Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

sábado, 8 de novembro de 2014



foto de família - Uige (antiga Vila Marechal Carmona) - a minha mãe falhando a "bola ao cesto"


Não fosse terem-mo dito e ter encontrado referências no espólio do meu pai - num curriculum vitae profissional - e não "saberia" que cerca de 1947/48 vivera um ano naquela vila.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

picnic em Luanda - cerca de 1960





foto de família - picnic em Luanda - cerca de 1960 - á esquerda em pé o meu pai e ao lado o meu tio José João. Em terra, em 1º plano, o meu irmão e o escriba. Não estando a minha mãe, a fotógrafa deve ter sido ela.


As carrinhas eram de caixa aberta, com uma grade atrás das cabines, como se vê na foto. Um dos prazeres da miudagem era viajarmos na caixa, de pé,.agarrados à grelha, com o vento a bater no rosto.

Era costume usar-se a camisa por fora das calças ou dos calções. Tal prática era proibida no liceu, onde por essa altura o contínuo me tentou impedir a entrada, apesar de lhe dizer que as balalaicas ou camisas casaco (com bolsos de chapa por altura da cintura) não se enfiavam por dentro dos calções. Depois duma acesa argumentação lá o consegui convencer e deixou-me entrar.

Nos idos de 1966 em Lisboa ainda usava balalaicas, no verão, peça de vestuário muito comum entre os que regressaram das colónias depois de Abril, como o meu pai, o ,meu tio e muitos outros.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

picnic em Luanda ou em Uíge




foto de família - picnic em Luanda ou em Uíge (antiga Vila Marechal Carmona, onde vivemos cerca de um ano, cerca de 1947) Ao fundo à esquerda, de pé a minha mãe e a seguir o escriba ao colo do pai.

domingo, 2 de novembro de 2014

pôr-do-sol em setúbal, com alberto caeiro


foto victor nogueira ~ pôr-do-sol em setúbal, com alberto caeiro 

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIX"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

oeiras - parque dos poetas - joão ruiz de castelo-branco



foto victor nogueira - oeiras - parque dos poetas (zona B da 2ª fase) - João Ruiz de Castelo Branco, da autoria do escultor Rui Matos (in http://parquedospoetas.cm-oeiras.pt/?page_id=1280)

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
otros nenhuns por ninguém

(João Ruiz de Castelo Branco)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Jardins e antiga Fábrica de Pólvora de Barcarena

* Victor Nogueira (texto de fotos)




A fábrica

O fabrico da pólvora em Barcarena e a produção de armas nas Ferrarias d’El Rei iniciou-se no reinado de D. João II.

A partir do século XIX foi especialmente destinada ao fabrico das pólvoras negras, à manufactura dos artifícios pirotécnicos e ao carregamento dos cartuchos.

Enquanto Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios (de 1927 a 1947) sofreu o seu maior incremento, com a aquisição de nova maquinaria, modernizou o seu laboratório, estreitou a cooperação com as escolas práticas do Exército, produziu diversos tipos de pólvoras de caça e militares, bem como rastilhos e todo o tipo de artifícios e engenhos aplicados à nova maquinaria de guerra.

Em 1976, a Fábrica reabriu já com grandes dificuldades económicas, para produzir pólvora de caça, até que em 1985 passou a fazer parte da INDEP, EP – Indústrias Nacionais de Defesa, Empresa Pública, criada em 1980 acabando por encerrar definitivamente a sua actividade, em 1988.

Em 1995 a Câmara Municipal de Oeiras adquiriu as instalações, que foram abertas ao público a partir de 1998, com um núcleo museológico, cafés e jardins frondosos. Aqui se realiza o Festival 7 Sóis 7 Luas.

O núcleo onde se fabricava a pólvora está cercado de altos muros, como se fosse uma fortaleza e possui uma capela e guaritas, sendo adjacente à Ribeira de Barcarena, cujas águas faziam rodar a roda duma azenha que movimentava as mós que trituravam a pólvora. Adjacente e em casas térreas, nas imediações,  se situava o bairro operário. Frequentes eram as explosões que provocavam mortos entre os operários.

Desta feita a entrada realizou-se por outro local, atravessando a zona arborizada e uma das pontes sobre a ribeira.



A povoação

Vista de Leceia e mesmo doutros pontos, o que sobressai em Barcarena é a sua enorme igreja, de S. Pedro, no centro da povoação, com um adro com vista para a ribeira e para um pequeno jardim público, bem como o edifício que foi do quartel dos Bombeiros Voluntários. O primitivo templo foi destruído pelo terramoto de 1755, que na área de Oeiras e Paço d'Arcos provocou grandes prejuízos. Uma outra igreja, arruinada e em processo de recuperação, a capela de S. Sebastião, protector das pestes e dos artilheiros, caracteriza-se por dois corpos, o anterior cilíndrico e o posterior de secção rectangular. No centro algumas casas antigas demonstram a importância doutrora. Mais para a extrema, a sul, um cemitério. 

A povoação é atravessada pela malcheirosa ribeira do mesmo nome (ou de Agualva) e a sua zona central é incaracterística e confusa, nela sobressaindo o edifício dos bombeiros voluntários, estilo Estado Novo, com alpendre de arcada na fachada central.  

Perto de Barcarena, à entrada de quem vem de Porto Salvo, em Ribeira Abaixo, à sombra da igreja lá no alto, um tanque coberto para a lavagem de roupa, junto aos canaviais que marginam cá em baixo a ribeira de Barcarena Perto de Barcarena e de Tercena situa‑se a desactivada fábrica de pólvora  que vem dos tempos do senhor D. Manuel I, cuja reutilização está em curso, incluindo a criação dum espaço museológico. Esta fábrica deu alguma importância a esta povoação, relarivamente às circunvizinhas.

Nas cercanias da fábrica, perto da ponte que atravessa a ribeira, encontram‑se a Quinta da Ponte (na Estrada de Leceia) e a Quinta de S. Miguel (na Estrada do Cacém), esta em estilo romântico (manuelino), oitocentista. Por estas bandas os caminhos são vicinais, estreitos, tortuosos e bordejados por altos muros. 

Tudo tem ainda um ar rural e verdejante, abundando oliveiras e algumas figueiras, contrastando gritantemente com os viadutos e autoestradas que cada vez mais cruzam esta região. De Barcarena para norte parte uma rua estreita e curvilínea, rumo a Tercena, com algumas casas mais nobres, uma das quais tem na sua fachada um colorido painel de azulejos representando o Palácio da Pena em Sintra. Já fora da povoação, na estrada municipal 578 e á direita encontramos a Quinta do Sobreiro, do século XVII, debruçada sobre o vale, murada, mas permitindo ver uma escadaria exterior dando para uma varanda de alpendre, coberta, no 2º piso (loggia).

Daqui avistamos os campos cultivados e, mais para lá, a mole imensa e "urbana" de Cacém. (Notas de Viagem, 1997)














mais fotos em
entre oeiras e lisboa, na primavera

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