Escrevivendo e Photoandando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.

Roland Barthes

.

«Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.»

Victor Nogueira

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Torrão e Bernardim Ribeiro

* Victor Nogueira


foto victor nogueira - Vila doTorrão (Alcácer do Sal) - estátua de Bernardim Ribeiro (Menina e Moça)

NÃO SOU CASADO, SENHORA
Não sou casado, senhora, 
que ainda não dei a mão, 
não casei o coração. 

Antes que vos conhecesse, 
sem errar contra vós nada, 
uma só mão fiz casada, 
sem que mais nisso metesse. 
Dou-lhe que ela se perdesse! 
solteiros e vossos são 
os olhos e o coração. 

Dizem que o bom casamento 
se há de fazer de vontade. 
Eu, a vós, a liberdade 
vos dei, e o pensamento. 
Nisto só me achei contento: 
que, se a outrem dei a mão, 
dei a vós o coração. 

Como, senhora, vos vi, 
sem palavras de presente 
na alma vos recebi, 
onde estareis para sempre, 
não de palavra somente; 
nem fiz mais que dar a mão, 
guardando-vos o coração. 

Casei-me com meu cuidado 
e com vosso desejar. 
Senhora, não sou casado, 
não mo queirais acuitar! 
que servir-vos e amar 
me nasceu do coração 
que tendes em vossa mão. 

O casar não fez mudança 
em meu antigo cuidado, 
nem me negou a esperança 
do galardão esperado. 
Não me engeiteis por casado, 
que, se a outra dei a mão, 
a vós dei o coração. 

Bernardim Ribeiro, in 'Antologia Poética'


Sem comentários: