Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 30 de maio de 2026

Murais de Solidariedade Internacionallsta (13) - em Orgosolo

 * Victor Nogueira


2026 05 24 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Batalha de Morgogliai' (ou Murguliai)

«Este mural em Orgosolo, pintado em 1984 pelo artista Francesco Del Casino, é uma das obras mais famosas e debatidas da vila sarda, lidando diretamente com o estigma histórico do banditismo na Sardenha e a repressão estatal.

O que está escrito?
No canto superior esquerdo, lê-se em caligrafia cursiva a frase que dá título à obra:

"Caccia grossa a Orgosolo"

Tradução: "Caça grossa em Orgosolo" (ou "Caçada de Grande Porte em Orgosolo").

Origem: O título é uma referência direta ao livro Caccia grossa, publicado em 1900 por Giulio Bechi, um oficial do exército italiano. No livro, Bechi descrevia as operações militares de repressão na Sardenha no final do século XIX, tratando a perseguição aos fugitivos locais de forma depreciativa, como se fosse uma caçada a animais selvagens.

O que representa?
O mural retrata um episódio histórico real e sangrento ocorrido entre 9 e 10 de julho de 1899, conhecido como a "Batalha de Morgogliai" (ou Murguliai).

A Fotografia de Troféu: A composição reconstrói visualmente uma célebre e controversa fotografia da época. Nela, um destacamento de carabinieri (polícia militarizada italiana) posa orgulhosamente com as suas armas, exibindo o corpo sem vida do fugitivo Elias Serra-Sanna como se fosse um troféu de caça.

A Crítica à Violência do Estado: Ao transpor esta cena para as paredes da vila com um estilo gráfico anguloso e satírico, o mural denuncia o tratamento brutal e colonialista imposto pelo Estado italiano à população da Sardenha Central. Em vez de resolver os problemas estruturais de pobreza e isolamento da Barbagia, o governo central respondia frequentemente com militarização e execuções.

A Perspetiva Local: A obra inverte a narrativa oficial da "vitória da lei". Para os habitantes locais, a ostentação do cadáver (que na altura chegou a ser transportado num veículo pelas ruas como se fosse um javali selvagem) foi vista como uma humilhação profunda e uma violação da dignidade humana.

Em suma, o mural representa um resgate da memória histórica coletiva de Orgosolo, transformando uma antiga imagem de propaganda e repressão numa denúncia permanente contra os abusos de poder.» (Google Gemini) 


2026 05 25 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Pablo Neruda e 'Ode ao gato'

«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda.

O que está escrito?
O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda

Tradução: "...o homem quer ser peixe e ave, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para ser andorinha, o poeta tenta imitar a mosca, mas o gato quer ser apenas gato..."

O que representa?
A obra aborda a crise de identidade, o desejo de transformação e a eterna insatisfação que caracteriza os seres humanos, em claro contraste com a simplicidade e aceitação da natureza pura.

O Drama da Inveja e da Ambição: Através das metáforas de Neruda, o mural ilustra como a humanidade e até certos animais idealizados passam a vida a desejar ser outra coisa. O engenheiro (símbolo da lógica e da exatidão) anseia pela liberdade do poeta, a mosca sonha com a elegância da andorinha, e o cão sente-se pequeno por não ser o leão. Há uma busca constante por aquilo que não se tem.

A Sabedoria do Gato: A reviravolta poética surge no final da frase: "mas o gato quer ser apenas gato". O felino representa a integridade, a autossuficiência e a paz de quem aceita a sua própria natureza. Ele não aspira a voar ou a governar; basta-lhe existir plenamente na sua condição.

A Conexão com as Personagens: No plano visual, vemos dois homens de feições humildes e reflexivas, vestidos com trajes tradicionais e boinas típicas da Sardenha. O homem mais velho segura afetuosamente um gato no colo. O contraste entre a expressão pensativa dos humanos (carregados de sonhos, frustrações ou memórias) e a quietude serena do gato sentado ilustra perfeitamente a mensagem escrita: a busca humana pela transcendência versus a perfeita aceitação do presente pelo animal.
O texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

Aqui está o fragmento correspondente do poema, na sua versão original em espanhol e com a respetiva tradução para português:

Versão Original (Espanhol)
(...)
El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

Tradução para Português
(...)
O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
la mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.» (Google Gemini)



2026 05 26 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Charlot nas Trincheiras' (Shoulder Arms, de 1918)

«Tem toda a razão, e peço desculpa pela falha na identificação! O olhar melancólico e o icónico bigode curto pertencem, sem dúvida, à imortal personagem de Charlie Chaplin (Charlot).

O mural reconstrói uma imagem do filme "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms, de 1918), uma das suas obras-primas da fase do cinema mudo, onde o realizador usou a comédia e a sátira para abordar os horrores da Primeira Guerra Mundial.

Refazendo a análise com a devida precisão histórica e cinematográfica:

O que está escrito?
Dentro do balão de fala, em italiano:

"un' altra guerra? no grazie."

Tradução: "Outra guerra? Não, obrigado."

O que representa?
O mural utiliza a figura universal e profundamente humanista de Charlot para lançar um manifesto pacifista intemporal.

A sátira à Guerra através de Chaplin: No filme de 1918, Chaplin interpreta um recruta trapalhão enviado para as trincheiras de França. O filme foi revolucionário porque, em vez de fazer propaganda militarista, expôs a miséria, a lama, o medo e o absurdo do quotidiano dos soldados, usando o humor como arma de crítica social.

O Contraste da Personagem: A pintura capta na perfeição a essência de Charlot: o equipamento militar pesado e desajeitado (o capacete, o fuzil, os cinturões e o cantil) contrasta com a sua fisionomia vulnerável. Ele não representa a força bruta do exército, mas sim o homem comum, frágil e pacífico, esmagado pelas decisões geopolíticas dos poderosos.

Uma Mensagem Atualizada: Ao acrescentar o balão "Outra guerra? Não, obrigado", o muralista de Orgosolo atualiza a obra de Chaplin. O apelo original de 1918 contra a Primeira Guerra é recontextualizado para rejeitar qualquer novo conflito armado no mundo. A cortesia irónica da frase ("não, obrigado") carrega o peso e o cansaço de uma humanidade que já sofreu demasiados massacres.

Ao trazer Charlot para as paredes de Orgosolo, o artista uniu a genialidade humanista do cinema de Chaplin à tradição de protesto e luta pela paz que define a identidade desta vila sarda.» (Google Gemini)


2026 05 27 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra a guerra e o General Luigi Cadorna

«Este mural, localizado na icónica Via Cadorna em Orgosolo, é um dos mais contundentes e politicamente carregados da vila. Ele faz uma denúncia feroz contra os horrores da Primeira Guerra Mundial, atacando diretamente a figura do General Luigi Cadorna, que foi o chefe do Estado-Maior do Exército Italiano até à desastrosa derrota na Batalha de Caporetto em 1917.

A colocação deste mural é propositadamente irónica e provocadora, uma vez que está pintado exatamente na rua que o Estado batizou com o nome do general.

O que está escrito?
O mural está repleto de dados estatísticos em tons de vermelho e preto, além de frases de protesto:

1. Bloco de texto à esquerda (Estatísticas da Guerra):

"Generale L. Cadorna massimo responsabile degli eccidi della 1ª Guerra Mondiale.
Soldati morti su tutti i fronti: 8 milioni 740 000
Soldati italiani morti: 571 000
Invalidi e mutilati: 451 645
Dispersi: 117 000"

Tradução: "General L. Cadorna, o maior responsável pelos massacres da 1ª Guerra Mundial. Soldados mortos em todas as frentes: 8.740.000. Soldados italianos mortos: 571.000. Inválidos e mutilados: 451.645. Desaparecidos: 117.000."

2. Inscrição a vermelho, ao centro (sobre as execuções):

"210 000 soldati fucilati e condannati perché volevano farla finita con la guerra."

Tradução: "210.000 soldados fuzilados e condenados porque queriam acabar com a guerra." (Nota: Cadorna ficou historicamente conhecido pela sua disciplina implacável, autorizando fuzilamentos sumários e a "decimação" de unidades para punir a alegada cobardia ou insubordinação).

3. Balão de fala da mulher (em dialeto sardo/italiano):

"E a te Cadorna non bastano gli accidenti che a Caporetto ne hai ammazzati tanti. Noi si patisce tutti questi pianti e tu nato d'un cane non li senti..."

Tradução livre: "E a ti, Cadorna, não te bastam as desgraças, tu que em Caporetto mataste tantos. Nós sofremos todos estes prantos e tu, filho de um cão, não os ouves..."

4. No chão, junto aos corpos:

"generali assassini" (Generais assassinos)

O que representa?
A composição visual reforça o tom de luto, revolta e acusação contra o militarismo de Estado:

A Mãe e o Filho: No centro, destaca-se a figura de uma mulher com uma expressão de profundo sofrimento e horror, carregando ao colo um bebé envolto num pano amarelo salpicado de vermelho (simbolizando sangue ou o impacto da guerra nas gerações futuras). Ela representa a dor das mães, esposas e famílias camponesas que viram os seus filhos e maridos serem levados para a frente de batalha como "carne para canhão".

As Vítimas e o Arame Farpado: Na parte inferior, abaixo de uma barreira de arame farpado (símbolo máximo da guerra de trincheiras), veem-se corpos caídos e rostos pintados a vermelho e preto, representando os soldados sacrificados nos campos de batalha.

Justiça Histórica Local: Orgosolo utiliza este espaço para reescrever a narrativa oficial. Ao transformar uma rua que deveria homenagear um general num memorial de denúncia dos seus crimes e incompetência, a comunidade sarda expressa o seu histórico sentimento anti-militarista e a rejeição à violência imposta pelo governo central.» (Google Gemini)


2026 05 28 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Dia Internacional da Mulher

«Este magnífico mural em Orgosolo aborda uma das lutas sociais mais marcantes da era contemporânea: a emancipação feminina e a memória histórica que deu origem ao Dia Internacional da Mulher.

A obra foi realizada em 8 de março de 1978 (como indica a data pintada na base direita), um período de intensa ebulição dos movimentos feministas em Itália e na Sardenha.

O que está escrito?
O mural está dividido em três secções textuais manuscritas em italiano:

1. No cartaz de protesto (à esquerda):

"DONNE UNITE PER L'EMANCIPAZIONE E LA LIBERAZIONE E UNA PARITÀ REALE NELLA FAMIGLIA E NEL MONDO DEL LAVORO"

Tradução: "Mulheres unidas pela emancipação e a libertação, e por uma igualdade real na família e no mundo do trabalho."

2. No manifesto central menor (a preto e branco):

"DONNE E UOMINI UNITI NELLA LOTTA"

Tradução: "Mulheres e homens unidos na luta."

3. No texto explicativo do fundo (ao centro-direita):

"8 marzo 1908 in una fabbrica di New York, 129 donne venivano rinchiuse dentro dal padrone e morivano in un incendio"

Tradução: "8 de março de 1908, numa fábrica de Nova Iorque, 129 mulheres eram trancadas lá dentro pelo patrão e morriam num incêndio."
(Nota histórica: Embora a narrativa popular misture as datas de vários protestos e o trágico incêndio real da fábrica Triangle Shirtwaist em Nova Iorque — que ocorreu a 25 de março de 1911 —, este texto reflete a versão histórica amplamente partilhada pelos movimentos operários e feministas dos anos 70 para justificar o simbolismo do 8 de março).

O que representa?
Visualmente, o mural divide-se de forma brilhante entre a ação política viva e o drama histórico:

O Protesto e a Reivindicação (Lado Esquerdo): Duas mulheres são retratadas em pleno ato de manifestação, com expressões faciais determinadas e bocas abertas, como se estivessem a gritar palavras de ordem. Uma delas segura o grande cartaz que exige igualdade tanto na esfera privada (na família) como na pública (no trabalho). O estilo cubista e expressionista típico de Orgosolo acentua a força e o dinamismo do movimento.

O Martírio e a Tragédia (Lado Direito): Em claro contraste, o lado direito ilustra o horror do incêndio na fábrica. Uma mulher surge cercada por chamas estilizadas a vermelho, amarelo e preto, com os braços acorrentados e uma expressão de puro pânico e sofrimento, simbolizando o sacrifício das trabalhadoras têxteis encurraladas.

A União de Esforços: O pequeno cartaz central com a silhueta de uma mulher encapuçada faz questão de lembrar que, embora a causa seja focada nos direitos das mulheres, a transformação da sociedade necessita de "mulheres e homens unidos na luta".

Este mural é um testemunho histórico precioso do papel de Orgosolo como altifalante das causas globais de esquerda e dos direitos humanos, provando que a vila sarda não olhava apenas para os seus próprios problemas, mas conectava-se diretamente com as lutas laborais e sociais internacionais.» (Google Gemini)

2026 05 29 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Revolta de Pratobello

«Este mural retrata um dos momentos mais importantes e orgulhosos da história moderna de Orgosolo e da Sardenha: a Revolta de Pratobello, ocorrida em junho de 1969.

Trata-se de um exemplo perfeito de resistência popular pacífica, onde os habitantes da vila conseguiram derrotar os planos militaristas do governo italiano.

O que está escrito?
Do lado direito, em caligrafia cursiva italiana, está reproduzido um diálogo marcante entre um oficial do exército e uma mulher local (uma orgolese):

« E quanti siete, voi, a Orgosolo? »
« Cinquemila siamo »
« Non ce la farete mai contro lo stato » disse l'ufficiale.
L'Orgolesa sorridendo, lo rassicurò:
« Oh non si preoccupi ce la facciamo ce la facciamo. »

1969
PRATOBELLO

Tradução: * « E quantos são vocês, em Orgosolo? »

« Somos cinco mil »

« Nunca conseguirão vencer o Estado », disse o oficial.

A mulher de Orgosolo, sorrindo, tranquilizou-o:

« Oh, não se preocupe, nós conseguimos, nós conseguimos. »

O que representa?
O mural ilustra a essência do que aconteceu em Pratobello em 1969, quando o Estado italiano decidiu confiscar os campos de pastagem comunitários da zona de Pratobello para criar um campo de tiro permanente e uma base militar.

O Confronto de David contra Golias: Visualmente, vemos o contraste direto entre duas forças. À esquerda, uma mulher sarda com o lenço tradicional na cabeça (su carneddu), representando a população civil e a identidade da comunidade. À direita, um militar uniformizado e armado. No entanto, a pose da mulher não é de submissão, mas de firmeza e diálogo direto.

A Resistência Coletiva: Para os pastores de Orgosolo, perder aquelas terras significava a destruição total do seu sustento e da sua cultura. Em vez de responderem com violência armada, os 5000 habitantes da vila (homens, mulheres, crianças e idosos) decidiram marchar pacificamente até Pratobello e ocupar os campos, colocando-se à frente dos alvos e impedindo fisicamente os exercícios militares.

A Vitória Popular: Perante uma comunidade inteira unida e irredutível, o exército italiano foi forçado a recuar e a abandonar o projeto da base militar escassos dias depois.

Este mural celebra a coragem, a união e a eficácia da não-violência, servindo como o grande símbolo de que a determinação de um povo unido pode fazer frente aos poderes mais centralizados do Estado.» (Google Gemini) 


2026 05 30 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália  -  Gaza - assasinato de Muhammad al-Durrah (rapaz palestiniano de 12 anos)

Este mural de Orgosolo é uma obra de profunda carga dramática e política, dividida em três painéis sequenciais no estilo de fotogramas ou banda desenhada. Ele retrata um dos acontecimentos mais marcantes do início da Segunda Intifada e da cobertura jornalística de conflitos no Médio Oriente.

O que está escrito?
No topo (Data e Local):

No primeiro painel: "30 settembre"

No segundo painel: "2000"

No terceiro painel: "GAZA"

Na parte inferior (Poema/Manifesto):
O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:

Painel 1: Come uccelli, sogni e speranze volano via...

Painel 2: Nessuna catena riuscirà a tenerli

Painel 3: "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"

Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados): "Terra mia, Spirito mio"

Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."

O que representa?
O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.

A Sequência do Drama (Os Três Painéis):

Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.

Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.

Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.

O Significado Político e Social:
As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.

Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos.

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