento agrícola e desenvolvimento económico (simbolizado pelos "tratores").

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • O Jipe Militar e os Oficiais (À Esquerda): Em primeiro plano, destaca-se um veículo militar pesado com uma matrícula simulada do exército italiano (EI + 21750). No seu interior e ao lado, surgem oficiais com fardas e óculos escuros, exibindo uma postura rígida, fria e de autoridade. Eles representam o comando militar que impõe as ordens de fora.

  • Os Soldados e os Canhões (Ao Fundo e à Direita): Na secção amarela e escura, veem-se silhuetas de soldados de infantaria com capacetes e baionetas caladas a avançar por entre a vegetação rústica da ilha. A expressão do soldado em destaque é sombria e cansada, refletindo o termo "truppas de masellu" (tropas de matadouro/carne para canhão).

  • A Cruz Vermelha de Madeira: No topo, fixada diretamente na parede de pedra original acima da pintura, ergue-se uma cruz de madeira pintada a vermelho. Este elemento reforça o tom de luto, martírio e o sacrifício a que a comunidade e a sua terra foram submetidas devido à presença dos polígonos de tiro.

2. O Contexto Político: A Revolta de Pratobello

Em junho de 1969, o exército italiano planeou ocupar de forma permanente a zona de Pratobello (perto de Orgosolo) para exercícios militares. A população — dependente da pastorícia para sobreviver — recusou-se a abandonar as suas terras. Num ato extraordinário de resistência pacífica e não violenta, milhares de cidadãos (incluindo muitas mulheres e crianças) ocuparam os campos de tiro, colocando-se à frente dos tanques e dos soldados. O exército acabou por recuar.

Este mural imortaliza esse choque cultural e político: a oposição irreconciliável entre uma comunidade pacífica que quer cultivar a terra e um Estado que a quer usar como palco de simulação de guerra.

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