Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Depoimentos: Gérard "tratou a fotografia como uma grande arte"

12.02.2011 - 19:07 Por Lusa, Sérgio C. Andrade, Ana Machado, Sérgio B. Gomes


Um bom conversador, lembra Rui Prata, comissário dos Encontros da Imagem de Braga. Um homem enérgico, lembra Sérgio Mah, comissário da participação portuguesa na Bienal de Veneza sobre a figura de Gérard Castello -Lopes. Em comum assinalam também a perda de uma figura importante da fotografia portuguesa, apesar do nome que carregava o ligar ao cinema. Gérard Castello-Lopes morreu hoje, em Paris, aos 85 anos. Tinha "uma doçura no olhar", lembra António Barreto.
Gérard Castello-Lopes 
Gérard Castello-Lopes (David Clifford/arquivo)

António Barreto, sociólogo
"É seguramente o mais interessante fotógrafo português do século XX. Um dos mais, pelo menos. Pela linguagem e pelo estilo próprios. Pela doçura do olhar. Pela ironia da expressão. Pela qualidade estética. Pela beleza das imagens. Pelo rigor formal. Pela humanidade dos seus temas. Pela independência de espírito. Pela cultura sólida. Deixa-nos uma obra de reduzidas dimensões, várias vezes interrompida no tempo, mas de excepcional valor de testemunho de uma sociedade. A sua Lisboa dos anos cinquenta, retratada com sentido ao mesmo tempo poético e realista, adquiriu valor patrimonial. As pessoas que então fotografou figuram para sempre numa galeria histórica de personagens. Mais tarde, já nos anos oitenta e noventa, teve nova vida, sentiu-se atraído por novos temas e foi capaz de adaptar a sua linguagem, sem nunca perder o seu traço. Com vagar, sem voracidade, Gérard não metralhava, compunha. Assim tratou a fotografia como uma grande arte."

Sérgio Mah, professor universitário e comissário da participação portuguesa na Bienal de Veneza
“Desaparece uma figura muito importante da cultura portuguesa e da história da fotografia portuguesa. Marcou com a sua sensibilidade a fotografia dos anos 1950 e a fotografia documental da segunda metade do século XX, apesar da produção irregular. Lembro-o como um homem alto, muito enérgico, muito educado, uma figura muito simpática. Percebeu e incorporou as tendências da fotografia que se iam fazendo lá fora , nomeadamente em Paris e por influencia do trabalho de Cartier-Bresson.”

Rui Prata, comissário dos Encontros da Imagem de Braga
“É uma figura importante da cultura portuguesa e muito marcante para a fotografia portuguesa que se perde. Teve um papel relevante na nossa fotografia, nas décadas de 1950 e 1960, regressando depois em força após o 25 de Abril pela mão de António Sena e da galeria Ether. Lembro, como pessoa, um bom conversador.”

António Pedro Ferreira, fotojornalista
“É uma pena que Gérard Castello-Lopes não se tenha dedicado mais à fotografia. Tinha o talento todo para construir uma obra extraordinária. Sabia que era bom, mas não teve coragem de afrontar o que a sociedade elegia para construir uma obra mais vasta. Henri Cartier-Bresson era o seu grande inspirador. Tentou imitá-lo em tudo, até nas máquinas que usava. Mas saiu da sombra do Cartier-Bresson. Quando voltou a fotografar nos anos 80 renasceu. A sua fotografia ganhou uma nova liberdade e experimentou linguagens novas. Mas creio que já foi demasiado tarde, apesar de ter contactado com o trabalho de outros fotógrafos e de estar atento ao que se fazia na altura. Ele tinha uma visão muito crítica em relação ao que se fazia na fotografia portuguesa. E costumava usar uma expressão para falar das imagens demasiado escuras que então se faziam: “A fotografia portuguesa é como fotografar um negro, no túnel do Rossio a cantar o Black is Black”. Gérard Castello-Lopes era um grande fotógrafo. Descobria a beleza na espuma de um cacilheiro. E mais do que isso, conseguia transmitir pela fotografia essa beleza. Considerou-se sempre um amador de fotografia, no sentido francês do termo. Ou seja, tinha uma relação despreocupada com a fotografia. Nunca quis, nem nunca precisou de viver dela. Há fotografias de Gérard que ficarão na história do olhar português. São grandes obras.”

Fernando Lopes, cineasta
“Teve uma grande importância para mim como fotógrafo, mas sobretudo era um grande amigo. Eu tinha-o visto há um ano e meio, mas ele já não reconhecia ninguém. Como fotógrafo, ele é um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, sem dúvida. E mesmo internacionalmente. A obra dele felizmente está nos museus de fotografia”.

Tereza Siza, historiadora e crítica de fotografia
“É evidentemente uma figura incontornável da história da fotografia em Portugal. É um expoente da geração – com Carlos Afonso Dias, Carlos Calvet e Sena da Silva, por exemplo – que trabalhou sem nenhuma visibilidade nos anos 50 e 60, por causa do regime de Salazar. E só viria a ser revelado na década de 80, a partir da exposição promovida pela Galeria Ether. Ele tinha uma grande paixão pelo Cartier-Bresson, mas a sua obra tem também algo mais, tem uma pureza de linhas e um sentido gráfico muito pessoais. Como pessoa, era uma figura exuberante, elegante, sedutora, que falava da sua arte com graça e grande clareza.”
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José Manuel Rodrigues, fotógrafo
“Desaparece um meu amigo íntimo, um colega com quem eu falava verdadeiramente de fotografia. Conheci-o numa exposição no Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, em 1995. Ele exagerava sempre essa dívida relativamente a Bresson. A sua fotografia tem um carácter bem original, mesmo do ponto de vista conceptual. Ele teve várias vidas e várias actividades, mas a mais importante é como fotógrafo. Era uma pessoa com uma grande curiosidade e uma grande vontade de aprender. Passávamos horas e horas a discutir fotografia.”

Notícia actualizada às 21h04.
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Aos 85 anos

Morreu Gérard Castello-Lopes, fotógrafo 

e distribuidor de cinema

12.02.2011 - 17:09 Por Lusa

Morreu hoje em Paris o fotógrafo e distribuidor de cinema Gérard Castello-Lopes, disse um familiar à Lusa.
 
(David Clifford/arquivo)


Castello Lopes tinha 85 anos e vivia em Paris. A família ainda não decidiu se o fotógrafo será sepultado em França.

Gérard Castello-Lopes nasceu em Vichy, em 1925. Viveu em Lisboa, Cascais, Estrasburgo, onde fez parte do Corpo Diplomático da Missão Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa. Mais tarde, fixou residência em Paris.

Licenciado em Economia pelo ISCEF acabou por se dedicar ao cinema, fotografia e crítica. Gerente da sociedade de filmes Castello-Lopes, dedica-se à fotografia a partir de 1956.

"A sua 'formação' como fotógrafo foi a de um autodidacta, como quase todos os outros fotógrafos dessa época. A sua aprendizagem não foi escolar (não havia cursos de fotografia) e baseou-se por um lado, numa natural pulsão de representar a realidade, por outro, num intenso interesse pelas outras artes plásticas ou representacionais, como a pintura, a escultura, o cinema e a própria fotografia. O método consistiu em aprender os fundamentos técnicos da fotografia - o que se aprende facilmente nos livros -, definir uma orientação sobre o "objecto" preferencial da sua actividade fotográfica (tomando Henri
Cartier-Bresson como paradigma), e cotejar continuamente o resultado do que ia produzindo com o 'corpus' fotográfico que lhe era facultado pelas revistas e livros estrangeiros da especialidade, na ausência ou na ignorância dum 'corpus' equivalente português. Na sua essência, o método foi pragmático ou, como se diz em inglês, de tentativa e erro", pode ler-se na sua síntese biográfica publicada no site da Galeria Fernando dos Santos.

Foi ainda assistente de realização do filme português "Os Pássaros de Asas Cortadas" (1962), co-autor e assistente de produção e realização, juntamente com Fernando Lopes e Nuno de Bragança, da curta-metragem "Nacionalidade: Português" (1970), presidente do júri do Instituto Português de Cinema durante o período de 1991 a 1993 e membro fundador do Centro Português de Cinema.

Foi ainda membro do Conselho Consultivo da Culturgest.

Notícia em actualização
Óbito/Gérard Castello-Lopes

Fotógrafo que viveu entre França e Portugal morre em Paris

por LusaOntem
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O fotógrafo e distribuidor de filmes Gérard Castello-Lopes, que morreu hoje, sábado, em Paris vítima de doença prolongada, foi também crítico de cinema, tendo-se iniciado no mundo da imagem como autodidata. 
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Castello-Lopes nasceu em Vichy (França), em 1925, mas viveu em Lisboa, Cascais e Estrasburgo, onde integrou o corpo diplomático da Missão Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa. Tendo-se licenciado em economia em Lisboa, foi fotógrafo, profissional de cinema e crítico desta expressão artística, além de gerente de uma sociedade no campo do audiovisual. Dedicou-se à fotografia desde 1956, mas só em 1982 deu um impulso significativo nesta actividade. Gérard Castello-Lopes, que morreu hoje aos 85 anos, foi assistente de realização do filme português "Os Pássaros de Asas Cortadas" (1962) e de encenação de duas óperas realizadas pelo Grupo Experimental de Ópera de Câmara, que era subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
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Esteve na fundação do Centro Português de Cinema e foi coautor e assistente de produção e realização, juntamente com Fernando Lopes e Nuno de Bragança, da obra "Nacionalidade: Português", uma curta-metragem de 1970. De 1991 a 1993, presidiu ao júri do Instituto Português de Cinema, além de ter integrado o conselho consultivo da Culturgest. Como a maioria dos fotógrafos seus contemporâneos, numa época em que não havia cursos de fotografia, teve uma aprendizagem nesta área como autodidata. Interessou-se, no entanto, por outras formas de arte, como a pintura e a escultura. Na fotografia, revelou-se um seguidor dos ensinamentos técnicos de Henri Cartier-Bresson, tendo buscado muita da sua formação neste domínio em revistas e livros estrangeiros da especialidade.
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Crítico de cinema na revista "O Tempo e o Modo", de 1964 a 1966, escreveu também mais tarde, como colaborador, noutros títulos da imprensa em Portugal, como os jornais "A Tarde" e o "Semanário", de 1982 a 1984. Antes e depois do 25 de Abril de 1974, realizou dezenas de exposições individuais e participou em diversas coletivas, em Portugal e no estrangeiro. Mas foi em 1982 que este admirador do brasileiro Sebastião Salgado se relançou como fotógrafo, com uma mostra retrospetiva. "Nunca achei que era excecional ou muito bom fotógrafo. Muito bons fotógrafos foram homens como Ansel Adams, Minor-White, Henri Cartier-Bresson, Soudek, Jacques-Henri Lartigue, W. Eugene Smith, cada um no seu género, e 'pourquoi pas?', Sebastião Salgado, por quem tenho uma admiração enorme", confessava Gérard Castello-Lopes numa entrevista ao jornal Público, em 2004.
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Óbito

Foi um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, 

diz Fernando Lopes

por LusaOntem

O cineasta Fernando Lopes lamentou hoje, sábado, a morte do fotógrafo Gérard Castello-Lopes, um amigo de longa data, que classificou como um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX. 
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"Teve uma grande importância para mim como fotógrafo, mas sobretudo era um grande amigo. Eu tinha-o visto há um ano e meio, mas ele já não reconhecia ninguém... Como fotógrafo, ele é um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, sem dúvida", disse Fernando Lopes. "E mesmo internacionalmente - acrescentou - a obra dele felizmente está nos museus de Fotografia", acrescentou. O cineasta sublinhou ainda que a obra de Gérard Castello-Lopes, que morreu hoje em Paris vítima de doença prolongada, foi também muito importante para realizar a longa-metragem "Belarmino" (1964), sobre a vida do pugilista Belarmino Fragoso. 
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"Foi fundamental o estilo de fotografia. Ele e o Augusto Cabrita eram muito amigos e inspirámo-nos muito na fotografia dele", indicou. "Fico muito abatido com a morte dele, ele era um dos meus grandes amigos", comentou. Por sua vez, Maria João Seixas, diretora da Cinemateca Portuguesa, lamentou também a morte do fotógrafo e distribuidor de filmes que foi também crítico de cinema e se iniciou no mundo da imagem como autodidata. 
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"Lamento muito, mas já há muito tempo que eu lamento a ausência desse grande amigo, desse grande fotógrafo, desse ... homem de Cultura Chegou agora a hora dele, mas já há muitos anos que eu tinha saudades dele", disse hoje à Lusa Maria João Seixas, diretora da Cinemateca Portuguesa.
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