Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Troino - duas casas com história

* Victor Nogueira

No Bairro do Troino, de pescadores e de gente do mar, entre outros distinguem-se dois edifícios, ambos muito degradados: o Palácio Feu Guião, armoriado, no antigo Largo da Fonte Nova, com obras de recuperação que muito provavelmente aproveitarão apenas a casca exterior, e a casa onde teria nascido a cantora lírica Luísa Todi, na Rua da Brasileira, com a fachada pintalgada onde uma lápide e um baixo relevo evocam o facto.

O palacete, construído em meados do séc. XVIII, tem grande simplicidade arquitectónica, ostentando na fachada o brasão da família, contrastando num largo relativamente desafogado face às estreitas e por vezes tortuosas ruas desta zona que foi arrabalde medieval, com as suas modestas habitações. O "Palácio da Adeantado", outro nome pelo qual é conhecido, deve-se ao papel interventivo do desembargador José da Rosa, que em ascensão social exercia as funções de adiantado (adelantado) do reino quando mandou edificar o imóvel e deste modo marcava e afirmava a sua  posição.

Se o terramoto de 1755 e subsequente tsunâmi arrasaram a então Vila de Setúbal incluindo o Troino, o de 1969 arruinou e tornou inabitável o Palacete que tomara o nome da família que o mandou construir

Nesta zona e também neste Palácio se desenvolve o enredo do romance histórico  «As Mulheres da Fonte Nova» de Alice Brito, no século XX e numa cidade operária cercada/oprimida pela repressão do patronato e das forças policiais, como testemunha o vizinho monumento à operária conserveira  Mariana Torres.

Diferente foi a história de Luísa Todi, meio-soprano que ao contrário do libertino poeta Bocage não foi perseguida pela Inquisição e pela Real Mesa Censória, mas que também morreu na miséria depois de brilhar no fausto das cortes e teatros da Europa. 











Os taipais por detrás dos quais se realizam as obras de recuperação do Palácio Feu Guião







O Palácio Feu Guião cerca de 2012 / 2013






Casa onde nasceu Luísa Todi, na Rua da Brasileira nº 49


O mesmo edifício cerca de 2012 / 2013



Rua da Brasileira, vista da Rua da Batalha do Viso



Ruínas do Palácio  Feu Guião  (Google Earth)


Palácio  Feu Guião no Largo da Fonte Nova  (Google Earth)


Largo da Fonte Nova e Rua da Brasileira (Google Earth)


 Luísa Todi (1753 / 1833), cantora lírica setubalense, na avenida homónima. O monumento inaugurado em 1933 foi desenhado por Abel Pascoal, esculpido por Leopoldo de Almeida e construído por Abílio Salreu


Monumento à operária conserveira Mariana Torres, no Largo da Fonre Nova, escultura de Jorge Pé-Curto

fotos em 2017.05

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