Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luanda - no parque florestal da ilha do Cabo



foto de Família - Luanda - Parque florestal da llha do Cabo 



Este parque florestal de acesso reservado tinha uma agradável praia, embora com alguns fundões, num dos quais ia morrendo afogado. Não sabendo nadar, em miúdo fui ao fundo várias vezes e qd pensava que já lá ficaria senti uma mão a agarrar-me o pulso, puxando-me para terra enquanto me dizia "Tiveste sorte, pois pensava que estavas a brincar." Com efeito, uma das brincadeiras de alguns miúdos era esbracejarem, fingindo que estavam a afogar-se. E assim fiquei algum tempo estendido no areal da praia, respirando em grandes haustos.

Na foto os meus pais e duas amigas da família. À esquerda a D. Alice Quaresma e à direita a D. Noémia Castelo. A D. Alice era viúva dum capitão do exército. Conseguiu ser aprovada no exame de condução automóvel, após imensas tentativas malogradas, e eu comentava que lha haviam concedido por antiguidade. No dia seguinte convidou a minha mãe para dar uma volta, mas deve ter pregado grandes sustos pois a minha mãe disse-nos que nunca mais sairia com ela ao volante. Já em Portugal, depois do 25 de Abril, a D. Alice comentava-me que não percebia como eu conseguia ler tantos jornais por dia, pois ela lia uma página e ficava cansada, que ler tanto me fazia mal à minha saúde.

A D. Noémia Castelo era das mais idosas no grupo de que a minha mãe fazia parte, conjuntamente com a minha madrinha Cristina Santos. A D. Noémia era uma pessoa muito alegre, casada com um engenheiro, salvo erro de máquinas, que se formara na Grã-Bretanha – o Jorge Castelo – uma figura notável pois era uma raridade em Luanda, sempre de calções e meias brancas até ao joelho, muito “british.” numa cidade onde os ingleses não exerciam influência cultural, mas sim a França, o Brasil e os EUA. Nessa altura havia um cine-teatro onde também havia sessões de ópera e de variedades, o Restauração, com restaurante-bar-dancing. Pois uma vez o porteiro tentou impedir a entrada do Engº Castelo, por este ir de de calções, traje considerado inapropriado. Enfim ...

Na roda de amigas havia rotativa e semanalmente um lanche na casa de cada uma, juntando também a criançada. O Engº Castelo era especialista em enormes bolos de gelatina, tremulizantes e multicoloridos. Viviam numa casa, na avenida Brito Godins onde se situava o Liceu Salvador Correia, com um grande quintal com criação e dois esqueletos completos e em tamanho natural no escritório, que eu ia ver às escondidas. 

Na semana do lanche em nossa casa era uma festa, a minha mãe com um arsenal de garrafinhas cada uma com seu corante ou gosto (essência) e nós a raparmos as formas dos bolos e dos biscoitos ou a comermos à sucapa o fiambre, com um sabor delicioso que já não lhe encontro.

Neste grupo algumas eram apenas domésticas, como a Bia, a Beatriz ou D. Noémia, outras exerciam uma profissão, como a Laura, a Maria Arnalda ou a minha mãe.

A convivência em Luanda era muito mais aberta e descomplicada, com grandes grupos em convívio aos fins-de-semana para a praia ou para as esplanadas na Ilha ou no Baleizão [casa onde se vendiamm hgelo e sorvetes, estes vendidos também pelas ruas em carrinhos ambulantes - "baleizão" fico a designação genérica dos ... sorvetes], bebendo cerveja [Cuca, Nocal], Coca-Cola [proibida em Portugal] ou refrigerantes [Canada Dry, Fanta .... ] acompanhados de camarões que eram fornecidos gratuitamente, (equivalentes dos tremoços que outrora acompanhavam as bebidas em Portugal) ou aos sábados à noite para o cinema ou às "boîtes" (que eram os salões de dança, de "dancing" e não de engate como sucede em Portugal).

E para terminar, uma descrição minha dum dia no Parque Florestal da Ilha do Cabo

1. - Parque Florestal da Ilha do Cabo (Luanda)

1963/64

Ouve-se o marulhar das águas. Além, um tractor. No mar [na baía] um barco evoluciona e as gaivotas mergulham pescando. Um barco de guerra entra na baía. É o F331. Uma criança chora. Provavelmente alguém desabafou a sua fúria sobre ela. Mas o ruído predominante é o do marulhar das ondas. A temperatura ideal seria a de agora. Ali os trabalhadores pousam as pás à sombra de um pinheiro. Lá longe, do outro lado, a chaminé da SECIL [fábrica cimenteira] deixou de lançar para a atmosfera o elegante penacho de fumo branco. Mas, será que está trovejando? Eis que uma breve aragem faz com que as folhas das palmeiras entrem nesta sinfonia da natureza. Não, aquilo deve ser um avião e não a trovoada. Mas parece estar sempre no mesmo sítio. Através dos pinheiros, naquela curva, divisa-se ainda o navio de guerra. Nesta sinfonia há instrumentos que não consigo identificar. Que paz, nada de yé-yés; só, completamente entregue à contemplação desta maravilha, sempre diferente, que é a natureza.

Os pescadores acabam de puxar o dongo [canoa, piroga] para a praia. O Zé come pão-de-ló. Hoje resolveu ocupar o meu lugar de comilão mor. Duas gaivotas, elegantes na sua alvura, passeiam à beira-mar. Aquele barco ancorado dança vagarosamente ao sabor das ondas. Gostaria de poder descrever isto tudo, não em prosa, não em verso, mas musicalmente.

Notas finais: lado negativo: moscas, praia suja, água fria. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

porto, na rua de cedofeita em 1937


foto de família - porto 1937 - ao centro, debaixo do chapéu, o pai do escriba (parece-me que a cena se situa na rua de Cedofeita)

domingo, 9 de novembro de 2014

oeiras - espreitando o Parque dos Poetas, em construção

* Victor Nogueira

Duas "circum-ñavegações"  em volta da 2ª fase (ainda em construção) do Parque dos Poetas, numa tarfe cinzenta, fria e de aguaceiros e noutra soalheira, de céu azul coalhado de núvens brancas.







































SOBRE O PARQUE DOS POETAS

sobre a 1ª fase do Parque dos Poetas ver 

entre oeiras e lisboa, na primavera

https://www.facebook.com/vicnog.na.rede/media_set?set=a.10200406860679474.1073741826.1394553665&type=3

também pode ver

Oeiras - O Parque dos Poetas, pelo meu tio Castro Ferreira

http://osabordolhar.blogspot.pt/2007/09/jj-castro-ferreira-2.html

sábado, 8 de novembro de 2014



foto de família - Uige (antiga Vila Marechal Carmona) - a minha mãe falhando a "bola ao cesto"


Não fosse terem-mo dito e ter encontrado referências no espólio do meu pai - num curriculum vitae profissional - e não "saberia" que cerca de 1947/48 vivera um ano naquela vila.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

picnic em Luanda - cerca de 1960





foto de família - picnic em Luanda - cerca de 1960 - á esquerda em pé o meu pai e ao lado o meu tio José João. Em terra, em 1º plano, o meu irmão e o escriba. Não estando a minha mãe, a fotógrafa deve ter sido ela.


As carrinhas eram de caixa aberta, com uma grade atrás das cabines, como se vê na foto. Um dos prazeres da miudagem era viajarmos na caixa, de pé,.agarrados à grelha, com o vento a bater no rosto.

Era costume usar-se a camisa por fora das calças ou dos calções. Tal prática era proibida no liceu, onde por essa altura o contínuo me tentou impedir a entrada, apesar de lhe dizer que as balalaicas ou camisas casaco (com bolsos de chapa por altura da cintura) não se enfiavam por dentro dos calções. Depois duma acesa argumentação lá o consegui convencer e deixou-me entrar.

Nos idos de 1966 em Lisboa ainda usava balalaicas, no verão, peça de vestuário muito comum entre os que regressaram das colónias depois de Abril, como o meu pai, o ,meu tio e muitos outros.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

picnic em Luanda ou em Uíge




foto de família - picnic em Luanda ou em Uíge (antiga Vila Marechal Carmona, onde vivemos cerca de um ano, cerca de 1947) Ao fundo à esquerda, de pé a minha mãe e a seguir o escriba ao colo do pai.

domingo, 2 de novembro de 2014

pôr-do-sol em setúbal, com alberto caeiro


foto victor nogueira ~ pôr-do-sol em setúbal, com alberto caeiro 

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIX"
Heterónimo de Fernando Pessoa