Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

quinta-feira, 2 de julho de 2009

World Press Photo of the Year - Winners Gallery 2009


.
.

.

>Anthony Suau, USA, for Time.

Detective Robert Kole of the Cuyahoga County Sheriff's Office enters a home in Cleveland, Ohio, on March 26, following mortgage foreclosure and eviction. He needs to check that the owners havevacated the premises, and that no weapons have been left lying around. Officers go in at gunpoint as a precaution, as many houses have been vandalized or occupied by squatters or drug addicts.
.

Winners Gallery 2009

World Press Photo of the Year 2008
2008
Spot News
Stories

1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
H.M.
Honorable Mention
General News
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
People in the News
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Sports Action
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Sports Features
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Contemporary Issues

Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
H.M.
Honorable Mention
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Daily Life

Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
H.M.
Honorable Mention
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Portraits
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Arts and Entertainment
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
Nature
Stories
1st
1st prize singles
2nd
2nd prize singles
3rd
3rd prize singles
1st
1st prize stories
2nd
2nd prize stories
3rd
3rd prize stories
World Press Photo





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Breves observações sobre as fotografias de Alexander Gardner


Olhar e Documento:


breves observações sobre as fotografias de Alexander Gardner

O presente artigo, extraído com pequenas modificações de minha dissertação de mestrado (SÔLHA, 1998), busca tratar das “visões” e “olhares” que fotógrafos constróem sobre ocorrências públicas, nos primórdios da incorporação da fotografia pela imprensa, antes do jornalismo (particularmente o visual) se transformar em apenas mais um dos media em que estamos imersos. O caso particular, mas fortemente representativo, aqui abordado será o do fotógrafo novecentista Alexander Gardner e o constante embate de seu olhar com as visões oficiais.
.
Gisèle Freund, ao comentar as notícias veiculadas pela imprensa da época da apresentação pública do daguerreótipo, chama a atenção para as multidões que correm para as ruas de Paris, carregadas de instrumentos e acessórios, numa verdadeira “febre de experimentação” (FREUND, 1976:29). Trazendo as marcas de sua origem, a fotografia imediatamente impõe uma dupla e permanente característica: possuir simultaneamente um valor estético e documental (KOSSOY, 1989:32). O mundo começa a ser conhecido através da capacidade virtualizadora da imagem tecnicamente produzida. Paulatinamente o cidadão comum toma contato com olhares lançados por outrem sobre as pirâmides egípcias, os hábitos africanos ou os habitantes do, ainda, Novo Mundo. A ânsia documentadora busca cumprir sua função tanto no diálogo com seus contemporâneos, quanto em suas responsabilidades para com o futuro, registrando e perpetuando fragmentos dos acontecimentos infalivelmente em desaparecimento.
.
As “cartes-de-visite”, o cartão postal e a imprensa ilustrada com fotografias instalam-se com razoável rapidez no cotidiano das pessoas, apontando para as diversas demandas de uso da fotografia. Da documentação da Guerra da Criméia - primeiras fotografias feitas de uma guerra - realizada por Roger Fenton (1819-69), às tomadas familiares propiciadas pelas “ratoeiras” da Kodak no final do século, o caráter documental, descritivo e artístico da fotografia é revelado em toda a sua gama. Sem exceção, do registro científico ao projeto estético, da documentação sociológica e histórica à divulgação turística, da constatação jornalística à luta política, o uso da imagem técnica esteve sempre notavelmente assinalado pelo realismo de sua aparência.
.
À veracidade naturalista da fotografia correspondiam os anseios de ter cristalizadas impressões e olhares daquilo que se tinha como fugidio, passageiro. O imaginário moderno, marcado pela realização plena de suas próprias verdades, ganha, enfim, sua dupla materialidade: a de se tornar visível, extensível, e a de poder se legitimar pelo próprio desenvolvimento técnico da fotografia.
.
Projetos de documentação não faltaram. Susan Sontag (1981:87) registra a publicação de Excursions Daguerriennes: Vues et monuments les plus remarquables du globe em 1841. Mathew Brady (1826-96) e Alexander Gardner (1821-82), ao contrário de Roger Fenton, que tivera seu empreendimento financiado sob a condição de não mostrar o lado repulsivo da guerra, documentaram, com crueza e sensibilidade, a Guerra de Secessão nos EUA. Na busca de objetividade, produziram, pela primeira vez, um olhar público para o horrores da guerra, destituídos, pela fotografia, de qualquer nobreza ou heroísmo.
.
A propósito das coberturas de guerra realizadas por Brady e Fenton, Freund esclarece:
"Las imagenes de Fenton, censuradas de antemano, dan una visión de la guerra como si se tratara de una jira campestre; en cambio las de Brandy y sus colaboradores, entre quienes figuran Thimothy O'Sulllivan y Alexander Gardner, dan por vez primera una idea muy concreta de su horror. Las fotografias que obtienen de tierras quemadas, casas incendiadas, familias hundidas y abundancia de muertos responden a un afán de objetividade que se confiere a esos documentos un valor excepcional, sobre todo si recordarmos que la técnica rudimentaria de la daguerreotipia (los aparatos pesan kilos, la preparación de las placas y el período de pose son largos) no facilitaba su trabajo.
.
Sin embargo, la venta de las fotografias no respondió en absoluto a las esperanzas de Brandy, que perdió toda su fortuna en essa aventura. Finalmente tuvo que ceder esas fotos a su principal acreedor, la firma de productos fotográficos que le había suministrado el material. Esta imprimió y publicó esas fotos durante varios años, pero Brandy se habia arruinado" (Freund, 1976: 97).




Figura 1. Thimothy O'Sullivan. "A Colheita da Morte", Gettysburg, 1868.

Brady, Gardner e O'Sullivan fotografaram com o compromisso duplo e pioneiro de utilizar-se da imprensa para permitir que um número muito grande de pessoas pudesse ver o que de fato ocorria nos campos de batalha; ao mesmo tempo, suas fotografias documentavam, com cruel clareza e objetividade, suas opiniões sobre a guerra. Documentavam objetivamente, mas reconhecendo a objetividade dentro dos limites dos seus próprios pontos de vista, seus olhares de fotógrafos.
.
O projeto Brady, mesmo com o fracasso financeiro, antecipava-se, em muito, à utilização das imagens nos Meios de Comunicação de Massa. Mesmo assim, análogo confronto entre a produção de fotografia e os dominantes interesses de Estado os EUA só tornariam a ver na guerra do Vietnã.
.
Se Gardner não fez concessões quanto ao seu olhar sobre os fatos, também não permitiu que a importância desses fatos se impusesse sobre o seu senso estético. Suas fotografias parecem querer demonstrar todo o tempo que a eloqüência da imagem se constrói sobre as formas como o fotógrafo a constitui: enquadramento, controle da luz, organização das formas e volumes, todo um cuidadoso trabalho para que a fotografia expresse as intenções e sentimentos do fotógrafo. Uma rápida passagem por uma de suas mais importantes fotografias, comparada com outra sobre o mesmo tema, pode esclarecer um pouco mais sobre o comportamento deste profissional.
.
Lewis Payne, condenado à morte pela participação na conspiração que resultou no assassinato do presidente Lincoln, aparece aqui em dois momentos: na Figura 3 o fotógrafo, contratado pelo governo, mostra o “assassino frio”, recém capturado, de semblante duro, obscurecido pelo chapéu. Já Gardner, na Figura 2, apresenta um jovem rapaz amedrontado pela frieza da prisão e pela morte inexorável.
.




Figura 2. Alexander Gardner. "Lewis Payne", 1865.
Figura 3. Fotógrafo desconhecido. Lewis Payne, na prisão, 1865.

Na fotografia oficial, a única preocupação é com o enquadramento centralizado da imagem de Payne. O soldado que guarda o prisioneiro aparece cortado ao meio, quase fora do quadro, dando a impressão de um total desleixo, mas que, ao mesmo tempo, reforça a idéia do “instantâneo”, de fotografia sem qualquer preparação ou pose. O cenário da prisão é retirado da imagem pelo uso de lonas, neutralizando o contexto da cena.
.
Na fotografia de Gardner, ao contrário, a cuidadosa elaboração, que reveste a fotografia, demonstra um olhar quase solidário à tragédia que vai marcar o final da vida de Payne, apesar da comoção da opinião pública, que já o havia condenado. Um enquadramento cuidadoso, marcado por dois grandes volumes (a figura humana, à esquerda, e parede da cela, à direita), o cuidadoso tratamento das luzes e do foco, alterando a percepção dos planos, deixando a figura de Payne como que envolvida pela rudeza da parede da prisão, todos os elementos da imagem induzem a um sentimento de compaixão pelo condenado. Gardner não se deixa envolver pela revolta do momento e, munido de sua experiência e conhecimento na fotografia, argumenta pela vida.
.
As fotografias Brady e sua equipe não apenas apontaram para a desumanidade da guerra, ou os horrores frente à morte de jovens impelidos ao assassinato por duvidosas motivações políticas. Ao contrário, argüiram consciências, expressaram pontos de vista e ousaram discordar e não fazer coro ao senso comum ou aos interesses poderosos; mais além, servem ainda como legado do testemunho daqueles olhares, permitindo-nos hoje enxergar aqueles eventos de forma muito mais próxima à complexidade que certamente os compôs. Esta posição impôs o seu custo aos fotógrafos, mas contribuiu para alterar radicalmente o sentido do uso da fotografia documental.





Fenton
F
m198112330001 m198112340001 m198112340002
m198112340003 m198112340004 m198112340005
m198112340006 m198112340007 m198112340008
Gardner

gardnr02 gardnr03
gardnr04 gardnr05 gardnr06
gardnr07 gardnr09 gardnr10





Clicar em cada foto para ampliar


______________________________________________________________

Bibliografia

KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo : Ática, 1989.
OWNSBEY, Betty J. Alias Paine - Lewis Thornton Powell, the mystery man of the Lincoln Conspiracy. New York: Jefferson, NC, McFarland and Co., 1993.
SÔLHA, Hélio L. A construção dos olhares : imagem e antropologia. 1998. 253p. Dissertação (Mestrado em Artes) - Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre a fotografia. Rio de Janeiro : Arbor, 1981.

.
.


in

.
.