Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

sábado, 28 de maio de 2011

"Cem vezes Nguyen" de Alfredo Jaar - exposição fotográfica


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Alfredo Jaar, Cem Vezes Nguyen - PhotoEspaña 2011
O rosto de uma menina vietnamita repetido cem vezes pelo olhar do artista Alfredo Jaar. O Museu Colecção Berardo, em Lisboa, apresenta mais uma exposição PhotoEspaña. Até 28 de Agosto.
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Em 1991, Alfredo Jaar viajou até Hong Kong para visitar campos de refugiados vietnamitas e entrevistar alguns oficiais do Governo de Hong Kong e das Nações Unidas. Nos dez dias que aí esteve fez muitas imagens, mas foi detido por uma criança que, enquanto visitava o Centro para Refugiados Pillar Point, o perseguiu, silenciosa. Pediu-lhe para fazer o seu retrato, a criança acedeu. E Jaar tirou cinco fotografias com cinco segundos de intervalo entre cada imagem. Foram essas as imagens que escolheu publicar como reflexo de toda a sua experiência. As cinco fotografias, repetidas cem vezes, deram origem à obra "Cem Vezes Nguyen" (1994), em estreia por cá.


PÚBLICO






EXPOSIÇÃO

Alfredo Jaar. O fotógrafo que quer perceber o mundo

por Diana Garrido, Publicado em 28 de Maio de 2011   
Desde ontem estão no CCB cem fotografias de uma criança vietnamita num campo de refugiados. O autor explica os retratos
"Sou artista porque a arte me ajuda a entender o mundo." 


Todos os dias, durante duas horas, o fotógrafo, arquitecto e artista chileno Alfredo Jaar lê, ouve e vê noticiários. Fica a par de tudo o que se passa no mundo. Mas nem por isso o entende imediatamente. Em 1991, viu nas notícias que um grupo de refugiados vietnamitas em Hong Kong estavam a ser obrigados a regressar ao Vietname, contra sua vontade. Um dos refugiados, uma espécie de porta-voz dos 80 mil que recusavam o repatriamento, ameaçou um suicídio colectivo. Jaar impressionou-se e imaginou 80 mil pessoas a suicidarem-se em grupo. Pegou na máquina fotográfica e foi para Hong Kong, onde passou dez dias a visitar e a estudar os centros de detenção de refugiados. 




Foi lá que conheceu Nguyen Thi Thuy, uma criança nascida no campo de refugiados. "Durante uma dessas minhas visitas ao pilar Point Refugee Centre fui seguido por uma menina. Ela não falava comigo, limitava-se a seguir-me. A certa altura pedi permissão para a fotografar. Ela concordou", explica Alfredo Jaar no texto de apresentação da exposição "Cem Vezes Nguyen", que abriu ontem ao público no Museu Berardo, no CCB, em Lisboa.




Durante a visita, Jaar tirou 1378 fotografias de tudo o que viu. Durante três anos estudou as imagens, até encontrar as cinco fotografias de Nguyen, tiradas com cinco segundos de intervalo. "O meu objectivo é comunicar a experiência aos espectadores", explica aos jornalistas. "Percebi que a rapariga era a essência de tudo o que vi", continua. Assim, não estranhe quando entrar na sala da exposição e der de caras com quatro retratos da pequena vietnamita, repetidos cem vezes, quatro a quatro, em sequências diferentes. Uma homenagem às crianças nascidas nos campos de refugiados. 




No primeiro retrato, segundo Jaar, Nguyen tem um sorriso sincero. No seguinte, apenas cinco segundos depois, nota-se que é já um sorriso forçado, assim como no terceiro. O quarto mostra "a melancolia de uma menina que nunca viu o mundo fora do campo de refugiados e que não sabe como vai ser o seu futuro", explica Alfredo Jaar. "O objectivo é que o espectador passe tempo com ela, para que a humanize."




O resultado da organização do espaço da exposição é uma espécie de "templo para esta menina, que ninguém conhece".




"Cem vezes Nguyen", que começou por ser um livro e se transformou, pela primeira vez e em Portugal, em exposição, faz parte do PhotoEspaña 2011, que inaugura em Madrid no dia 1, com 66 mostras de 370 artistas de 55 países.




Quanto a Nguyen, que andou silenciosa de mão dada com Jaar durante o resto da visita ao Point Refugee Centre, não se sabe onde está nem que idade tem. "Este é um retrato de um momento que passou e não volta mais", diz Jaar. "Como a definição de saudade", acrescenta. 




Alberto Jaar


Nasceu em Santiago do Chile em 1956 mas vive em Nova Iorque. É arquitecto, artista e fotógrafo. Conhecido pelas instalações que complementa com fotografia, é uma espécie de repórter artístico de toda a espécie de acontecimentos políticos e bélicos. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é o "Rwanda Project", sobre o genocídio de 1994 no Ruanda. Para a exposição, que era mais uma instalação, entre vídeos e palavras, Jaar escondeu fotografias de Tutsis massacrados dentro de uma caixa que por fora tinha escrito o nome e a história da pessoa cuja imagem estava escondida. A ideia não era mostrar o horror do corpo massacrado, mas sim quem era aquela pessoa.


reconhecimento Jaar recebeu dois dos mais importantes prémios artísticos nos EUA: em 1985 foi o Guggenheim Fellowship e em 2000 o MacArthur Fellow.




As suas obras já correram mundo e foram expostas em locais como o Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque, a Bienal de Arte de Veneza, o Museu de Belas Artes de Lausanne ou o South London Gallery.




O artista estudou Cinema no Instituto Chileno Norteamericano de Cultura, em 1979, e arquitectura na Universidade do Chile, em 1981, mudando-se depois para Nova Iorque. Todo o seu trabalho gira em torno da necessidade de apresentar a realidade com outros olhos e de expor as injustiças e sofrimento aos quais as pessoas são submetidas por todo o mundo. 




Foi com o seu primeiro trabalho "Gold in the Morning", sobre os efeitos da indústria das minas de ouro na vida nos trabalhadores da floresta tropical brasileira, que conseguiu reconhecimento mundial. Toda a exposição foi inspirada num artigo de jornal que falava desta indústria e de como parte da floresta tropical estava ameaçada e esventrada graças ao ouro. No entanto, para este artista, são as pessoas que realmente importam. É a vida delas que Jaar procura e fotografa.




"Cem Vezes Nguyen"
Museu Colecção Berardo, CCB, Lisboa. Até 28 de Agosto. Todos os dias das 10h00 às 19h00; sábado das 10h00 às 20h00. Entrada livre
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Museus



Alfredo Jaar expõe no Museu Berardo

"Cem vezes Nguyen" de Alfredo Jaar, um trabalho no âmbito da Photo España 2011 está patente no Museu Berardo

Nascido em 1956 em Santiago do Chile, Alfredo Jaar tem a arte de fazer as perguntas incómodas da maneira mais simples e factual.

Numa das suas peças emblemáticas, pela primeira vez apresentada em Portugal, lança uma das mais pertinentes interrogações que é possível formular sobre o mundo complexo em que vivemos.

Cem vezes Nguyen (1994) é uma espécie de álbum de recordações da sua visita a um campo de refugiados vietnamitas, em Hong Kong, em 1991, onde o artista encontrou a pequena Nguyen Thi Thuy. Em homenagem às crianças nascidas nos campos, e de entre as 1378 fotografias tiradas durante a sua estada, ele escolheu publicar apenas o retrato desta menina, repetido cem vezes. Alfredo Jaar fotografou-a cinco vezes, com cinco segundos de intervalo entre cada imagem. Como dizia o filósofo francês Jacques Rancière a propósito de uma outra obra de Alfredo Jaar – Rwanda Project (1994-2000), em que usava imagens de Tutsis massacrados que colocava dentro de uma caixa –, “a imagem estava escondida, mas a caixa trazia escrito o nome e a história da pessoa. Jaar mostrava assim que aquele milhão de vítimas era um milhão de indivíduos, que não estávamos perante uma massa indistinta predestinada à vala comum, mas diante de corpos com a mesma humanidade do que nós.”


Alfredo Jaar é um fotógrafo que recusa mostrar os fotografados como uma massa distante, indivíduos com os quais não tem nada a ver.

Num dos seus primeiros trabalhos, um dos que logo lhe trouxeram o reconhecimento internacional , "Rushes (1986)", havia uma imagem de um jovem mineiro brasileiro que o artista comentava assim: "Gosto da maneira como ele olha o fotógrafo, me olha, vos olha."




Zita Ferreira Braga




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