Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Santa Susana (Alcácer do Sal)

 * Victor Nogueira

Pequena aldeia, onde parava a camioneta a caminho do Torrão, de casas brancas com rodapés, molduras e cunhais pintados de azul e uma igreja no topo do largo arborizado. Foi uma terra com alguma importância, com a sua sala de cinema, entretanto encerrada devido à concorrência da televisão e à emigração, como em muitas aldeias, vilas e cidades por esse país fora. (Memórias de Viagem, 1997) 

Esta foi a memória que registei no meu livro "Viagens - memórias e registos - Ibéria" (1ª edição 2020 Janeiro), ilustrada com a imagem dum postal ilustrado e uma foto extraída de "Alcácer do Sal” – Edição da Região de Turismo de Setúbal, Costa Azul, 2001.03.

"Alcácer do Sal” – Edição da Região de Turismo de Setúbal, Costa Azul

Postal ilustrado (Colecção VN)

Regresso a Santa Susana em Agosto de 2021 mas nada reconheço por memória, salvo que é errada a ideia que tinha de a aldeia ficar num desvio da estrada nacional. Seria esta memória relativa a outra aldeia, Santa Catarina, na mesma estrada nacional? A povoação, duma extrema limpeza, tem um ar airoso, desafogado,  com ruas relativamente largas.

Em muitos latifúndios no Alentejo os alojamentos para os trabalhadores, a esmagadora maioria sazonais e temporários, constituíam aglomerados neles encravados como pequenas aldeias. Era assim no latifúndio dos Lince, o Monte da Arouca, foi assim em Santa Susana, na propriedade dos primos Henrique Fernandes e Manuel Louro, nos anos '50 do século XX. Alguns destes povoados tinham Escola Primaria, do Plano dos Centenários (1941 / 1969), e uma Igreja.

Em Santa Susana as famílias foram-se fixando e assim nasceu a aldeia, Em 1940 a freguesia tinha 2 329 habitantes, número que diminuiu paulatinamente até aos 351, de acordo com os Censos de 2011, o que levou à extinção da freguesia em 2013 e sua incorporação na União das Freguesias de Alcácer do Sal (Santa Maria do Castelo e Santiago) e Santa Susana.

A povoação distingue-se pelas suas casas caiadas de branco com barras azuis, a esmagadora maioria térreas, que obedecem a duas tipologias. Algumas delas ostentam na frontaria iniciais, incluindo as dos proprietários do latifúndio. O comércio não existe, dependendo o abastecimento ou das idas a Alcácer do Sal, a 15 km, ou da passagem duma carrinha que se faz anunciar através dum toque característico, de que me lembro das aldeias do Alentejo no tempo em que estudei em Évora. A povoação possui um Café Coelho, propriedade de Sofia Fava, com serviço de take away, e uma outra unidade de alojamento, a Residencial Santa Susana.

Naquilo que presumo tenha sido a Casa do Povo funcionam agora a extensão da Junta de Freguesia, o posto dos CTT e um Centro de Dia. Ao lado, com o pequeno postigo duma bilheteira, está o minúsculo Teatro Comunitário ou "teatrinho", que hoje dá raros espectáculos. Existem duas pérgulas, uma na Rua da Liberdade, outra no Jardim Público, defronte da Igreja de San,ta Susana e confinante com o troço da EN 253 denominado Avenida 25 de Abri.l.

A torre sineira da Igreja assemelha-se-me ao minarete duma mesquita, tendo o templo sido possivelmente construído por iniciativa da Ordem de Santiago  ainda no século XVI. A torre sineira é um acrescento do final dos anos '20 da passada centúria. Defronte existe um cruzeiro de granito e do recheio da Igreja fazem parte dois valiosos  retábulos, ladeando a imagem da Santa. Estes representam a Anunciação (anjo Gabriel revela a Maria que vai dar à luz um menino) e a Natividade (nascimento de Jesus Cristo); os painéis datarão do século XVI e serão obra do célebre Mestre da Lourinhã, responsável por obras semelhantes nas igrejas matrizes de Cascais e Alcochete.  (in Igreja de Santa Susana - Câmara Municipal de Alcácer do Sal) Na povoação existe o Centro de Retiro Budista Tibetano Thubten Phuntsog Gephel Ling.

O povoado tem meia dúzia de ruas e travessas: Ruas de António Paulino Faria Claro, da Eira, da Liberdade, do 1º de Maio, do General Humberto Delgado e de Manuel Martins de Carvalho e as Travessas da Eira, de Catarina Eufémia e da Igreja, para além da Avenida 25 de Abril (troço da EN 253). 

A gastronomia local inclui a açorda de alho, o ensopado de borrego, o achigã frito, as migas com carne de porco e o arroz de cabidela.

Nos arredores, a caminho da albufeira da Barragem do Pego do Altar, encontram-se o cemitério e, mais adiante, um parque de merendas, junto à Fonte dos Pinheiros. Na barragem, um local desabrigado,  realizam-se desportos náuticos,  havendo condições para praticar natação ou patinhar na água.


As casas e as ruas



Pela estrutura, neste edifício deve ter havido uma "venda" - loja no piso térreo e habitação no superior




Placa toponímica - Rua da  Eira


Hitchcokiana


Na Rua 1º de Maio, dissonantes,  estas ruínas de duas casas minúsculas,  com uma única assoalhada e sem janelas, são as únicas na aldeia.


A carrinha da venda, anunciada por um apito peculiar, na Rua General Humberto Delgado. Uma vez por semana, em dia certo, o abastecimento é feito por diferentes vendedores ambulantes: padaria, vestuário, fruta, mercearia e lacticínios ...

Muitas das casas da Rua General Humberto Delgado ostentam uma data na frontaria, dos anos '50 do passado milénio





Rua António Faria Paulino Claro



Rua 1º de Maio








A carrinha da venda, na Rua da Liberdade

Rua da Liberdade
















Polidesportivo (antiga escola primária) e Parque Infantil






As pérgulas, a Igreja matriz e o jardim










Travessa da Igreja - O único ninho de cegonhas encontra-se na torre sineira da Igreja matriz


Cruzeiro



Centro cívico



"coreto"




Penso que outrora  seria a Casa do Povo. Hoje é uma delegação da Junta de Freguesa, posto do CTT e Centro de Dia

Travessa Catarina Eufémia


Teatro Comunitário, conhecido como "teatrinho", presentemente com outras valências


Alojamento e restauração

Café Coelho


Os  arredores


Cemitério





Fonte dos Pinheiros e parque de merendas





Albufeira da Barragem do Pego do Altar




















Google Maps
2021






VER

Fontenários e chafarizes 37 - Alcácer do Sal e Santa Susana


Captação de imagens em 2021 08 07 Canon 195_08

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Fontes 

Santa Susana  http://www.terrasdeportugal.pt/santa-susana

Igreja de Santa Susana  http://www.cm-alcacerdosal.pt/en/municipio/concelho/patrimonio/patrimonio-arquitetonico/patrimonio-arquitetonico-religioso/igreja-de-santa-susana/

Santa Susana: uma aldeia donzela em Alcácer do Sal https://www.e-konomista.pt/santa-susana-alcacer-do-sal/

Santa Susana, menina bonita do Alentejo https://www.noticiasmagazine.pt/2016/santa-susana-a-menina-bonita-do-alentejo/historias/19878/

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