Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

.

«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

domingo, 28 de agosto de 2016

barqueiros de barcelos


foto em http://www.barqueiros.maisbarcelos.pt/


* Victor Nogueira


A finalidade era ir até Esposende e Apúlia mas como já era tardia a hora em que pus rodas a caminho e para evitar a morosidade do pára-arranca da Estrada Nacional  resolvi seguir pela A28 e dou por mim na A11 rumo a Barcelos. Saio em "Barqueiros", que me parece uma povoação interessante  e desafogada à beira da  estrada, em cuja zona central se encontram uma igreja, uma bomba de gasolina e uma alameda ajardinada. Ignoro a razão de ser do nome dos lugares de Barqueiros e das Necessidades. 

Conduzir para oeste nestes dias de longo entardecer e com sol baixo a encandear - mesmo que de óculos escuros - é incómodo e perigoso por estas estreitas e sinuosas estradas secundarias. 

Estaciono junto à Igreja e dou início ao meu périplo fotográfico desde o Santuário de N. Sra das Necessidades até à alameda fronteira e ajardinada, com bancos a esta hora desocupados e um parque infantil onde brinca uma solitária criança acompanhada por um adulto. É neste jardim que se realizará dentro de poucos dias a Romaria e nele está uma escultura enaltecendo a vitoriosa luta das populações contra a extracção de caulino no que ficou conhecido como Guerra do Caulino ou Guerra dos Caulinos. O caulim ou caulino é um abundante minério composto de silicatos hidratados de alumínio, como a caulinita e a haloisita, e apresenta características especiais que permitem sua utilização na fabricação de papel, cerâmica, borracha, e tintas, entre outras aplicações, 

Ladeando a alameda (Avenida Arcebispo Dr. Gaspar Bragança) - que é o Terreiro do Santuário - casas de dois pisos, a maioria bem-conservadas, algumas com a pedra aparelhada à mostra. Junto à Igreja há uma edifício brasonado mas nas pesquisas posteriores nenhuma referência a ele encontro. Vários cafés estão abertos com as esplanadas vazias pois a tarde pôs-se frescalhota. Resolvo entrar na Pastelaria Rosa Brilhante, num mini centro comercial com a maioria das lojas vagas. Na pastelaria os bolos são uma tentação ao olhar. Compro dois que não sei como se chamam, um deles bem saboroso, com agradável mistura de paladares, mas ambos demasiado doces.


Na freguesia, habitada desde tempos imemoriais, existiu uma exploração aurífera romana ou mesmo anterior, que depois de abandonada acabou por ser naturalmente inundada dando lugar a uma lagoa e a um povoado  denominado Lagoa Negra. Segundo o site da freguesia  "nos arredores há vestígios de mamoas como a mamoinha da Rocha que serve de marco de limite da freguesia, o castro de S. Félix e o de Terroso da época castreja e a povoação de Barqueiros da época romana, indiciando uma intensa ocupação humana desde a antiguidade."  Mas esta  informação só a obtenho ao pesquisar na internet posteriormente e a Cividade de Terroso já foi por mim visitada  em anos anteriores.

Acabada a visita rumo a Apúlia para apanhar a Estrada Nacional e com trânsito lento especialmente nos abarrotados restaurantes à beira da estrada na zona de Estela, atravesso Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Na Póvoa e no largo do Município ou Praça do Almada há festa, tendas e movimento de transeuntes mas prossigo o caminho de regresso ao Mindelo.



LUSITANIATV  Carregado a 02/12/2009
Barqueiros Junho 1989 Guerra dos Caulinos






Santuário de Nossa Senhora das Necessidades, do séc XVIII
























Ficou célebre durante a década de 1980 pelos protestos da população contra a extracção de caulino a céu aberto no centro da localidade, um episódio longo que ficou conhecido como a Guerra do Caulino ou Guerra dos Caulinos. Iniciado em 1986 este conflito foi-se arrastando até se saldar na morte de um rapaz em 1989. (wikipedia)





A festa em honra da Nossa Senhora das Necessidades é conhecida no país inteiro.
As Festas atraem  milhares de forasteiros que visitam Barqueiros nos dias 6, 7 e 8 de Setembro, destacando-se  a procissão, a corrida de cavalos, as bandas de música e a queimada das Vacas de Fogo, cujo significado não consegui apurar.
















Para os curiosos aqui fica algo sobre esta freguesia, respigado da Wikipedia. "A paróquia de S. João de Barqueiros já aparece referenciada em 1059 no livro de D. Mumadona, no inventário das igrejas de Guimarães. Porém, somente abrangeria os actuais lugares de Barqueiros, Jouve e parte de Prestar. A maior parte da área da atual freguesia pertencia ao território de Lagoa Negra. A razão de existir uma tão minúscula paróquia só se justificará pela sua importância económica e estratégica na época romana, na altura em que ainda existiria o lago alimentado pelo rio Cávado.

Barqueiros não aparece nas inquirições de 1220. Contudo, aparece nas de 1258 (D. Afonso III) e 1288 (D. Dinis). Nestas é referido o lugar de Jouve. Lagoa Negra (Lacona Nigra) aparece referenciada em 1108 no Liber Fidei, na localização de uma propriedade nas proximidades de Criaz (Apúlia) e Contriz (Estela). Também não aparece nas inquirições de 1220. Aparece nas inquirições de 1258, nas quais, curiosamente, os inquiridores propuseram a constituição de uma paróquia. Nas inquirições de 1288 aparece com a descrição dos seus limites que iam para sul da atual estrada da velha igreja paroquial ao atual Santuário de N.ª Sr.ª das Necessidades até Laúndos.

(...) Durante séculos a freguesia estruturou-se ao longo dos vales periféricos: lugares de Prestar, Jouve, Barqueiros (ou Igreja), Vilares e Lagoa Negra. O núcleo mais povoado na atualidade: Necessidades, Terreiro das Necessidades, Abelheiros, Telheiras e Godo eram territórios despovoados e baldios. Mesmo o alto do Monte de Bassar do Couto de Apúlia – onde está o Santuário das Necessidades – era despovoado e com muitos baldios no séc. XVIII.

Note-se que o Monte de Bassar ou Aldeia de Bassar englobava os lugares de Cerqueiras, Bassar e Talhos. Era administrado pela Câmara do Couto de Apúlia e era meeiro entre as paróquias de S. João de Barqueiros e Salvador de Cristelo.

(...) No início do séc. XVIII, no local do primitivo povoado romano de Barqueiros só existia a igreja paroquial. Como estava decadente e em sítio ermo foi ordenada a sua transposição, em 1720, para a colina imediata a poente, para junto do povoado. Aí se situava o centro cívico de Barqueiros.

A velha igreja de Barqueiros manteve-se igreja matriz até 1931. Neste ano passou para o Santuário das Necessidades, após uma década de lutas entre fações a favor e contra essa passagem.

A deslocação do centro da freguesia, do lugar de Igreja ou Barqueiros para as Necessidades, iniciou-se com a divulgação local do culto a Nossa Senhora das Necessidades e consequente construção do respetivo Santuário. A iniciativa deveu-se a Frei João Veloso de Miranda Matos Godinho e Noronha que trouxe de Lisboa uma imagem e a colocou num nicho próximo à Quinta da Torre de Bassar, quinta dos seus antepassados Velosos de Miranda que durante gerações foram escrivães do Couto de Apúlia.

Apregoadas as graças e virtudes gerou um grande movimento de peregrinos e avultadas esmolas que deu para iniciar a construção do Santuário por volta de 1746. A sagração deu-se em 1762, ainda sem retábulo-mor. Este foi projetado em 1774 pelo conhecido arquiteto bracarense, Carlos Amarante.

Construído em Bassar, junto aos limites de Barqueiros, num local de bouças pouco produtivas, era constantemente visitado por devotos, sendo o maior afluxo por ocasião da romaria, nos dias 7 e 8 de setembro e domingo seguinte a estes dias. Tal facto motivou a doação de uma vasta área de terreno – o atual Terreiro – para as romarias, por parte do Arcebispo D. Gaspar de Bragança. Estas festas foram, na segunda metade do séc. XVIII e séc. XIX, das mais afamadas da região, havendo registos de romeiros vindos da região costeira entre a Maia e Viana do Castelo.

A partir de 1800 inicia-se a construção de moradias na orla norte do Terreiro em lotes de terreno pertencente ao Santuário, denominado Bouça da Senhora das Necessidades.

Em 1812 o Terreiro aparece referenciado como rodeado de casas, havendo algumas destinadas ao apoio dos viajantes. Nas proximidades, aproveitando oportunidades de negócio com o movimento de peregrinos e romeiros, surgiu um importante centro produtor de telha e tijolo que deu origem ao atual lugar de Telheiras.

O Santuário, a nível regional, influenciou também o desenvolvimento de novas estradas. Logo em 1759, a confraria que ainda administrava o Santuário (ainda em construção) pede ao rei D. José uma ponte para a lagoa das Necessidades, entre Rio Tinto e Cristelo, em direção a Vila Seca e Barcelos. Mais tarde a importância desta via foi realçada com a nova estrada real (n.º 30), da Póvoa de Varzim a Valença, passando pelas Necessidades e Barcelos. Esta, em 1868, andava em construção na zona das Necessidades." (wikipedia)




 Canal de BARRAQUINHALDA Carregado a 08/09/2010
Procissão de N.ª Sr.ª das Necessidades
08/09/2010




Canal AV   Carregado a 11/09/2010
Representação da chegada dos romeiros à tradicional romaria a Nossa Senhora das Necessidades, em Barqueiros - Barcelos, realizada pelo Rancho Etnográfico "A Telheira" e Necessidades Futebol Clube



  •  

       Vaca de fogo - Barqueiros

Sem comentários: