Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

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«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luanda - no parque florestal da ilha do Cabp



foto de Família - Luanda - Parque florestal da llha do Cabo 



Este parque florestal de acesso reservado tinha uma agradável praia, embora com alguns fundões, num dos quais ia morrendo afogado. Não sabendo nadar, em miúdo fui ao fundo várias vezes e qd pensava que já lá ficaria senti uma mão a agarrar-me o pulso, puxando-me para terra enquanto me dizia "Tiveste sorte, pois pensava que estavas a brincar." Com efeito, uma das brincadeiras de alguns miúdos era esbracejarem, fingindo que estavam a afogar-se. E assim fiquei algum tempo estendido no areal da praia, respirando em grandes haustos.

Na foto os meus pais e duas amigas da família. À esquerda a D. Alice Quaresma e à direita a D. Noémia Castelo. A D. Alice era viúva dum capitão do exército. Conseguiu ser aprovada no exame de condução automóvel, após imensas tentativas malogradas, e eu comentava que lha haviam concedido por antiguidade. No dia seguinte convidou a minha mãe para dar uma volta, mas deve ter pregado grandes sustos pois a minha mãe disse-nos que nunca mais sairia com ela ao volante. Já em Portugal, depois do 25 de Abril, a D. Alice comentava-me que não percebia como eu conseguia ler tantos jornais por dia, pois ela lia uma página e ficava cansada, que ler tanto me fazia mal à minha saúde.

A D. Noémia Castelo era das mais idosas no grupo de que a minha mãe fazia parte, conjuntamente com a minha madrinha Cristina Santos. A D. Noémia era uma pessoa muito alegre, casada com um engenheiro, salvo erro de máquinas, que se formara na Grã-Bretanha – o Jorge Castelo – uma figura notável pois era uma raridade em Luanda, sempre de calções e meias brancas até ao joelho, muito “british.” numa cidade onde os ingleses não exerciam influência cultural, mas sim a França, o Brasil e os EUA. Nessa altura havia um cine-teatro onde também havia sessões de ópera e de variedades, o Restauração, com restaurante-bar-dancing. Pois uma vez o porteiro tentou impedir a entrada do Engº Castelo, por este ir de de calções, traje considerado inapropriado. Enfim ...

Na roda de amigas havia rotativa e semanalmente um lanche na casa de cada uma, juntando também a criançada. O Engº Castelo era especialista em enormes bolos de gelatina, tremulizantes e multicoloridos. Viviam numa casa, na avenida Brito Godins onde se situava o Liceu Salvador Correia, com um grande quintal com criação e dois esqueletos completos e em tamanho natural no escritório, que eu ia ver às escondidas. 

Na semana do lanche em nossa casa era uma festa, a minha mãe com um arsenal de garrafinhas cada uma com seu corante ou gosto (essência) e nós a raparmos as formas dos bolos e dos biscoitos ou a comermos à sucapa o fiambre, com um sabor delicioso que já não lhe encontro.

Neste grupo algumas eram apenas domésticas, como a Bia, a Beatriz ou D. Noémia, outras exerciam uma profissão, como a Laura, a Maria Arnalda ou a minha mãe.

A convivência em Luanda era muito mais aberta e descomplicada, com grandes grupos em convívio aos fins-de-semana para a praia ou para as esplanadas na Ilha ou no Baleizão [casa onde se vendiamm hgelo e sorvetes, estes vendidos também pelas ruas em carrinhos ambulantes - "baleizão" fico a designação genérica dos ... sorvetes], bebendo cerveja [Cuca, Nocal], Coca-Cola [proibida em Portugal] ou refrigerantes [Canada Dry, Fanta .... ] acompanhados de camarões que eram fornecidos gratuitamente, (equivalentes dos tremoços que outrora acompanhavam as bebidas em Portugal) ou aos sábados à noite para o cinema ou às "boîtes" (que eram os salões de dança, de "dancing" e não de engate como sucede em Portugal).

E para terminar, uma descrição minha dum dia no Parque Florestal da Ilha do Cabo

1. - Parque Florestal da Ilha do Cabo (Luanda)

1963/64

Ouve-se o marulhar das águas. Além, um tractor. No mar [na baía] um barco evoluciona e as gaivotas mergulham pescando. Um barco de guerra entra na baía. É o F331. Uma criança chora. Provavelmente alguém desabafou a sua fúria sobre ela. Mas o ruído predominante é o do marulhar das ondas. A temperatura ideal seria a de agora. Ali os trabalhadores pousam as pás à sombra de um pinheiro. Lá longe, do outro lado, a chaminé da SECIL [fábrica cimenteira] deixou de lançar para a atmosfera o elegante penacho de fumo branco. Mas, será que está trovejando? Eis que uma breve aragem faz com que as folhas das palmeiras entrem nesta sinfonia da natureza. Não, aquilo deve ser um avião e não a trovoada. Mas parece estar sempre no mesmo sítio. Através dos pinheiros, naquela curva, divisa-se ainda o navio de guerra. Nesta sinfonia há instrumentos que não consigo identificar. Que paz, nada de yé-yés; só, completamente entregue à contemplação desta maravilha, sempre diferente, que é a natureza.

Os pescadores acabam de puxar o dongo [canoa, piroga] para a praia. O Zé come pão-de-ló. Hoje resolveu ocupar o meu lugar de comilão mor. Duas gaivotas, elegantes na sua alvura, passeiam à beira-mar. Aquele barco ancorado dança vagarosamente ao sabor das ondas. Gostaria de poder descrever isto tudo, não em prosa, não em verso, mas musicalmente.

Notas finais: lado negativo: moscas, praia suja, água fria. 

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