Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

terça-feira, 1 de setembro de 2015

entre a praia do mindelo e o rio ave em macieira da maia

* Victor Nogueira

Ontem em conversa com um vizinho que mora mais distante fiquei a saber que na enseada da ponta da Gafa restam apenas três das chamadas casas do mar, para além doutra ao lado do edifício do antigo posto da Guarda Fiscal, que é ou foi pertença do avô dele e onde este guardava o barco de pesca. Nesse edifício actualmente e durante o Verão funciona uma extensão da Biblioteca Municipal de Vila do Conde. As casas na rua do Norte foram construídas apenas há cerca de 50 anos e nunca foram "casas do mar", contrariamente ao que eu supusera. (2) As casas dos pescadores, os cabaneiros, eram cobertas a colmo.

A pesca e a apanha do sargaço e do pilado (caranguejo, também conhecido como navalheira) eram actividades sazonais, sendo o sargaço um adubo bem poderoso e não poluente para as terras arenosas onde se cultivam essencialmente o milho e a batata. Depois de apanhado, o sargaço era levado para o alto das dunas, onde ficava a secar estendido numa camada fina e compacta, a que se chama manta de sargaço.    

“A expansão da actividade agrícola devido à fertilização dos solos com sargaço (...) foi tão intensa que a pesca do pilado e a apanha do sargaço se tornaram o verdadeiro motor económico da região litoral norte, Os cabaneiros foram os verdadeiros povoadores das dunas litorais, a partir de finais do séc. XVIII, construindo as suas cabanas em madeira, criando a sua prole de filhos, uns empregues na pesca, outros na agricultura, que deram origem às primeiras povoações na borda de água e que estarão na origem de povoações como Moledo do Minho, Afife, Castelo do Neiva, S. Bartolomeu do Mar, Apúlia, Aguçadoura, A-Ver-o-Mar, Póvoa de Varzim, Caxinas, Vila Chã, Mindelo, Angeiras, Canidelo, Esmoriz, Murtosa e Ovar.“ (1)

A actividade piscatória era sazonal, coincidindo com os meses de Inverno. Cada pescador tinha delimitada a sua zona de pesca, sendo motivo de briga as invasões do "mar" alheio,  outrora muito mais rico em peixe: sardinha,faneca   ... Muito apreciado era o congro, pitéu para a consoada antes de ser destronado pelo bacalhau. Alapadas nas rochas há crustáceos, como os percebes.

Voltei à praia para nova visita prospectiva, seguindo para sul pela ciclovia pedonal que ao longo das dunas corre todo o litoral do concelho. Sozinhos ou em grupo, em biquini ou calções de banho, cruzam-se comigo rapazes e raparigas  ostentando um bronzeado baço e dum castanho muito escuro. Há bicicletas paradas ou ciclistas rodando e pessoas conversando ao longo do passadiço e o mar  refulge em tons argênteos. Nalguns quintais cultivam-se pencas (couves) e nas dunas a vegetação é rasteira e raquítica, aqui e além aflorando um canavial. O tempo está bom, a praia quase vazia (a época estival terminou), mas não trouxe calções de banho e guarda-sol para me sentar à beira-mar.

Resolvo lanchar no café no cruzamento de Árvore, onde na tabacaria compro uma graphic novel e um livro de contos de Oscar Wilde, um escritor cujo sentido do humor aprecio. A caminho de Vila do Conde resolvo seguir não para leste mas para sul e quando dou por isso estou a caminhar para leste, passo por baixo de dois viadutos e dou por mim a caminho de Macieira da Maia. Em consequência resolvo seguir para o bucólico e remansoso lugar onde se situam a ponte românica de D. Zameiro e as azenhas com o seu açude, os campos e as margens cobertos do verde das árvores e das plantações agrícolas. (3) Desço até à beira rio Ave para o açude, entrevejo pela porta entreaberta duma das azenhas e no seu interior uma mesa e uma cadeira de espaldar com assento que me parece forrado a púrpura e saúdo dois indivíduos que dele saem, fechando a porta atrás de si,  um dos quais, idoso, com ar british e chapéu de palha – pescadores desportivos. Este, um pouco mais tarde, cruza-se no carro dele com o meu, fazendo-me um leve aceno. 
Rumo à Rua de Paredes onde o site da CM de Vila do Conde diz existirem casas típicas de lavoura mas encontro apenas edifícios profundamente transformados. Nas ruas da Praia, da Igreja e da Lameira há casas da lavoura que me parecem ainda reflectir as doutros tempos. 


Neste entardecer poucos patos nadam, preferindo a maioria a lazeira de estar ao sol.

Regresso ao Mindelo mas conduzir no Verão ao entardecer é um tormento, pelo encadeamento do sol baixo no horizonte, que os óculos escuros não conseguem evitar. Como os automobilistas locais avançam impacientemente e por cima de toda a folha por estes caminhos vicinais, estreitos e tortuosos, resolvo estacionar perto dum cruzeiro até que o sol esteja prestes a mergulhar no horizonte.

(1)     In MULHERES DO MAR PORTUGUÊS  (http://www.culturamaritima.org/files/ardentia4-magalhaes-baptista.pdf )


e
(3)
Mindelo 


edifício do antigo Posto da Guarda Fiscal


extensão da biblioteca municipal de Vila do Conde


praia, enseada da ponta da Gafa, dunas e ciclovia






(antigas casas do mar)

~
(canavial)






casa de lavoura na Rua da  Estrada Velha


rua de Paredes



Rio Ave em Macieira da Maia

(lugar da Ponte do Ave)















uma outra photo-reportagem em "Pelas margens do Rio Ave" in http://kantophotomatico.blogspot.pt/2014/09/pelas-margens-do-rio-ave.html

local não identificado
  

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