Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A foto do ano do World Press Photo, captada por Samuel Aranda


Correio da Manhã
Panóptico

Imagens que chegam ao fundo da memória

A foto do ano do World Press Photo, captada por  A foto do ano do World Press Photo, captada por Samuel Aranda  em Outubro de 2011 numa mesquita na capital do Iémene que servia de hospital de campanha aos rebeldes em protestos contra o presidente Ali Saleh, mostra uma mulher segurando um homem nos braços.
Por:Eduardo Cintra Torres (ectorres@cmjornal.pt)
12 Fevereiro 2012
A imagem trouxe à memória a foto que ganhou o mesmo prémio em 1997, captada por Houcine Zahouar em Bentalha, nos arredores da capital da Argélia e mostrando uma mulher no momento em que sofre a notícia de que os seus filhos foram chacinados por extremistas islâmicos.
As duas fotos assemelham-se. Primeiro, pelo tema: mostram casos humanos, concretos, de sofrimento resultante de conflitos político-religiosos em países muçulmanos. Segundo, pelas protagonistas: em cada uma, uma mulher. Na foto de 1997, a mulher que chama o nosso olhar desfalece perante a pior tragédia que pode acontecer a uma mãe. Na de 2011, cabe à mulher amparar o familiar sofredor.
Terceira semelhança: a beleza da composição. Quarta: o véu. Transmite, pelo menos aos olhos ocidentais, um carácter religioso às imagens. Através dele, ambas ganham intemporalidade: apesar de se saber o dia exacto em que foram captadas e a que acontecimentos elas se referem, estas imagens também são de sempre, remetem para o nosso DNA, como comentou alguém.
No Ocidente convocam também o DNA religioso: ambas as fotos se associam sem hesitação a imagens da representação da paixão de Cristo. A imagem de 1997 assemelha-se às representações de Maria desmaiando aos pés da cruz e amparada por Maria Madalena; essa semelhança levou muitos observadores em 1997 a chamar a esta foto "a madona de Bentalha", assim associando a iconografia cristã de Maria aos pés da cruz com a mãe muçulmana dos arredores de Argel. A imagem de 2011, como toda a imprensa referiu, aproxima-se das representações do momento da descida da cruz, em especial a Pietà de Miguel Ângelo no Vaticano. Esse momento não se encontra nos Evangelhos, mas a Pietà e a imagem agora premiada parecem dizer: poderia estar. As duas fotos de mulheres muçulmanas convocam o momento cristalizado no hino católico Stabat Mater, do século XIII. A foto de 2011 distingue-se pela invisibilidade dos dois rostos, um tapado pelo véu integral, outro escondendo-se nele, mas é essa mesma invisibilidade que acrescenta uma impressionante universalidade à imagem. Tal como a escultura de Miguel Ângelo faz do caso particular de Jesus Cristo e de Maria um exemplo universal, a foto no Iémene transcende o caso daqueles dois seres humanos, fazendo-o de nós todos.

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