Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os momentos Kodak podem não se repetir



Correio da Manhã
Histórias

Eduardo Gageiro - Em 1972 conseguiu o exclusivo do massacre nos jogos olímpicos de Munique

A empresa que popularizou as fotografias pediu falência. O fotógrafo Eduardo Gageiro não quer ficar sem os rolos Tri-X
Por:Marta Martins Silva
   
A primeira fotografia que tirou, aos 12 anos, escolheu imortalizar um pastor e um moleiro. Sentiu o impulso e fotografou, tal como hoje, tantos anos e tantas fotos depois, continua a acontecer. Seguiu-se um pescador a coser redes no rio Trancão e dezenas de outras fotos registaram também, com a mesma máquina, os empregados da fábrica de loiça de Sacavém, onde também ele começou a trabalhar aos 13 anos.
Eduardo Gageiro, o fotógrafo português mais premiado, gosta de dizer que as circunstâncias – "ter nascido em Sacavém, ter convivido com as pessoas da fábrica", gente de trabalho e luta – o moldaram, bem como à sua forma de encarar a vida e de fotografar. Mas a verdade é que a Kodak ‘baby’ de plástico, a máquina que um tio ofereceu ao irmão Armando, uns anos mais velho, também teve a sua quota-parte de responsabilidade no início de um gosto que se fez profissão.
No ano em que Eduardo nasceu, em 1935, a Kodak começou a fabricar o rolo que permitia fotografias a cores, mas, curiosamente, ele sempre preferiu fotografar a preto e branco. "Talvez seja a minha forma de ver a vida" – diz sem razão o homem que sobreviveu a um cancro com muitas fotografias e horas de revelação no laboratório a ajudar. É desses rolos, os Tri-X, com que continua a fotografar sempre que o momento pede, que vai ter saudades se a empresa Eastman Kodak, que declarou falência em meados do mês, para reorganizar os negócios, chegar a fechar as portas.
UMA QUESTÃO DE ALMA
Fundada em 1888, a Kodak desempenhou um papel fulcral na transformação da fotografia em passatempo popular, mas nunca soube criar raízes na era digital, caminhando para um fim de certa forma esperado. Agora, a ideia da empresa centenária é reforçar a liquidez nos Estados Unidos, rentabilizar a propriedade intelectual não estratégica e resolver a situação dos passivos, concentrando-se nos negócios mais competitivos. "Tenho esperança de que, ainda que feche, a Kodak crie um departamento para fazer os rolos ou que, em último caso, venda a patente, porque não me consigo imaginar a trabalhar sem eles. A digital facilita muito, mas não é a mesma coisa porque aos computadores falta a alma", o ver nascer uma imagem como quem dá à luz um filho.
Gageiro anda sempre com dois ou três rolos Kodak no bolso e já procurou saber em várias lojas se podia comprar uns quantos, para ter de reserva não vão eles desaparecer. Os Tri-X – que começou a usar mal apareceram em Portugal – proporcionaram-lhe muitas e célebres fotografias que correram o Mundo em exposições, foram premiadas e nunca lhe saíram da memória. Porque as imagens que a lente de um fotógrafo capta dificilmente são apagadas "do computador que é o cérebro".
Diz Gageiro que os ditos rolos "foram a possibilidade de fotografar em situações-limite sem flash. Houve muitas situações em que, se não os tivesse, não tinha nenhuma fotografia".
Em 1972, quando uma soma de sorte e estratégia o fez ter o exclusivo do massacre nos Jogos Olímpicos de Munique [quando um grupo de terroristas sequestrou e assassinou atletas israelitas], o rolo responsável pela fotografia que correu Mundo, trazido para Lisboa e para a primeira página do jornal ‘O Século’, por um treinador de luta greco-romana, era Kodak.
"A delegação portuguesa estava num 16º andar, eu consegui ir lá acima disfarçado e consegui apanhar o momento. Aquilo estava praticamente às escuras e eu não podia disparar flashes senão levava um tiro, dei oito avos de segundo, o diafragma todo aberto, mas ainda telefonei para Lisboa a pedir para puxarem aquilo a 1600 ISO, algo só possível de fazer com aqueles rolos, que dão uma segurança incrível de que não vão falhar a quem está a fotografar".
Os mesmos rolos acompanharam a lente de Eduardo Gageiro na Revolução de Abril – a fotografia simbólica de um soldado a retirar o quadro de Salazar da parede também foi ajudada pelos Tri-X no dia seguinte ao 25 de Abril; no quadro de sofrimento com que se deparou no Iraque; nos olhos das crianças à espera de tratamento hospitalar no pós-guerra em Timor.
O fotógrafo viu e registou muitos olhos, ao longo dos anos, para a posteridade. Viu olhos célebres, viu Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga (que fotografou com meias junto a uma braseira), viu Salgueiro Maia (que acompanhou no 25 de Abril), viu Grace Kelly e Amália Rodrigues, viu Orson Welles e Gina Lollobrigida. Viu até, e registou, o beijo da governanta Maria a Salazar no enterro deste, dentro do caixão.
Viu também olhos anónimos, tristes ou felizes, "mas sempre dignos". As mulheres da Nazaré, de lenço escuro à cabeça, descalças, a puxar os barcos do mar, os trabalhadores rurais, as crianças deste e do outro lado do Mundo, sozinhas ou ao colo das mães, o amor universal e intemporal de uns e de outros e a ressaca das dificuldades e das guerras. Viu os embarques para as colónias, os peregrinos de Fátima, os fiéis da Santa da Ladeira, viu o Portugal real através da lente e o mundo que a maioria dos portugueses nunca viu.
O facto de ter começado a trabalhar em jornais aos 20 anos (mais tarde haveria de colaborar com a Associated Press e de ser o fotógrafo oficial da Presidência e da Assembleia da República) ajudou a peregrinação pelos grandes acontecimentos. Antes da Revolução, chegou a ser preso pela PIDE, no Forte de São João do Estoril. "Diziam-me: temos um país tão bonito, por que é que você não fotografa as paisagens em vez das pessoas?".
Na casa onde vive, na terra onde nasceu e começou a fotografar, tem cerca de duzentas máquinas – muitas Kodak, entre elas "o popular caixote", "algumas do tempo em que se faziam máquinas para senhora e máquinas para homem" – de outras épocas. Épocas em que ainda não era sequer nascido, quanto mais fotógrafo. Guarda 170 mil negativos, muitos momentos, outras tantas pessoas. E, apesar da Kodak garantir em 1888, quando surgiu como marca, "carregue no botão que nós fazemos resto", Eduardo Gageiro sempre fez mais do que carregar no botão.
O COLECCIONADOR DE MÁQUINAS
Luís Santos, de 48 anos, é director financeiro de uma empresa, mas nos tempos livres procura nos sites e leilões, na internet plantados, máquinas fotográficas antigas, que restaura ("se o estrago não for muito grande") com paciência e devoção, "ajudado por uma ferramenta de joalheiro". Uma das marcas a que dedica mais atenção é precisamente a Kodak – entre as várias da sua colecção contam-se uma Kodak n.º 3 Autographic "G" de 1914, uma Kodak n.º 3-A folding Brownie de 1909 e uma Kodak n.º 3-D folding Brownie com tripé de madeira de 1904, entre outras.
A mais antiga que ‘recolheu’ foi uma Rochester Camera Mfg. Co. - Cycle Poco n.º 2 , de 1896, marca adquirida pela empresa da Kodak posteriormente. A mais cara custou-lhe 800 dólares (cerca de 600 euros) e estava a precisar de restauro. "Não cometo grandes loucuras e também não gastei nada com o objectivo de fazer negócio, é apenas por gosto. Sei que se algum dia quiser reaver o dinheiro, consigo facilmente".
NOTAS
HISTÓRIA
A Kodak sobreviveu a duas guerras mundiais, revoluções e convulsões sociais, mas não ao digital.
LUCRO
2007 foi a última vez que a Kodak deu lucro. Em 1976 tinha uma quota de 90% do mercado.
FECHO
Desde 2003 a Kodak eliminou já 47 mil postos de trabalho, encerrou 13 fábricas e 130 laboratórios de revelação.  


continua em


O olhar de Eduardo Gageiro

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