Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

domingo, 19 de julho de 2009

Fotografo o que não vivi

11 Julho, 2009

Castro Prieto

© Castro Prieto


Fotografo o que não vivi

Sérgio B. Gomes
(P2, 11.07.2009)

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Há quem se dedique a registar pela fotografia o ínfimo acontecimento, a marcha da pequena e da grande história que ficará agarrada a uma linha cronológica, a uma coutada geográfica. É um trabalho (necessidade) de classificação e de arquivo que (ainda) dá à fotografia esse estatuto tão especial de prova do que foi, de como, onde e com quem aconteceu. Diz-se documental esse registo que, com o mínimo de artifícios estilísticos, tenta reproduzir fielmente a realidade.
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Há quem nos reproduza parcelas do mundo tal qual ele é - puro e duro. E há quem parta dessa frieza para registos que tocam um mundo mais onírico e fantasmagórico, mais mágico, intemporal - um mundo que contraria e que sujeita a história à poesia. É nesta linguagem fotográfica - muito mais ligada à atmosfera introspectiva do que à fidelidade do acontecimento - que assenta Estraños, a exposição com que o espanhol Juan Manuel Castro Prieto (Madrid, 1958) se apresenta pela primeira vez em Portugal na Kgaleria, em Lisboa.

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Para quem construiu um percurso na fotografia sobretudo ligado aos rigores da técnica - Prieto é um dos mais exímios e reputados impressores de fotografia espanhóis com clientes como Chema Madoz, Cristina García Rodero e Alberto Garcia-Alix - não deixa de ser paradoxal que o conjunto de imagens que dão forma a Estraños assente em abordagens difusas, tanto na forma como no conteúdo, que resvala facilmente para a alegoria, para o lirismo literário. Paradoxal, mas também revelador de uma necessidade de enfrentar convenções e de encontrar diferentes maneiras de ver e fazer fotografia. Alejandro Castellote, comissário desta exposição apresentada pela primeira vez em Madrid em 2002, ano em que Prieto ganhou o prémio carreira do festival PhotoEspaña, elogia-lhe a atitude "coerente" em busca de "mundos oníricos a partir do quotidiano" e vê no "fatalismo" com que encara a vida um dos principais motores da sua produção fotográfica. Em resposta a Castellote, no catálogo de Estraños, Castro Prieto resume o resultado dessa procura assim: "Fotografo experiências que não vivi".

© Castro Prieto

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artephotographica.blogspot.com - Sérgio Gomes

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