Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Love in Porto: porque “o amor acontece todos os dias”


autoria Manuel Roberto

// data 14/02/2017 - 09:37





Os problemas de Portugal levaram-no à Dinamarca e no país nórdico encontrou inspiração para buscar outro olhar sobre o Porto, a cidade onde aterrou há mais de 20 anos, vindo de Moçambique, e que adoptou como sua. O PÚBLICO estava a fazer uma série de reportagens em países europeus, em busca de 12 ideias para Portugal, e na Dinamarca foi explorar um sistema fiscal modelo. Mas nas ruas de Copenhaga, Manuel Roberto não se focou apenas na economia. Com um sorriso nos lábios, o fotojornalista não pôde deixar de reparar nas manifestações calorosas entre as pessoas. E surpreendeu-se quando um desconhecido quis dar-lhe um abraço. No regresso ao Porto, aquele clique tinha-lhe ficado na memória. E nas ruas da cidade começou a ver "mais manifestações de amor do que via antes". Mais casais, heterossexuais ou homossexuais, novos ou velhos. Assumidos. Mais beijos apaixonados (alguns com direito a pé levantado, como nos filmes), mãos discretamente enlaçadas ou sorrisos cúmplices. Mais olhares vibrantes, mimos tímidos ou expressões de alegria a olhar um ecrã móvel. E assim, sem planos, iniciou uma série de imagens que acabou por baptizar "Love in Porto". O "lado sociológico" da fotografia sempre apaixonou Manuel Roberto. Gosta de fotografar as pessoas e as relações entre elas — e isso ajuda-o a percebê-las melhor. A perceber-se melhor. E também a fugir da redacção e do jornalismo sentado para fazer aquilo que realmente gosta: andar nas ruas a fotografar. No Porto, ficou agradavelmente surpreendido com a abertura das pessoas para se deixarem retratar. Feliz com o facto de não notar olhares preconceituosos em relação a casais homossexuais. O editor de fotografia do PÚBLICO fotografava as pessoas à distância. Depois, aproximava-se e pedia autorização — ora para usar aquele retrato espontâneo ora para fazer um outro, mais assumido, olhos na câmara. Tem guardados os nomes de todos os fotografados, de alguns conheceu a história. Em nenhum momento deixou passar uma história ao lado: "Se vejo algo que quero fotografar fotografo. Nunca me arrependo de não o ter feito", sorri. Sem uma periodicidade assumida — ao contrário do Porto Olhos nos Olhos, um outro projecto que teve durante um ano e no qual se propunha a retratar uma pessoa da cidade por dia —, "Love in Porto" é uma espécie de "exposição virtual" que publica na sua página do Facebook, sempre com imagens a preto e branco, a forma mais "democrática" de fotografar. "É uma maneira de colocar todas as pessoas no mesmo patamar e de fazer com que quem vê se concentre no essencial", explicou ao P3. No fundo, uma maneira de contornar aquilo que chama "síndrome do cachecol de Varoufakis". "Naquele momento em que se discutiam coisas tão importantes na União Europeia as pessoas concentraram-se no cachecol", lamenta: "Se a fotografia fosse a preto e branco talvez isso ficasse, pelo menos, atenuado." O amor está no Porto — como em todos os lugares — e não tem uma data. Assinale-se pois o 14 de Fevereiro, dia dos namorados, e todos os outros. Porque "o amor acontece todos os dias."  

http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/22890/love-porto-porque-o-amor-acontece-todos-os-dias

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