Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sem-teto fotografam cotidiano de Düsseldorf em projeto de Thomas Struth

Cultura | 18.08.2009 | DW World

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O fotógrafo alemão Thomas Struth se uniu aos desabrigados de Düsseldorf para mostrar uma face desconhecida da cidade: os sem-teto receberam câmeras para documentar o dia-a-dia.

Thomas Struth e Rudolf Druschke formam uma dupla inusitada. O primeiro é um artista reconhecido internacionalmente e um importante fotógrafo alemão da atualidade. O segundo ganha sua vida com a venda da Fifty-Fifty, uma revista criada em Düsseldorf com o objetivo de garantir uma renda à população de desabrigados.

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Druschke conheceu Struth há cinco anos, no início do projeto hoje denominado Desabrigados Fotografam Transeuntes. A ideia inicial era a de entregar aos sem-teto de Düsseldorf uma câmera fotográfica e pedir para que registrassem o universo pelo qual circulam, as ruas onde costumam ficar, bem como as pessoas que por ali passam.

Maioria dos participantes do projeto continua nas ruas.

Bildunterschrift: Maioria dos participantes do projeto continua nas ruas

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Struth deu pessoalmente aulas aos participantes, cujos trabalhos estão expostos no Museu da Cidade de Düsseldorf (Stadtmuseum). "Ele é um perfeccionista absoluto. Eu poderia fazer uma foto atrás da outra, que ele ainda me pedia para tentar mais uma vez", conta Druschke ao comentar o trabalho com Struth.

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Projeto bem-sucedido

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O "ponto" de Druschke fica na região central de Düsseldorf, nas proximidades de uma loja de departamentos. Com seus cinquenta e tantos anos, um rosto tranquilo, olhos vivos e um sorriso acolhedor, o desabrigado é uma espécie de "tesouro local", que construiu um grupo assíduo de clientes na área. Esses procuram o desabrigado mais por sua forma de divulgar a revista que vende do que pelo conteúdo da própria.

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"O Thomas Struth pareceu chocado com o fato de que eu tenha mesmo acabado nas ruas. Ele ficou me perguntando como isso tinha sido possível. Acho que aprendeu muito com o projeto e muito sobre as pessoas", conta Druschke.

Trabalhos de Struth da equipe de 'Fifty-Fifty', revista dos sem-teto de Düsseldorf.

Bildunterschrift: Trabalhos de Struth da equipe de 'Fifty-Fifty', revista dos sem-teto de Düsseldorf

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A história do sem-teto Druschke é semelhante à de vários outros participantes do projeto conduzido por Struth: uma tragédia familiar leva ao alcoolismo, o vício faz com que a pessoa perca primeiro o emprego, depois então a casa, além de destruir a relação deste com mulher e filhos.

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Encorajado pela amizade e pelo apoio de seus clientes, Druschke conseguiu, agora, dar a volta por cima. Encontrou uma nova namorada e está trabalhando no projeto de um livro – uma autobiografia e uma coletânea de histórias contadas pelas pessoas que encontrou na rua, conta o próprio. Um dia, espera ele, seus filhos irão ler este relato e compreendê-lo melhor.

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Uma visão diferente

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Outros dos desabrigados envolvidos no projeto de Struth não tiveram a mesma sorte. Vários deles, cujos trabalhos podem ser vistos na exposição do museu em Düsseldorf, morreram neste ínterim, em consequência do abuso de drogas e álcool. Para muitos outros, a vida na rua continua sendo uma luta diária pela sobrevivência.

Visão singular: fotógrafo se une a desabrigados.

Bildunterschrift: Visão singular: fotógrafo se une a desabrigados

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A mostra Desabrigados Fotografam Transeuntes retrata a cidade através dos olhos daqueles que costumam parecer invisíveis para a maioria da população. Muitas vezes, os sem-teto mostraram, em suas fotografias, consumidores apressados andando pelas ruas da cidade, completamente alheios à presença do desabrigado munido de uma câmera fotográfica.

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Outros registraram retratos afetuosos, sejam de uma mulher grávida que acaricia carinhosamente a barriga ou a transeunte que se aproxima de tal forma da câmera, causando a impressão de que seu rosto vai "saltar" do papel.

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"A vida nas ruas é dura", conclui Druschke, "mas um rosto afável faz uma grande diferença".

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Autora: Kate Laycock

Revisão: Simone Lopes

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