Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vivem na sombra dos políticos


Vivem na sombra dos políticos

Jornal de Noticias - 2009-09-20

SUSANA OTÃO, HUGO SILVA, NORBERTO A. LOPES, PEDRO OLAVO SIMÕES e

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Histórias de quem, nos bastidores, é indispensável ao funcionamento das máquinas de campanha: o "speaker", os jovens animadores, a fotógrafa, a equipa técnica, o motorista.

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A fotógrafa que capta "emoções e votos"
[Paulete Matos (BE)]

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No Bloco de Esquerda "desde sempre", Paulete Matos acompanha a comitiva para todo o lado e vê-a com um olhar especial. Através da lente da sua máquina fotográfica, capta "rostos, emoções, votos". Sempre discreta e até tímida, a militante e fotógrafa do partido, tem palmilhado todos os quilómetros, de todas as campanhas. "Desde o início, desde as primeiras fotografias", confessa ao JN, sempre escondida por detrás da sua Nikon.

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Dorme pouco, muito pouco, mas cansaço é palavra que não consta no seu discurso: "É a motivação que me move. O contacto com as pessoas, ver o partido a crescer. Durmo no final da campanha", diz, divertida.

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Esta angolana, de 57 anos, viu "nascer" o BE e agora não esconde a emoção de o ver crescer a cada dia. "Recordo-me de um dos primeiros encontros em Braga. Estava muito frio e éramos apenas uns cinco militantes. Agora, no último comício que fizemos na cidade, juntámos 800 militantes. É impossível não me emocionar", conta.

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É a emoção que pauta também as suas fotografias. Às vezes, confessa, não sabe separar o trabalho do seu empenhamento político. "Quando estamos em arruadas, em comícios em que vejo pessoas que estão ali cheias de verdade, que querem falar sobre os seu problemas, é difícil fazer 'click'... às vezes é tão difícil controlar o que sinto", refere Paulete Matos, orgulhosa "em fotografar um bocadinho da história do partido".

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E como é fotografar Francisco Louçã, o "Chico"? É difícil, reconhece, "porque se expressa muito gestualmente". Mas é um desafio que aceita "com todo o coração": "Captar os momentos, as caras das pessoas, o que elas querem dizer, as suas emoções... Cada rosto é um passo que o Bloco dá".

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O motorista que já se esqueceu do patrão
[CDS-PP]

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Transmontano de gema, Ilídio Malaca, o sr. Malaca, será das pessoas que mais tempo passam com Paulo Portas. É um dos dois motoristas do líder do CDS - o outro é Ricardo Lopes - e conduz o Volvo preto que percorre quilómetros e quilómetros de estrada. "Não é difícil", assegura Ilídio, 58 anos, ex-militar da Brigada de Trânsito da GNR, onde esteve mais de duas décadas.

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Palavra de antiga autoridade: o carro "é confortável, fácil de conduzir" e Paulo Portas "é calmo e muito bom". O que não invalida que, algumas vezes, surjam percalços tais como... arrancar e esquecer-se do patrão. Foi em Viseu. Ilídio Malaca seguiu marcha, atrás de outro veículo, convencido que Paulo Portas lá ia. Apercebeu-se que, afinal, tinha deixado o líder do CDS apeado, quando Portas lhe ligou para o telemóvel: "Oh sr. Malaca, onde é que anda?". O motorista lá teve que dar meia volta para ir buscar o chefe. Do mal o menos: não estava muito longe. O episódio ainda agora vale um coro de gargalhadas entre a comitiva do CDS que anda na estrada em campanha.

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Os períodos antes das eleições são mesmo os mais complicados, admite Ilídio Malaca. Ainda mais quando se conduz um candidato que, antes do arranque oficial da campanha, já tinha visitado mais de 100 concelhos. Ilídio salvaguarda que o entendimento entre a dupla de motoristas funciona e que não há problemas de rendição sempre que o cansaço começa a fazer-se sentir. Mesmo sendo um antigo elemento da Brigada de Trânsito, Ilídio Malaca vai admitindo que algumas vezes fecha os olhos às regras do Código. "Quem é que não transgride alguma coisa?". Honestidade transmontana que, agora, tem residência em Odivelas. "Mas continuo a ter casa na aldeia da minha mulher, em Estevais, Mogadouro. Vou lá muitas vezes", afirma.

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Os três homens por trásdo palco
[CDU]

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Nas arruadas da CDU ou nos comícios, é vê-los a tratar dos amplificadores, das colunas de som e dos cabos de ligação. Ou do palco para Jerónimo de Sousa discursar para os militantes em plena acção de campanha, ou do cenário de fundo azul com a foice e o martelo. Vítor Azevedo, Miguel Prudêncio e Eurico Romero podem passar despercebidos, mas são funcionários do Partido Comunista. Sem eles, a palavra do secretário-geral nunca chegaria à população.

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Transportam quilos e quilos de material, montam e desmontam, montam e desmontam, mais do que uma vez por dia. "Vim para trabalhar três meses na 'Festa do Avante' e já ando aqui há 16 anos. Foi no partido que aprendi a ser electricista", conta Vítor Azevedo, que "só sabia apertar e desapertar parafusos" quando trabalhava numa empresa privada.

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Dos muitos anos que leva de dedicação à causa comunista, lembra-se de um episódio curioso, quando um partidário cortou o som a Jerónimo de Sousa, precisamente no recente comício em Corroios, durante a presente campanha eleitoral: "Ele levantou-se, puxou o cabo e o microfone desligou-se". Quase dava barraca.

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Miguel Prudêncio trabalhava na hotelaria e faz parte do "staff" fixo da campanha. Gosta de vestir uma camisola vermelha com o símbolo comunista e abana a cabeça ao som do ritmo da música que paira no ar. "Nunca trabalharia ao serviço de outro partido", nem que fosse "para ganhar muito dinheiro".

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É fiel às causas de Esquerda, assim como Eurico Romero, que tem a particularidade de ser dirigente da Juventude Comunista Portuguesa. Já foi músico de uma banda de trashmetal: "Talvez por causa disso, trato mais do som". O povo, esse, agradece.

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Grupinho da "Jota" é pequeno, mas dinâmico
[PSD]

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Sem eles, Manuela Ferreira Leite correria Portugal com suavidade de veludo e silêncio de sepulcro. Mas eles não falham. Puxam pelo povo que vai ver a candidata do PSD, dão colorido aos planos televisivos das arruadas e, enfim, têm causado pesadelos a quem acompanha a caravana. Mesmo no silêncio da noite, os cânticos são marretadas na memória: "Pela paz, pão, povo e liberdade/ Pela política de verdade/ Ferreira Leite és a nossa esperança/ Os portugueses votarão com confiança".

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Pequena a caravana, parcos os meios, modesto o grupo de militantes da JSD que faz marcação cerrada à líder. Modesto, mas empenhado e dinâmico. São 24 raparigas e rapazes, havendo gente de todos os distritos do continente. Tiago Sá Carneiro, portuense, coordena a volta nacional da "Jota" e diz que, "à partida, é gente que não se conhece, mas cria-se uma família social-democrata".

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Viajam em três carrinhas de nove lugares. Cantam, agitam bandeiras e dão brindes, algo a que o comum português está para lá de receptivo. Canetas, chapéus, bolsas de pôr à cinta. E quilos de panfletos, tanto do candidato da JSD no distrito em que se encontram como, claro, da líder, que nunca se esquece de os saudar nos discursos.

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António Padez, de Coimbra, é o principal animador e o autor de boa parte das letras. "O povo não esquece/ Que a crise é do PS" é das mais ouvidas, cantada ao som de "Yellow submarine". Diz que tentou fugir às melodias do futebol, adaptando outras músicas, mas todos aqueles universitários e recém-licenciados, vestidos de laranja, não se dariam mal num estádio. Era vê-los há dias, repartidos pelos lados de um pequeno auditório, a berrar, alternadamente, "Manela!": pareciam os Superdragões e o Colectivo, em noite europeia no Dragão.

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Para "a voz" esta deve ser a última campanha
[PS]

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"A É militante do PS desde 1974 e há mais de 20 anos que assegura, em (quase) todas as campanhas, comícios e tempos de antena, a função de "speaker". Poucos lhe conhecerão o rosto, mas muitos já terão ouvido a sua voz, inconfundível, até pela presença na rádio e na televisão.

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Fernando Neves, de 48 anos, é "a voz" do PS. Começou a fazer este trabalho na primeira candidatura de Mário Soares à presidência da República, no longínquo ano de 1986, quando estava profissionalmente ligado à Antena 1 (passou também pela Comercial e foi um dos fundadores da TSF). Desde então, nunca mais parou: trabalhou com todos os líderes socialistas - Mário Soares, Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres e José Sócrates.

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Por estes dias, corre pelo país para animar as hostes em todos os comícios. Chega cerca de uma hora antes dos eventos, traz os seus discos e começa a preparar-se para mobilizar as pessoas. É ele que põe a música antes dos discursos e que apresenta, um a um, os intervenientes. Pelo meio, introduz frases que ajudam a mobilizar a plateia: "Aqui o nosso coração bate à Esquerda!" ou "olhem bem à vossa volta. A vossa força enche-nos de coragem. Esta é a imagem de um Portugal com futuro e ambição".

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Anteontem à noite, no pavilhão do ABC, em Braga, sentiu-se "emocionado". "Já fiz muitos comícios em Braga. Nunca vi nenhum como este". Apesar do "crescendo" que tem vindo a sentir nas ruas, Fernando Neves não arrisca um resultado. Aprendeu a esperar e a respeitar a vontade do povo.

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Aconteça o que acontecer, diz que provavelmente esta será a sua última campanha como "speaker". Foi pai de uma menina há 11 meses e quer dedicar-se à família. "Já é tempo de aparecer outra pessoa para fazer isto".

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